domingo, 29 de maio de 2016

O FANTÁSTICO — E ÚNICO — PESADELO NUCLEAR DE STANLEY KUBRICK: SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE

Segundo o consenso, Peter Sellers merece amplo destaque no elenco de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb, 1964), de Stanley Kubrick. O ator britânico incorpora o patético e inútil Merkin Muffley, Presidente dos Estados Unidos; o fleumático e centrado capitão britânico Lionel Mandrake, da Royal Air Force; e o louco cientista do título, outrora conselheiro de Hitler e atual assessor do Pentágono e da Casa Branca para assuntos nucleares. Misto de homem e máquina, Strangelove é a demência elevada ao paroxismo na paixão sexualizada por bombas e destruição. Porém, em que pese o tour de force de Sellers, o melhor nome do elenco é Sterling Hayden no papel do maníaco-depressivo e ultradireitista General de Brigada Jack D. Ripper. De seu comando parte a ordem de executar o famigerado "Plano 'R' de Roberto", ponta de lança da hecatombe nuclear generalizada. Dr. Fantástico é a mais demolidora e séria das comédias. Seus personagens não são meramente fictícios. Estão moldados em figuras reais, influentes na cena mundial durante os anos 50 e 60. Espelham militares, cientistas e políticos dotados de franca vocação belicista, suficientemente poderosos para ultrapassar os limites permitidos pela guerra fria e incinerar o mundo de vez. Sabiamente, Stanley Kubrick tomou a decisão de reduzi-los ao que de fato eram: irresponsáveis dementes à beira da caricatura no protagonismo de uma catártica celebração dos Keystone Cops. Por pouco não lançaram o impressionante e magnífico cenário da Sala-de-Guerra do Pentágono no palco do mais desvairado pastelão. Esta é a segunda e última parte da apreciação de Dr. Fantástico, originalmente escrita em 1981. Passou por revisão e ampliação em 2000.

Link para a primeira parte: O FANTÁSTICO — E ÚNICO — PESADELO NUCLEAR DE STANLEY KUBRICK: PRIMEIRA PARTE






Dr. Fantástico
Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb

Direção:
Stanley Kubrick
Produção:
Stanley Kubrick
Columbia Pictures Corporation, Stanley Kubrick Production, Hawk Films Ltd.
EUA, Inglaterra — 1964
Elenco:
Peter Sellers, George C. Scott, Keenan Wynn, Sterling Hayden, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed, Jack Creley, Frank Berry, Robert O'Neil, Glenn Beck, Roy Stephens, Shane Rimmer, Hal Galili, Paul Tamarin, Laurence Herder, Gordon Tanner, John McCarthy e os não creditados Victor Harrington, Burnell Tucker.



No set da Sala-de-Guerra, o diretor Stanley Kubrick joga xadrex com George C. Scott, intérprete do General 'Buck' Turgidson



Dr. Fantástico é o primeiro filme que Kubrick realiza após fixar residência na Inglaterra. A opção pelo estrangeiro é justificada pela busca da tão sonhada liberdade criativa, entendendo-se por isso o afastamento das pressões e limitações dos produtores e grandes estúdios estadunidenses. O diretor tomou a decisão de se exilar depois dos muitos ressentimentos acumulados durante as filmagens da superprodução Spartacus, encomendada pelo ator e produtor Kirk Douglas. Considerou a experiência estafante e inglória, apesar da preciosa qualidade do produto final[1]. Na Inglaterra, afastado dos esquemas viciados hollywoodianos, Kubrick poderia desenvolver seus próprios projetos e controlá-los pessoalmente[2]. Como produtor de si mesmo teria direito à montagem final, privilégio de seleto e reduzido grupo de cineastas estadunidenses. Porém, o melhor de tudo: dera mostras cabais de competência; com isso, ganhou confiança irrestrita das grandes companhias produtoras. Estas, desde Dr. Fantástico, concederam-lhe carta-branca. As bases desse relacionamento foram reforçadas após o estrondoso sucesso da obra seguinte: 2001: uma odisseia no espaço[3].


Filmado nos ingleses Estúdios Sheperton, Dr. Fantástico desenvolve a narrativa em três frentes: a primeira, no Strategic Air Command situado na base de Burpelson, Omaha/EUA, e controlado pelo General Jack D. Ripper (Hayden); a segunda, a bordo de um B-52 liderado pelo Major T. J. “King Kong” (Pickens); e, a terceira, na Sala-de-Guerra do Pentágono, onde o aparvalhado Presidente dos EUA, Merkin Muffley (Sellers), auxiliado/sabotado por assessores, tenta inutilmente interromper a conflagração nuclear a caminho.


Os acontecimentos justificadores da trama são precipitados quando o maníaco-depressivo e ultradireitista Jack D. Ripper isola o Strategic Air Command, pondo-o em prontidão vermelha. Comunica a todos que a operação é exercício real de guerra, pois os EUA estão sob ataque comunista. Ordena o imediato confisco, sem exceção, dos rádios a pilha da base, pois podem cair nas mãos de sabotadores. Na patrulha ao espaço aéreo do “mundo livre” os aviões da Divisão de Bombardeiros 843, cada qual carregado com 40 megatons de bombas nucleares, recebem a ordem de executar o famigerado “Plano R de Roberto”: ataque nuclear total. Originalmente, seria acionado somente se os EUA sofressem agressão soviética de igual calibre. Surpreso, o Major “Kong” recebe confirmação da ordem. Acredita que foi iniciada a Terceira Guerra Mundial. Substitui o capacete de aviador pelo chapéu de cowboy texano. Em paralelo, a suave e aparentemente neutra música que pontuava a movimentação das aeronaves é substituída pelos acordes da patriótica e tradicional When Johnny’s coming marching home — melodia de saudação aos vitoriosos soldados nortistas ao término da Guerra de Secessão. A esquadrilha estadunidense está a duas horas da URSS. Lançará bombas nos complexos militares de Laputa e Barchov.


À bordo de um B-52, o Major T. J. 'King Kong'  (Slim Pickens) - à direita - se prepara para executar o famigerado "Plano 'R' de Roberto"


Em terra, o único personagem normal da trama, o britânico e logicamente fleumático Peter Mandrake (Sellers) — Capitão da Royal Air Force e subcomandante do Strategic Air Command —, percebe que algo vai mal. As emissoras radiofônicas funcionam normalmente, sem emitir qualquer comunicado sobre o ataque soviético. Interpela Jack D. Ripper, para convencê-lo a emitir a contraordem — conhecida apenas pelo General — e sustar o “Plano R de Roberto”. Inútil: as vias de comunicação estão bloqueadas por ordem da personalidade paranóica. Ao tentar assumir o controle da base, Mandrake é submetido.


Jack D. Ripper é a demência personificada. Trancado na sala de comando, sentado e filmado em contre-plongée pela câmera de Kelvin Pike, fuma um charuto que ganha dimensões exageradas por força do ângulo da tomada. O rosto em primeiro plano, quase encostado na objetiva, fita firmemente o alto ao expor para Mandrake chocante e grosseira pregação anticomunista. Faz relação direta entre enfermidade e regime soviético. Justifica a ordem de acionar o “Plano R de Roberto”: “A guerra é importante demais para ser deixada a cargo de políticos. Não vamos permitir que a infiltração comunista, a doutrinação comunista, a subversão comunista e a conspiração internacional comunista enfraqueçam os nossos fluidos corpóreos. Comunistas não bebem água, só vodka. Eu só bebo água destilada e álcool de cereais, e evito o flúor. A adição de flúor à água não passa de monstruoso plano comunista para conquistar o mundo. O flúor mina os nossos fluidos vitais (a potência sexual). Os comunistas não prezam a vida humana, muito menos a própria vida. Por isso, devemos tomar cuidado. Não devemos confiar em ninguém. Devemos atirar primeiro e perguntar depois. O ataque nuclear é a única forma de eliminar, de uma vez por todas, essa enfermidade que nos ameaça”.


Único personagem com a sanidade mental preservada, o Capitão da RAF Lionel Mandrake (Peter Sellers) é submetido pelo demente General de Brigada Jack D. Ripper (Sterling Hayden)


Jack D. Ripper, segundo Paul Boyer, encontra equivalente no verdadeiro comandante do Strategic Air Command, o General Curtis LeMay, devorador de charutos e defensor, com unha e dentes, do ataque preventivo à URSS. Assessor de Kennedy por ocasião da Crise dos Mísseis, recomendou o bombardeio e a invasão de Cuba. Em 1968 concorreu à Vice-Presidência na chapa do ultradireitista e racista George Wallace, governador do Alabama. Nessa ocasião, manifestou desejo de devolver o Vietnã do Norte à idade da pedra por força de ataque nuclear[4].


A par da grave situação, o Presidente Muffley convoca reunião emergencial. Convida, sob veementes protestos do General “Buck” Turgidson (Scott), o embaixador soviético Alexei Sadesky (Bull). “Um russo na Sala-de-Guerra! Onde já viu?”, queixa-se o militar, tão falcão e paranóico como Ripper. Verbal e mentalmente prejudicado, dado a rompantes e impropérios, Turgidson tem o semblante do louco varrido. Masca chicletes compulsivamente, inclusive quando fala. Sua personalidade mal resolvida mistura fanatismos religiosos e militares, temperados pelo apetite sexual sempre aguçado. Estava na cama com a secretária Miss Scott (Reed) quando o Presidente o convocou. O roteiro de Dr. Fantástico aproveita Turgidson para fazer alusão à conhecida retórica de John Kennedy sobre a urgente necessidade de recuperação, pelos EUA, do terreno perdido para a URSS na corrida armamentista. Vai além: resume no personagem vivido por George C. Scott o essencial de toda a linha-dura estadunidense. Religioso puritano extremado, Turgidson interrompe a reunião para lamentar a gravidade da situação e orar pelo bem da América. Esbugalha os olhos, afasta os apelos à paz e acha melhor não desperdiçar a oportunidade do ataque à URSS. Acredita veementemente na possibilidade de vitória num conflito atômico de intensidade limitada com os comunistas. Inclusive estima número considerado razoável de mortos.


Em permanente estranhamento, “Buck” Turgidson e o embaixador soviético protagonizam cenas das mais absurdas da história do cinema. O futuro da humanidade está irremediavelmente comprometido. Praticamente, nada mais pode ser feito. Apesar disso, parecendo alheio ao processo, Alexei Sadesky aproveita a oportunidade para bancar o espião sorrateiro e fotografar a Sala-de-Guerra. Ao ridículo ato se segue outro, da parte do também alienado General: salta sobre o rival para lhe tomar a máquina fotográfica. O Presidente termina a contenda com uma reprimenda moral sem sentido e fora de hora: “Senhores, por favor, comportem-se! Não fica bem brigar na Sala-de-Guerra”.


A gigantesca mesa circular da Sala-de-Guerra lembra a lendária Távola Redonda do Rei Arthur em Camelot. É outra alusão de Dr. Fantástico à realidade: a imprensa americana associava o grupo de Kennedy à mítica Camelot. Agora, brincando com a lenda, reúne-se em círculo para decidir os destinos do mundo um grupo de loucos coroados pelo halo da enorme luminária acima da mesa.


A "Távola Redonda" da Sala-de-Guerra, no Pentágono

  
Para aumentar a preocupação dos presentes com o desastre, o embaixador soviético revela: a primeira bomba lançada em território soviético acionará, sem possibilidades de interrupção, a poderosa “Máquina do Juízo Final” — sistema automático de retaliação que faz justiça ao nome. Lançará o mundo em progressiva e inimaginável devastação nuclear. Confirma-se assim a existência desse diabólico artefato do qual o Ocidente sempre ouviu rumores. Porém, o mais espantoso: foi projetado pelo Dr. Strangelove (Sellers), assessor da Casa Branca. A narrativa estava consideravelmente adiantada e o espectador inclusive deixara de estranhar a ausência do personagem-título quando este entra em cena. Sai das sombras da Sala-de-Guerra para atender ao chamado presidencial.


Dr. Strangelove é meio máquina e meio homem. Nazista, assessorou Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Terminado o conflito, caiu nas mãos dos russos aos quais prestou consultoria na área atômica. Depois, escapou para os Estados Unidos e se tornou o principal assessor do Pentágono e da presidência na esfera nuclear. É, literalmente, um produto das sombras. Usa óculos escuros e emite voz metálica. Movimenta-se célere sobre cadeira-de-rodas e gesticula exageradamente pelo braço mecânico que lhe escapa ao controle e insiste na saudação nazista. Se tal não bastasse, chama o Presidente Merkin de Mein Füher. É, como boa iminência parda, ouvido antes de ser visto. O modo como entrou em cena confirma: tempos sombrios e incertos são propícios ao surgimento das mais loucas e inescrupulosas criaturas.


Ao centro, Dr. Strangelove (Peter Sellers); à esquerda, o embaixador russo Alexei Sadesky (Peter Bull)

  
O roteiro recorreu a várias personalidades para estabelecer o caráter do Dr. Strangelove. A mais evidente é o cientista alemão Werner von Braum, responsável pelo desenvolvimento da tecnologia que quase permitiu aos nazistas a paternidade da bomba atômica. Por outro lado, projetou as tristemente famosas bombas voadoras V-1 e V-2, que tanto estrago causaram em Londres nos momentos finais da Segunda Grande Guerra. Terminado o conflito, rendeu-se às forças estadunidenses e se dedicou aos projetos de propulsão que puseram a NASA em vantagem na corrida espacial com os russos. Henry Kissinger — diplomata, estrategista nuclear e, mais tarde, assessor de assuntos exteriores do Presidente Nixon — apresenta afinidades com Dr. Strangelove, apesar de o irônico Kubrick afirmar que isso é somente “incrível coincidência”[5]. Mas é Edward Teller — um dos cientistas responsáveis pela construção da bomba atômica e supervisor da primeira bomba de hidrogênio — que mais contribuiu para moldar o caráter do personagem-título. Segundo Paul Boyer, Teller era dos mais aguerridos defensores da guerra fria e da corrida armamentista. Opunha-se a qualquer política de contenção[6]. Mereceu dos pacifistas, em 1979, o irônico troféu Dr. Strangelove[7]. Conforme Edward Levy, foi nele que Peter Sellers se baseou para fazer a voz do personagem[8].


Os esforços de Muffley para evitar o desastre são inúteis. Não consegue comunicação com os B-52, pois o “Plano R de Roberto”, depois de acionado, impede aos aviões o recebimento de qualquer mensagem terrestre. A opção é a ação militar direta contra o Estrategic Air Command em busca da contrassenha. Da Sala-de-Guerra, por ordem do General Faceman (Tanner), é lançada a tropa de elite do cretino e meticuloso Coronel “Bat” Guano (Wynn) versus a base de Burpelson. Mas o General Ripper resiste. Em meio à confusão outdoors exibem os dizeres: “A paz é nossa profissão”, flagrante do mais puro nonsense em sequência de combate que Kubrick carregou propositalmente de exagerado realismo documental. Por fim, Ripper é vencido. Desgostoso, comete suicídio. Mas Mandrake conseguiu a contrassenha. Estava pronto a transmiti-la ao Presidente quando foi capturado por “Bat” Guano, por suposta cumplicidade com o personagem interpretado por Hayden. Após muito insistir, obtém permissão para contatar o chefe da nação por meio do único instrumento de comunicação em funcionamento: um telefone público. Porém, não há moedas para acioná-lo. Impedir a destruição do mundo está na dependência de alguns níqueis. Mandrake os obtém ao arrombar máquina de venda automática de refrigerantes, após prometer a “Bat” Guano que indenizará a firma proprietária do equipamento.


A contrassenha é transmitida aos B-52 quando já sobrevoavam o espaço aéreo da URSS. Alguns a recebem e retornam. Outros são derrubados pela bateria antiaérea soviética. O problema é a solitária aeronave líder da esquadrilha com o rádio e o tanque de combustível avariados. Sobre o alvo, o Major “Kong” descobre defeito no sistema de lançamento da bomba. Mas nada faz desistir um texano de primeira linha. Seguem-se momentos antológicos. “Kong”, com o chapéu de cowboy, salta sobre a bomba equiparada a um touro de rodeio. Aciona os mecanismos manuais de disparo e se projeta sobre o alvo cavalgando o artefato. Extravasa satisfação pelo inusitado ato, como se estivesse no auge do prazer. Agita o chapéu e grita qual vaqueiro campeão. É, certamente, a cavalgada mais louca e sexualizada do cinema.


O Major T. J. 'King Kong" (Slim Pickens) cavalga literalmente a bomba que acionará a "Máquina do Juízo Final"


Os alienados personagens de Dr. Fantástico — Ripper, Muffley, Turgidson, “Bat” Guano, Dr. Satrangelove, Alexei Sadesky e o Major “Kong” — estão, de uma forma ou outra, inteiramente submetidos ao império maligno da mais instrumental racionalidade. Têm ações e pensamentos comandados de fora, por sistemas totalizadores e onipresentes que liquidam os mais básicos princípios éticos. Suas cabeças são incapazes de formular autonomamente qualquer juízo valorativo. O mundo está à beira da destruição e, ainda assim, só raciocinam apoiados na lógica abstrata dos sistemas que representam. Ripper, Turgidson, “Bat” Guano e o Major “Kong” são dominados pela boçal mentalidade guerreira; Sadesky, pela nomenklatura da burocracia soviética; Muffley, pela incapacidade de controlar a própria estrutura que governa; e Dr. Strangelove, pela incontrolável lógica destrutiva que o impede de submeter à própria vontade o corpo misto de homem e máquina. Dr. Fantástico retrata um mundo que despreza por completo a humanidade da palavra e, consequentemente, desdenha da possibilidade de superação iluminista-racional das disfunções e conflitos políticos. Numa realidade assim, a única imagem que o horizonte projeta é a da destruição.


Dr. Strangelove aposta ansiosamente nesse porvir dominado pelo caos, a ponto de sentir orgasmos[9]. Regozija-se ao narrar o plano que concebeu para repovoar a Terra no pós apocalipse. Como não há possibilidades de a humanidade prosseguir sua marcha em outro lugar que não o combalido planeta, prevê aos fisicamente mais perfeitos, sobreviventes da hecatombe, a possibilidade de refúgio em subterrâneos onde estarão a salvo da radioatividade durante 10 anos. Nas profundezas será iniciado o repovoamento. Dr. Strangelove fica tão encantado com essa proposta a ponto de superar a imobilidade que o obrigou à cadeira-de-rodas. De repente, levanta-se e grita: “Consigo andar!”. A seguir, há as imagens do planeta envolvido por cogumelos atômicos.



Acima e abaixo, o meio homem e meio máquina Dr. Strangelove (Peter Sellers) às voltas com seu incontrolável braço mecânico.


Stanley Kubrick recheou Dr. Fantástico com substantivos, situações e relações que aludem diretamente à perversão sexual. O tom é dado desde a abertura, conforme Paul Boyer, com a cena do avião-tanque abastecendo os B-52 em pleno vôo[10], algo semelhante a gigantescas e míticas aves em cópula. Ripper — estrangulador na tradução — manipula o charuto como se fosse um símbolo fálico ao se referir aos próprios problemas sexuais[11]. O nome original do personagem-título, Dr. Strangelove — junção dos vocábulos ingleses stranger e love —, leva o espectador a associá-lo claramente a uma relação de perversão. Por sua vez, Turgidson, Muffley, Kissof e “Bat” Guano significam, respectivamente, “sempre duro”, vulva, “foda-se” e "excremento de morcego"[12].


Em primeiro plano, o General 'Buck' Turgidson (George C.  Scott)

  
As autoridades estadunidenses ― conforme o esperado ― recusaram qualquer colaboração com a produção. As instalações militares, a Sala-de-Guerra e os aviões foram concebidos em estúdio. Para tanto, o desenhista de produção Ken Adam projetou cenários estilizados e arrojados, a partir de fotografias de jornais e revistas. As cenas das aeronaves em vôo resultam de miniaturas e efeitos especiais. Mas o principal trunfo da concepção cênica é a Sala-de-Guerra, ambiente a um só tempo solene, grandioso e belo, limitado pelo fundo escuro no qual brilham mapas, luzes, marcas e formas geométricas.


Destacar alguém do elenco seria cruel. A crítica em geral e o próprio Kubrick apontam a excelência da atuação de Peter Sellers, responsável, segundo o diretor, por criar muitos dos significativos diálogos. O “homem das mil faces” comparece em três papéis — o inabalável e fleumático Peter Mandrake, o Presidente dos EUA e o personagem-título — que o candidataram ao Oscar de Melhor Ator na cerimônia que consagrou Rex Harrison por Minha bela dama (My fair lady, 1964), de George Cukor. Não há dúvidas de que Sellers merece todas as ovações. Porém, minhas preferências ao pódio recaem sobre o grandalhão Sterling Hayden, responsável por inigualável show como o General Jack D. Ripper. Hayden e Sellers já haviam trabalhado sob as ordens de Kubrick: o primeiro, como o cabeça da quadrilha do assalto ao hipódromo em O grande golpe; o outro, como o devasso Clare Quilty de Lolita. A princípio, Sellers interpretaria mais dois personagens, inclusive o Major T. J. “King Kong”. Infelizmente, feriu o tornozelo durante as filmagens e ficou com os movimentos prejudicados. Assim, Kubrick achou melhor não sobrecarregá-lo. Entregou o papel do irrequieto piloto que cavalga a bomba a Slim Pickens, eterno coadjuvante de westerns, que tem seu momento maior em Dr. Fantástico.


Será o personagem Mandrake alusão ao famoso mágico das histórias em quadrinhos? O bigodinho comum a ambos permite a associação. O capitão inglês da RAF não tem ninguém chamado Lothar como parceiro. Em compensação, o tripulante negro do avião-líder da esquadrilha, interpretado por James Earl Jones, atende pelo nome do notório príncipe africano, inseparável companheiro de aventuras do ilusionista concebido por Lee Falk e desenhado por Phil Davis para as graphic novels.


Kubrick não iniciou de imediato a montagem de Dr. Fantástico. Preferiu amadurecer as ideias. Esse distanciamento permitiu a eliminação da sequência final, considerada totalmente dissonante. O epílogo original de Dr. Fantástico, uma guerra de tortas de 10 minutos, lançava a Sala-de-Guerra no centro da melhor comédia pastelão. Kubrick a substituiu pelo balé dos cogumelos atômicos ao som da voz de Vera Lynn. O final do livro de Peter George é totalmente diferente. O autor preferiu dar nova chance à humanidade. A bomba falha no lançamento. Com isso, o Presidente dos EUA passa a se empenhar ao máximo na busca da paz.


Ao centro, o General 'Buck' Turgidson (George Scott) em plena batalha de tortas na Sala-de-Guerra
O final ao embalo de comédia pastelão terminou eliminado de Dr. Fantástico


Em 1993 Dr. Fantástico passou por minucioso trabalho de restauração, coordenado pelo próprio diretor, que o devolveu à metragem original.


Por causa do assassinato de John F. Kennedy, Kubrick tomou a decisão de alterar o nome da texana cidade natal do Major “Kong” — para evitar associações indevidas, acusações de paranóicos de plantão e o ferimento de susceptibilidades. Assim, Dallas passou a se chamar Vegas.


Apesar do tema espinhoso, Dr. Fantástico concorreu aos Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção. Perdeu para Minha bela dama que também premiou a direção de George Cukor.




Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, com base na novela Red alert ou Two hours to doom, de Peter George. Direção de fotografia (preto e branco): Gilbert Taylor. Música: Laurie Johnson. Desenho de produção: Ken Adam. Guarda-roupa: Bridget Sellers. Montagem: Anthony Harvey. Produção associada: Victor Lyndon. Produção executiva: Leon Minoff. Gerente de produção: Clifton Brandon. Mixagem da combinação de sons: John Aldred. Gravação de som: Richard Bird. Efeitos especiais: Alan Bryce (não creditado), Brian Gamby (não creditado), Garth Inns (não creditado), Mike Shaw (não creditado), Wally Veevers, Arthur 'Weegee' Fellig (não creditado). Continuidade: Pamela Carlton. Supervisão de som: John Cox. Consultor-técnico: Capitão John Crewdson. Planejamento de créditos: Pablo Ferro, pela Mohammed & Schwartz Inc. (não creditado). Assistente de câmera: Bernard Ford. Maquiagem: Stewart Freeborn. Coordenação de montagem: Geoffrey Fry. Edição de som: Leslie Hodgson. Assistente de direção: Eric Rattray. Assistente de montagem: Ray Lovejoy. Direção de arte: Peter Murton. Operador de câmera: Kelvin Pike. Penteados: Barbara Ritchie. Supervisão de efeitos especiais: Wally Veevers. Travelling matte: Vic Margutti. Canções: When Johnny comes marching home, Try a little tenderness, We’ll meet again, por Vera Lynn, Operador de câmera de efeitos visuais: Jim Body (não creditado). Pintura matte: Bob Cuff (não creditado). Fotografia de cena: Bob Penn (não creditado). Ponto de vista do bombardeiro: Jean Bernard (não creditado). Agradecimentos dos produtores: British Oxygen, Marconi Wireless Telegraph Company, Solartron Electronics, Telephone. Locações: Institut Geographique National (não creditado). Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 94 minutos.


(José Eugenio Guimarães;1981; revisto e ampliado em 2000)



[1] O tenso relacionamento entre Kubrick e Douglas atingiu o limite quando o diretor tentou levar o crédito pelo roteiro do blacklisted Dalton Trumbo ― banido do mundo do cinema por se recusar a colaborar, como delator, com o Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas. Douglas considerou pouco ética, para não dizer canalha, a pretensão de Kubrick. Por pouco não foram às vias de fato. Em decorrência, num ato de extrema coragem para a época e apoiado no peso da própria reputação, Kirk Douglas tomou a decisão de desmoralizar a lista negra e dar crédito a Dalton Trumbo. Na mesma ocasião, o diretor e produtor Otto Preminger fez o mesmo com Exodus (Exodus, 1960).
[2] Em 1962 Kubrick interrompe o exílio. Volta aos Estados Unidos para realizar Lolita (Lolita), atendendo ao chamado de James B. Harris, produtor com quem trabalhara em Glória feita de sangue.
[3] Kubrick preservou a independência criativa que buscou na Inglaterra sempre aliado aos grandes estúdios americanos: Columbia Pictures, em Dr. Fantástico; Metro-Goldwyn-Mayer, em 2001 — uma odisseia no espaço; Warner Brothers, em Laranja mecânica, Barry Lindon, O iluminado, Nascido para matar e De olhos bem fechados.
[4] Cf. BOYER, Paul. Op. cit. p. 268.
[5] BARCINSKI, André. Os adoradores da Bomba A. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 19/nov./1994. Caderno B, p. 1.
[6] Ibidem. p. 267.
[7] Ibidem.
[8] LEVY, Edward. And the winner is... Os bastidores do Oscar. São Paulo: Trajetória Cultural, 1990. p. 156.
[9] Kubrick, na montagem final, eliminou a cena em que Dr. Strangelove era masturbado pelo seu incontrolável braço mecânico.
[10] Ibidem. p. 269.
[11] Ibidem.
[12] Em “Sex and Dr. Strangelove”, artigo que escreveu para a revista Film Coment, o crítico F. Anthony Macklin percebeu que, à exceção de Mandrake, todos os personagens principais do filme receberam nomes que fazem menção à sexualidade. Disso não escapa sequer o Major T. J. “King Kong”, alcunha que faz clara referência ao primata mais erotizado do cinema, que morreu desejando uma mulher e abraçado ao edifício Empire State Building, um enorme símbolo fálico (GONÇALVES, Sylvio. Dr. Fantástico. Cinemin. Rio de Janeiro: Brasil América, 5. série, n. 75, jan./fev./1985. p. 6

6 comentários:

  1. Eugenio,

    Conforme citei no meu comentário da parte 1 deste trabalho, não conheço Dr. Fantástico. E já me induziste, em sua resposta, para que eu não perdesse mais tempo e visse esta grandiosidade de filme. Farei isso assim o possa.

    Entretanto, não consigo entender o que aconteceu com o Kubruck atinente a SPARTACUS, filme que somente se tornou grandioso como o é, acredito eu, porque a mão do Stanley estava ali, sem qualquer sombra de dúvudas.

    O que ele faz desenrolar entre os muito bons papéis de Olivier e do Laughton, dão ao filme um ar de potencia, de realidade. Aquela disputa no Senado pelos dois nos transmite uma sensação de uma veracidade única de que aquilo ali era a Roma tão decantada e que tanto ouvimos falar.

    Não sei do que o criticam ou que porrada andaram lhe dando. Seria por ter feito ele um dos maiores classicos dentro do gênero? É, porque o povo é assim, lotado de invejas, sem comprometimento com o perfeito, loucos tb para porem na lama quem merece estar muito sobre eles todos.

    Não conheci o Sellers mais a fundo. No entanto, o sei um grande comediante, um ator de facetas mil e um homem que desempenhava com altissima qualidade qualquer papel que lhe caisse nas mãos.

    Porém, de tudo que o Kubruck fez e que citaste nesta palestra, de mais maravilhoso e positivo mesmo, foi ele ter se debandado para a Inglaterra, onde teria total poder sobre a administração final de suas obras.
    Isso de não se ter acesso à montagem de seus filmes e que muitos bons diretores passaram por muito por isso nos EUA, ele ficou livre disso, tendo o poder quase que exclusivo para expor seus trabalhos da forma que ele desejava mostra-lo e não como QUERIAM que eles ficassem.

    Grande abraço

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Jurandir, se você prestou atenção ao texto, percebeu, certamente, a chamada número 1 para uma nota de rodapé. Procure-a. Ali, esclareço um dos principais motivos das complicações dele com o Kirk Douglas. Outra causa da insatisfação de Kubrick com Hollywood, e que apressou a sua mudança para a Inglaterra, foi Marlon Brando. Kubrick iria dirigir A FACE OCULTA. Mas ele e Brando se desentenderam. Aliás, pelo que sei o Brando já havia provocado o desligamento de Anthony Mann da direção desse filme, se não estou enganado. No começo dos anos 60, Brando estava totalmente atacado com excesso de estrelismo. Não esqueça que ele quase levou a MGM à falência por causa do desastre que foram as filmagens de O GRANDE MOTIM, de 1962, que terminou nas mãos de Lewis Milestone. Esses desastres foram provocados pelo ator. Brando acabou dirigindo A FACE OCULTA porque nenhum diretor quis mais trabalhar com ele.

      Abraços.

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  2. Eugenio,

    Tens razão. Tenho mais este defeito de não atentar para as notas do rodapé, o que passarei a ter mais atenção de agora para frente. Se já estivesse fazendo isso teria evitado esta observação, que não deixou de me ser produtiva.

    Sei do estrelismo do Brando. Era demais, até além da conta. Ele se cachava mesmo.

    Sobre a direção do Kubrick no filme do Brando, foi um conhecimento que só tive ao ler esta matéria.
    Entretanto, para o Mann, segundo andei lendo, jamais este fora sondado para dirigir o filme da "estrela" Brando.

    Segundo conheço quem foi apontado para dirigi-lo foi o Sidney Lumet, que não aceitou, tendo o Brando assumido então a direção.

    O que sei do Mann deposto foi do western A Passagem da Noite que, tenho absoluta certeza, seria um magnifico faroesta sob seu comando.
    No entanto, infelizmente, nas mãos de James Neilson o filme deu no que deu. A fita com o Jimmy e o Murphy chega a ser ruim!

    A respeito de O Grande Motim/62 eu desconhecia também o contexto mostrado pelo amigo.
    Porém, em cima de ego tão inflado como era o dele, nada que vier dali é duvidável.

    jurandir_lima@bol.com.br

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    1. Perfeita a sua retificação, Jurandir. Sim, não era o Mann o escalado para dirigir A FACE OCULTA. Era outro o diretor. Porém, as informações passadas pelo IMDb não fazem alusão alguma ao Lumet, mas ao Sam Peckinpah, que, inclusive, chegou a trabalhar no roteiro. Lá, encontrei estas linhas: "Depois de comprar os direitos do romance, o produtor Frank P. Rosenberg trabalhou no primeiro rascunho do roteiro, juntamente com Rod Serling . Sam Peckinpah foi então contratado para reescrevê-lo. Um acordo complexo foi então feito, tentando trazer para a equipe de roteiristas o expert em westerns Louis L'Amour. Neste momento, Stanley Kubrick foi contratado como diretor, demitiu o Peckinpah e trouxe Calder Willingham para roteirista, mais tarde demitido por Rosenberg e substituído por Guy Trosper".

      Antes de se decidir por Kubrick Rosemberg tentou Peckinpah na direção, mas não sei por quais razões a coisa não foi para a ferente. Sei que A FACE OCULTA começou a ser feito em 1958 e as filmagens apenas terminaram em 1960. Por muito pouco não antecipou a demora de CLEÓPATRA.

      Também concordo com você acerca de A PASSAGEM DA NOITE. Infelizmente, houve um desentendimento entre Mann e James Stewart. Daí entrou o James Neilson, fraco, que ficaria mais notabilizado como regra 3 dos estúdios Disney.

      Abraços.

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  3. Y tal parece que el mundo sigue siendo manejado por algunos dementes...Una gran reseña cielo,gracias por compartir...Besitos,fantásticos :))

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    1. Infelizmente, nada muda, Maria Del Socorro. Segue a marcha da insensatez, desde sempre.

      Besitos fantásticos.

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