O boom do cinema popular italiano no
mercado exibidor brasileiro atingiu o auge durante os anos 60. As plateias receberam
farta e sortida dieta composta de comédias ligeiras, dramas passionais,
fantasias históricas, aventuras de capa e espada, episódios do Império Romano,
westerns spaghetti, policiais e os terríveis épicos protagonizados por heróis
musculosos de extração mitológica: Maciste, Hércules, Sansão, Ulisses, Golias e
outros menos prestigiados. O período também conheceu as aventuras da dupla
formada pelos comediantes Franco Franchi e Ciccio Ingrassia, queridíssimos do público
italiano. Deram o ar da graça em aproximados 110 títulos realizados de 1960 a meados dos anos 70,
nem todos conhecidos dos brasileiros. Amparados por diretores diversos, fizeram
troça de todos os gêneros e não perdoavam produções prestigiadas imediatamente
parodiadas em títulos reveladores como Os filhos do leopardo (I
figli del leopardo, 1965), de Sergio Corbucci; Dois mafiosos contra Goldfinger
(Due
mafiosi contro Goldginger, 1965), de Giorgio Simonelli; O
belo, o bruto, o cretino (Il bello, il brutto, il cretino,
1967), de Giovanni Grimaldi; Il clan dei due Borsalini (1971), de
Giuseppe Orlandini etc. Em 1965, nos papéis dos sicilianos irmãos La Pera , Franco Franchi e Ciccio
Ingrassia puseram em polvorosa as forças confederadas e unionistas na Guerra de
Secessão. Infelizmente, a coprodução ítalo-espanhola Os dois sargentos do General
Custer (I due sergenti del generale Custer/Dos vivales en Fuerte Álamo,
1965), não está entre os melhores trabalhos da dupla. Pulso e capacidade de
orientação faltaram ao diretor Giorgio Simonelli. O humor, constrangedor, peca pelo
excesso de grosseria. Em muitos momentos o elenco de apoio é dominado pela
apatia e a narrativa avança ao sabor das circunstâncias. Segue apreciação
escrita em 1978.
Os dois sargentos do
General Custer
I due sergenti del Generale Custer/Dos vivales en Fuerte
Álamo
Direção:
Giorgio Simonelli
Produção:
Edmondo Amati
Balcázar Producciones
Cinematográficas, Fida Cinematografica
Itália, Espanha — 1965
Elenco:
Franco Franchi, Ciccio Ingrassia,
Margaret Lee, Moira Orfei, Fernando Sancho, Ernesto Calindri, Franco Giacobini,
Nino Terzo, Aroldo Tieri, Riccardo Garrone, Michele Malaspina, Dina Loy, Juan
Luis Gallardo, Armando Curcio, Alfio Caltabiano, Nino Fuscagni, Enzo Andronico,
Rino Genovese, Gina Mascetti, Pasquale Basile, Vittorio Duse, Antonio Cuenca,
Anna Lina Alberti, Mirko Baiocchi, Tom Felleghy, Mario Filippo, Víctor Israel,
Osiride Pevarello, Pupita Lea Scuderoni, Ignazio Spalla e os não creditados Ugo
Fangareggi, Mimmo Poli.
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O diretor Giorgio Simonelli |
Os anos 60, no
Brasil, foram generosos para o cinema popular italiano. O país deu plena vazão
ao prolongamento de um movimento evidenciado na década anterior, quando a
Itália revelava evidentes sinais de recuperação econômica após a derrocada fascista
experimentada durante a Segunda Guerra Mundial. A isso se seguiram a invasão
nazista e incursão dos aliados desde o desembarque no extremo sul da península.
Tornaram-se comuns as comédias ligeiras, dramas passionais, fantasias
históricas, aventuras de capa e espada, episódios do Império Romano, westerns
spaghetti, policiais, épicos protagonizados por heróis musculosos de extração
mitológica — Maciste, Hércules, Sansão, Ulisses, Golias e outros menos
prestigiados. Eram, em geral, produções despretensiosas e ordinárias, em sua
maioria filmadas sobre o pano de fundo de cenários reciclados, montadas às
pressas, interpretadas com certo desleixo e submetidas ao consumo imediato de
plateias ávidas por diversão em salas situadas à margem dos grandes circuitos, espalhadas
pelas cidades interioranas e periferias das capitais.
A famosa dupla
cômica Franco Franchi e Ciccio Ingrassia floresceu nesse boom. Ao que parece, estreou em papel secundário sob a direção de
Mario Mattoli em Férias na praia (Appuntamento a Ischia, 1960). Em
1961 já era a atração principal de L'onorata società, de Ricardo
Pazzaglia. Pôde, ainda nesse ano, aprimorar a veia cômica como parte do elenco de
apoio de 5 marine per 100 ragazze, de Mario Mattoli; O
juízo universal (Il giudizio universale), de Vittorio
De Sica; Maciste contro Ercole nella Valle dei Guai, de Mario Mattoli; Gerarchi
si muore, de Giorgio Simonelli; e Amor, bonecas e... (Pugni,
pupe e marinai), de Daniele D’anza. Logo se tornou sucesso de público.
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Franco Franchi no papel de Franco La Pera |
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Franco Franchi como Franco La Pera e Ciccio Ingrassia no papel de Ciccio La Pera |
Franchi e
Ingrassia não desperdiçavam oportunidades. Estavam sempre prontos para o cinema.
Revezavam participações secundárias com o protagonismo. Logo caíram definitivamente
no gosto popular, o que se confirmou a partir de 1964. Até o fim da parceria,
em meados dos anos 70, marcaram presença, sem exagero, em aproximados 110
títulos — considerando-se apenas os cinematográficos. Inspiravam-se
visivelmente na dupla estadunidense Dean Martin e Jerry Lewis. Também extraíam
elementos das comicidades de Bud Abbott & Lou Costello e Os Três Patetas (The
Three Stooges). Não raro se envolviam, no calor da hora, em paródias de
produções de sucesso reveladas imediatamente por estes títulos: Os
filhos do leopardo (I figli del leopardo, 1965), de
Sergio Corbucci; O alto, o baixo, o gato (Il lungo, il corto, il gatto, 1967),
de Lucio Fulci; O belo, o bruto, o cretino (Il bello, il brutto, il cretino,
1967), de Giovanni Grimaldi; Il clan dei due Borsalini (1971), de
Giuseppe Orlandini; I due figli di Trinità (1972), de Osvaldo Civirani[1]
etc. Transitavam com desenvoltura do western ao terror, dos filmes de gângster
às aventuras de espionagem, dos épicos aos melodramas, das sagas bélicas às
crônicas amorosas.
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O vilão: Sargento Fidhouse (Fernando Sancho) |
Enquanto o
macérrimo e alto Ciccio Ingrassia fazia o parceiro fisicamente desengonçado,
também mais contido e racional, Franco Franchi vivia, via de regra, o tipo espalhafatoso,
verborrágico e excessivamente histriônico — a ponto de ultrapassar os limites
da grosseria. Nem sempre a fórmula funcionava a contento. Certo era o apoio
popular, fator que explica a longevidade da dupla e a espantosa quantidade de
filmes em que atuou.
Infelizmente, Os
dois sargentos do General Custer é um dos piores trabalhos da parelha. O
resultado do humor é constrangedor neste cômico western spaghetti rodado em
exteriores espanhóis. O General Custer entrou de gaiato no título brasileiro, como
desnecessário e desonesto chamariz. Não há personagem algum com o nome do
famoso militar massacrado com o malfadado Sétimo de Cavalaria, pelos índios
Sioux, na famosa batalha de Little Bighorn.
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Os La Pera (Ciccio Ingrassia e Franco Franchi) em apuros com o Sargento Fidhouse (Fernando Sancho) |
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Sargento Fidhouse, os La Pera e Mary: Fernando Sancho, Franco Franchi, Ciccio Ingrassia e Dina Loy |
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Cochise (Franco Giacobini), Franco La Pera (Franco Franchi) e Ciccio La Pera (Ciccio Ingrassia) |
Durante a
estadunidense Guerra de Secessão, Franchi e Ingrassia vivem os imigrantes irmãos
sicilianos Franco La Pera
e Ciccio La Pera. São
soldados nortistas covardes e atrapalhados. O filme é comédia burlesca das mais
exageradas. Dessa característica resultam os problemas. Diante das excessivas patacoadas
derivadas principalmente das micagens de Franco Franchi, os demais componentes
do elenco parecem reduzidos a figurantes pasmados. Não sabem bem o que fazer com
bocas, expressões e mãos. Exemplos dessas deficiências são as belas e inúteis beldades
vividas por Margaret Lee e Moira Orfei. Parecem-se mais a estáticos enfeites de
mesa, incapazes de ação própria. Dão a impressão de serem movimentadas à força e
com má vontade por elementos exteriores à cena. Fernando Sancho — geralmente o
homem mau dos westerns europeus — é exceção na pele do Sargento Fidhouse. O
mesmo vale para Franco Giacobini como um estereotipado e divertido Cochise,
chefe Apache.
Baseados no Forte
Álamo, os La Pera
pereceram heroicamente em
combate. Com essa nota triste começa a história. Recebem
condecorações póstumas por bravura. No entanto, a trapaça é imediatamente descoberta.
São aprisionados e condenados à morte por fuzilamento, algo que não será fácil diante
das muitas trapalhadas que provocam. Por um golpe de sorte são perdoados pelo
desgostoso Coronel (Calindri) comandante da guarnição. Serão usados como bois
de piranha em experimento científico sobre as vantagens bélicas da espionagem.
O estudo é desenvolvido por notórios especialistas da inteligência militar
(Tieri e Garrone). Cabe-lhes observar o comportamento dos La Pera quando lançados em busca
de informações no interior das linhas controladas pelas forças do Sul. Infelizmente,
a ciência não contava com a profusão de variáveis intervenientes — impossíveis
de controle, portanto — geradas pelas desastradas cobaias. Provocam seguidos
aprisionamentos dos inteligentes especialistas por forças confederadas.
Evidentemente, graças à ação do destino, derrotam todo um destacamento sulista
que ameaçava o Forte Álamo. Na operação, descobrem a traição cometida pelo Sargento
Fidhouse e conseguem capturá-lo quando estavam envolvidos com os Apaches. Franco
e Ciccio são reconhecidos como heróis de fato. Promovidos a sargentos, fazem
jus às mais honrosas condecorações militares e a uma destrutiva salva de canhão.
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Os irmãos La Pera (Ciccio Ingrassia e Franco Franchi) entre Baby O'Connor (Moira Orfei) e Beth "The Lynx" Smith (Margaret Lee) |
O veterano Giorgio
Simonelli acumulou experiência na direção de filmes estrelados por Franco
Franchi e Ciccio Ingrassia. Gerarchi si muore (1961), é o primeiro.
Seguem-se I tre nemici (1962), 2 samurai per 100 geishe (1962), Dois
mafiosos no far west (Due mafiosi nel far west, 1964), Os
dois mafiosos (I due mafiosi, 1964) e I due
toreri (1964). Após Os dois sargentos do General Custer
fez Dois
mafiosos contra Goldfinger (Due mafiosi contro Goldginger,
1965), Dois mafiosos contra Al Capone (2 mafiosi contro Al Capone,
1966), Os dois filhos de Ringo (I due figli di Ringo, 1966)[2],
I
due sanculotti (1966) e Amici più di prima (1976)[3]
— com o qual encerrou a carreira.
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O Coronel (Ernesto Calindri) condecora os irmãos La Pera (Ciccio Ingrassia e Franco Franchi) |
Infelizmente, diante
dos frágeis resultados, Giorgio Simonelli dá a impressão de não existir em Os
dois sargentos do General Custer. Em todos os sentidos a realização
sofre da ausência de direção capaz ao menos de atenuar os excessos. Pelo visto,
Simonelli se limitava a gritar AÇÃO. A seguir, deixava para a natureza os
cuidados com os aspectos artísticos, humorísticos e narrativos. Somente
crianças desprovidas de maiores exigências são capazes de suportar impunemente
tão relapso exercício de chanchada.
Roteiro: Giorgio Simonelli, Amedeo Sollazzo, Marcello Ciorciolini baseados em
história de Marcello Ciorciolini. Música:
Angelo Francesco Lavagnino. Direção de
fotografia (Eastmancolor): Isidoro Goldberger. Montagem: Franco Fraticelli. Desenho
de produção: Nedo Azzini. Decoração:
Nedo Azzini. Figurinos: Nedo Azzini.
Gerente de produção: Mario Mariani. Supervisão da produção: Piero Picuti. Assistentes de direção: Francisco Ariza,
Giuliano Carnimeo. Planejamento do set:
Ramiro Gómez. Assistente de decoração:
Giuseppe Cesare Monello. Engenharia de
som: Leopoldo Rosi. Efeitos
especiais: Armando Grilli. Operador
de câmera: Gianni Bergamini. Assistência
de figurinista: Gabriella Gabrielli. Armeiro:
Enzo Musumeci Greco (não creditado). Continuidade:
Paola Salvadori. Tempo de exibição: 96
minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1978)