sábado, 15 de março de 2014

ROGER CORMAN, TARANTINO E ALMODÓVAR CONHECEM A "DIABA" DE ANTÔNIO CARLOS (DA) FONTOURA?

Jamais esquecerei o impacto que experimentei ao ver A Rainha Diaba (1973), de Antônio Carlos Fontoura. É um filme visceral, único! O roteiro, do próprio diretor, valoriza o original de Plínio Marcos ao conduzir o espectador por uma viagem alucinada, sem comiseração, ao submundo carioca povoado por pivetes, traficantes, assassinos, prostitutas e bonecas dos mais variados matizes. Poucas vezes o improviso e as carências materiais de uma realização somaram tantos pontos a favor do fator originalidade. Os atores brilham em desempenhos inspirados e envolventes. Milton Gonçalves, na pele do personagem título, nunca esteve tão bom. Há 38 anos, ao sair da sala de exibição, pensei: "Roger Corman precisa ver este filme". Hoje, acredito que recicladores como Quentin Tarantino e o transgressor Pedro Almodóvar em início de carreira também deveriam. Não é filme para quem acredita — equivocadamente — que o cinema, não importando temas, tratamentos e situações, deve ser exercício de "bom gosto". O diretor atualmente assina como Antônio Carlos Da Fontoura. A apreciação é de 1977.







A Rainha Diaba

Direção:
Antônio Carlos Fontoura
Produção:
Roberto Farias, Antônio Carlos Fontoura (não creditado), Paulo Porto (não creditado)
Cinematográfica R. F. Farias, Canto Claro Produções Artísticas, Filmes De Lírio, Lanterna Mágica, Ventania Filmes
Brasil — 1973
Elenco:
Milton Gonçalves, Nélson Xavier, Odete Lara, Iara Cortes, Wilson Grey, Stepan Nercessian, Lutero Luiz, Edgar Gurgel Aranha, Geraldo Sobreira, Quim Negro, Sidney Becker, Nilson, Fábio Camargo, Selma Caronezzi, Isolda Cresta, Haroldo de Oliveira, Letícia de Souza, Perfeito Fortuna, Arnaldo Moniz Freire, Arthur Maia, Sônia Maracajá, Procópio Mariano, Luiz Mendonça, Júlia Moreno, Zezé Motta, Banzo Negro, Paulo Neves, Paulo Roberto, André Paúra, Pedro Pecado, Nilson Pena, Hilton Prado, Carlinhos Prieto, Marquinhos Rebu, Zé Roberto, Samuca.



Antônio Carlos Fontoura, atual Da Fontoura, em 1976, quando da realização de Cordão de ouro.



Uau! Disse-me isso ao término da projeção de A Rainha Diaba. No imenso Cine Brasil de Viçosa/MG eu resistia, atentamente, como se estivesse em transe, entre os poucos espectadores que acompanharam a exibição até o fim. Estava lívido. Até então, a nada parecido fora submetido numa tela de cinema. O segundo longa metragem de Antônio Carlos Fontoura[1] é uma joia e, ao mesmo tempo, um petardo de alto potencial explosivo e revelador. A realização, roteirizada pelo diretor a partir de argumento encomendado a Plínio Marcos — ambos são responsáveis pelos diálogos —, assemelha-se a uma farsa folhetinesca encenada no violento submundo carioca povoado de marginais de baixa extração e alimentada por uma mistura de sangue quente e vísceras à mostra. Tudo muito ao gosto das reportagens típicas de veículos sensacionalistas como O Dia e Luta Democrática, sempre ditosos na descrição exacerbada de cotidianos largados à penumbra, sujeira e falta de qualquer resquício de comiseração. Mas o que sobressai é, principalmente, a vontade sem medo de fazer cinema, mesmo que isso obrigue a recorrência aos imprevistos da improvisação em virtude da falta de recursos. Ao sair da sala de exibição, pensei: "Roger Corman precisa ver esse filme!".


Uma criatividade sui generis irriga os planos e sequências de A Rainha Diaba, tão ousado na exposição dos sombrios desvãos povoados por traficantes, pivetes, assassinos, assaltantes, cafetinas, prostitutas e bonecas. Não é filme a ser apreciado por qualquer um, principalmente pelo espectador equivocado, iludido na crença de que o cinema — e outras artes — deve ser, sempre, não importando temas e tratamentos, um exercício de bom gosto segundo a cartilha de normas e etiquetas da puerilidade pequeno burguesa. Pois o mau gosto impera em A Rainha Diaba. É um dos elementos que atribui ao exercício fílmico de Antonio Carlos Fontoura aquele algo mais em termos de originalidade, tornando-o tão surpreendentemente único. O brega predomina na cenografia farta na utilização de materiais baratos de papelaria como crepom e cartolina, ilustrados por motivos tingidos de cores fortes e quentes. A visceralidade mais intestina aflora dos golpes de navalha e tiroteios, mas também marca presença nos diálogos tensos e em expressões que prenunciam tratamentos personalizados, sempre à flor da pele. Os personagens homossexuais são retratados além do limite da afetação e beiram o caricato mais grotesco, a ponto de incomodar o espectador. As canções, em ritmos de boleros, guarânias e tangos, não economizam na distribuição de lágrimas e penares.


Milton Gonçalves, na melhor interpretação de sua carreira, é a Rainha Diaba 


Para surpresa de muitos, A Rainha Diaba recebeu do Instituto Nacional de Cinema (INC) o Prêmio Adicional de Qualidade de 1974. Do mesmo organismo, o endiabrado Milton Gonçalves, pelo papel-título, foi agraciado como Melhor Ator ao passo que Odete Lara e José Medeiros receberam as láureas, respectivamente, de Melhor Atriz e Melhor Fotografia. Em 1975, no Festival do Cinema Brasileiro de Brasília, o filme levantou os prêmios Candango de Melhor Roteiro (Antônio Carlos Fontoura), Melhor Ator (Milton Gonçalves), Melhor Atriz (Odete Lara), Melhor Fotografia, Melhor Cenografia (Ângelo de Aquino) e Melhor Trilha Musical (Guilherme Magalhães Vaz). Em 1974 Milton Gonçalves conquistou o VIII Prêmio Air France de Cinema como Melhor Ator e Odete Lara o Prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). No plano internacional, A Rainha Diaba marcou presença na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 1974 e, em 1975, no Festival de Cinema de San Sebastian[2].


Antônio Carlos Fontoura, até o momento, realizou poucos filmes. Estreou no longa metragem seis anos antes de A Rainha Diaba, em 1967, com um drama existencial que marcou época, situado na Zona Sul carioca: Copacabana me engana — retrato desencantado sobre a falta de rumo e ideais da juventude de classe média. Seu terceiro longa, Cordão de ouro (1976), dialoga com o rico universo da cultura popular e aguarda espaço para estrear no circuito comercial[3]. Fontoura militou no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) como ator e autor teatral. Escreveu críticas de cinema para jornais cariocas e realizou os bem acabados curtas Heitor dos Prazeres (1965), Ouro Preto e Scliar (1965), Meu nome é Gal (1970) e Chorinhos e chorões (1974)[4].


A Rainha Diaba apresenta a persona do título levemente inspirada na trajetória e caráter do lendário, caprichoso e violento Madame Satã, marginal carioca expert da navalha e de gingas de capoeira, responsabilizado, entre outros crimes, pela morte do compositor Geraldo Pereira. Enquadrado como "perigoso pederasta" pela polícia do Rio de Janeiro, então Capital Federal, Satã era cercado por um séquito de mulheres da vida e marginais diversos que lhe garantiam o sustento e aos quais, em contrapartida, fornecia proteção. Do mundo real do personagem, Plínio Marcos e Antônio Carlos Fontoura aproveitam a ambientação dos inferninhos e sobrados decadentes, além da caprichosa malemolência que enforma a caracterização do vingativo, cruel e individualista agenciador de prostitutas, protetor de bonecas e travestis, traficante e explorador de muitas bocas de fumo vivido com arrojada desenvoltura por Milton Gonçalves. A abordagem recusa inteligentemente o tom realista para optar pela exagerada e estilizada alegoria de visual cafona. Mesmo assim, a história dialoga com a atualidade carioca estampada cotidianamente nas páginas policiais dos jornais: a escalada da violência em sua relação com o tráfico de drogas, principalmente as lutas fratricidas pelo controle de pontos de distribuição que acontecem nesse meio.


Milton Gonçalves - excelente! - é o personagem título


As primeiras imagens, desde os títulos de abertura, antecipam o que será visto. Os créditos são exibidos sobre cartolinas de coloridos diversos, ilustradas por motivos típicos dos panos de mesa e cozinha tão ao gosto dos setores populares. Enquanto isso, Paulo Sérgio canta o sucesso Índia. A interpretação ultrapassa a apresentação dos letreiros. Vê-se que decorre de disco executado em barata eletrola portátil. A câmera mostra um bordel. Garotas bem comportadas distraem a clientela. Mas logo o som é interrompido por Violeta (Cortes), que pede a todos a desocupação do recinto, pois "As visitas da Rainha estão chegando". O que se vê daí é a antológica entrada em cena de muita gente feia e mal encarada: Manco (Grey) e Anão (Luiz) à frente, seguidos por outros marginais, todos exibindo armas e se mirando calados e taciturnos. São gerentes do tráfico comandado pela Rainha Diaba. Vieram prestar contas das atividades. O chefe os aguarda num quarto nos fundos do bordel, no qual, vaidoso, afetado e manhoso, recebe tratamento de beleza de Lilico (Prieto).


Diaba (Milton Gonçalves) e Manco (Wilson Grey)


Diaba é, guardadas as devidas proporções, uma espécie de Don Corleone[5] desprovido de traquejo e racionalidade. Mas tem muito poder de decisão e convencimento. Reage emocionalmente, quase sempre apelando para golpes de navalha em rompantes desmedidos de violência. É extremadamente despótico e cioso no controle de seus negócios. Ao receber os informes de seus imediatos, demonstra preocupação com o futuro do preferido Robertinho (Moniz Freire), prestes a cair nas mãos da polícia pelo descuido de traficar em escolas. A prisão deve ser evitada. Todos devem protegê-lo. Com a ajuda do lugar-tenente Zeca Catitu (Xavier, estupendo!), Diaba concebe a fabricação de um bandido para lançar à polícia e, assim, desviar as atenções sobre o comparsa. Começa aí um jogo de gato e rato nos quais os papéis do roedor e felino continuamente se alternam.


Esbanjando talento: Nélson Xavier é Catitu; Stepan Nercessian é Bereco


Bereco (Nercessian), cafetão sustentado pela prostituta e cantora de inferninhos Iza Gonzales (Lara), é o otário com pinta de garotão guindado ao posto de boi de piranha. Atraído a se integrar à quadrilha liderada por Catitu, é testado numa sucessão de assaltos a postos de gasolina, farmácias, padarias e caminhões de transporte. Não demora a se ajustar ao metieur. Picado pela mosca da ambição, logo revela disposição para trilhar a rota da autonomia. Assalta as bocas de fumo de Diaba. Ganha notoriedade. É perseguido pela polícia. Enquanto isso, o também ambicioso Catitu atrai para si os insatisfeitos homens do chefe. Pretende destroná-lo fazendo uso de Bereco, ainda desconhecido ao personagem de Milton Gonçalves.


Entretanto, cada vez mais preocupado com o esvaziamento das suas bocas, Diaba lança em campo, à cata de informações, um fiel séquito de dondocas e bonecas dispostas a tudo. Capturam Iza, promovida por Bereco à distribuidora das drogas roubadas. Segue-se uma sequência pelo visto até então inédita nos cinemas brasileiros, ainda mais em plena vigência da truculenta arbitrariedade do regime militar: a tortura da cantora, em cenas exageradamente estilizadas. Num salão de beleza, é queimada com pontas de cigarro e alisadores de cabelo. Entrega Bereco, antes de ter o rosto desfigurado à navalha.


Diaba (Milton Gonçalves) e Iza (Odete Lara)

Iza (Odete Lara) é torturada por protegidos de Diaba (Milton Gonçalves)


O filme se encaminha a um final apoteótico e operístico, banhado em muito sangue, com o cruzamento de seus eixos narrativos. Apanhado por Catitu e seus cúmplices, Bereco é convencido a se introduzir no esconderijo de Diaba e eliminá-lo. Acreditando que deu conta do recado, termina assassinado por Catitu. Este comemora a inútil vitória, pois é mortalmente envenenado, com todos os seus homens, por Violeta. Mas eis que surge Diaba, banhado no sangue das navalhadas recebidas de Bereco. Ainda tem forças para matar a infiel. A seguir, num trágico último ato, cai morto sobre a pilha de cadáveres. Ninguém sobrevive para contar a história.


Diaba (Milton Gonçalves) conhece Bereco (Stepan Nercessian)



O argumento de Plínio Marcos é primoroso e magistralmente encenado por Antônio Carlos Fontoura. A multiplicação da narrativa em muitos focos, sem que um se sobressaia sobre os demais, permite aos atores um grau de liberdade como poucas vezes se viu para a criação de seus personagens. Se Milton Gonçalves e Nélson Xavier brilham, o mesmo acontece com Stepan Nercessian e Odete Lara, responsáveis pelos papéis-líderes em seus segmentos. Todos, por sua vez, oferecem a deixa a um talentoso naipe de coadjuvantes, também estimulados a revelar o potencial interpretativo. Milton Gonçalves é digno de louvor pela coragem de representar um tipo que poderia estigmatizá-lo. Quantos outros teriam tal destemor? Nelson Xavier nunca decepcionou. Mas, aqui, está maravilhosamente bem na interpretação de um marginal sagaz e envolvente. Odete Lara, em atuação intensa, não depende somente da expressão, mas da capacidade de evoluir em cena com o corpo inteiro, seja nas lutas encenadas com Bereco ou nos momentos de cantoria no cabaret gostosamente intitulado Leite da Mulher Amada. Stepan Nercessian pulsa, emprestando confiabilidade ao garoto elevado da simples condição de parasita de mulheres ao posto de perigoso e ativo marginal. E Wilson Grey? O que dizer de seu Manco ou de sua capacidade de ator camaleônico, apesar de sempre relegado aos pequenos mas grandes momentos, aqueles que podem, com uma simples presença, redimir uma produção inteira? Vê-lo em cena, por menor que seja a atuação, será sempre experiência ímpar.


Iza (Odete Lara) come o pão amassado pela Rainha Diaba


A produção, como de praxe, lembra que os personagens são fictícios. Até certo ponto, talvez! Os jornais seriam os primeiros a desmentir a advertência. Os tipos em cena são profundamente brasileiros no que tange ao caráter apresentado. Tanto Diaba como Catitu revelam os traços do "homem cordial" exposto por Sérgio Buarque de Holanda em seu seminal Raízes do Brasil. São cordiais não no sentido de serem cordatos e gentis — qualidades que enfaticamente não possuem — e, sim, por negarem a racionalidade impessoal e objetiva no direcionamento de suas ações, segundo o entendimento do autor. Deixam-se guiar por pulsações sanguíneas. São extremamente apaixonados e emotivos, despóticos e caprichosos. Estão presos às determinações do coração. Diaba é perfeito exemplo disso em sua volubilidade. Protege Robertinho, por quem sente afeição. Porém, não titubeia em cortá-lo à navalha quando é decepcionado. Catitu age no mesmo diapasão com sua envolvente malemolência, principalmente quando lança a mosca azul sobre Bereco.


Milton Gonçalves é a Rainha Diaba


Roteiro: Antonio Carlos Fontoura, com base em argumento de Plínio Marcos. Diálogos: Plínio Marcos, Antônio Carlos Fontoura (diálogos adicionais). Produção executiva: Maurício Nabuco. Música: Guilherme Magalhães Vaz. Direção de fotografia (Eastmancolor): José Medeiros. Montagem: Rafael Justo Valverde. Cenografia e figurinos: Ângelo de Aquino. Maquiagem: Carlos Prieto. Gerente de produção: Antônio Calmon. Assistente de direção: Emiliano Ribeiro. Operador de câmera: Ronaldo Nunes. Coordenação de produção: Orlando Bonfim. Planejamento de créditos: Ângelo de Aquino, Renato Landim. Continuidade: Plínio Marcos. Fotografia de cena: Edson Santos. Direção de som: Alberto Vianna. Créditos: Renato Landim. Tempo de exibição: 106 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976; atualização por notas de pé de página em 2014)




[1] Atualmente, o diretor se apresenta como Antônio Carlos Da Fontoura.
[2] Passados alguns anos da elaboração deste comentário, A Rainha Diaba integrou a mostra 80 Ans de Cinéma Brésilien promovido em Paris pelo Centro Georges Pompidou, em 1978. Em 1999, marcou presença na mostra binacional Black Roots/Racines Noires exibida em Milão e Paris.
[3] Visto em 1977, Cordão de ouro se revelou decepcionante em suas interpretações canhestras, falta de dinamismo e fluência narrativa.
[4] A partir de 1977, Antônio Carlos Fontoura, contratado pela TV Globo, escreveu episódios das séries Ciranda, cirandinha e Plantão de polícia. Na década de 90, para a mesma emissora, elaborou roteiros para o interativo Você decide, cujo final dependia da escolha dos telespectadores. Para o cinema realizou, em 1982, o pouco visto média metragem Brasília segundo Alberto Cavalcanti. A seguir vieram os longas Espelho de carne (1984), curioso misto de terror e drama erótico, e o frustrante Uma aventura de Zico (1988). Ainda desconheço suas últimas atividades cinematográficas: Gatão de meia idade e No meio da rua, ambas de 2006, e Somos tão jovens (2013).
[5] Capo de uma família mafiosa vivido por Marlon Brando em O poderoso chefão (The godfather, 1972), de Francis Ford Coppola.

domingo, 9 de março de 2014

SHERLOCK HOLMES ENCONTRA O PAI DA PSICANÁLISE

Visões de Sherlock Holmes (1976) não parte dos originais de Arthur Conan Doyle, mas da novela The seven-per-cent solution, roteirizada pelo autor, Nicholas Meyer. O texto, transgressor, toma várias liberdades com o detetive particular mais famoso da Inglaterra vitoriana, inclusive com respeito às suas mais caras obsessões. A menor delas, certamente, envolve o inusitado encontro entre Holmes e Sigmund Freud. Pressionado pelo Dr. Watson, o investigador — cada vez mais afundado na depressão e dependência química — vai a Viena em busca da ajuda do pai da psicanálise e termina envolvido na elucidação do desaparecimento de uma das suas pacientes. A direção burocrática de Herbert Ross não aproveita as boas possibilidades do roteiro de Meyer. Também desperdiça os talentos de Robert Duvall e Alan Arkin, respectivamente responsáveis pelos papéis de Watson e Freud. Este, coitado, foi reduzido a um receitador de almanaque numa narrativa que envolve preguiçosamente o espectador. A apreciação a seguir de 1993.






Visões de Sherlock Holmes
The seven-per-cent solution

Direção:
Herbert Ross
Produção:
Herbert Ross
Universal Pictures, Herbert Ross Productions
Inglaterra, EUA — 1976
Elenco:
Nicol Williamson, Robert Duvall, Laurence Olivier, Alan Arkin, Vanessa Redgrave, Joel Grey, Samantha Eggar, Charles Gray, Georgia Brown, Regine, Jeremy Kemp, Anna Quayle, Jill Townsend, John Bird, Alison Leggatt, Frederick Jaeger, Erik Chitty, Jack May, Gertan Klauber, Leon Greene, Michael Blagdon, Ashley House, Sheila Shand Gibbs, Erich Padalewski, John Hill e os não creditados Harry Fielder e Drewe Henley.



O diretor Herbert Ross


Visões de Sherlock Holmes nada tem a ver com Conan Doyle, o escritor da Inglaterra vitoriana, pai do mais famoso detetive particular. O filme de Herbert Ross parte de argumento original de Nicholas Meyer  também autor do roteiro —, a novela The seven-per-cent solution. O texto toma várias liberdades com a criação de Doyle, algo que não é novidade, pelo menos desde 1970 quando Billy Wilder, de certa forma, também profanou o original em A vida privada de Sherlock Holmes (The private life of Sherlock Holmes). Neste filme, Holmes e Watson vão à Escócia e resolvem o mistério do Monstro do Lago Ness. Mas o mais importante é a insinuação  bastante explícita por sinal  de que o famoso investigador da Baker Street 221-B mantinha relações sexuais com seu parceiro de aventuras. Nos liberados dias de hoje, tais ilações são até compreensíveis. Porém, é pouco provável que povoassem a puritana e vitoriana cabeça de Conan Doyle.



Nicol Williamson interpreta Sherlock Holmes no filme dirigido por Herbert Ross

Dr. Watson (Robert Duvall) e Sherlock Holmes (Nicol Williamson)


The seven-per-cent solution promove o encontro entre personagens da ficção e da realidade, respectivamente, Sherlock Holmes e Freud, o pai da psicanálise. É certo que ambos tinham algo em comum ou Freud tinha muito a ver com Holmes, como registra a correspondência que o vienense trocava com Jung: o fleumático investigador londrino figurava entre seus personagens preferidos na literatura.




Acima e abaixo: Sigmund Freud (Alan Arkin) diante do obsessivo Sherlock Holmes (Nicol Williamson)

  
O filme começa em Londres, distante do cenário principal da narrativa. É 1939. O Dr. Watson (Duvall) toma conhecimento da morte de Freud. É o ponto de partida para o longo flashback que, em resumo, é toda a história encenada por Ross. Watson rememora o ano de 1891, quando atende ao chamado de Mrs. Hudson (Leggatt) — senhoria de Holmes — para visitar o companheiro de investigações, há dias recluso e recusando alimentação. Sherlock (Williamson) é encontrado em profunda depressão, cada vez mais dependente de cocaína diluída em sete por cento de água — originalmente, nas histórias de Conan Doyle, é a morfina que conforta o detetive. Como se isso não bastasse, está cada vez mais obcecado pela imagem de seu arquiinimigo, o professor James Moriarty (Olivier).




Dr. Watson (Robert Duvall) e Sherlock Holmes (Nicol Williamson)


Watson não consegue convencer Holmes a abandonar a droga e o destrutivo auto-isolamento. Ao retornar para casa, encontra Moriarty. Este, demonstrando timidez e fragilidade, conta-lhe uma estranha história: não suporta mais a insana e insuportável perseguição que lhe move o detetive. Alega que desde a juventude, quando lecionou para os irmãos Holmes (Sherlock e Mycroft), sempre os tratou com deferência. Não encontra explicações razoáveis para ser tão molestado. Essa revelação leva Watson a concluir que todos os problemas de Holmes, inclusive a dependência de drogas, podem estar ligados a complicações da infância. Ninguém melhor que Freud para ajudá-lo. Porém, o intratável detetive se recusa a viajar a Viena, onde reside o pai da psicanálise.



Sigmund Freud (Alan Arkin), Sherlock Holmes (Nicol Williamson) e Dr. Watson (Robert Duvall)


Com a ajuda de Moriarty e Mycroft (Charles Gray), Watson concebe um caso criminal de peso em Viena, que desperta o interesse do detetive. Poderá, assim, ser tratado por Freud. Mas, em paralelo, arquiteta-se um mistério de verdade, que devolverá o perspicaz detetive à ativa: o desaparecimento de Lola Deveraux (Redgrave) cantora e paciente de Freud, raptada por Lowenstein (Joel Grey). Com isso, organiza-se o eixo central da narrativa: Holmes e Watson ficam por conta da elucidação do caso policial enquanto Freud procura solucionar os problemas que afetam a conduta do investigador.


Sigmund Freud (Alan Arkin) tenta curar Sherlock Holmes (Nicol Williamson) com o testemunho do Watson (Robert Duvall)

  
Os admiradores mais exaltados de Conan Doyle muito provavelmente se contorceram ao extremo diante das profanações perpetradas pela dupla Ross-Meyer, ainda mais com a redução do arqui-vilão Moriarty a vítima das alucinações de Holmes. Mas, ai dos puristas! O cinema pode tudo, inclusive transgredir. Das transgressões costumam nascer obras-primas. Infelizmente, não é o caso de Visões de Sherlock Holmes. Seus pecados e falhas devem ser debitados mais na conta da direção, pois o guião repleto de licenciosidade de Meyer prometia muito. Restou da transposição apenas a curiosidade provocada pela insólita parceria entre Sherlock e Freud. É certo que o filme possui qualidades, entre as quais os desempenhos memoráveis de Laurence Olivier e Nicol Williamson. Mas dois bons atores estão às tontas: Robert Duvall fica reduzido a uma condição de coadjuvante de luxo e Alan Arkin está totalmente deslocado como um Freud incapaz de suscitar a lembrança do revolucionário pai da psicanálise. Assemelha-se mais ao receitador de almanaque ou aos conselheiros sentimentais vulgarizados em programas matutinos da televisão. Visões de Sherlock Holmes tem reconstituição de época e ambientação bastante críveis. A direção de arte extrai o melhor das locações inglesas e austríacas. Mas a narrativa sofre em decorrência da falta de organicidade e de elementos capazes de empolgar o espectador. Este, largado no vazio gerado por uma direção fria e impessoal, acompanha o relato preguiçosamente.






Música: John Addison. Roteiro: Nicholas Meyer, baseado em seu romance The seven-per-cent solution e em personagens de Arthur Conan Doyle. Direção de fotografia (Technicolor): Oswald Morris. Desenho de produção: Ken Adams. Supervisão da Montagem: William Reynolds. Figurinos: Alan Barrett. Produção associada: Stanley O'Toole, Arlene Sellers, Alex Winitsky, Howard Jeffrey. Montagem: Chris Barnes. Produção de elenco: Rose Tobias Shaw. Direção de arte: Peter Lamont. Penteados: Colin Jamison, Janet Jamison. Maquiagem: Bill Lodge, John Webber. Gerente de produção: Michael Guest. Terceiro assistente de direção: Andy Armstrong. Assistente de direção: Scott Wodehouse. Assistentes de direção de arte: Ernest Archer, Charles Bishop. Arte cênica: Ivor Beddoes. Camareiro: Peter James. Aquisições para o Departamento de Arte: Ron Quelch. Gerente de construções: Michael Redding. Mixagem da combinação de sons: Gordon K. McCallum. Estagiário de pós-produção de som: Regina Mullen. Edição de som: Terry Poulton. Gravação de som: Cyril Swern. Mixagem da regravação de som: Graham V. Hartstone (não creditado). Gravação de diálogos: Mel Zelniker (não creditado). Dublês: Peter Diamond, Chris Webb. Assistente de camera: Maurice Arnold. Operador de câmera da segunda unidade: Mike Fox. Operador da segunda camera: Mike Fox. Foco da segunda unidade: John Golding. Assistente de câmera: Cedric James. Fotografia de cena: David James. Direção de fotografia da segunda unidade: Alex Thomson. Operador de câmera: Jimmy Turrell. Guarda-roupa: Gillian Dods, Richard Pointing. Assistente de montagem: Michael E. Polakow, Larry Richardson. Direção musical: John Addison. Edição musical: Stephen A. Hope. Chefe de elenco e equipe de filmagem: Robin Demetriou. Publicidade: Hunt Downs, Brian Doyle, Nat Weiss. Desenho de créditos: Wayne Fitzgerald. Gerente de locações: Ray Freeborn. Supervisão da segunda unidade: Howard Jeffrey. Assistente para Herbert Ross: Nora Kaye. Contínuo: Christopher Newman, Tony Webb. Continuidade: Ann Skinner. Estúdios de gravação musical: Anvil Film and Records Group. Tempo de exibição: 113 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1993)