domingo, 9 de março de 2014

SHERLOCK HOLMES ENCONTRA O PAI DA PSICANÁLISE

Visões de Sherlock Holmes (1976) não parte dos originais de Arthur Conan Doyle, mas da novela The seven-per-cent solution, roteirizada pelo autor, Nicholas Meyer. O texto, transgressor, toma várias liberdades com o detetive particular mais famoso da Inglaterra vitoriana, inclusive com respeito às suas mais caras obsessões. A menor delas, certamente, envolve o inusitado encontro entre Holmes e Sigmund Freud. Pressionado pelo Dr. Watson, o investigador — cada vez mais afundado na depressão e dependência química — vai a Viena em busca da ajuda do pai da psicanálise e termina envolvido na elucidação do desaparecimento de uma das suas pacientes. A direção burocrática de Herbert Ross não aproveita as boas possibilidades do roteiro de Meyer. Também desperdiça os talentos de Robert Duvall e Alan Arkin, respectivamente responsáveis pelos papéis de Watson e Freud. Este, coitado, foi reduzido a um receitador de almanaque numa narrativa que envolve preguiçosamente o espectador. A apreciação a seguir de 1993.






Visões de Sherlock Holmes
The seven-per-cent solution

Direção:
Herbert Ross
Produção:
Herbert Ross
Universal Pictures, Herbert Ross Productions
Inglaterra, EUA — 1976
Elenco:
Nicol Williamson, Robert Duvall, Laurence Olivier, Alan Arkin, Vanessa Redgrave, Joel Grey, Samantha Eggar, Charles Gray, Georgia Brown, Regine, Jeremy Kemp, Anna Quayle, Jill Townsend, John Bird, Alison Leggatt, Frederick Jaeger, Erik Chitty, Jack May, Gertan Klauber, Leon Greene, Michael Blagdon, Ashley House, Sheila Shand Gibbs, Erich Padalewski, John Hill e os não creditados Harry Fielder e Drewe Henley.



O diretor Herbert Ross


Visões de Sherlock Holmes nada tem a ver com Conan Doyle, o escritor da Inglaterra vitoriana, pai do mais famoso detetive particular. O filme de Herbert Ross parte de argumento original de Nicholas Meyer  também autor do roteiro —, a novela The seven-per-cent solution. O texto toma várias liberdades com a criação de Doyle, algo que não é novidade, pelo menos desde 1970 quando Billy Wilder, de certa forma, também profanou o original em A vida privada de Sherlock Holmes (The private life of Sherlock Holmes). Neste filme, Holmes e Watson vão à Escócia e resolvem o mistério do Monstro do Lago Ness. Mas o mais importante é a insinuação  bastante explícita por sinal  de que o famoso investigador da Baker Street 221-B mantinha relações sexuais com seu parceiro de aventuras. Nos liberados dias de hoje, tais ilações são até compreensíveis. Porém, é pouco provável que povoassem a puritana e vitoriana cabeça de Conan Doyle.



Nicol Williamson interpreta Sherlock Holmes no filme dirigido por Herbert Ross

Dr. Watson (Robert Duvall) e Sherlock Holmes (Nicol Williamson)


The seven-per-cent solution promove o encontro entre personagens da ficção e da realidade, respectivamente, Sherlock Holmes e Freud, o pai da psicanálise. É certo que ambos tinham algo em comum ou Freud tinha muito a ver com Holmes, como registra a correspondência que o vienense trocava com Jung: o fleumático investigador londrino figurava entre seus personagens preferidos na literatura.




Acima e abaixo: Sigmund Freud (Alan Arkin) diante do obsessivo Sherlock Holmes (Nicol Williamson)

  
O filme começa em Londres, distante do cenário principal da narrativa. É 1939. O Dr. Watson (Duvall) toma conhecimento da morte de Freud. É o ponto de partida para o longo flashback que, em resumo, é toda a história encenada por Ross. Watson rememora o ano de 1891, quando atende ao chamado de Mrs. Hudson (Leggatt) — senhoria de Holmes — para visitar o companheiro de investigações, há dias recluso e recusando alimentação. Sherlock (Williamson) é encontrado em profunda depressão, cada vez mais dependente de cocaína diluída em sete por cento de água — originalmente, nas histórias de Conan Doyle, é a morfina que conforta o detetive. Como se isso não bastasse, está cada vez mais obcecado pela imagem de seu arquiinimigo, o professor James Moriarty (Olivier).




Dr. Watson (Robert Duvall) e Sherlock Holmes (Nicol Williamson)


Watson não consegue convencer Holmes a abandonar a droga e o destrutivo auto-isolamento. Ao retornar para casa, encontra Moriarty. Este, demonstrando timidez e fragilidade, conta-lhe uma estranha história: não suporta mais a insana e insuportável perseguição que lhe move o detetive. Alega que desde a juventude, quando lecionou para os irmãos Holmes (Sherlock e Mycroft), sempre os tratou com deferência. Não encontra explicações razoáveis para ser tão molestado. Essa revelação leva Watson a concluir que todos os problemas de Holmes, inclusive a dependência de drogas, podem estar ligados a complicações da infância. Ninguém melhor que Freud para ajudá-lo. Porém, o intratável detetive se recusa a viajar a Viena, onde reside o pai da psicanálise.



Sigmund Freud (Alan Arkin), Sherlock Holmes (Nicol Williamson) e Dr. Watson (Robert Duvall)


Com a ajuda de Moriarty e Mycroft (Charles Gray), Watson concebe um caso criminal de peso em Viena, que desperta o interesse do detetive. Poderá, assim, ser tratado por Freud. Mas, em paralelo, arquiteta-se um mistério de verdade, que devolverá o perspicaz detetive à ativa: o desaparecimento de Lola Deveraux (Redgrave) cantora e paciente de Freud, raptada por Lowenstein (Joel Grey). Com isso, organiza-se o eixo central da narrativa: Holmes e Watson ficam por conta da elucidação do caso policial enquanto Freud procura solucionar os problemas que afetam a conduta do investigador.


Sigmund Freud (Alan Arkin) tenta curar Sherlock Holmes (Nicol Williamson) com o testemunho do Watson (Robert Duvall)

  
Os admiradores mais exaltados de Conan Doyle muito provavelmente se contorceram ao extremo diante das profanações perpetradas pela dupla Ross-Meyer, ainda mais com a redução do arqui-vilão Moriarty a vítima das alucinações de Holmes. Mas, ai dos puristas! O cinema pode tudo, inclusive transgredir. Das transgressões costumam nascer obras-primas. Infelizmente, não é o caso de Visões de Sherlock Holmes. Seus pecados e falhas devem ser debitados mais na conta da direção, pois o guião repleto de licenciosidade de Meyer prometia muito. Restou da transposição apenas a curiosidade provocada pela insólita parceria entre Sherlock e Freud. É certo que o filme possui qualidades, entre as quais os desempenhos memoráveis de Laurence Olivier e Nicol Williamson. Mas dois bons atores estão às tontas: Robert Duvall fica reduzido a uma condição de coadjuvante de luxo e Alan Arkin está totalmente deslocado como um Freud incapaz de suscitar a lembrança do revolucionário pai da psicanálise. Assemelha-se mais ao receitador de almanaque ou aos conselheiros sentimentais vulgarizados em programas matutinos da televisão. Visões de Sherlock Holmes tem reconstituição de época e ambientação bastante críveis. A direção de arte extrai o melhor das locações inglesas e austríacas. Mas a narrativa sofre em decorrência da falta de organicidade e de elementos capazes de empolgar o espectador. Este, largado no vazio gerado por uma direção fria e impessoal, acompanha o relato preguiçosamente.






Música: John Addison. Roteiro: Nicholas Meyer, baseado em seu romance The seven-per-cent solution e em personagens de Arthur Conan Doyle. Direção de fotografia (Technicolor): Oswald Morris. Desenho de produção: Ken Adams. Supervisão da Montagem: William Reynolds. Figurinos: Alan Barrett. Produção associada: Stanley O'Toole, Arlene Sellers, Alex Winitsky, Howard Jeffrey. Montagem: Chris Barnes. Produção de elenco: Rose Tobias Shaw. Direção de arte: Peter Lamont. Penteados: Colin Jamison, Janet Jamison. Maquiagem: Bill Lodge, John Webber. Gerente de produção: Michael Guest. Terceiro assistente de direção: Andy Armstrong. Assistente de direção: Scott Wodehouse. Assistentes de direção de arte: Ernest Archer, Charles Bishop. Arte cênica: Ivor Beddoes. Camareiro: Peter James. Aquisições para o Departamento de Arte: Ron Quelch. Gerente de construções: Michael Redding. Mixagem da combinação de sons: Gordon K. McCallum. Estagiário de pós-produção de som: Regina Mullen. Edição de som: Terry Poulton. Gravação de som: Cyril Swern. Mixagem da regravação de som: Graham V. Hartstone (não creditado). Gravação de diálogos: Mel Zelniker (não creditado). Dublês: Peter Diamond, Chris Webb. Assistente de camera: Maurice Arnold. Operador de câmera da segunda unidade: Mike Fox. Operador da segunda camera: Mike Fox. Foco da segunda unidade: John Golding. Assistente de câmera: Cedric James. Fotografia de cena: David James. Direção de fotografia da segunda unidade: Alex Thomson. Operador de câmera: Jimmy Turrell. Guarda-roupa: Gillian Dods, Richard Pointing. Assistente de montagem: Michael E. Polakow, Larry Richardson. Direção musical: John Addison. Edição musical: Stephen A. Hope. Chefe de elenco e equipe de filmagem: Robin Demetriou. Publicidade: Hunt Downs, Brian Doyle, Nat Weiss. Desenho de créditos: Wayne Fitzgerald. Gerente de locações: Ray Freeborn. Supervisão da segunda unidade: Howard Jeffrey. Assistente para Herbert Ross: Nora Kaye. Contínuo: Christopher Newman, Tony Webb. Continuidade: Ann Skinner. Estúdios de gravação musical: Anvil Film and Records Group. Tempo de exibição: 113 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1993)

2 comentários:

  1. Eu adoro a narrativa de Sir Arthur Conan Doyle, e talvez não me sentiria a vontade com certas diferenças, embora, há o fato de que nunca gosto da adaptação de livros para o cinema, sempre falta alguma coisa. Mas ainda assim me interessei por esse filme, não sabia dele. Mais uma ótima resenha!

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    1. Olá, Marci Fernandes!

      Bom vê-la por aqui.

      Sempre parto do princípio de que há especificidades entre livros e cinema. Por isso, evito entrar no campo das comparações. Principalmente pelo motivo de que é complicado adaptar livros às telas. Como condensar tudo para 90 ou mais minutos de exibição? Alguma coisa sempre ficará de fora.

      Quanto ao filme em apreciação... Não se deixe influenciar pelo meu comentário. Como se sabe, é apenas uma opinião. O melhor, sempre, é ver com os próprios olhos. Pelo que sei, "Visões de Sherlock Holmes" pode ser encontrado nas Lojas Americanas por aproximadamente treze reais. Também está disponível para download em arquivos torrent.

      Espero que consiga ver o filme. Caso sim, poste aqui um comentário.

      Obrigado por ter gostado da resenha.

      Um grande abraço.

      José Eugenio Guimarães

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