As guerras, não importam se quentes ou frias, favorecem
histórias de espiões, serviços secretos e apropriação de segredos de Estado. Um
escritor antenado como Graham Greene não escaparia ao tema, ao menos como
exercício de desmistificação. Ele e o cosmopolita cineasta brasileiro Alberto
Cavalcanti tentaram, ao fim da Segunda Grande Guerra, desenvolver projeto sobre
um acomodado vendedor de aspiradores de pó cooptado ao posto de agente secreto.
A ação em tom de sátira teria por palco a remota e estoniana cidade de Tallinn
em fins dos anos 30. Ao que se sabe o cioso Serviço Secreto Britânico não
gostou e pôs fim à brincadeira. Cavalcanti buscou outros afazeres, mas Greene
não deixou a ideia morrer. Concretizou-a em 1958. Deslocou o centro de
operações para a capital de Cuba ao tempo da ditadura de Fulgencio Bastista e
publicou a novela Our man in Havana. Carol Reed, habituado a verter textos de
Greene para o cinema, dirigiu o filme com exteriores rodados na cidade do
título. Alec Guinness vive o pacato inglês Jim Wormold, remediado vendedor de
aspiradores. Precisa de dinheiro para educar no exterior a filha Milly (Jo
Morrow). Assim também a livrará do assédio amoroso do brutal Capitão Segura (Ernie
Kovacs) da polícia política local. Inesperadamente, surge a oportunidade de
ganhar algum dinheiro como o espião 59200/5 do MI6. Imaginação para mostrar serviço
não lhe falta. Trabalha tão bem a ponto de receber reforços enviados por
Londres, inclusive a experiente agente Beatrice Severn (Mauren O’Hara).
Infelizmente, a farsa se mistura à realidade com resultados trágicos. O
nosso homem em Havana (Our man in Havana, 1959) é eficaz
mistura de drama e comédia com excelentes diálogos e maravilhoso aproveitamento
cenográfico das locações havanesas. Fidel Castro já estava no poder quando as
filmagens aconteceram. As lideranças revolucionárias colaboraram com a
produção. Antes, preocupadas, revisaram atentamente o roteiro. Faltava pouco
para o bloqueio dos EUA a Cuba. Em consequência, o governo revolucionário se
alinhou à URSS. Segue apreciação datada de 1997, revista e ampliada em 2001.
O nosso homem em
Havana
Our man in Havana
Direção:
Carol Reed
Produção:
Carol Reed
Kingsmead Productions Ltd.,
Columbia Pictures Corporation
Inglaterra — 1959
Elenco:
Alec Guinness, Maureen O’Hara, Noël
Coward, Burl Ives, Ralph Richardson, Ernie Kovacs, Jo Morrow, Grégoire Aslan,
Paul Rogers, Raymond Huntley, Ferdy Mayne, Maurice Denham, Joseph G. “Jose”
Prieto, Duncan McCrae, Gerik Schjelderup, Hugh Manning, Karel Stepanek, Maxine
Audley, Elisabeth Welch, Yvonne Buckingham e os não creditados Enrique
Almirante, Timothy Bateson, René de la
Cruz , Reginald Holder, Madeleine Kasket, Juba Kennerley, Shan
Lawrence, John Le Mesurier, Aileen Lewis, Anne Padwick, Bob Raymond, Rachel
Roberts, John Tatum.
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Alec Guinness - intérprete de Jim Wormold - e o diretor Carol Reed chegam em Cuba para as filmagens de O nosso homem em Havana |
Muito
remotamente, o diretor desta sátira aos serviços de espionagem seria o mais
internacional dos cineastas brasileiros: Alberto Cavalcanti. Ele e o escritor
Graham Greene conversaram, ao fim da Segunda Grande Guerra, sobre uma história
totalmente inventada acerca de um pacato e remediado vendedor de aspiradores de
pó convencido a entrar para o serviço secreto. Originalmente, o centro urbano
da intriga seria Tallinn, na Estônia, ao final dos anos 30.
Infelizmente, as
muito ciosas autoridades britânicas não gostaram da brincadeira. Cavalcanti se
voltou para outras atividades. Greene não desistiu da sugestão. Atento
observador do movimento das agências de inteligência alemã em Portugal durante os
anos da guerra, tinha inspiração e material de sobra para escrever a respeito.
Em 1958 publicou o cinematográfico romance Our man in Havana. A distante
Estônia, agora sob influência soviética, foi substituída por Cuba sob a brutal
ditadura de Fulgencio Batista.
Coube a Carol
Reed levar Our man in Havana ao cinema. Estava afeiçoado ao universo de
Greene. Em 1948 filmou O ídolo caído (The fallen idol),
adaptado do texto ainda inédito The basement room. Na sequência, em
1949, realizou O terceiro homem (The third man, 1949), extraído do
original lançado em livro no ano seguinte. A publicação de Our man in Havana
encontrou solo fértil. Após a Segunda Guerra Mundial, a tensão ideológica entre
o bloco ocidental capitalista — liderado pelos Estados Unidos — e o oriental,
comunista — com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) à frente
—, foi consideravelmente ampliada. A construção do Muro de Berlim em 1961 e o
imaginário permeado de mistério e terror sobre os acontecimentos a leste da
Cortina de Ferro forneciam farta munição aos escritores. Os livros de Ian
Fleming, criador de James Bond, já chamavam a atenção do cinema bem antes do
sucesso de O satânico Dr. No (Dr. No, 1962), de Terence Young. Um
dos mais prolíficos autores da literatura de espionagem, John Le Carré, é
impulsionado por este boom. Estreia
em 1961 com Call for the dead e lança em dois anos O espião que saiu do frio
(The
spy who came in from the cold). Foram adaptados para o cinema por,
respectivamente, Sidney Lumet — Chamada para um morto (The
deadly affair, 1967) — e Martin Ritt — O espião que veio do frio
(The
spy who came in from the cold, 1965). Mais recentemente, certamente inspirado
por Greene, Le Carré publicou história em linhas gerais semelhante à Our
man in Havana: O alfaiate do Panamá (The
tailor of Panama), levada ao cinema em 2001 por John Boorman[1].
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Alec Guinness interpreta Jim Wormold |
O que varia
consideravelmente dos textos de Graham Greene para os de Ian Fleming, John Le
Carré e outros autores impulsionados pela vaga da espionagem é o tom. Para
esses, é geralmente sério, praticamente grave. Por outro lado, assume
claramente as vestes da sátira ou galhofa em Our man in Havana. Greene
situa o tema no plano da comédia de equívocos levada a termo por pessoas
comuns, excessivamente terrenas até, que tentam conduzir atividades confidenciais
de desenterrar segredos prontos a comprometer a credibilidade de governos e
Estados.
Fidel Castro
estava no poder quando Carol Reed utilizou as locações da capital cubana para
rodar o misto de aventura, drama e comédia de espionagem que se tornou O nosso
homem em Havana. O roteiro é do próprio Graham
Greene. A história, apesar de localizada na era de Fulgencio Batista, preocupou
os titulares do novo governo. Afinal, não queriam de forma alguma que pairassem
dúvidas acerca da Cuba que seria retratada. Não foi apenas por interesse
cinéfilo que o próprio Fidel Castro compareceu, em 13 de maio de 1959, às
tomadas na Praça da Catedral de Havana. Ministros e secretários examinaram com
cuidado o roteiro e sugeriram 39 mudanças para deixar clara a questão da
ambientação política e, principalmente, a identidade e reais intenções do
personagem claramente identificado como vilão: o violento e aproveitador
Capitão Segura (Kovacs) da polícia política de Batista. Inclusive, seria
barbudo. A produção achou melhor deixá-lo glabro — exceto pelo bigode — para
não envolvê-lo com a aparência geral dos revolucionários.
As tomadas
externas atraíram a atenção dos ruidosos, festivos e receptivos moradores de
Havana — principalmente por causa da presença de Maureen O’Hara. Ela e Alec
Guinness foram fotografados ao lado de Castro e junto a populares. Como nem
sempre era possível conter a animação dos presentes, o tempo de filmagens em
Cuba foi abreviado de sete para cinco semanas e as cenas aí geradas tiveram que
ser dubladas na fase de pós-produção por causa das interferências auditivas indevidas.
Os interiores foram filmados nos ingleses Estúdios Shepperton ao longo de 11
semanas.
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Maureen O'Hara, Fidel Castro e Alec Guinness |
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Maureen O'Hara com populares em Havana |
Na Havana pré-revolucionária, o pacato inglês Jim Wormold (Guinness) leva
vida medíocre e financeiramente apertada como vendedor de aspiradores de pó.
Tem responsabilidades com a filha Milly (Morrow), adolescente e perdulária, que
cria sozinho. Preocupado com o futuro da jovem, pretende educá-la
convenientemente em afamada e dispendiosa escola na Suíça. Mandá-la para fora
da ilha tem também o propósito de livrá-la das investidas amorosas do Capitão
Segura, notório agente e torturador do serviço secreto de Batista, conhecido
pela assustadora alcunha de Abutre Vermelho. Wormold precisa de dinheiro.
Infelizmente, os negócios vão mal e não há promessas imediatas de melhorias.
Porém, abrem-se oportunidade das mais improváveis. A vida besta que leva muda
de uma hora para outra após a visita de um certo Hawthorn (Coward). É um espião
a serviço da Grã Bretanha, identificado pelo número 59200 do Secret
Intelligence Service (SIS), também conhecido como Military Intelligence –
Section 6 (MI6). Tem a intenção de recrutar o acomodado Wormold para os quadros
da agência. A remuneração é tentadora: 150 dólares ao mês mais o custeio de
despesas. O vendedor de aspiradores de pó — disfarce mais que perfeito — seria
o subagente 59200/5 e teria a própria Cuba como base operacional.
Aparentemente, teria que fazer muito pouco para mostrar serviço. Bastaria
recrutar dois subagentes e enviar periodicamente os relatórios de atividades a
Londres.
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O temido Capitão Segura (Ernie Kovacs), apelidado de Abutre Vermelho |
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Hawthorn (Noël Coward) e Jim Wormold (Alec Guinness) |
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Jim Wormold (Alec Guinness) e o Dr. Hasselbacher (Burl Ives) |
Por mais
acomodado que pareça, Wormold não é tolo. É um pai amoroso e preocupado. Sabe
que precisa salvar a filha e a si próprio do pior. Atordoado pela proposta,
conversa com o amigo e médico alemão Dr. Hasselbacher (Ives). Este sugere, sem
rodeios: invente! Alega que não fará nada de imoral se apelar à fabulação, pois
a espionagem não passa de um jogo, uma partida que os países envolvidos
disputam da forma que podem. Wormold aceita o conselho e põe a imaginação para
trabalhar. Fantasia o próprio círculo particular de agentes auxiliares, concebe
relatórios a partir do talento para a escrita e os ilustra com plantas de
gigantescas e secretíssimas instalações — supostamente perigosas — adaptadas
dos formatos e engrenagens dos aspiradores que comercializa. Tudo funciona
muito bem. Em Londres, todos ficam maravilhados. Acreditam que Wormold é o
melhor e mais eficaz agente secreto a serviço da rainha. Os pagamentos são
regiamente depositados. Porém, não esperava receber reforços: Beatrice Severn
(O’Hara) e Rudy (Bateson/não creditado) chegam para auxiliá-lo.
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Jim Wormold (Alec Guinnness) e Beatrice Severn (Maureen O'Hara) |
A partir daí o
jogo começa a desandar e ficar perigoso, inclusive para as vidas envolvidas. A
farsa se mistura com a realidade quando um dos relatórios de Wormold é
interceptado em Cuba. O
violento aparato policial de Batista entra em cena. Gente inocente é
aprisionada e morta no decorrer das sumárias investigações. O Dr. Hallsebacher
é desmascarado. Revela-se, sob a fachada do médico, um agente secreto alemão. A
segurança de Wormold e Milly está ameaçada pelo Capitão Segura. Somente a
experiente Beatrice, por quem o vendedor está apaixonado, poderá livrá-lo das
enrascadas.
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O Capitão Segura (Ernie Kovacs) e Jim Wormold (Alec Guinness) |
Evidentemente, tudo
termina da melhor forma. Livres do assédio de Segura, Wormold, Milly e Beatrice
embarcam às pressas para Londres. Na capital britânica planejam uma tranquila
vida a três. Afinal, ao descobrir que foi exemplarmente ludibriado o Serviço
Secreto Britânico desmonta a conexão cubana. Para não se transformar em motivo
de riso no cenário internacional — enganado que foi por um vendedor de
aspiradores de pó —, simplesmente abafa o caso e não pune os responsáveis.
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Jim Wormold (Alec Guinness) e Beatrice Severn (Maureen O'Hara) |
O nosso homem em
Havana é comédia de bom funcionamento. A direção é leve e descompromissada,
mais preocupada em ressaltar o absurdo de situações e a humanidade dos
personagens. Carol Reed destaca principalmente os diálogos espirituosos
escritos por Greene. Quando a trama é envolvida por aspectos mais sombrios, a
atmosfera comunicada pelos ambientes, inclusive pela cidade de Havana, evidencia
cinematograficamente a sensação de perigo. Nesse quesito cabe ressaltar a
direção de fotografia de Oswald Morris: vale-se de imagens em perspectiva do
cenário urbano quando o mundo em torno do improvisado espião ameaça desmoronar.
Todo o elenco está
muito bem. Merece especial consideração a atuação de Ernie Kovacs. Não faz um
vilão estereotipado. Apesar de profissionalmente violento e cruel, o Capitão
Segura deseja ardentemente o amor e a atenção de Milly. Esta, porém, tem olhos
voltados apenas para o cavalo que ganhou de presente. O lascivo e perspicaz
policial sabe muito bem que Wormold está envolvido em alguma coisa e tenta, de modo
bastante crível, descobrir o que é.
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Jo Morrow como Milly Wormold |
O nosso homem em
Havana poderia abrir um filão todo próprio para satirizar os filmes de
espionagem. Infelizmente, o contexto geopolítico não era favorável às
brincadeiras do tipo. A norma logo voltou a imperar com as mirabolantes
aventuras de James Bond a partir de 1962. De lado ficaram as pessoas comuns
envolvidas em tom menor nos bastidores das relações internacionais. Entrou em
cena a eficácia instrumental de especializadíssimos agentes cosmopolitas,
impecavelmente trajados e apoiados por armamentos e gadgets de ponta. Acerca
disso, O nosso homem em Havana dá a impressão de fazer um vistoso
chamamento ao personagem criado por Ian Fleming. Nas vizinhanças de Wormond há
uma placa luminosa onde se lê “Bond”. Na verdade, é referência às organizações Bond
Clothiers, especializadas na confecção de roupas masculinas e presentes nas
principais cidades do Ocidente. Quem sabe, não veio desse detalhe a inspiração
para John Lee Carré escrever O alfaiate do Panamá?
Jean Seberg e
Lauren Bacall foram sondadas para o filme. A primeira, considerada para o papel
de Milly, estava envolvida com as personagens de Cecile em Bom dia, tristeza (Bonjour
tristesse, 1958), de Otto Preminger, e Helen Kokintz de O
rato que ruge (The mouse that roared, 1959), de
Jack Arnold. Bacall faria Bearice Severn. Abriu mão da oportunidade devido aos
atrasos nas filmagens de Sangue sobre a Índia (North
West frontier, 1959), de J. Lee Thompson.
Direção de fotografia (preto e
branco, CinemaScope): Oswald
Morris. Roteiro: Graham Greene,
baseado em sua novela homônima. Produtor
associado: Raymond Anzaruth. Direção
de arte: John Box. Montagem:
Bert Bates. Gerente de unidade de
produção: James H. Ware. Assistente
de direção: Gerry O’Hara. Operador
de câmera: Dennys N. Coop. Continuidade:
Maggie “Margaret Shipwey” Unsworth. Assistente
de direção de arte: Syd Cain. Supervisão
de som: John Cox. Gravação de som:
John W. Mitchell, Red Law. Edição de
som: Teddy “Ted” Mason. Maquiagem:
Harry Frampton. Penteados: Gordon
Bond. Figurinos: Phyllis Dalton. Guarda-roupa: Betty Adamson, Arthur
Newman. Execução musical: Frank
Deniz, Laurence Deniz (The Hermanos Deniz Cuban Rhythm Band). Música (não creditada): Frank Deniz, Laurence
Deniz. Contrarregra: Chuck Ferrigno
(não creditado). Planejamento do set:
John Graysmark (não creditado). Estúdio
de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 111 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1997; revisto e atualizado
em 2001)