1974: estava com 18 anos. Vesti o melhor pijama e marquei
lugar diante da televisão. Estava pronto para prestigiar a exibição, pela então
badalada 'Sessão Mistério' da TV Globo, de O vampiro da noite (Dracula,
1958). É o filme que catapultou Christopher Lee ao estrelato, deu
visibilidade à produtora inglesa Hammer Film e inaugurou a 'Coleção Maldita de
Terence Fisher'. O diretor contrariou diversas opiniões ao realizá-lo. Para sua
felicidade, o sucesso, além de estrondoso, devolveu a respeitabilidade às
produções voltadas ao sobrenatural e aos vampiros. Segundo os entendidos, é o
ponto culminante do terror gótico. Quanto a mim, torci o nariz. Esperava algo
apavorante e me deparei com uma realização prejudicada por excesso de
contenção, mais parecida a um melodrama bem comportado. Provavelmente, com a
avaliação em tela de O vampiro da noite, serei condenado,
pelos fãs mais ardorosos, ao inferno no qual ardem os iconoclastas. Que me
perdoem; nada posso fazer. No Brasil, o filme também é conhecido como Horror
de Drácula, tradução literal do título atribuído pelo distribuidor
estadunidense, responsável por lançá-lo no mercado mundial. Em 1965 o diretor Terence Fisher filmou uma espécie de prolongamento para O vampiro da noite: trata-se de Drácula, o príncipe das trevas (Dracula: prince of darkness), com apreciação neste blog acessada pelo link http://cineugenio.blogspot.com/2013/12/das-cinzas-de-o-vampiro-da-noite.html.
O vampiro da noite
Dracula
Direção:
Terence
Fisher
Produção:
Anthony Hinds
Hammer
Film Production
Inglaterra
— 1958
Elenco:
Peter
Cushing, Christopher Lee, Melissa Stribling, Michael Gough, Carol Marsh, Olga
Dickie, John Van Eyssen, Valerie Gaunt, Janine Faye, Barbara Archer, Charles
Lloyd Pack, George Merritt, Milles Malleson, George Benson, George Woodridge,
Geoffrey Bayldon, Paul Cole e os não creditados Guy Mills, Richard Morgan, John
Mossman.
![]() |
O diretor Terence Fisher |
Quando o inglês Terence
Fisher resolveu refilmar Drácula — romance escrito por Bram
Stoker em 1897 —, muitos viram a iniciativa como contraproducente. Consideravam
o tema do vampirismo suficientemente batido e banalizado, incapaz de despertar novos
interesses. Até a ocasião — se as filmografias merecem crédito — o Conde
sugador de sangue da Transilvânia dera o ar da graça em quatro produções do
cinema sonoro: Drácula (Dracula, 1931), de Tod Browning —
com Bela Lugosi no papel título —, é a mais famosa. A seguir vieram os obscuros
A
filha de Drácula (Dracula’s daughter, 1936), de
Lambert Hillyer; O retiro de Drácula (House of Dracula, 1945), de Erle C.
Canton; e Blood of Dracula (1957), de Herbert L. Strock. Filmes sobre
vampiros em geral havia em maior número: O solar do diabo (Le manoir
du diable, 1896), de Georges Méliès; Lilith und Ly (1919), de
Erich Kober; O vampiro (The vampire bat, 1933), de Frank R. Strayer;
A
marca do vampiro (Condemned to live, 1935), de Frank R.
Strayer; A volta do vampiro (Return of the vampire, 1944), de Lew
Landers; Os vampiros (Vampiri, 1956), de Ricardo Freda; O
ataúde do vampiro (El ataúd del vampiro, 1957), de
Fernando Méndez; O morcego (El vampiro,1957), de Fernando Méndez;
sem esquecer as obras mestras Nosferatu (Nosferatu eine symphonie des
grauens, 1921), de Friedrich Wilhelm Murnau; e Vampiro (Vampyr,
1931), de Carl Theodor Dreyer.
Apesar dos contrários,
Fisher foi em frente. Para ele a atração exercida por Drácula e demais
criaturas do fantástico nunca esteve circunscrita ao gênero ou à história;
dependia exclusivamente da capacidade do ator escolhido para viver o
personagem. Se a interpretação fosse convincente o público responderia de forma
positiva, mesmo se o argumento incorporasse incoerências e recorrências.
![]() |
Acima e abaixo: o Conde Drácula, pela primeira vez interpretado por Christopher Lee |
A premissa de
Fisher se mostrou correta. Christopher Lee, canastrão convincente, consagrou-se
no papel. É o Drácula mais popular do cinema. Movimenta-se com desenvoltura por
ambientes escuros, essenciais à sobrevivência do vampiro e aos climas de pavor
e suspense necessários às realizações do gênero. Além de O vampiro da noite,
circulou com a capa esvoaçante e dentes pontiagudos em sete outras realizações:
Drácula,
o príncipe das trevas (Dracula: prince of darkness, 1965),
de Terence Fisher; Drácula, o perfil do diabo (Dracula has risen from the grave,
1968), de Freddie Francis; Sangue de Drácula (Taste
the blood of Dracula, 1969), de Peter Sasdy; Conde Drácula (El Conde
Dracula, 1970), de Jesús Franco; O Conde Drácula (The scars
of Dracula, 1970), de Roy Ward Baker; e Drácula no mundo da minissaia
(Dracula
AD 1972, 1972), de Alan Gibson.
O inocente
corretor de imóveis Jonnathan Harker (Van Eyssen) se torna bibliotecário no
roteiro de Jimmy Sangster para O vampiro da noite. No romance, rumava
da Inglaterra à romena região da Transilvânia para negociar o castelo do Conde
Drácula. Agora é contratado para lhe organizar a biblioteca. Na verdade, é um
caçador de vampiros. Algo não dá certo, claro! Atacado por uma vampira,
preocupa-se com seu destino. Registra as transformações que lhe ocorrem, como
advertência, em diário. Espera que alguém encontre o volume. Antes da
consumação da metamorfose, fracassa ao tentar eliminar Drácula, adormecido na cripta.
![]() |
Acima e abaixo: Van Helsing, o caçador de vampiros interpretado por Peter Cushing |
Passam-se os
anos. Chega à região, em busca de Harker, o Dr. Van Helsing (Cushing). Tenta
levantar informações sobre o desaparecido. Nada consegue. Só encontra gente
arredia, que o evita. Entretanto, recebe em segredo o diário, encontrado nas
proximidades do castelo de Drácula. Aí chega, a tempo de presenciar a saída de
uma carruagem transportando caixão funerário. É Drácula indo ao encontro de
Lucy (Marsh), noiva de Harker. Encantou-se por ela, de imediato, desde que a
viu em fotografia. Van Helsing reconstitui os eventos ao encontrar, quebrado,
um porta-retrato entre os pertences de Jonnathan. Logo o avista, transformado
em vampiro e adormecido na cripta do Conde. Horrorizado, resta-lhe apenas a
brutal opção de libertar a alma do amigo pelo radical método da estaca de
madeira fincada no coração.
No retorno à
Alemanha (Inglaterra, no original de Stoker), notifica Arthur (Gough), irmão de
Lucy, sobre o ocorrido, sem entrar em maiores considerações. Mas descobre a
jovem em estado de profunda anemia, apesar de todos os cuidados médicos. Desconfiado,
examina-a. No pescoço estão as fatais evidências. O sangue de Lucy vem sendo sugado
lentamente. As instruções para salvá-la não são obedecidas. Ela logo “falece”. Destratado
pelo desesperado Arthur, Van Helsing lhe revela o diário do cunhado.
![]() |
A vampirizada Lucy (Carol Marsh) |
Apesar de
sepultada, Lucy é avistada perambulando pelas cercanias, à noite. O cético
Arthur averigua. Encontra o túmulo vazio. Estava para ser atacado pela irmã
vampirizada quando é salvo pela chegada de Van Helsing, com um crucifixo. A morta-viva
busca proteção, mas tem o coração empalado pela estaca libertadora. Com a
verdade confirmada da pior maneira, Drácula é caçado. Tem o esconderijo
descoberto. Mas se apoderou de Mina (Stribling), esposa de Arthur. Ela logo revela
sintomas de exaustão física. No entanto, cada vez mais acuado, o vampiro escapa
para seus domínios com a refém. Na perseguição, Van Helsing e Arthur impedem que
seja sepultada viva. O dia está por amanhecer. Drácula precisa se abrigar da fatal
luz do sol, mas é alcançado pelo caçador. As cenas a seguir ainda preservam o
impacto, apesar da passagem do tempo. Atingido pela luz solar e submetido ao
poder de um crucifixo improvisado, o Conde se decompõe ao estado de pó, por fim
carregado pelo vento.
Para muitos, O
vampiro da noite é mais que um clássico do fantástico. É a culminância
do horror gótico e a melhor adaptação cinematográfica da obra de Bram Stoker.
Terence Fisher é elogiado pela mão de mestre na orquestração dos elementos sobrenaturais
que animam a atmosfera soturna do mundo do Conde Drácula.
Não há como negar
o sucesso alcançado pelo filme, a ponto de desencadear uma série de produções
similares que consagraram o diretor e a companhia produtora, a Hammer Film,
como especialistas do cinema de terror. Ganhou fama a “Coleção Maldita de
Terence Fisher” — conjunto de realizações a explorar adaptações de temas
ligados a vampiros, criaturas de Frankenstein, múmias, túmulos, bruxas,
mortos-vivos, castelos mal assombrados etc.
![]() |
Valerie Gaunt como uma das mulheres vampirizadas por Drácula |
Infelizmente, O
vampiro da noite não merece tantos elogios. No final dos anos 50 é
provável que sim. Visto hoje, mostra-se envelhecido e destituído de força. Não
possui clima de filme de terror; não convence como obra do gênero. As exceções se
apresentam no começo, nas momentos finais e quando Mina recebe Drácula em casa.
A cor é fator complicador. Explicitou em demasia os cenários, retirando-lhes a
essencial aparência fake. O preto e
branco, com certeza, surtiria melhores efeitos. Além do mais, O
vampiro da noite padece de um mal de origem. É britânico. Isso
significa que é excessivamente contido. Às vezes lembra mais um melodrama bem
comportado que um filme de vampiro ousado e aterrador. Algumas passagens são
terrivelmente ruins: a cena de Arthur no cemitério, sem o menor traço de
assombro ao descobrir a irmã vampirizada, é um exemplo. Também causa
constrangimento o instante em que o perseguido Drácula salta da carruagem nos
arredores do castelo e tenta, com incontida fúria, sepultar Mina. Já encontra a
cova aberta e a providencial pá.
Aos meus
critérios, Drácula, Terence Fisher e Christopher Lee teriam melhor sorte em Drácula,
o príncipe das trevas — espécie de prolongamento de O
vampiro da noite — realizado sete anos depois.
Quando exibido na
televisão, O vampiro da noite foi batizado como Horror de Drácula,
tradução literal do título atribuído pela distribuição estadunidense.
![]() |
Bastidores da filmagem: Carol Marsh, intérprete de Lucy, toma um cafezinho entre as tomadas |
![]() |
Nos Estados Unidos, a película é conhecida como Horror of Dracula |
Roteiro: Jimmy Sangster, com base na novela de Bran Stoker.
Música: James Bernard. Direção musical: John Hollingsworth. Direção de fotografia (Technicolor):
Jack Asher. Desenho de produção:
Bernard Robinson. Supervisão de
montagem: James Needs. Produção
executiva: Michael Carreras. Gravação
de som: Jock May. Montagem: Bill
Lenny. Gerente de produção: Dom
Weeks. Assistente de direção: Bob
Lynn. Operador de câmera: Len
Harris. Maquiagem: Phil Leaky. Penteados: Henry Montsash. Continuidade: Doreen Dearnaley. Guarda-roupa: Molly Arbuthnot, Rosemary
Burrows (não creditada). Efeitos
especiais: Sidney Pearson, Les Bowie (não creditado). Produtor associado: Anthony Nelson-Keys. Direção de arte: Bernard Robinson (não creditado). Assistente de maquiagem: Roy Ashton
(não creditado). Segundo assistente de
direção: Tom Walls (não creditado). Estucador:
Arthur Banks (não creditado). Carpintaria:
Charles Davis (não creditado). Aquisições:
Eric Hillier (não creditado). Gerente de
construções: Mick Lyons (não creditado). Desenhos técnicos: Don Mingaye (não creditado). Contrarregra: Tom Money (não
creditado). Pinturas: Lawrence Wren
(não creditado). Operador de microfone:
Claude Hitchcock (não creditado). Dublês
(não creditados): Peter Diamond, Nosher Powell. Eletricista-chefe: Jack Curtis (não creditado). Fotografia de cena: Tom Edwards (não
creditado). Controle de foco: Harry
Oakes (não creditado). Tempo de
exibição: 82 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)