Durante os anos 70, a TV Globo importou dos Estados Unidos
o programa televisivo World Premiere,
aqui vertido para Premiere Mundial.
Teve por exagerado slogan "A televisão na frente do cinema". Exibia
apenas telefilmes — nas noites de sábado —, a maioria destituída de qualquer
interesse. Entre as honrosas exceções estava A morte numa noite fria (A
cold night's death, 1972), de Jerrold Freedman. Com apenas 74 minutos,
é uma instigante e assustadora mescla de suspense, horror, drama psicológico e
ficção científica que tira partido, como raramente foi feito, de orçamento
reduzido, cenários claustrofóbicos, diálogos, iluminação, música eletrônica e
interpretações. Basicamente, conta apenas com dois bons atores: Robert Culp e
Eli Wallach. Vivem, respectivamente, os pesquisadores Robert Jones e Frank
Enari, responsáveis por levar adiante um estudo que avalia o comportamento de
chimpanzés submetidos a condições extremas. Estão instalados em isolada e
praticamente inacessível estação de pesquisa erguida em paragens geladas.
Assombra-os a inexplicável morte por congelamento do solitário antecessor,
trancado pelo lado de fora em uma sala que, entretanto, permaneceu com as
janelas abertas. O mistério aumenta com a alusão do envolvimento de improváveis
personagens que marcaram a História — Gengis Khan, Alexandre o Grande, Napoleão
Bonaparte etc. — no falecimento do cientista. Segue apreciação escrita em 1974.
A morte numa noite
fria
A cold
night's death
Direção:
Jerrold
Freedman
Produção:
Paul
Junger Witt
Spelling-Goldberg
Productions, ABC Circle
Films
EUA — 1972
Elenco:
Eli Wallach, Robert Culp, Michael
C. Gwynne e o não creditado Vic Perrin.
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O diretor Jerrold Freedman |
Jerrold Freedman confirma:
há vida inteligente no pobre planeta dos telefilmes. Sim, é isto: A
morte numa noite fria integra um conjunto de realizações originalmente
produzidas para a televisão com exibição, no Brasil, nas noites de sábado, pelo
programa Première Mundial, da TV
Globo, ao longo dos 70. A emissora verteu ao pé da letra o título do original
estadunidense, World Premiere, inclusive
incorporou o exagerado lema: "A televisão na frente do cinema". A
maioria dos filmes mostrados era destituída de maior interesse. Uma das
honrosas exceções é A morte numa noite fria, instigante mescla de suspense, horror,
drama psicológico e ficção científica.
O motivo
deflagrador dos trágicos acontecimentos que assombram a história parece ser, em
princípio, a claustrofóbica solidão e suas consequências sobre homens vivendo e
trabalhando em condições climáticas extremas. No entanto, logo se percebe: algo
mais terrível está à espreita. A ação se desenrola na Tower Mountain Research
Station, centro de pesquisa em inóspita e sempre nevada região na Antártida. Aí
o programa espacial realiza, há quatro anos, experimentos comportamentais com
chimpanzés. Os animais passam por situações como: restrição alimentar e de
água, dor, choques térmicos, medo, inibição do sono, silêncio e sons elevados,
escuridão e excesso de luminosidade etc.
A sensação de
total isolamento da estação é ampliada pela altitude e dificuldade de acesso, vencida
somente por helicóptero, mesmo assim em condições meteorológicas favoráveis. O
enredo está armado sobre fundamentos muito simples, mas bem utilizados:
diálogos, interpretação, ambientação e atmosfera garantida por corredores
estreitos e escuros, o sopro permanente do vento gelado no exterior e a música,
um trunfo da composição eletrônica da parte de Gil Mellé.
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Os cenários, à base de corredores estreitos e parcamente iluminados, garantem o clima de claustrofobia e são um dos trunfos da realização |
O que se conta ao
longo de aproximados 75 minutos é assustador desde o começo. Enquanto a câmera
se movimenta nervosamente do lado de fora da estação, contornando-a, ouve-se a
voz desesperada do Dr. Vogel no interior. De início, o personagem não é
mostrado. Pede socorro pelo rádio, pois poderá morrer a qualquer momento. Uma
base distante é surda aos seus clamores, pois as comunicações estão cortadas
devido ao tempo ruim. Articula palavras aparentemente sem nexo, alusivas a Napoleão
Bonaparte, Gengis Khan, Alexandre o Grande e outros imperadores. Passados
alguns dias, o céu se abre. Um helicóptero traz novos pesquisadores para render
Vogel: Robert Jones (Culp) e Frank Enari (Wallach).
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Os cientistas Robert Jones (Robert Culp, acima) e Frank Enari (Eli Wallach, ao centro) encontram, morto por congelamento, o colega Dr. Vogel |
Encontram as
instalações às escuras; móveis e equipamentos revirados; os animais prestes a
sucumbir por inanição e frio. Na sala de comunicações, sentado como se
estivesse a operar o rádio, está o corpo congelado de Vogel. Morreu estranhamente!
A porta que separa o recinto do resto da instalação estava trancada por fora. A
janela, entretanto, permaneceu aberta à entrada do frio fatal. Aparentemente o
cientista se entregou à morte. Mas como foi trancado?
Assim que o corpo
é despachado, Enari e Jones deixam a estação em ordem e reiniciam as atividades
de pesquisa. No entanto, os questionamentos em torno da morte inexplicável do
colega aumentam quando se percebe que os aproximados 300 metros gravados de
fita utilizada na comunicação com a base estão em branco. Para
complicar, as diferenças entre os recém-chegados logo se acentuam. Enari, resguardado
na objetividade que reveste o trabalho do cientista, quer apenas prosseguir com
os testes, sem dar maior importância aos motivos que geraram a morte do antecessor.
Jones, por sua vez, também cientista acurado, levanta interrogações: o que
teria havido? Algo semelhante voltará a ocorrer?
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A relação entre os pesquisadores Frank Enari (Eli Wallach) e Robert Jones (Robert Culp) logo se deteriora |
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Um dos chimpanzés com comportamento avaliado na estação de pesquisa |
Posicionamentos
tão diferentes, somados à solidão e aos mistérios que passam a
acontecer, principalmente à noite, ampliam as desavenças. Luzes são acesas e desligadas
sem causa aparente, a unidade de fabricação e tratamento de água deixa de
funcionar, sons elevados dão lugar a silêncios prolongados, a cozinha é
revirada e os alimentos espalhados, portas e janelas se abrem do nada, os
macacos se agitam. Qual a fonte das anomalias? Alguém está à espreita? Quem?
Como? Onde estaria? Enari desconfia de Jones. Estaria sabotando propositalmente
as atividades, pois, supostamente, não revela aptidão para o rotineiro e disciplinado
trabalho de pesquisa. Aos poucos, com a evolução da tensão e suspeita, o filme
ganha contornos de suspense psicológico. Instala-se um aparente jogo de gato e
rato. O personagem interpretado por Robert Culp, mais lógico, tenta preservar o
equilíbrio, mas o cismado colega se perde na paranoia. Tornada incontrolável, a
situação evolui para a tragédia. Nessa progressão, o espectador já presume o que
ocorre. Certamente, as inteligentes cobaias, de nomes tão sugestivos, estão
invertendo os papéis com os pesquisadores. Somente na cena final, quando for demasiado
tarde, o mistério se esclarece por completo.
A direção mantém
a tensão sempre em
crescendo. Freedman é hábil na conjugação de elementos e
recursos escassos. O clima de inquietação encontra aliado na música de Gil
Mellé, à base de sintetizador. O compositor é um dos responsáveis pela voltagem
que marcou a ficção científica O enigma de Andrômeda (The
Andromeda strain, 1971), de Robert Wise.
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Eli Wallach como o Dr. Frank Enari |
Apesar de
produzido para a televisão, A morte numa noite fria possui o
dinamismo de peça cinematográfica na qual o fator obscuridade é parte do poder
de atração. O desenvolvimento é sólido. O cenário reduzido e parcamente
iluminado garante a atmosfera sempre espessa. O elenco é afinado. Conta
praticamente com Robert Culp e Eli Wallach. Michael C. Gwynne passa pouco tempo
em cena, logo no começo, como o piloto do helicóptero Val Adams. Vic Perrin
(não creditado) comparece apenas como a voz do distante diretor do projeto Ryan
Horner. Infelizmente, não se sabe o nome do responsável por Vogel.
O momento mais desesperador,
próximo do final, capta Jones fora da estação, com os movimentos reduzidos
devido ao frio excessivo e peso dos agasalhos, na lenta e exasperante atividade
de abastecer com neve a central de produção e tratamento de água. Misteriosamente,
a porta que lhe permitiria retornar ao interior é fechada. Com muito esforço e movimentos
limitados, consegue arriscado reingresso pela unidade de produção de água,
quando teve que se arrastar sobre neve e gelo.
Os 15 minutos
finais, exasperantes, têm desenvolvimento deliberadamente lento. O epílogo é
construído passo a passo, para assegurar o impacto definitivo no encerramento.
Mesmo que o espectador tenha resolvido previamente o mistério pela mais lógica
das deduções — antes mesmo do infeliz Jones —, o plano derradeiro não deixará
de ser arrepiante.
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O Dr. Frank Enari (Eli Wallach) tomado pela paranoia |
Apesar de o
título original ser A cold night's death, a realização também é conhecida,
principalmente na Inglaterra, como The chill factor.
Música eletrônica: Gil Mellé. Direção
de fotografia (cores): Leonard J. South. Roteiro: Christopher Knopf. Montagem:
David Berlatsky. Produção executiva:
Leonard Goldberg, Aaron Spelling. Produção
associada: Robert Monroe, Tony Thomas. Direção
de arte: Rolland M. Brooks. Decoração:
Dave L. Love. Figurinos: Ray Harp. Maquiagem: Frank Westmore. Gerente de produção: Richard Caffey. Assistente de direção: Jon C. Andersen.
Coordenação de construções: Gordon
Fletcher. Contrarregra: Kenneth L.
Westcott. Engenheiro de som: Herman
Lewis. Edição de efeitos sonoros:
Edward Rossi. Supervisão de produção de
elenco: Bert Remsen. Edição musical:
Kenneth Wannberg. Continuidade:
Joyce King. Adestrador de animais:
Ron Oxley. Companhia de créditos e
efeitos óticos: Modern Film Effects. Tempo
de exibição: 74 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)