domingo, 23 de agosto de 2015

PECKINPAH PROLONGA O CREPÚSCULO DO COWBOY SOBRE A AMARGURA CONTEMPORÂNEA DE JUNIOR BONNER

Dez segundos de perigo (Junior Bonner, 1972) irrompe como corpo estranho na filmografia de Sam Peckinpah. A sensação se justifica diante do filme imediatamente anterior do cineasta, Sob o domínio do medo (Straw dogs, 1971). À violência exacerbada, levada a termo com cirúrgica precisão matemática, segue-se um compassado, calmo, terno, lírico, amargo e nostálgico western contemporâneo. No entanto, o diretor não abandonou seus temas e territórios referenciais. Retornou, pode-se dizer, à mitologia do velho Oeste — tão cantada em realizações seminais — para continuar abordando o crepúsculo do cowboy. Desse modo, Dez segundos de perigo é prolongamento lógico das baladas interpretadas pelo realizador, principalmente em Pistoleiros do entardecer (Ride the high country, 1962), Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969) e A morte não manda recado (The ballad of Cable Hogue, 1970). Após decretar a morte física e simbólica do homem do Oeste nesses filmes, Peckinpah localiza seus resistentes restos em movimento na contemporaneidade instrumentalizada e mecanizada. Steve McQueen faz o ás de rodeio Junior Bonner, cowboy motorizado na tentativa algo vã de superar a estreita circularidade de seu âmbito de ação em nome da própria sobrevivência e dos valores paternos. Move-se na crueldade de um tempo feito de glórias nada heróicas, cada vez mais insignificantes e efêmeras. A apreciação a seguir é de 1974.






Dez segundos de perigo
Junior Bonner

Direção:
Sam Peckinpah
Produção:
Joe Wizan
Joe Wizan-Booth Gardner Productions, SolarProductions, American Broadcasting Company Pictures
EUA — 1972
Elenco:
Steve McQueen, Ida Lupino, Ben Johnson, Robert Preston, Joe Don Baker, Barbara Leigh, Bill McKinney, Sandra Deel, Donald "Red" Barry, Dub Taylor, Charles H. Grey, Matthew Peckinpah, Sundown Spencer, Rita Garrison, Mary Murphy, Roxanne Knight, Sandra Pew, William E. Pierce, P. K. Strong, Toby Sargent, Bonnie Clausing, Francesca Jarvis, George Weintraub, June Simpson e os não creditados Lynette Carrington, James M. George, Rod Hart, Wayne McLaren, Johnnie Mullens, Sam Peckinpah, Sharon Peckinpah, Casey Tibbs.



O ator Steven McQueen com o diretor Sam Peckinpah em conferência ao roteiro durante intervalo nas filmagens de Dez segundos de perigo (Junior Bonner)



Dez segundos de perigo abriu oficialmente a mostra competitiva do Festival de Cinema de San Sebastian em 1973. Nem parece filme de Sam Peckinpah, tamanha a calma, a ternura e o humor que pontuam nesse western contemporâneo repleto de lirismo e nostalgia. Mas a estranheza despertada por tanta mansidão tem razão de ser. Não que o poeta da violência temperada com banhos de sangue e câmera lenta não seja chegado ao lirismo e às narrativas calmamente compassadas. Pistoleiros do entardecer (Ride the high country, 1962) e A morte não manda recado (The ballad of Cable Hogue, 1970) — algumas de suas melhores realizações no western — estão aí para provar. Porém, Dez segundos de perigo aparece na filmografia de Peckinpah logo após Sob o domínio do medo (Straw dogs, 1971) — exercício no qual a exacerbação da violência nua e crua é minuciosamente preparada, com a racionalidade da precisão matemática, para entrar em cena. Diante disso, não se pode esquecer também de um determinado setor da crítica, fechado em avaliações conservadores, que estigmatiza o diretor como cultor da mera violência irracional — tremendo erro de avaliação.



Acima e abaixo: Steve McQueen no papel de Junior Bonner


Ao fim de A morte não manda recado acontece a morte física de Cable Hogue (Jason Robards) — e o desaparecimento simbólico do cowboy — no exato instante em que um automóvel invade suas paragens. O veículo motorizado também marca presença em Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969) como prenúncio de que o mundo das cavalgadas, ao qual o cinema nos habituou a apreciar a mitologia do Oeste, chegava ao fim. Nesse campo se movimenta o cine western de Sam Peckinpah: o realizador fala de uma esfera em transição e percebe as consequências das transformações sobre o modo de ser dos indivíduos que a habitam. É o que se vê em Pistoleiros do entardecer: os cowboys crepusculares Gil Westrum (Randolph Scott) e Steve Judd (Joel McCrea) assistem à chegada de nova era, à qual não estão preparados, e partem resolutos rumo ao fim. Antecipam-se ao epílogo inglório que os encontraria inadaptados, abandonados e esquecidos; sem direito à existência digna, oferecidos como peças de relicário em mafuás e espetáculos mambembes de toda sorte para garantir a sobrevivência. Seriam convertidos em estereótipos do que foram, curiosos exemplares raros de um período encerrado. Os celerados Pike Bishop (William Holden), Dutch Engstrom (Ernest Borgnine), Lyle Gorch (Warren Oates) e Tector Gorch (Ben Johnson) de Meu ódio será sua herança percebem claramente o estreitamento do seu raio ação, fato que os deixa sem alternativas, a não ser a morte num desesperado último ato no qual darão mostras do melhor que ainda são. O tempo age violentamente sobre os homens, ainda mais nos momentos de mudanças radicais. Uma era termina forjando o início de outra no atropelo de vidas inconclusas, largadas à beira do caminho palmilhado de corpos ensanguentados. O tempo não passa pacificamente. Acerca disso, Peckinpah está entre os cineastas mais conscientes. O processo destrói não apenas vidas, mas modos de viver. O preço cobrado por isso é alto, em forma de carne, vísceras e sangue. Não para menos o epílogo de Meu ódio será sua herança é uma ópera trágica tingida de vermelho. Mas trágico também é o fim de Cable Hogue em A morte não manda recado: morre na cama, impotente, testemunhando o mecanismo motorizado invadir o espaço ao qual atribuía sentido e se valorizava como ser humano. Perplexo, só consegue perguntar que coisa estranha é aquela a se mover sobre rodas sem a necessidade de cavalos.


Steve McQueen como Junior Bonner


Instalado na contemporaneidade, nem por isso Dez segundos de perigo deixa de ser western de transição. Agora, os descendentes dos pioneiros, representados na amargura de Junior Bonner (McQueen) assistem impotentes ao esfacelamento dos valores mais caros do que restou de seus âmbitos físico e simbólico.


Junior Bonner (Steve McQueen) no efêmero tempo da arena


Junior Bonner é astro de rodeios. Depois de ferido por um touro na arena, retorna a Prescott, cidade natal no Arizona. Outra competição e o mesmo animal o aguardam. A volta é também a oportunidade de rever a família. O encontro é pouco agradável. Seu pessoal está em processo de desestruturação. O pai Ace (Preston), desmotivado, entregue à bebida, foi hospitalizado após sofrer acidente. O irmão Curly (Baker) aproveita a situação para negociar a propriedade em proveito próprio. A mãe Elvira (Lupino) está resignada aos fatos. Tomado de mal estar, Junior rompe com Curly. Espera vencer o rodeio. Com o prêmio poderá ajudar o pai inadaptado a tentar a sorte na Austrália como criador de carneiros ou minerador. Junior vence a competição. Também partirá em busca de novos rumos.



Acima e abaixo: Junior Bonner (Steve McQueen) com o pai Ace (Robert Preston)

Ace (Robert Preston)

  
Os espaços à movimentação dos cowboys em Dez segundos de perigo são mínimos. O Oeste deixou há muito de ser o lugar da exaltação e realização individual. Junior Bonner sente isso; o pai muito mais. Curly é o resultado de um tempo que fustiga todas as éticas anteriormente tidas como corretas. A mãe entregou os pontos, mas Ace, apesar de tudo, tenta resistir e prosseguir além de outras fronteiras. Junior compreende a angústia do pai. Nele fermentam as recordações dos grandes campos abertos onde o cowboy pontuava como homem. Agora restam cenários estreitos. Estão limitados a um programa ou à racionalização do tempo. O círculo da arena de rodeio é o que sobrou. Junior terá que permanecer dez segundos sobre o touro, dez segundos de efêmera realização, contagem que logo será esquecida antes de partir em busca de outras paragens ou enquanto aguarda o momento igualmente passageiro de nova competição.


A atriz e diretora Ida Lupino vive Elvira, mãe de Junior Bonner (Steve McQueen)





Diretor de segunda unidade: Frank Kowalski. Roteiro: Jeb Rosebrook. Direção de fotografia (Todd AO-35/Movielab Color): Lucien Ballard. Direção de arte: Edward "Ted" S. Haworth. Decoração: Angelo Graham, Gerald "Jerry" F. Wunderlich. Montagem: Frank Santillo, Robert L. Wolfe. Música: Jerry Fielding. Canção: Arizona Morning e Rodeo Man, de Rod Hart. Produtor associado: Mickey Borofsky. Produção de elenco: Lynn Stalmaster. Penteados: Lynn Del Kail. Maquiagem: Donald W. Roberson, William P. Turner. Gerente de produção: James C. Pratt. Assistentes de direção: Newt Arnold, Frank Baur, Malcolm R. Harding. Segundos assistentes de direção (não creditados): Gene Marum, Michael Messinger, William F. Sheehan. Contrarregra: Robert J. Visciglia Sr. Pintura: Glen Cooper (não creditado). Assistente de contrarregra: John Lester Hallett (não creditado). Capataz de construções: Richard Dean Rankin (não creditado). Som: Larry Hooberry. Mixagem da regravação de som: Richard Portman. Mixagem de som: Charles M. Wilborn. Gravação de som: Larry Hooberry (não creditado). Operador de microfones: Michael J. Kohut (não creditado). Efeitos especiais: Bud Hulburd. Coordenação de dublês: Mickey Gilbert. Dublês: Phoebe Noel e os não creditados Denny Arnold, Floyd Baze, Tommy Mack Turvey, Autry Ward, Steve Ward, Troy Ward. Fotografia de cena: William "Bill" Avery, Robert Willoughby (não creditado). Eletricista-chefe: Joseph Edesa. Assistentes de câmera: Gaylin P. Schultz e os não creditados Hilton Anderson, Norman Harris, Clyde Hart, Paul M. Pollard, Karl Reed, George Ressler, Bernie Schwartz e Harry Young. Operador de câmera: Chuck Arnold (não creditado). Operadores de lâmpadas (não creditados): Mike Berlin, James F. Boyle, Alex Edesa, Walter Nichols, Byron White. Operadores gerais (não creditados): Paul Grosso, Marvin Palenske. Figurinos: Eddie Armand. Guarda-roupa feminino: Pat I. Barto. Guarda-roupa masculino: James M. George. Assistente de montagem: Milan Klein (não creditado). Cocapitão de transportes: Craig Pinkard (não creditado). Capitão de transportes: James Thornsberry (não creditado). Continuidade: John Franco. Assistente de locações: Chalo González. Assistentes para o produtor: Raymond Green, Betty J. Gumm, Katherine Haber. Ramrod: Kenneth W.Lee. Diálogos: Sharon Peckinpah. Coordenação de rodeios: Casey Tibbs. Secretária da produção: Dorothy Whitney. Cronometragem: Duncan Daneault (não creditado). Instrutor de diálogos: Frank Kowalski (não creditado). Desenhos técnicos: Elias Rivera. Fornecimento de alimentação (não creditado): Dominic Santarone, Ruth Santarone. Auditoria em locações: Ruth West (não creditada). Agradecimento a: William E. Pierce. Companhia de produção de efeitos sonoros e edição musical: Edit International. Serviços de publicidade: Gershenson & Dingilian Associates (não creditado). Planejamento de créditos: Latigo Productions. Créditos: Pacific Title. Tempo de projeção: 103 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)