domingo, 9 de outubro de 2016

SZABÓ SUBMETE AS 'AMIGAS' À IMPLACÁVEL IMPESSOALIDADE DO AJUSTE HISTÓRICO

Queridas amigas (Édes Emma, drága Böbe - vázlatok, aktok, 1992), de István Szabó, é das mais implacáveis e cruéis realizações. Devolve o aclamado diretor de Mephisto (Mephisto, 1981) e Coronel Redl (Oberst Redl, 1985) à Hungria natal e ao reencontro com as melhores qualidades de um artista talentoso e sensível observador, atento às contradições históricas. Uma questão básica permeia seus melhores trabalhos: como os indivíduos — existências ordinárias e singulares — são afetados nos angustiantes momentos de inflexão da história, abertos às mudanças sociais e políticas? Especificamente, que alternativas restam às ajustadas amigas Emma (Johanna ter Steege) e Böbe (Enikö Börcsök)? Ambas perdem por completo o controle sobre as vidas que levavam: respeitáveis professoras de língua russa no período marcado pelo fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e desagregação das democracias populares do Leste Europeu. Evidentemente, Szabó não manifesta interesse apenas pela sorte das protagonistas. Ambas ilustram, com seus pequenos-grandes dramas, de forma amplamente representativa, a tragédia que se abateu sobre tantos outros cidadãos comuns obrigados ao ajuste da noite para o dia quando o socialismo de Estado se abriu ao capitalismo da economia de mercado. A realização não emite juízos de valor. O que faz é acompanhar cirurgicamente os impactos nada neutros e imparciais das mudanças sobre pessoas comuns, geralmente desprovidas de rostos e identidades nas considerações estatísticas. A apreciação a seguir é de 1993.






Queridas amigas
Édes Emma, drága Böbe - vázlatok, aktok

Direção:
István Szabó
Produção:
Ovari Zajos, Gabriella Grósz
Mafilm Audio Kft., Manfred Durniok Filmproduktion, Objektív Film, Videovox Stúdió
Hungria — 1992
Elenco:
Johanna ter Steege, Enikö Börcsök, Péter Andorai, Éva Kerekes, Irma Patkos, Ildikó Bánsági, Erzsi Pásztor, Hédi Temessy, Irén Bódis, Erzsi Gaál, Zoltán Mucsi, Tamás Jordán, Gábor Máté, Olivér Csendes, Attila Kaszás, Ágnes Csere, Marta Kertesz, Andrea Kiss, Judit Czigány, István Komlós, Magda Darvas, Szilveszter Siklósi, József Horváth, Sólyom Katalin, Joli Jászai, Zsófia Varga, Jolanta Mielech, Gerd Blahuschek, Zsuzsanna Czege, Jürgen Mai.



O diretor István Szabó em 1981, quando do lançamento Mephisto  um dos seus melhores filmes


Queridas amigas é, certamente, o primeiro filme a atingir a estatura de clássico na produção do Leste Europeu. Veio à luz pouco depois do fim da União Soviética e eclosão das "revoluções de veludo" — movimentos que dissolveram as democracias populares da região. Tem ainda o mérito de devolver István Szabó à Hungria natal e ao reencontro do talento parcialmente comprometido após realizar, na Inglaterra, o anódino Encontro com Vênus (Meeting Venus, 1991).


Como reage o indivíduo perante forças implacáveis e descontroladas, arregimentadas pelo imponderável avanço da história? Este questionamento é central nos melhores filmes de Szabó: Mephisto (Mephisto, 1981), Coronel Redl (Oberst Redl, 1985), Hanussen (Hanussen, 1988) e Queridas amigas. Neste, o diretor submete as personagens do título — Emma (Steege) e Böbe (Börcsök) — à inexorabilidade do processo histórico com suas consequentes e violentas transformações sociais e políticas. Ambas serão lançadas no olho do furacão e duramente afetadas.



Acima e abaixo: Emma (Johanna ter Steege) e Böbe (Enikö Börcsök)
As vidas viradas pelo avesso com o fim do socialismo na Hungria


1990: as revoluções que puseram fim ao comunismo em todo o Leste Europeu atingem a Hungria. Sobe à presidência o escritor e ex-dissidente Árpád Göncz. Súbito, o país até há pouco satélite do regime soviético perde o eixo, lançado numa adaptação forçada aos novos tempos de economia de mercado integrada: capitalista, ocidentalizada, liberalizada e globalizada. Pessoas comuns, acomodadas em suas posições e atividades depois de muitos anos, perdem a razão de ser e existir. Sem desconsiderar os problemas macro — econômicos, sociais e políticos — envolvidos na passagem de um sistema a outro, Szabó concentra o foco nas questões micro, mais próximas dos indivíduos e sentimentos, pouco visíveis se consideradas no plano da complexidade geral, marcadamente impessoal.


O cineasta revela como a história é impiedosa quando se põe a atropelar existências singularizadas e modos inteiros de vida pelo caudal das transformações. Incertezas e inseguranças predominam ao longo dos caminhos abertos à medida que o processo avança, quase sempre sem considerações à racionalidade de uma direção projetada e consentida.


As provincianas Emma e Böbe, bem adaptadas ao antigo modo de vida, residem em Budapeste. Ocupam apartamentos do Estado e lecionam a língua russa em instituição pública de ensino. A existência anódina e estabilizada que levavam desmorona. Descobrem, por seus superiores, que o esfacelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e das democracias populares da "cortina de ferro" deixou sem sentido a obrigatoriedade de ensinar o russo. O momento exige conhecimento do inglês, que não dominam. Para manter os empregos e a sobrevivência, entregam-se à louca atividade de ensinar à tarde a lição de língua inglesa que tiveram pela manhã.


Böbe (Enikö Börcsök) e Emma (Johanna ter Steege) no curto período de euforia com as mudanças


Mas não é apenas isso: a liberalização atinge a Hungria em todos os campos — da economia aos costumes, dos status aos papéis sociais. No novo equilíbrio os professores não gozam de tanto prestígio como no período do centralismo soviético. Isto é logo percebido pelo muito sensível sensor da economia doméstica. As amigas são obrigadas a buscar, em outras atividades, complementos financeiros à sobrevivência. Emma se oferece como faxineira em suspeitas residências de luxo, agora propriedades de antigos servidores do sistema colapsado que "souberam" se adaptar. Böbe tenta, a qualquer preço, um ajuste mais pragmático e imediato. Com equivocado senso de observação sobre a aparência dos novos tempos, entrega-se à ainda ilegal atividade de se prostituir para turistas estrangeiros. Perseguida pela polícia e psicologicamente fragilizada, não resiste às provações e comete suicídio.


Emma (Johanna ter Steege) e Böbe (Enikö Börcsök)
Diante do impacto das transformações sociais e preocupadas com a sobrevivência


A câmera de Szabó passeia por Budapeste. Acompanha as personagens e flagra as consequências mais imediatas da mudança: desalojados e mendigos ocupam as calçadas; punks exibem estranho visual; turistas estrangeiros se apresentam curiosamente trajados; novos bares e lojas comercializam produtos os mais variados e jamais vistos no país. A ocidentalização introduz hábitos, atividades, experiências e percepções até então desconhecidos. Mas a exploração de Szabó revela a superficialidade das novidades. São frágeis peças da conjuntura, incapazes de remover e abalar a rigidez da estrutura anterior. Esta resiste praticamente impávida, qual potência invisível, sob a fina capa das mudanças.


 Emma (Johanna ter Steege), à direita,  no transporte público e acompanhada de novos elementos incorporados à paisagem urbana


Se o indivíduo — como existência singular e categoria sociológica — foi emancipado, não obstante permanece em vigor uma situação que não o considera. Está longe da derivação em cidadão — o sujeito normativo das instituições modernas, gestado na emergência dos Estados nacionais autônomos e internamente legitimados pelos direitos básicos: políticos, civis e sociais. Autoridades e serviços continuam sob influência do burocratismo herdado do regime soviético, acompanhado de truculência, falta de profissionalismo e preconceito. É o que percebe quando Emma se dirige ao posto policial para denunciar a agressão sexual que sofreu. É o que Böbe experimenta ao se frustrar fatalmente na tentativa mal pensada de liberação da conduta.


Fracassa quem não souber se adequar à racionalidade instrumental dos novos tempos, combinada ao modus operandi do sistema deslegitimado, mas, informalmente, ainda em vigor. Com simplicidade associada a uma habilidade narrativa direta, seca, amarga e sem firulas, Szabó posiciona o espectador no olho da câmera, conduzindo-o qual testemunha ao âmago destroçado das duas mulheres. Elas servem de reflexo às sensações vivenciadas por todas as pessoas comuns, despejadas sem mais nem menos na emergência de períodos incertos.


Mesmo nos momentos bem humorados e descontraídos, marcam presença a angústia, a insegurança e o desespero. Como na sequência em que Emma, Böbe e outras colegas de infortúnio arriscam os mais caros princípios e valores ao posar despidas em um teste que orientará a escolha de atrizes para um filme pornô. As lentes dos fotógrafos e a nudez não as intimidam tanto. Desconforto maior é provocado pela situação que as submete ao insensível processo de despersonalização e descaracterização qualitativas. Nuas e enfileiradas, aguardam o momento das fotografias. Porém, deixaram de ter nomes e rostos específicos. Foram reduzidas a corpos reificados e aos números que as identificam, bem estampados nas plaquetas de papel que carregam. Tornaram-se apenas entidades abstratas. Podem ser, à revelia das próprias vontades, subtraídas, somadas, divididas, multiplicadas e negociadas.



Acima e abaixo: Emma, interpretada por Johanna ter Steege

  
Queridas amigas tem duas imagens particularmente fortes e chocantes: a de Emma debruçada sobre a cabeça da suicida Böbe, envolvida no sangue ainda fresco, e a visão recorrente de um corpo nu rolando descontrolado pela encosta escura — a própria alusão da falta de segurança.


 Emma (Johanna ter Steege) junto ao corpo de Böbe (Enikö Börcsök)


Em 1992, na mostra competitiva do Festival de Berlin, Queridas amigas e István Szabó obtiveram menção especial da parte do Júri Ecumênico. O diretor também levou o Prêmio Especial do Júri Oficial (o Urso de Prata) e foi nominado ao Urso de Ouro. Nesse mesmo ano, pelo European Film Awards, Szabó venceu na categoria de Melhor Roteirista Europeu e Johanna ter Steege foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz Europeia.


Böbe (Enikö Börcsök) e Emma (Johanna ter Steege) nos últimos momentos de felicidade

  
Roteiro: István Szabó, Andrea Vészits. Música: Tibor Bornai, Mihály Móricz, Feró Nagy. Direção de fotografia (cores): Lajos Koltai. Montagem: Eszter Kovács. Desenho de produção: Attila Kovács. Decoração: László Makai. Figurinos: Zsuzsa Stenger. Maquiagem: Erzsébet Forgács, Rozalia Szegedi. Contrarregra: Mihály Balogh, Hardi Zoltán. Gerente de construções: Tibor Égenhoffer. Operador de microfones: István Pergel. Dublê: György Kivés. Fotografia de cena: István Bartók. Técnicos de iluminação: Sándor Domokos, Molcsán Zsigmond, Károly Sipos, József Trombitás, József Tóth, Antal Török, Zsigmond Molcsány. Operador de câmera: Gyula Kovács. Alfaiate: Imre Béres. Guarda-roupa: Anikó Fazekas, István Pataki. Assistente de montagem: Kinga Molnár. Técnicos: Gyula Krasnyánszky, Ferenc Siskó. Edição do roteiro: Gabriella Prekop. Tempo de exibição: 90 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1993)