Creio
que a reação inicialmente negativa que tive em relação a Bastardos Inglórios,
filme anterior e primeira incursão do cineasta Quentin Tarantino no gênero
Guerra, foi a mesma que manifestei logo após (ou mesmo durante a exibição de) Django Livre, seu
primeiro Faroeste, que finalmente vi, após mais de um ano da sua estreia. A
produção é caprichada, com reconstituição de época em bons cenários e figurinos
– melhor do que a cenografia de pequenos espaços, que pouco ou quase nada nos
situava no europeu período da Segunda Guerra de Bastardos... Porém, ao final deste “bangue-bangue”
modernoso, não me senti arrebatado, como era de se esperar como quando via
qualquer filme de Sergio Leone ou Sam Peckimpah; tampouco, numa reinvenção do
gênero, como aconteceu, por exemplo, na excelente releitura dos filmes de Kung-fu em Kill Bill... Muito longe disso, na verdade! Mas, afinal, não
era este o talento maior deste diretor? Pegar histórias aparentemente simples e
emendá-las com grandes referências pop,
palavrões aos borbotões sob uma normalmente excelente e eclética trilha sonora
e muita violência estilizada, reciclando tramas e personagens antigos em algo
moderno e sempre interessante, com a precisão artística de um renomado
ourives? Infelizmente, acredito que o “ouro” esteja começando a faltar na mina
tarantinesca...
Não
que seu Cinema tenha ficado “ruim” – não, de forma alguma: como diretor, seu domínio
na arte narrativa e na condução perfeita dos atores em meio a situações tantas
vezes inverossímeis continua preciso! E, à exceção do fraco O Homem de Hollywood ou
do sofrível À Prova de Morte (equivocadas parcerias em Grande
Hotel e Grindhouse, respectivamente, ambas
com o diretor Robert Rodriguez), mesmo quando ele derrapa, o filme ainda
costuma ter suas qualidades! Mas o problema com Bastardos e Django parece ser o mesmo: não há um
grande filme, tudo reduzindo-se a ser “Tarantino” demais! Ok, o cara criou um
subgênero de si mesmo como poucos conseguiram na História do Cinema (como
Hitchcock)... Mas enquanto isso era um divertido apêndice na sua
obra-prima Pulp Fiction - Tempo de Violência e nos excelentes pequenos
clássicos como Cães de
Aluguel e Jackie Brown, atingindo
seu ápice em Kill Bill,
parece ter virado o único mote de suas produções atuais, entrando em franca
decadência em seus trabalhos posteriores...
Assim,
se pudéssemos visualizar o conjunto da sua obra num “gráfico”, daqueles bem
engraçadinhos que saltavam à tela para enfatizar algo num de seus bons filmes
anteriores, veríamos uma reta descendente: a bobagem à moda trash anos 70, cheia de pés femininos e
mortes absurdas de À Prova de Morte foi mero exercício de ego num filme
ruim, em "homenagem" às sessões duplas de filmes 'Z' dos antigos drive-ins; e Bastardos
Inglórios, apesar de bem melhor, com Christopher Waltz como o
inesquecível nazista Coronel Lando (vencedor do Oscar) e com uma interessante
repaginação da História com um inusitado assassinato de Hitler, também acabou
sendo somente uma estória engraçadinha com muitas pausas para cansativos
“momentos Tarantino” – como o “incidente da taberna”, desnecessário para a
condução da trama, mas absolutamente necessário para atestar as já costumeiras
identificações do público cativo para com o seu “estilo”...
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Jamie Foxx e Christopher Waltz |
Já
seu recente western até
parte de premissa interessante: Jamie Foxx (Django Freeman, daí o título
em Português) ajuda Christopher Waltz (ele de novo, e com novo Oscar pelo
seu Dr. King Shulz) no trabalho sujo
de caçador de recompensas e este, ao final, entrega-se de corpo e alma à busca
do amigo negro pela amada esposa, tudo ambientado no racista sul
norte-americano pré-abolição... Infelizmente, entretanto, Django Livre segue no mesmo nível de seu
antecessor: apesar do clima bem mais comedido e do ótimo uso de grandes
composições do “compositor-faroeste” por excelência, Enio Morricone (com
direito a “música-tema”, à western anos 60, de autoria de Luis Bacalov,
de O Carteiro e O Poeta), nem mesmo a ilustre presença de Franco
Nero (que viveu Django em vários faroestes-espaguete dos anos 60, mas sem
relação alguma com o filme atual) e de um divertido e fetichista Don Johnson (o
"cara das negrinhas") consegue arrebatar o espectador como em tempos
idos...
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Jamie Foxx e Franco Nero: o Django de Tarantino e seu ilustre antecessor. |
A incômoda sensação de inverossimilhança no desenvolvimento dos personagens e
de situações gratuitas e mal ajambradas que vão surgindo em Django
Unchained (como a matança final em Candyland), especialmente
a partir do meio-final, acaba prejudicando todo o resto. Isso sem falar na
falta de empatia com o protagonista, no imenso desperdício de um excelente
Leonardo DiCaprio, na logorreica sana do diretor/roteirista por longos e
espertos diálogos (ao ponto de um ex-escravo recém-liberto, no pequeno período
de convívio com um sofisticado caçador de recompensas, passe a ser um
articulado estrategista) e nas incômodas inserções de modernosos rap e hip-hop em cenas marcantes: tudo rapidamente
nos lembra de que se trata de um “filme de Tarantino”! Mas até que ponto isso é
bom? Ultimamente, desde o clássico pop Kill
Bill, eu diria que num ponto bem distante...
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Quentin Tarantino na direção de Django Livre |
Já
quase no fim do longa, Tarantino resolve dar as caras numa pequena aparição (um
Hitchcock que não deu certo)... Se o seu Cinema está longe do furor que um dia
teve, pelo menos a sua participação conseguiu ser
"explosiva", meio que sintetizando a essência sem razão de ser do seu
trabalho na atualidade: pode até ser divertido, mas se foi pelos ares...
(Dilberto Lima
Rosa, fevereiro de 2014)
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