Em 1975 fui apresentado à superprodução de Samuel Bronston
55
dias em Peking (55 days at Peking, 1963), em
relançamento nos cinemas. Não achei grande coisa. Para piorar, era deplorável o
estado da cópia. Também me pareceu uma exaltação desmedida e fora de hora das
ações imperialistas do Ocidente na China da Imperatriz Viúva no transcorrer de
1900, quando os nacionalistas Boxers passaram à ação armada contra os
estrangeiros. Fiquei chocado com a visão do mito Ava Gardner já atingida pelo
implacável tempo. Também quis entender por quais motivos o talentoso Nicholas
Ray resolveu dirigir espetáculo tão portentoso, distante da praia que lhe era
habitual. A apreciação aqui publicada decorre basicamente das más impressões
deixadas pela sessão de 1975. Vinte e dois anos depois reencontrei 55
dias em Peking em cópia de VHS. Resolvi revê-lo, mais pela tentativa de
localizar vestígios de Nicholas Ray. O diretor de No silêncio da noite (In a
lonely place, 1950), Cinzas que queimam (On
dangerous ground, 1951), Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), Juventude
transviada (Rebel without a cause, 1955), Delírio de loucura (Bigger
than life, 1956), Sangue sobre a neve (The
savage innocents, 1960) e outras preciosidades está irreconhecível sob
a grande escala do espetáculo armado por Samuel Bronston. Gostaria de saber
mais sobre as circunstâncias que aproximaram o cineasta do produtor,
experiência que lhe foi fatal e custara relativamente caro desde a primeira
parceria em O rei dos reis (King of the kings, 1961). Pelo menos
a revisão em 1997 de 55 dias em Peking serviu para
mostrar que não é um filme tão indefensável como me pareceu à primeira vez. Ava
Gardner está visivelmente deslocada. Já David Niven surpreende como o
embaixador inglês Sir Arthur Robertson. Charlton Heston, apesar de restringido
na interpretação pouco nuançada do duro Major Matt Lewis, tem a oportunidade de
crescer e emocionar quando contracena com a talentosa Lynne Sue Moon no papel
da garota Teresa. Porém, apesar de alguns matizes, não restam dúvidas de que a
realização é uma ode tardia ao imperialismo ocidental.
55 dias em Peking
55 days at Peking
Direção:
Nicholas Ray, Guy Green (não
creditado)
Produção:
Samuel Bronston
Samuel Bronston Studios
EUA — 1963
Elenco:
Charlton Heston, Ava Gardner,
David Niven, Leo Genn, Harry Andrews, Geoffrey Bayldon, Joseph Fürst, Walter
Gotell, Robert Helpmann, John Ireland, Juzo "Ichizo" Itami, Mervyn
Johns, Kurt Kasznar, Philippe Leroy, Paul Lukas, Alfred Mayo, Martin Miller,
Conchita Montes, Lynne Sue Moon, José Nieto, Eric Pohlmann, Flora Robson,
Elizabeth Sellars, Massimo Serato, Aram Stephan, Jerome Thor, Robert Urquhart,
Jacques Sernas e os não creditados Burt Kwouk, Lucy Appleby, R. S. M. Brittain,
Carlos Casaravilla, Michael Chow, Siu Loi Chow, Félix Dafauce, Andrea
Esterhazy, Andy Ho, Dong Kingman, Mitchell Kowall, Cheng-Liang Kwan, Soong
Ling, Alfred Lynch, John Moulder-Brown, Enzo Musumeci Greco, Paul Naschy,
Nicholas Ray, Milton Reid, Robert Rietty, Fernando Sancho, Lucille Soong, Mike
Steen, Kenji Takaki, John A. Tinn, Guillermo Vera, George Wang, Stephen Young,
Siu Tin Yuen.
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O diretor Nicholas Ray e a atriz Ava Gardner - intérprete da Baronesa Natalia Ivanoff - nos bastidores de 55 dias em Peking |
Uma das
filmografias mais interessantes e originais do cinema estadunidense, a de
Nicholas Ray, chega ao fim trágica e melancolicamente com 55 dias em Peking. É o segundo
título que dirige para o megaprodutor Samuel Bronston. O primeiro, O rei
dos reis (King of the kings), de 1961, também lhe custou a liberdade
criativa e outros dissabores. A versão exibida nos cinemas foi remontada à sua
revelia. Como um cineasta autoral na melhor acepção do termo — soube se valer como
poucos das brechas deixadas a descoberto pelo padronizador e cerceador sistema
hollywoodiano — foi se envolver com Bronston? Para mim, é um mistério a
elucidar. São personalidades intercambiáveis.
Nicholas Ray é,
acima de tudo, um rebelde. Desponta entre os principais valores surgidos no
cinema do Tio Sam ao fim dos anos 40. Crítico e original, avesso à “ditadura”
do “sistema de estúdios”, jamais teve carreira facilitada. Construiu filmografia
sólida, de certa forma marginal nas considerações aos temas e personagens
preferenciais da cultura puritana dos EUA. Lidava com a verdade de homens
frágeis e feridos, psicologicamente sujeitos a todo tipo de influências e
alterações. Analisava com rara propriedade os comportamentos de indivíduos submetidos
às mazelas do sistema e levados às transgressões. Fazia filmes “pequenos” e
intimistas. Por outro lado, Bronston se notabilizou na linha do grande
espetáculo de feitos considerados sobre-humanos e ampliados pela gigantesca
escala das encenações. Destacava o heroico e o extraordinário, enquanto Ray percorria
trajetória totalmente oposta. Evidentemente, a convivência com pretensões tão
marcadas de eloquência e solenidade de Bronston não renderia bons frutos. Nesse
quesito, melhor sorte nas relações com o produtor teve o mais adaptável Anthony
Mann. Provavelmente por ser, também, um cineasta que considerava os indivíduos
em situações que os obrigavam a agir expansivamente. Realizou sob chancela
"bronstoniana" dois dos melhores épicos cinematográficos dos anos 60:
El
Cid (El Cid, 1961) e o pouco apreciado e contemplativo A
queda do império romano (The fall of the Roman Empire, 1964).
Um ano antes de
cair nas malhas de Bronston, Ray dirigiu o exemplar Sangue sobre a neve (The
savage innocents, 1960) ― um dos melhores encontros da Antropologia com
o cinema. Tem Anthony Quinn na representação do comovente e crível esquimó Inuk.
Outros títulos a destacar em sua filmografia são: Amarga esperança (They
live by night, 1948), No silêncio da noite (In a
lonely place, 1950), Alma sem pudor (Born to be bad, 1950), Cinzas
que queimam (On dangerous ground, 1951), Paixão
de bravo (The lusty man, 1952), Johnny Guitar (Johnny Guitar, 1954), Juventude
transviada (Rebel without a cause, 1955), Delírio de loucura (Bigger
than life, 1956), Quem foi Jesse James (The
true story of Jesse James, 1956) e Amargo triunfo (Bitter victory, 1956).
Pressionado por
Bronston, Ray se viu cerceado em O rei dos reis. A situação se
repetiu em escala ampliada com 55 dias em Peking. Segundo Jean Tullard, o cineasta, frustrado, se
desinteressou totalmente pelo filme. Confiou a direção ao “Deus dará” enquanto
afogava as mágoas em bebedeiras nos cantos do set[1].
Hollywood não o perdoou. Apressou-lhe o fim da carreira. Dirigiu em 1965 a obscura
coprodução estadunidense-iuguslava The doctor and the devil/Doktor
I Davoli, roteirizada por Gore Vidal. A seguir, vieram oito anos de
ostracismo. Em 1973, guarnecido pelo restrito circuito universitário, rodou We
can’t go home again. De 1974 é o episódio The janitor da erótica e pouco
vista realização coletiva Wet dreams[2].
O curta Marco (1978) é praticamente desconhecido. Com o organismo
devastado pelo câncer, tem os últimos dias registrados pelo fã Wim Wenders em Um
filme para Nick (Lightning over water, 1980), da qual
é codiretor.
55 dias em Peking seria o último
dos quatro grandes épicos produzidos por Samuel Bronston em seus estúdios nos
arredores de Madrid, Espanha. Passou à terceira posição quando Charlton Heston se
interessou pelo papel do Major estadunidense Matt Lewis, após recusar o de
Livius em A queda do Império Romano ― Stephen Boyd assumiu o personagem e
o título foi filmado em 1964. Imediatamente, para não perder a disponibilidade
de Heston, o produtor interrompeu a construção do conjunto arquitetônico que
serviria à encenação do centro romano capitaneado pelo Fórum. Substituiu-o pela
Peking de 1900: a Cidade Proibida, sede do governo chinês controlado pela
Imperatriz Viúva Tzu-Hsi (Robson), e as imediações destinadas às representações
estrangeiras ― embaixadas, consulados, quartéis, hotéis e acampamentos
militares ― com interesses comerciais e coloniais no país. Centenas de extras e
figurantes fenotipicamente semelhantes aos chineses foram arregimentados de
todas as partes da Europa e do cast
de Lawrence
de Arábia (Lawrence of Arábia, 1962), de David Lean — em parte rodado na
Espanha, em Sevilha e Almeria — para compor a fauna pequinesa. Chineses,
propriamente, são poucos em 55 dias em Peking. Não é algo a estranhar diante dos padrões concernentes às
fidelidades ética, étnica e estética que presidiam as produções estadunidenses
na ocasião.
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Flora Robson interpreta Tzu-Hsi, a Imperatriz Viúva da China |
Por muito pouco 55
dias em Peking não é uma descarada celebração dos piores feitos e
efeitos do imperialismo. Politicamente, a China é uma potência de araque. Entretanto,
a população numerosa e a vasta extensão territorial transformam-na em promissor
mercado de consumidores e fonte inesgotável de matérias-primas. Fragilizada, a Imperatriz
Viúva da dinastia Manchu assiste à ininterrupta drenagem dos recursos naturais do
país por cerca de 13 potências estrangeiras sustentadas por força militar e
pela ideologia do capitalismo liberal da liberdade concorrencial e de mercado.
À frente dos espoliadores está a Inglaterra, maior potência armada e econômica
do período, ponta de lança do desenvolvimento capitalista e sempre sedenta de
novos entrepostos para escoamento da produção manufaturada e apresamento de
recursos básicos. Derrotados de forma humilhante pelos ingleses nas
conflagrações conhecidas como Guerras do Ópio (1839-1842/1856-1860), os
chineses se viram obrigados a entregar os direitos de exploração comercial e
consideráveis nacos do território aos vencedores. Logo, mais nações reivindicaram
outras partes do país. Além dos europeus e estadunidenses, o pequeno e
aguerrido Japão, pronto a ampliar sua vocação bélica e imperialista, impôs à
China outra derrota militar na conflagração passada à história como Primeira
Guerra Sino-Japonesa (1894-1895).
Como consequência
das constantes submissões, floresceu à margem da inoperância do poder central a
resistência armada nacionalista: um grupo organizado como sociedade secreta, os
"Punhos Harmoniosos e Justiceiros" ― formado por elites
tradicionalistas, camponeses e artesãos ― mal traduzido pelos ocidentais como
Boxers. Tinha o firme propósito de expulsar todos os estrangeiros. A Imperatriz
Viúva e alguns auxiliares viram no movimento a oportunidade para recompor a
unidade chinesa via apoio às revoltas, de forma pouco velada. As primeiras
ações de guerrilha começaram em 1898. Envolviam basicamente vandalismo,
sabotagem e, acima de tudo, a perseguição e execução de missionários cristãos ―
fonte crescente de insatisfações, principalmente entre o campesinato.
Em 1900, uma
prolongada seca de verão com efeitos graves sobre os cultivos resultou em
insegurança alimentar e acirrou as contradições ao ponto da ebulição. Os Boxers
aproveitaram a oportunidade para canalizar em proveito próprio a inquietação e
fúria populares. Sentindo-se seguros com as crescentes adesões, passaram à ação
armada direta. Este é o contexto de 55 dias em Peking. Apoiados diretamente pelo príncipe Tuam
(Helpman), os revoltosos assassinaram o embaixador alemão Barão von Meck (Pohlmann)
na rua, à luz do dia. É a senha para o começo das escaramuças com cerco aos
estrangeiros. Homens, mulheres e crianças enfrentam 55 dias de isolamento,
submetidos à carência de alimentos e medicamentos, sob ataque intermitente e constante.
São protegidos por frágeis e improvisadas paliçadas e perto de 400 militares
das forças inglesas, estadunidenses, italianas, espanholas, russas, belgas,
francesas, japonesas, alemãs, holandesas, austríacas etc.
A Imperatriz
Viúva concedeu aos estrangeiros prazo de 24 horas para deixar a China. Porém,
diante das ponderações do embaixador britânico, Sir Arthur Robertson (Niven) —
cioso de suas funções e confiante na chegada, a partir da costa, de reforço militar
multinacional sob o comando do Almirante Sidney — todos os demais
representantes nacionais resolveram permanecer em Peking. O cerco às
legações diplomáticas, da forma como foi filmada, remete à situação dos combatentes
texanos acuados pelas forças do Generalíssimo Sant’Anna (Ruben Padilla) na
improvisada fortaleza do Álamo segundo a epopeia contada por John Wayne em 1960[3].Com
a diferença de que estes não tiveram escapatória. Na capital chinesa, o cerco
foi levantado em 14 de agosto de 1900 quando chegaram, enfim, as forças do
Almirante Sidney.
Os principais
personagens são o Major estadunidense Matt Lewis (Heston), Sir Arthur Robertson
e a improvável e equivocada baronesa russa Natalia Ivanoff (Gardner). Do lado
oposto, com menos tempo em tela, estão a Imperatriz viúva, o Príncipe Tuam e o
General Jung-Lu (Genn) — este em posição politicamente prejudicada pelo seu
ponto de vista liberal, favorável ao acordo com os estrangeiros.
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Leon Genn como o General Jung-Lu |
O mentor
intelectual da resistência, Sir Arthur Robertson, equilibra-se no fio tênue
entre as éticas da convicção e da responsabilidade. Defende os interesses
ingleses e seu futuro na diplomacia. Para tanto, arrisca a segurança familiar,
principalmente dos filhos crianças. Em casa, é apoiado pela fiel e submissa
esposa Lady Sara (Sellars) e no campo das ações efetivas conta com a retaguarda
do determinado, prático e meio bronco Major Matt Lewis à frente de um
destacamento de fuzileiros navais. Praticamente, o militar decide em nome dos
Estados Unidos ― único país a não reivindicar possessões territoriais na China
— diante da doença seguida de morte do embaixador interpretado pelo próprio
Nicholas Ray em rápida aparição. Natalia Ivanoff caiu em desgraça entre os
patrícios e demais estrangeiros quando veio a público o envolvimento amoroso que
mantinha com o General Jung-Lu. A traição resultou no suicídio do marido e na
inimizade com o cunhado e embaixador russo, barão Sergei Ivanoff (Kazsnar).
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O embaixador inglês Sir Arthur Robertson (David Niven) e a esposa Lady Sara (Elizabeth Sellars) |
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O Major Matt Lewis (Charlton Heston) e Sir Arthur Robertson (David Niven) |
Apanhada no
turbilhão dos acontecimentos, Natália não consegue abandonar a tempo a capital
chinesa. Termina envolvida numa desnecessária e mal explorada relação amorosa
com Matt Lewis. Nos momentos mais dramáticos do cerco, auxilia o Dr. Steinfeldt
(Lukas) no precário serviço hospitalar de atendimento aos feridos. Mulheres
como ela são comuns nos filmes: questionadas e acuadas pela moral pública,
revelam-se generosas, altruístas e dispostas a tudo nos momentos mais críticos.
Porém, um cinema marcadamente puritano só reserva uma forma de redenção a
personagens "tão impuros": a morte decorrente de um magnânimo e
desapegado ato de filantropia. Natalia perece em consequência dos ferimentos adquiridos
em arriscada operação para conseguir alimentos e medicamentos para os
hospitalizados.
Na verdade, o
destino da personagem vivida por Ava Gardner seria bem diferente. Entretanto, a
produção decidiu sacrificá-la. Ao que parece, Charlton Heston estava insatisfeito
com a parceira. Teria faltado química à relação. Independente disso, o
interregno amoroso da russa com o major foi um lamentável equívoco do roteiro escrito
por Robert Hamer, Philip Yordan, Bernard Gordon e o não creditado Ben Barzman a
partir do livro 55 days at Peking de Samuel Edwards. Talvez funcionasse melhor
com outros intérpretes. Diante de Gardner, Heston trava a atuação e se mostra
visivelmente constrangido ao passo que ela está muito abaixo do comumente
esperado.
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A Baronesa Natalia Ivanoff (Ava Gardner) e o Major Matt Lewis (Charlton Heston) |
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A Baronesa Natalia Ivanoff (Ava Gardner) e o cunhado Barão Sergei Ivanoff |
Apesar do
protagonismo de Charlton Heston, os melhores momentos, via de regra, pertencem
a David Niven. Geralmente dado a interpretações unidimensionais, tem a rara
oportunidade de oferecer um personagem nuançado, dividido entre as obrigações
públicas e privadas. É o diplomata liberal em busca de uma saída conciliadora
para a crise e também pronto a reassumir a identidade do militar que há muito
deixou de ter. Não vê a hora de voltar para a Inglaterra, com a família. Ao
mesmo tempo tem ciência das atribuições às quais está obrigado nas frentes
diplomáticas, bélicas e das relações com as representações diplomáticas que
nele confiaram.
Por sua vez, Charlton
Heston oferece um desempenho seguro como militar cioso e durão, talhado para a
ação e o comando. Porém, não tem tantas oportunidades de se mostrar multifacetado.
As exceções, muito bem filmadas, envolvem os momentos de Matt Lewis com Teresa
(Moon), órfã de 12 anos, filha do capitão estadunidense Andy Marshall (Thorn) ―
morto durante as escaramuças ― com uma chinesa. A pequena Lynne Sue Moon
oferece um desempenho sincero e comovente de criança carente que cresceu afastada
dos pais. Nos poucos momentos em que contracena com ela, nas dependências do
orfanato e no final, Heston tem a oportunidade de se agigantar e emocionar.
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Major Matt Lewis (Charlton Heston) |
55 dias em Peking é bom exemplo de
espetáculo cinematográfico, como Hollywood sempre soube realizar. Tem por
principal calcanhar de Aquiles a adesão francamente imperialista. Não chega ao
cúmulo de assumir posicionamento tão francamente unilateral qual outros famosos
épicos do seu tempo, particularmente O Álamo e A conquista do Oeste (How
the West was won, 1962), de Henry Hathaway, John Ford e George Marshall.
Concede a palavra aos chineses, que descrevem, ainda que rapidamente, as
humilhações impostas pelo Ocidente com as ocupações territoriais e as pilhagens
das riquezas nacionais, explorações aviltantes acirradas pela seca seguida de fome
e empobrecimento da população mais vulnerável. No mais das vezes, a história é
contada do ponto de vista do imperialismo e não oculta a pretensão de exaltá-lo
como instancia civilizadora em oposição às tão decantadas ideologias ocidentais
acerca da barbárie e atrasos orientais.
Nicholas Ray
tentou uma abordagem mais equilibrada das relações entre dominadores e
dominados, que ressaltasse inclusive o racismo e o sentimento de superioridade
europeu. Como teve as pretensões cerceadas, praticamente encerrou as
responsabilidades com a produção. Rompeu drasticamente com Samuel Bronston e
foi acometido de ataque cardíaco. Mesmo assim, mereceu crédito como único diretor.
Porém, coube aos responsáveis pela segunda unidade, principalmente Guy Green e Andrew
Marton, a tarefa de dar conta de quase todas as atribuições.
Os créditos de
abertura sobre belíssimas ilustrações alusivas a motivos chineses de Dong
Kingman ― embalados pela suave composição So little time (The Peking theme), logo
após a abertura de 3 minutos em fotograma fixo com o resumo da trilha musical
de Dimitri Tiomkin ―, estão entre as boas qualidades da produção. A pontuação
melódica, inspirada e emocionante, é uma pequena mostra do talento de Tiomkin. Recebeu
muito justamente a indicação ao Oscar.
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Lady Sara Robertson (Elizabeth Sellars) |
Outros bons
momentos são garantidos pela entrada da vilipendiada Natalia — ornada pelo
vistoso colar que se tornou o motivo da discórdia com o cunhado Sergei Ivanoff
—, acompanhada de Matt Lewis, no baile dos ingleses. Logo no início, a delicada
situação geopolítica da China merece tomadas revestidas de bom humor sobre a
quantidade de países estrangeiros que dividem o território, todos com representações
diplomáticas na capital chinesa e hasteando ao mesmo tempo as respectivas bandeiras
com acompanhamento dos hinos nacionais ― uma profusão de sons insuportáveis
para alguns chineses e indiferentes a outros.
Por fim, uma
curiosidade: 55 dias em Peking foi o último filme visto na Casa Branca pelo
Presidente John Fitzgerald Kennedy, em 10 de novembro de 1963, 12 dias antes de
ser assassinado em Dallas, Texas.
Roteiro: Bernard Gordon, Philip Yordan, Ben Barzman (não
creditado), a partir do livro 55 days at Peking, de Samuel Edwards.
Diálogos adicionais: Robert Hamer. Direção de fotografia (Technicolor,
Super-Technirama 70mm): Jack Hildyard. Música
e direção musical: Dimitri Tiomkin. Decoração,
Desenho de produção e figurinos: Veniero Colasanti, John Moore. Direção de segunda unidade: Noël
Howard, Guy Green, Andrew Marton. Montagem:
Robert Lawrence. Assistente de montagem:
Magdalena Paradell. Edição de efeitos
sonoros: Milton C. Burrow. Mixagem:
David Hildyard. Continuidade: Lucie
Lichtig. Primeiro assistente de direção:
José López Rodero. Segundo assistente de
direção: José Maria. Regravação de
som: Gordon K. McCallum. Produção de
elenco: Maude Spector. Maquiagem:
Mario Van Riel. Canção: So little time (The
Peking theme), letra de Paul Francis Webster, música de Dimitri
Tiomkin, interpretada por Andy Williams no encerramento. Efeitos especiais: Alex Weldon. Produção associada: Alan Brown. Gerente executivo de produção: C. O. Eriksson. Ilustrações dos créditos: Dong Kingman. Edição musical: Richard C. Harris. Mixagem de som: David Hildyard. Operador de câmera de segunda unidade: Manuel Berenger. Supervisão técnica: Carl Gibson. Supervisão de eletricidade: Bruno
Pasqualini. Chefe de guarda-roupa: Gloria
Musetta. Penteados de Ava Gardner:
Alexandre de Paris. Produção executiva
associada: Michael Waszynski. Penteados:
Grazia Di Rossi. Assistente de
maquiagem: José Luis Pérez (não creditado). Assistente de gerente de produção: Jesús Franco (não creditado). Gerente de unidade: Tadeo Villalba (não
creditado). Assistente de direção da
segunda unidade: José María Ochoa. Segundo
assistente de direção: Julio Sempere (não creditado). Mestre da contrarregra: Stanley Detlie. Pintura: Julián Martín (não creditado). Assistente de decoração: Vicente Sempere Sempere (não creditado). Gravação de som: Otto Snel (não
creditado). Assistente de efeitos
especiais: Antonio Baquero (não creditado). Dublê: Jack Cooper (não creditado). Coordenação de dublês: Terry Yorke (não creditado). Operador de câmera: Gerry Fisher (não
creditado). Segundo assistente de
câmera: Douglas Milsome (não creditado). Produção de elenco extra: Joe Powell (não creditado). Orquestração (não creditada): Manuel
Emanuel, Herbert Taylor. Apresentação:
Samuel Bronston. Consultoria técnica:
Coronel J. R. Johnson. Continuidade:
Lucie Lichtig. Assistente de produção:
Miguel Ángel Bermejo (não creditado). Tempo
de exibição: 154 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1975; revisto e ampliado
em 1997)
[1] TULLARD, Jean. Dicionário de cinema: os
diretores. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 521.
[2] Os demais
diretores e seus episódios: Lasse "Falcon Stuart" Braun (The
happy necrophiliacs), Max Fischer (Contrasts, Deep skin, A
face), Oscar Girard (Dragirama), Hans Kanters (The
private world of Hans Kanters), Geert Koolman (On a Sunday afternoon),
Lee Kraft (Contrasts, The banner, The plumber), Dusan
"Sam Rotterdam" Makavejev (Politfuck), Jens Jørgen Thorsen (Another
wet dream), Heathcote Williams (Flames).
[3]
O
Álamo (The Alamo).