A história é pobre, até simplória. Foi executada com
sérias restrições orçamentárias. O aparato material de produção praticamente
inexistiu. Os efeitos especiais e algumas atuações beiram o primarismo. O ator estadunidense
Clint Eastwood estava no mato sem cachorro quando atendeu ao chamado do praticamente
desconhecido e italiano Sergio Leone. O diretor de apenas um pífio épico de
túnicas e sandálias — O colosso de Rodes (Il
Colosso di Rodi, 1961) — foi recusado por Henry Fonda, James Coburn,
Charles Bronson e outros tantos. Alguns o desdenharam. Conhecedor de cinema,
Eastwood logo adivinhou do que se tratava: o western europeu que estrelaria —
coprodução entre Itália, Espanha e República Federal da Alemanha —,
originalmente intitulado Il magnifico estraniero, era cópia
de Yojimbo
— o guarda-costas (Yôjimbô, 1961), de Akira Kurosawa.
Após oito semanas de filmagens e rápido período de pós-produção, estreou em
Florença sem campanha publicitária e apresentação à imprensa. O nome já era
outro: Per un pugno di dollari (1964) ou Por um punhado de dólares
no Brasil. O sucesso veio aos poucos, pelo boca-a-boca. A redenção artística
começou com crítica das mais elogiosas do cineasta Dario Argento. Dentro em
pouco, o título era solicitado em outras salas e cidades da Itália. Atraiu a
atenção da United Artists que o distribuiu nos Estados Unidos e mundo afora. Os
japoneses de Yôjimbô não gostaram e venceram um processo contra a
estrepitosa novidade. Porém, os roteiristas de ambos os títulos nunca pediram
cessão de direitos aos herdeiros de Dashiell Hammett. Por um punhado de dólares
revelou o talentoso compositor Ennio Morricone e um diretor criativo, expert na
violação de códigos, orquestração de planos e criação de atmosferas. Desprevenido,
Eastwood foi o último a saber do sucesso da realização. Em 1965 estaria
novamente com Leone e também no ano seguinte. A Trilogia dos Dólares vingou, fez história e pavimentou carreiras.
Segue apreciação escrita em 1981.
Por um punhado de
dólares
Per un pugno di dollari/Für eine handvoll dollar/Por un
puñado de dolares
Direção:
Sergio Leone
Produção:
Arrigo “Harry” Colombo, Giorgio “George”
Papi
Constantin Film (República Federal
da Alemanha), Ocean Films (Espanha), Jolly Film (Itália)
Itália, Espanha, República Federal
da Alemanha — 1964
Elenco:
Clint Eastwood, Marianne Koch, Gian Maria “Johnny Wels”
Volonté, Wolfgang Lukschy, Sieghardt Rupp, Joseph “Joe” Egger, Antonio Prieto,
José Calvo, Margarita Lozano, Daniel Martín, Mario “Richard Stuyvesant” Brega, Bruno
“Carol Brown’ Corotenuto, Aldo “Sambrell” Sambreli, Benito “Benny Reeves”
Stefanelli e os não creditados Raf Baldassarre, Luis Barboo, Frank Braña, José
Canalejas, Juan Cortés, Álvaro de Luna, Nino Del Arco, Joyce Gordon, Bernie
Grant, Jose Halufi, Lee Miller, Antonio Molino Rojo, Antonio Moreno, Nazzareno
Natale, José Orjas, Manuel Peña, Antonio Pica, Nosher Powell, Julio Pérez
Tabernero, José Riesgo, Lorenzo Robledo, Enrique Santiago, Umberto Spadaro,
Fernando Sánchez Polack, Peter Tevis, William R. Thompkins, Edmondo Tieghi,
Antonio Vico.
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Os cineastas Federico Fellini e Sergio Leone - diretor de Por um punhado de dólares |
Alguns dos momentos
mais constrangedores do cinema estão neste filme. Eis cinco: 1) o tiroteio
entre Baxter e Rojos no cemitério, “testemunhado” por dois soldados mortos —
inicialmente dados por vivos e que, evidentemente, não esboçam reação — durante
todo imbróglio; 2) a surra aplicada pelos Rojos em Joe (Eastwood); 3) o
processo de libertação de Marisol (Koch) por Joe, que a devolve ao marido Julian
(Martin) e filho Jesus (Del Arco) com a consequente dispersão da família pelo
deserto; 4) a violenta eliminação dos Baxter pelos Rojos, sem qualquer reação
das vítimas; e, 5) os momentos do definitivo ajuste de contas, com Ramón Rojo
(Volontè) desferindo seguidos e inúteis disparos contra Joe — internamente guarnecido
por armadura metálica.
No entanto,
apesar de todo o amadorismo, Por um punhado de dólares é, para
muitos fãs aguerridos, um dos filmes que mudaram a face do cinema. Reinventou o
western a partir de uma perspectiva europeia, não maniqueísta e amoral — apesar
do exagero da afirmação; projetou Clint Eastwood — até então coadjuvante de
pouca expressão do cinema estadunidense e ator de seriados televisivos —, o
criativo cineasta Sergio Leone e o talentoso compositor Ennio Morricone.
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"O homem sem nome" é Joe (Clint Eastwood) em Por um punhado de dólares |
Leone tinha
apenas um título na filmografia: o frágil épico pseudo-histórico O
colosso de Rodes (Il Colosso di Rodi, 1961). Porém,
contava com sólida reputação — consolidada desde 1946, como assistente de
direção e diretor de segunda unidade. Trabalhou em Ladrões de bicicleta (Ladri
di biciclette, 1948), de Vittorio De Sica; Fausto e o Diabo (La
leggenda di Faust, 1950), de Carmine Gallone; O flagelo de Deus (Il
brigante Musolino, 1950), de Mario Camerini; Quo vadis (Quo
vadis, 1951), de Mervyn Le Roy; Mercado de mulheres (La
tratta delle bianche, 1952), de Luigi Comencini; Iolanda, a filha do Corsário
Negro (Iolanda la figlia del Corsaro Nero, 1953), de Mario Soldati; Helena
de Tróia (Helen of Troy, 1956), de Robert Wise; Uma cruz à beira do abismo
(The
nun's story, 1959), de Fred Zinnemann; Ben-Hur (Ben-Hur,
1959), de William Wyler; e, entre muitos outros, Sodoma e Gomorra (Sodom
and Gomorrah, 1959), de Robert Aldrich. Com aprendizado firmado na
prática e observação, a passagem à direção seria o coroamento de um processo
natural.
Não são raros os
testemunhos de fãs e cronistas apressados que consideram Por um punhado de dólares
o primeiro western spaghetti ou o
primeiro exemplar europeu no gênero. Nada mais falso: a realização é apenas a
primeira a merecer considerações cosmopolitas. Desde que começaram a ser
produzidos, ainda nos primórdios do cinema, os westerns atraíram a atenção global.
Incursões estrangeiras pela categoria batizada por André Bazin como “O cinema
americano por excelência” logo entraram na pauta das produções populares do Velho
Mundo. Desde 1950, pelo que se sabe, começou a produção mais contínua dos
modernos spaghettis. O primeiro da
vaga é Eu sou o capataz (Io sono il capataz), de Giorgio
Simonelli. Até a entrada em cena de Por um punhado de dólares, cerca de
25 títulos do subgênero foram realizados por cineastas europeus, muitos
protagonizados por atores estadunidenses. As novidades introduzidas por Leone
se referem à recusa de repetir o formato hollywoodiano nas caracterizações: o
visual e os indivíduos são mais sujos, rudes, brutos e áridos; as posições de
câmera e os enquadramentos valorizam o dado operístico para o qual contribuiu
sobremaneira a originalíssima pontuação musical de Ennio Morricone. O cineasta
subverteu fórmulas consagradas e apresentou um Oeste seco, feio, duro,
poeirento e cortado pelo sol inclemente. Todas essas particularidades se
manifestam nas vestes e faces. Os rostos passam a impressão de não ver água há
meses e as barbas estão sempre por fazer, o que é muito coerente: remetem a gente
em contato direto com o meio natural e afastada das comodidades.
Porém, não é
procedente afirmar que partiu de Leone a subversão ética do “mocinho” — o
cowboy romantizado, revestido de atributos heroicos e moralmente impoluto, como
se fosse a própria essência do mito. É mais correto dizer que ele avançou mais
na desmistificação. Porém, não partiu da plenitude do zero. Prolongou um
processo de dessacralização já evidenciado pelo cinema estadunidense. O nobre
vingador Ringo Kid, vivido por John Wayne em No tempo das diligências
(Stagecoach,
1939), de John Ford, já se apresentava bastante humanizado em comparação aos
modelos anteriores. O próprio Ford é famoso pelos cuidados tomados para evitar
a simplificação maniqueísta na composição dos personagens de seus westerns. Em
1948 o mesmo Wayne fez o duro Thomas Dunson em Rio Vermelho (Red
River), de Howard Hawks, e oito anos depois estaria na pele do irascível
e extremado individualista Ethan Edwards — o solitário de Deus definido por um
código de conduta muito particular e pouco condizente com o ordenamento geral —
em Rastros
de ódio (The searchers), de Ford. Não podem ser esquecidos o cruel e
torturado vingador Jim Douglass (Gregory Peck) de Estigma da crueldade (The
bravados, 1958), de Henry King, e os tipos acinzentados interpretados
por James Stewart para Anthony Mann: Lin McAdam — Winchester’73 (Winchester’73,
1950); Glyn McLyntock — E o sangue semeou a terra (Bend
of the river, 1952); Jeff Webster — Região do ódio (The
far country, 1954); Will Lockhart — Um certo capitão Lockhart
(The
man from Laramie, 1955); e acima de tudo o caçador de recompensas
Howard Kemp — O preço de um homem (The naked spur, 1953). Não são personagens
moralmente virtuosos segundo as exigências que perfazem os heróis. Estavam ao
sabor das circunstâncias. Eram falhos, dúbios, violentos e até antissociais. É
certo que não atingiram maiores graus de desencantamento e profanação.
Entretanto, estavam mais próximos da vida; eram mais verdadeiros se comparados
aos cowboys idealizados nas vestes brancas da pureza, imagens de um tempo no
qual o gênero iniciou a implantação dos códigos básicos de sua mitologia. Além
do mais, nem o desgarrado, amoral e individualista Joe de Por um punhado de dólares
se move exclusivamente pelo cálculo do interesse egoísta. Arriscou a pele por Marisol
e família; sentiu ira ao saber de Silvanito (Calvo) aprisionado e torturado por
Ramón Rojo.
Clint Eastwood
foi a última opção considerada por Sérgio Leone para protagonizar o filme. No
cinema, era um obscuro ator coadjuvante não creditado, quase um figurante.
Possuía mais visibilidade na TV, graças ao papel de Rowdy Yates da série Rawhide[1]
— Eric Fleming, como Gil Favour, era a atração principal. Inicialmente, Leone
tentou Henry Fonda; a seguir James Coburn e Charles Bronson. Diante das
negativas, vislumbrou Lee Marvin, Frank Wolff, Tony Kendall, Cliff Robertson,
Steve Reeves, Horst Buchholz, Henry Silva, Rory Calhoun, Tony Russel e Ty
Hardin. Segundo algumas versões, Richard Harrison lhe sugeriu atenção aos protagonistas
de Rawhide.
Sondado, Fleming indicou o parceiro Eastwood[2].
Eastwood foi
contratado por 15 mil dólares. A produção teve orçamento de 250 mil. O aparato
se resumiu ao básico. Não havia camarins e setores especializados à guarda dos figurinos.
As instalações sanitárias eram precárias ou literalmente ajustadas ao terreno:
nas locações espanholas em Almeria e arredores de Madrid, o elenco masculino
fazia as necessidades fisiológicas atrás das rochas. Por segurança, Eastwood
confessou que levava os trajes para casa todas as noites, pois não havia peças de
reposição. Porém, quando retornou para rodar Por alguns dólares a mais
(Per
qualche dollaro in più, 1965), o salário subiu para 50 mil dólares e as
condições de trabalho melhoraram substancialmente — graças ao estupendo sucesso
de Por
um punhado de dólares.
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Joe (Clint Eastwood) no início de Por um punhado de dólares |
A campanha
publicitária da United Artists para o lançamento do filme nos mercados
estadunidense e mundial se referiu ao personagem vivido por Eastwood como “The
man with no name” (O homem sem nome). Igual identificação se estendeu aos demais
títulos da Trilogia dos Dólares. Às
vezes ocultava as denominações dos personagens nos títulos da trinca: Joe na
realização em apreço; Monco em Por alguns dólares a mais e Blondie
em Três
homens em conflito (Il buono, il brutto, il cattivo,
1966). Há semelhanças entre eles. Muitos pensam que são o mesmo indivíduo.
Engano: no máximo, são variações de um arquétipo. Tanto que as histórias se
passam em diferentes épocas e locais.
Muito
injustamente, Akira Kurosawa e Ryûzô Kikushima processaram judicialmente a
produção de Por um punhado de dólares. Acusaram-na de plagiar Yojimbo
— o guarda-costas (Yôjimbô, 1961). De início, estavam
cobertos de razão. As semelhanças são gritantes. O cineasta japonês passava por
situação idêntica pela segunda vez em pouquíssimo tempo: em 1960, John Sturges
lançou Sete homens e um destino (The magnificent seven) — adaptação
ao velho Oeste de Os sete samurais (Shichinin no samurai, 1954), de
Kurosawa. A apresentação dos créditos sequer menciona que o roteiro de William
Roberts tem por base a peça escrita por Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto e
Hideo Oguni. Apesar disso, Kurosawa ficou maravilhado com o trabalho de Sturges.
Até o presenteou com réplica cerimonial de espada samurai. Já os responsáveis
por Por
um punhado de dólares foram levados aos tribunais. Tiveram que repassar
aos japoneses o equivalente a 15% da arrecadação bruta nos mercados exibidores
do Japão, Taiwan e Coreia do Sul. Kurosawa teria declarado que nunca recebeu
tanto dinheiro, nem com as bilheterias dos próprios filmes. Entretanto, a
situação fica eticamente mal parada para os roteiristas de Yojimbo e Por
um punhado de dólares: partem de premissa claramente sugerida — e
jamais referenciada — por Dashiell Hammett na novela Seara vermelha (Red
harvest), de 1929.
Uma das mais
importantes e atmosféricas contribuições de Sérgio Leone e Por um punhado de dólares
ao cinema provém da magnética e original trilha musical de Ennio Morricone. É em
tudo diferente. As composições não são ilustrações e/ou comentários estáticos
das cenas. Sequer se parecem a elementos externos. Dão a impressão de brotar dos
locais de ocorrência dos eventos. Acentuam momentos dramáticos ao prolongá-los além
do tempo razoavelmente considerado como natural. Combinam harmonicamente
elementos sonoros muito variados: canto, gritos, sons de animais, assobios,
sopros, percussão, cordas e ruídos das coisas. Preenchem com vida inclusive as
peças de cenografia e vestuário. Morricone atribui alma ao filme. Sem o
compositor, seria uma história desprovida de qualquer profundidade; apenas uma
peça singela, pueril, fraca e repleta de gratuita exposição de violência
gráfica.
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Joe (Clint Eastwood) pronto para mostrar a que veio |
Os comentários
musicais são sui generis e incorporam
estilo todo apropriado às cenas. São também substantivos do ponto de vista estético.
Sem música tão enriquecedora, Por um punhado de dólares seria
insuportável em seu desenvolvimento simplório. Morricone promove uma
transformação operística da banalidade e da mais crua brutalidade. Um milagre
dramático acontece quando irrompem em cena os sons do clarim ou trompete de
Michele Lacerenza ou os solos de guitarra de Alessandro Alessandroni. Fazem
longas pontuações. Nos filmes seguintes da Trilogia
dos Dólares, une-se a esses valores a voz da soprano Edda Dell'Orso — capaz
de magnificar os espaços áridos e poeirentos prontos a sofrer profanação pelo egoísmo,
ganância, interesse e ódio dos personagens; quando não do humor negro de Leone.
Com restrições
orçamentárias, efeitos especiais primários e cenografia limitada ao essencial, Por
um punhado de dólares tem abertura das mais simples e eficazes. A apresentação
dos créditos se vale da animação de cavalgadas e perseguições estilizadas sobre
fundo majoritariamente vermelho, às vezes branco ou negro. É ritmada pela
composição-tema de Ennio Morricone enriquecida por sons de tiros e assobios.
As filmagens
duraram cerca de oito semanas com externas obtidas em locações espanholas. Os
fundos da produção terminaram antes da conclusão. A retomada se deu mediante
arriscados empréstimos e outras manobras financeiras. Os interiores foram
rodados em Roma, nos Estúdios Cinecittà. Aí também se elaboraram os efeitos
sibilantes dos disparos das armas. Na época, a baixa autoestima ainda predominava
nos westerns italianos. Na busca de respeitabilidade ou tentativa de iludir o
público com o selo da autenticidade made
in America, muitos técnicos e atores se valiam de pseudônimos anglo-saxões
como pode ser verificado na identificação do elenco e da equipe técnica. Gian
Maria Volontè se apresentou como John Welles, o cenógrafo Carlo Simi se
transformou em Charles
Simons , Ennio Morricone adotou a alcunha de Dan Sávio e
Sergio Leone assinou como Bob Robertson. Com o tempo, em vista do sucesso na
Itália e no exterior, as denominações originais substituíram os nomes de
conveniência.
A história é
simples. Acontece por volta de 1875, embora o único elemento que permita a
confirmação seja a data inscrita em um túmulo. Ao desértico lugarejo de San
Miguel, na fronteira entre Estados Unidos e México, chega Joe. Vem não se sabe
de onde. Tem a atenção despertada pelo garoto Jesus. O pequeno busca a mãe. É
covardemente brutalizado por guardas armados. A cena dolorosa mexe com os brios
do forasteiro. Porém, nada faz. No centro do povoado é recebido com zombarias
por pistoleiros. Conhece o sineiro Juan De Dios (Baldassarre/não creditado), o taverneiro
e hospedeiro Silvanito além do carpinteiro e agente funerário Piripero (Joseph Egger).
A economia de San
Miguel foi exaurida pela implacável disputa entre as famílias Rojo e Baxter com
considerável saldo de mortos. Necessitado de dinheiro, Joe decide instrumentalizar
a rixa em proveito próprio. Cínico, lacônico, frio, racional, extremamente
rápido no gatilho e aparentemente sem problemas de consciência, consegue servir
aos dois lados. A grande oportunidade lhe aparece ao descobrir o envolvimento
do psicótico e violento Ramón Rojo no contrabando de armas militares. Entretanto,
arrisca-se ao libertar do cativeiro a refém Marisol e devolvê-la à família.
Apesar de fortemente espancado por ordem de Ramón, escapa. Consegue abrigo com
a ajuda de Piripero, a tempo de presenciar o furioso e inclemente extermínio da
família Baxter pelos rivais. Por fim, recuperado dos ferimentos, prepara-se
para o inevitável acerto de contas.
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Gian Maria Volontè e Sieghardt Rupp são os irmãos Rojo: Ramón e Esteban |
A história flui de modo direto e em ritmo constante. Não é prejudicada por tempos mortos e interesses amorosos. Ao dado mais dinâmico da ação se incorporam os personalíssimos exercícios do estilo visual de Leone. Transformam Por um punhado de dólares em realização das mais atmosféricas. A direção prolonga dramaticamente os momentos de tensão com a inserção de inúmeros detalhes de partes de corpos em prontidão, closes em primeiríssimos planos, tomadas longas com a câmera se movendo como uma intrusa no meio das contendas. São detalhes que tornam a realização fascinante, até arrebatadora. Há angulações pouco comuns e uso inteligente da perspectiva. No entanto, tudo seria inútil exibicionismo se não fosse a cobertura musical. Os temas de Morricone esticam o tempo além do convencional. Tudo o que aconteceria num relance é pausadamente dissecado com acordes e pausas. Os espaços abertos e construídos são amplamente concebidos, para ressaltar a sensação de árida desolação. Nisso, paradoxalmente, amplia-se o fator humano pelo viés da resistência — como se sobreviesse a admiração pela possibilidade de vida, mesmo a mais desprezível e insignificante, em meio a paragens tão áridas e ermas.
Nos tiroteios a acertos de contas com armas de fogo, Leone subverteu a convenção que ordenava tomadas separadas e bem definidas para os indivíduos em pugna. Agora, com lentes grande-angulares e câmeras posicionadas às costas, sobre os ombros dos contendores ou lateralmente, tudo é filmado numa única e realística tomada, sem a necessidade dos cortes intrusivos. A violência física se tornou mais gráfica. Espancamentos e demais violações são detalhados sem pudores. O sangue jorra, as feridas abrem, os corpos são desnudados além do moralmente convencionado. O sadismo abandonou a contenção para se fazer livre e franco.
Clint Eastwood teve liberdades para criar visualmente o personagem. Utilizou botas semelhantes às usadas em Rawhide. Em lojas de Hollywood e Los Angeles adquiriu as peças de vestuário e o chapéu que o caracterizariam em toda a Trilogia dos Dólares. Encontrou o poncho surrado entre peças de figurino depositadas em Cinecittà. Por não fumar, aceitou contrariado as cigarrilhas negras impostas por Leone — que lhe realçavam a imprevisibilidade e o mistério.
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Silvanito (José Calvo) e Joe (Clint Eastwood) |
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Joe (Clint Eastwood) e Piripero (Joseph Egger) |
Originalmente, o título seria Il magnifico estraniero. A alteração para Per un pugno di dollari aconteceu pouco antes da estreia em sala secundária de Florença. Não houve campanha publicitária. Cronistas cinematográficos não se apresentaram. Tudo apontava para um fracasso estrondoso. No entanto, depois de seis meses continuava em cartaz no mesmo local, sustentado por lenta, constante e eficaz recomendação boca-a-boca. O público afluía em profusão para prestigiar o primeiro western de Sergio Leone. Logo, oportunidades de exibição se abriram em Roma, Milão, Turim e mais cidades importantes. Novas cópias foram providenciadas às pressas e sem os devidos cuidados. Algumas não completaram o processo necessário de combinação dos negativos vermelho, amarelo e verde exigido pelo Technicolor. Mesmo assim, foram enviadas à exibição. Leone chegou a receber parabéns de um espectador que considerou genial conceber todo o filme em vermelho! O cinema italiano conhecia inusitadamente um novo campeão absoluto de bilheteria.
A esta altura a imprensa despertou. Em geral, as críticas não foram boas. A exceção partiu do diretor e roteirista Dario Argento — é, com Leone e Bernardo Bertolucci, autor da história que originou Era uma vez no Oeste —, então crítico do diário romano Paese Sera. Manifestou adesão entusiástica ao filme. Destacou principalmente a imaginação, a originalidade e a violência.
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Ramón Rojo (Gian Maria Volontè) |
O aspecto
anedótico de tudo isso diz respeito a Eastwood. Ficou sem notícias do filme que
o lançou como protagonista. Ninguém da produção o avisou da mudança de nome.
Assim, soube tardiamente do estupendo retorno nas bilheterias que chancelou o
lançamento de Por um punhado de dólares além do mercado italiano — inclusive nos
Estados Unidos. Daí teria distribuição mundial pela United Artists. Eastwood
tomou ciência das boas novas pela Variety, quase um mês após o
lançamento em Florença.
A lenta e
frutífera virada de Por um punhado de dólares, saído da obscuridade para a grande
visibilidade, elevou imediatamente, no mesmo movimento, o status artístico da
obra — inclusive junto à imprensa que a tinha menosprezado praticamente em uníssono. A redenção
veio acompanhada do prêmio Nastri d’Argento do Sindicato Nacional dos Jornalistas
de Cinema da Itália para Ennio Morricone pela Melhor Trilha Musical de 1965.
Gian Maria Volontè, tão criticado por Leone — que o acusou de oferecer
desempenho por demais operístico e arrogante —, foi indicado a Melhor Ator
Coadjuvante. Perdeu para Leopoldo Trieste em Seduzida e abandonada (Sedotta
e abbandonata, 1964), de Pietro Germi.
Aberta a
possibilidade de lançamento de Por um punhado de dólares no
exterior, com os Estados Unidos como porta de entrada, sobreveio a necessidade
de se repensar toda a questão relacionada ao som, principalmente no tocante aos
diálogos. Muitos atores não sabiam exatamente o que diziam outros companheiros
de atuação. A parte italiana do elenco se expressou na língua de origem. Porém,
havia Eastwood. Por mais lacônico que fosse o personagem, exprimiu-se em inglês. A alemã Marianne
Koch, também com poucos diálogos, valeu-se do idioma natal. Outros atores falavam
apenas o espanhol. Em suma, locações e sets eram uma Babel. Os atores
simplesmente repetiam as falas que recebiam. Na pós-produção houve a
uniformização linguística com a dublagem dos não italianos. O mercado exterior forçou
nova operação. Eastwood foi convocado para deixar Joe falando em inglês. Para essa
língua foram vertidos os diálogos dos demais personagens.
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Joe (Clint Eastwood) |
O lançamento nos
Estados Unidos só aconteceu em 1967, três anos após as filmagens. De início,
Eastwood pensou que ficaria à deriva, pois não havia outras possibilidades
abertas a ele. Felizmente, diante do sucesso Leone concebeu outro western e o
escalou para protagonista. Convocou também o tão menosprezado Gian Maria
Volontè, mais uma vez no papel de vilão em Por uns dólares a mais. Outro ator
estadunidense, até então relegado a papéis menores, foi incluído: Lee Van
Cleef. Em 1966, com Três homens em conflito, houve a incorporação do também
estadunidense Eli Wallach. Completava-se assim a posteriormente denominada Trilogia dos Dólares. Clint Eastwood estava
garantido no rol da fama. Nada mal para quem trocou os Estados Unidos pela
Itália, sem muitas perspectivas, no começo de tudo. Os personagens que
interpretou para Leone lhe redefiniram a carreira. Ator limitado mas
convincente, mostrou-se quase sempre em papéis de poucas falas e sustentado por
um conjunto de princípios que os revelavam eticamente nos momentos de precisão.
Tal qual o amoral Joe, que se manifestou para Marisol ao libertá-la do
cativeiro de Ramón Rojo. Com esse ato o misterioso forasteiro deixou de ser o
simples mercenário voltado exclusivamente para tirar proveito de situações
infelizes. Mesmo assim, a personagem vivida por Marianne Koch teve que
perguntar: “Por que faz isso?”. A resposta é até humanizadora: “Porque conheci
alguém como você e não havia quem pudesse ajudar”. No fundo, apesar de tantas
mudanças operadas nos processos de transformação do herói do western para o anti-herói
amoral, o personagem de Eastwood não abandonou algumas linhas básicas — sempre
encontradas nesse percurso: a retórica é dispensável; valem as ações e estas
são suficientes para revelar a moralidade dos indivíduos, sempre nos momentos
extremamente necessários — quando são afetados por algo muito pessoal e íntimo.
Roteiro: Jaime Comas Gil, Víctor Andrés Catena, Clint
Eastwood (não creditado), Sergio Leone, Duccio Tessari (não creditado), Fernando
Di Leo (não creditado), Tonino Valerii (não creditado), baseados em história de
Víctor Andrés Catena, Adriano Bonzzoni e Sergio Leone. Diálogos da versão em inglês: Peter “Mark Lowell” Fernandez. Direção de Fotografia (Technicolor,
Techniscope): Massimo “Jack Dalmas” Dallamano, Federico G. Larraya. Música e direção musical : Ennio “Dan
Savio” Morricone. Temas musicais: Per
un pugno di dollari (créditos), La reazione, Senza pietà, Alla
ricerca dell'evaso, Tortura, L'inseguimento, Cavalcata,
Scambio
di prigionieri, Per un pugno di dollari 1, Doppi
giochi, Consuelo Baxter, Ramon, Square dance, Musica
sospesa, Quasi morto, Per un pugno di dollari (epílogo). Direção de arte: Carlo “Charles Simons”
Simi. Decoração: Sigfrido Burmann,
Francisco Rodríguez Asensio, Carlo “Charles Simons” Simi. Costumes: Carlo “Charles Simons” Simi. Gerentes de unidade de produção: Fernando “Fred Ross” Rossi,
Anselmo Zabala. Assistentes de produção:
Pietro “Peter Saint” Santini, Jerónimo Montoro, Marta Pons, Eugenio Villar. Efeitos especiais: Giovanni “John Speed”
Corridori, Manuel Baquero. Montagem:
Roberto “Bob Quintle” Cinquini, Alfonso Santacana. Maquiagem: Sam Watkins, Alberto Gutiérrez. Assistentes de direção: Franco “Frank Prestland” Giraldi, Julio
Sempere (não creditado), Tonino Valerii (não creditado), Mario Caiano (não
creditado). Continuidade: Tilde
Watson, Maria Antonia Puerta. Som: Elio
“Edy Simson” Pacella. Consultoria
técnica: William R. Thompkins. Gerentes
de produção: Franco “Frank Palance” Palaggi, Günter Raguse, Jaime Comas
Gil, Ramón Crespo. Músicos (não
creditados): Michele Lacerenza (trompete), Alessandro Alessandroni
(arranjos do coral, guitarra elétrica, solos de guitarra, assobios), Cantori
Moderni Di Alessandroni (coro), Peter Tevis (canto). Consultor de westerns: Clint Eastwood (creditado somente nas cópias
italianas). Sistema de mixagem de som:
Western Electric Sound. Assistente de
montagem: Alicia Castillo. Penteados:
Dolores Clavel. Assistente de maquiagem:
José Luis Pérez (não creditado). Chefe
do departamento de maquiagem: José María Sánchez (não creditado). Direção de segunda unidade: Franco
Giraldi (não creditado). Assistentes de
decoração: Adolfo Cofiño, Rafael Pérez Murcia. Contrarregra: Luis Ocaña. Desenho
do poster original: Renato Casaro (não creditado). Coordenação de dublês: Benito Stefanelli. Dublês (não creditado): Nosher Powell, William R. Thompkins. Operadores de câmera: Stelvio “Steve
Rock” Massi, José Sánchez, José María Sánchez. Assistentes de câmera: Eduardo Noé, Ramón Sempere. Fotografia de cena: Julio Wizuete. Animação da apresentação dos créditos:
Igino Lardani (não creditado). Guarda-roupa:
María Casado. Secretaria de produção:
Pietro “Peter Saint” Santini. Secretária
da direção: Marisol de Villanueva. Dubladores
(não creditados): Ferruccio Amendola (Antonio Molino Rojo), Giorgio
Capecchi (Wolfgang Lukschy), Dhia Cristiani, Arturo Dominici (Juan Cortés),
Corrado Gaip, Lauro Gazzolo (Josef Egger), Nando Gazzolo (Gian Maria Volonté),
Sergio Graziani (Aldo Sambrell, Benito Stefanelli), Oreste Lionello (Antonio
Moreno), Anna Miserocchi (Margarita Lozano), Glauco Onorato (Lorenzo Robledo),
Luigi Pavese (José Calvo), Nino Pavese (Daniel Martin), Bruno Persa (Sieghardt
Rupp), Mario Pisu (Antonio Prieto), Enrico Maria Salerno (Clint Eastwood),
Deddi Savagnone (Nino Del Arco), Rita Savagnone (Marianne Koch), Renato Turi
(Mario Brega). Intérpretes de línguas
(não creditados): Elena Dressler, Benito Stefanelli. Publicidade: Géneviève Hersent (não creditado). Direção de diálogos: Tonino Valerii
(não creditado). Estúdio de edição
musical: R.C.A. Estúdios de
combinação de sons: Titanus, Cooperativa Doppiaggio Cinematografico (CDC). Empresa de guarda-roupa: Cornejo. Serviços de contrarregra: Vázquez
Hermanos. Tempo de exibição: 99
minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1981)
[1] Rawhide tem oito temporadas. Soma
217 episódios. É produção de Endre Bohem, Vincent M. Fennelly, Bruce Geller, Bernard
L. Kowalski, Charles Marquis Warren e Robert E. Thompson (produção executiva).
Originalmente, teve exibição pela rede CBS (Columbia Broadcasting System) de 9
de janeiro de 1959 a
7 de dezembro de 1965.
[2] Segundo outras fontes, um dos produtores de Rawhide,
Charles Marquis Warren, indicou Eastwood a Leone. Até a agente italiana Claudia
Sartori entra em cena, com a orientação para o cineasta conferir a série.
Diante da obsessão de Leone por James Coburn, ela teria dito: “Seja realista se
pretende fazer o filme”. Henry Fonda nem soube da proposta, desprezada pelo
agente que a considerou execrável. James Coburn pediu mais dinheiro do que a
produção poderia oferecer e Charles Bronson recusou com a alegação de que nunca
viu roteiro tão ruim. Bem mais tarde, quando os westerns de Sergio Leone
ganharam relevância internacional, Henry Fonda e Charles Bronson estrelaram Era
uma vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968) e
James Coburn atuou em Quando explode a vingança (Giù
la testa, 1971).