domingo, 2 de dezembro de 2018

ROBERT ALDRICH CONFRONTA O COMPLEXO INDUSTRIAL MILITAR E A ‘REALPOLITIK’ DO TIO SAM

Aos meus critérios, Robert Aldrich é um dos mais importantes cineastas. Liberal da boa cepa, cínico, sem papas na língua — ou nas imagens —, afrontou várias vezes o status quo estadunidense em realizações no mínimo poderosas. As boas considerações à honra militar, ao heroísmo, à política, aos bastidores do teatro foram seriamente arranhadas em filmes vigorosos que invadiram a cena desde os anos 50. Vera Cruz (Vera Cruz, 1954), A morte num beijo (Kiss me deadly, 1955), A grande chantagem (The big knife, 1955), Morte sem glória (Attack, 1956), O último por-do-sol (The last sunset, 1961), O voo do Fênix (The flight of the Phoenix, 1965), Os doze condenados (The dirty dozen, 1967), Resgate de uma vida (The Grisson Gang, 1971), A vingança de Ulzana (Ulzana's raid, 1972) e O Imperador do Norte (Emperor of the North Pole, 1973) honrariam a filmografia de qualquer cineasta. Tive, recentemente, a oportunidade de ver um dos seus últimos trabalhos: a sóbria, simples e realista ficção política O último brilho do crepúsculo (Twilight's last gleaming, 1977), interpretada por atores do primeiro time com destaque para Charles Durning no papel do íntegro, honesto e relativamente ingênuo David Stevens, Presidente dos Estados Unidos. É enredado numa trama provocada pela inesperada ação do rebelde General Lawrence Dell (Burt Lancaster), da Força Aérea, que ameaça lançar mísseis nucleares sobre meio mundo se não forem reveladas algumas verdades sobre a Guerra do Vietnã. Poucos filmes tiveram tanta disposição para desmascarar a estrutura atualmente conhecida como Complexo Industrial Militar e a realpolitik que orienta os rumos, decisões e capacidade de resistência da república estadunidense. O último brilho do crepúsculo fornece a apreciação da vez neste blog.






O último brilho do crepúsculo

Twilight's last gleaming

Direção:
Robert Aldrich
Produção:
Merv Adelson
Bavaria Atelier, Bavaria Film, Geria Productions, Lorimar Productions
EUA, República Federal da Alemanha — 1977
Elenco:
Burt Lancaster, Roscoe Lee Browne, Joseph Cotten, Melvyn Douglas, Charles Durning, Richard Jaeckel, William Marshall, Gerald S. O'Loughlin, Richard Widmark, Paul Winfield, Burt Young, Charles Aidman, Leif Erickson, Charles McGraw, Morgan Paull, Simon Scott, William Smith, Bill Walker, David Baxt, Glenn Beck, Ed Bishop, Phil Brown, Gary Cockrell, Don Fellows, Weston Gavin, Garrick Hagon, Elizabeth Halliday, David Healy, Thomasine Heiner, William Hootkins, Ray Jewers, Ron Lee, Robert Sherman, John Ratzenberger, Robert MacLeod, Lionel Murton, Robert O'Neil, Shane Rimmer, Pamela Roland, Mark Russell, Rich Steber, Drew W. Wesche, Kent O. Doering, Allan Dean Moore, M. Phil Senini, Rich Demarest e o não creditado Gary Harper. 



O cineasta Robert Aldrich durante a realização de O último brilho do crepúsculo



Em 1964, ano capital para a democracia brasileira, John Frankenheimer dirigiu Sete dias de maio (Seven days in May). Nele, Burt Lancaster é o General James Mattoon Scott, falcão da extrema-direita. Contrariado com um tratado de contenção nuclear assinado com a URSS, ameaçou a estabilidade política dos EUA com um golpe de Estado. Agora, no título em apreço, o ator volta ao papel de um militar rebelde de igual patente: Lawrence Dell, da Força Aérea. De início, Lancaster não se interessou pelo personagem. Mudou de ideia ao saber da desistência de Aldrich em dirigir o drama bélico Uma ponte longe demais (A bridge too far, 1977) — passado às mãos de Richard Attenborough — para assumir O último brilho do crepúsculo[1]. É sua quarta parceria com o cineasta. Estiveram juntos nos sólidos westerns O último bravo (Apache, 1954), Vera Cruz (Vera Cruz, 1954) e A vingança de Ulzana (Ulzana’s raid, 1972).


Marcada por vigorosas, realistas e cínicas narrativas — geralmente conduzidas a palo seco —, a carreira do rebelde, liberal e antimilitarista Aldrich entrou em acentuado descenso a partir de 1967, após o sucesso de Os doze condenados (The dirty dozen). A seguir, lançou doze títulos, até o encerramento da carreira em 1981 com o fraco Garotas duras na queda (...All the marbles). Os destaques dessa etapa final são: Triângulo feminino (The killing of sister George, 1968), Resgate de uma vida (The Grisson Gang, 1971), A vingança de Ulzana, O Imperador do Norte (Emperor of North Pole, 1973), Golpe baixo (The longest yard, 1974) e O último brilho do crepúsculo.


O último brilho do crepúsculo é ficção política com ação passada em 1981, quatro anos após o ano da realização. Todas as cenas foram captadas por duas câmeras em operação simultânea, quase sempre em ambiente fechado. A edição final lançou mão da tela dividida, também vista em Golpe baixo. O recurso permitiu a exibição conjunta de dois a quatro segmentos diferentes da ação. Se o artifício pretendia ampliar o dinamismo da exposição e elevar a temperatura nos instantes de tensão, não logrou efeito.


Burt Lancaster no papel do rebelde General Lawrence Dell

Willis Powell (Paul Winfield) e Audie Garvas (Burt Young), auxiliares de Lawrence Dell (Burt Lancaster)


Devido ao tema espinhoso, Aldrich deslocou a base da produção para a República Federal da Alemanha na esperança de contar com maior liberdade e mobilidade criativas. Na mira do diretor está o atualmente denominado Complexo Industrial Militar — jamais mencionado no filme —, considerado o verdadeiro e invisível guardião do poder político nos Estados Unidos. Seus tentáculos são ocultos, inclusive para o Presidente da República. Este é apenas uma espécie de gerente consentido para orientar a sociedade a partir do “controle” do Estado.


Alheio às engrenagens imperceptíveis que operam nas entranhas do sistema, o Presidente é percebido, realisticamente, mais como elemento conjuntural de pouco importância, um mantenedor de aparências passível de pronta remoção a qualquer momento, seja em nome da segurança ou da preservação das estruturas organizadoras dos interesses do status quo.


Em que pese a complexidade do tema com aparência de teoria da conspiração — ainda mais para a época da realização —, O último brilho do crepúsculo tem aspecto de filme “B” ou de produto televisivo. Estes padrões são até fontes de virtudes. Favoreceram a abordagem econômica e direta, sem ostentação. O setor mais requintado da produção reside no elenco estelar. Hoje, seria inviável reunir no mesmo cast tantos nomes de peso sem o grave comprometimento do orçamento. Além de Lancaster, comparecem: Melvyn Douglas, Richard Widmark, Joseph Cotten, Charles Durning, Richard Jaeckel, William Marshall, Paul Winfield, Burt Young etc. Vera Miles e Pippa Scott também marcaram presença, mas foram excluídas do corte final.


Richard Widmark faz o General Martin MacKenzie


A abertura privilegia símbolos estadunidenses. A imagem da Estátua da Liberdade é pano de fundo à apresentação dos créditos ao som de significativos trechos de The Star-Spangled Banne, o Hino Nacional: exaltam o esforço pioneiro e o legado forjado a preservar. Toda a ação se passa em um domingo, 16 de novembro de 1981. O dia prometa folga ao presidente David Stevens (Durning). Logo pela manhã recebe na Casa Branca o amigo de muitos anos, James Forrest (Lee Browne), para discutir assunto pessoal. O diálogo não é fundamental à narrativa. Porém, revela o caráter honesto, íntegro e pragmático — temperado por prudente idealismo — do supremo mandatário do país. Segue-se reunião de rotina com o experiente Secretário de Defesa Zachariah Guthrie (Douglas). O resto do período seria dedicado ao repouso ou aos programas esportivos na TV, desfrutados na companhia do amigo e ajudante de ordens General O'Rourke (O'Loughlin). Porém, chegam notícias alarmantes — logo confirmadas pelo General Martin MacKenzie (Widmark).


Uma base de mísseis nucleares em Montana é tomada pelo brilhante e execrado General Lawrence Dell. Considerado renegado pelo posicionamento explicitamente contrário à Guerra do Vietnã, escapou da prisão na companhia de violentos criminosos comuns: Willis Powell (Winfield), Augie Garvas (Young) e Hoxey (Smith). Conhece profundamente o local; ajudou a construí-lo. Invade a sala de controles e se apodera dos mecanismos de lançamento de nove ogivas Titans voltadas para a Europa, principalmente URSS. Ameaça dispará-las a um só tempo se não for atendido em algumas exigências: dez milhões de dólares a distribuir entre os auxiliares; caminho livre para o grupo escapar pelo avião presidencial, o Air Force One, até um país neutro; revelação pública pelo Presidente, em rede nacional de rádio e TV, de um documento ultra-secreto sobre a Guerra do Vietnã — gerado pelo Conselho de Segurança Nacional em administração há muito passada; e, finalmente, o próprio David Stevens deve se apresentar em Montana como refém.


James Forrest (Roscoe Lee Browne)

David Stevens (Charles Durning), Presidente dos Estados Unidos


Daí em diante o filme engrena e toma pulso após um começo visivelmente burocrático e irritante, marcado pelo desleixo de situações improváveis e comportamentos excessivamente estereotipados da parte dos auxiliares de Dell — um dos quais é logo descartado. Enquanto o General Mackenzie providencia ação armada de retomada da base — logo fracassada —, David Steven se reúne com representantes do alto poder da República: Ralph Whittaker (Erickson), Diretor da CIA; William Klinger (Marshall), Procurador Geral; General Peter Crane (McGraw), Comandante da Força Aérea; Arthur Renfrew (Cotten), Secretário de Estado; General Phil Spencer (Scott), Presidente do Estado Maior Conjunto; Zachariah Guthrie; e o General O’Rourke. De certo modo Robert Aldrich se inspira, em escala bastante reduzida, nas situações apresentadas por Stanley Kubrick na Sala de Guerra de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb, 1964).


David Stevens está visivelmente abalado. O staff não apresenta soluções plausíveis à crise. Lawrence Dell deu mostras da seriedade das ameaças de detonar meio mundo. O General Mackenzie não logra sucesso na tentativa de imobilizar os invasores. Tudo leva a crer que o Presidente terá que se apresentar como refém. Correrá o sério risco de morrer. Chocante, entretanto, são as revelações do secretíssimo memorando 9579 do Conselho de Segurança Nacional, cujo conteúdo deve chegar ao conhecimento do público: os EUA sempre souberam que jamais venceriam no Vietnã. Ainda assim, sacrificaram intencionalmente as vidas de mais de 50 mil jovens convocados para o front e cerca de um milhão de asiáticos. Somente para exibir o poderio militar aos russos e demonstrar que estavam dispostos a tudo na defesa do “mundo livre”. Levaram adiante um holocausto teatral de proporções homéricas e com ares de negligência criminosa.


Zachariah Guthrie (Melvyn Douglas), Secretário da Defesa


O íntegro e ingênuo David Stevens insiste para o documento chegar ao conhecimento do público, mesmo que abale a confiança depositada na condução dos negócios do país. Apela ao Secretário de Defesa. Pressionado, Zachariah Guthrie logo altera a expressão. A câmera lhe capta o semblante revelador. Comunica apenas ao espectador que se trata de um guardião da mais maquiavélica realpolitik, há muito sabedor da existência do memorando. A partir daí começa de fato um jogo de gato e rato de movimentos poucos claros a Stevens. À revelia do chefe de Estado, o staff e o núcleo duro do comando militar — representado pelo General Mackenzie — sabem bem o que fazer em obediência à lógica de que os fins justificam os meios. O epílogo é trágico e pessimista. Nas mãos do realista Robert Aldrich não seria de outra forma.


Ao final das contas, e apesar de algumas incoerências, O último brilho do crepúsculo tem muita envergadura. Traz a marca da melhor mão do diretor, tão habituado aos libelos explosivos — ainda mais em época caracterizada por pleno desencantamento e falta de confiança nos destinos não só dos Estados Unidos como de todo o Ocidente. A realização cairia muito bem para um honroso encerramento de carreira. Infelizmente, Aldrich ainda entregaria os insatisfatórios Garotos do coro (The choirboys, 1977), O rabino e o pistoleiro (The Frisco Kid, 1979) e Garotas duras na queda.


Charles Durning como David Stevens, Presidente dos Estados Unidos


O último brilho do crepúsculo está embasado em roteiro de Ronald M. Cohen e Edward Huebsch, extraído da novela Viper three de Walter Wager. Este suporte, pelo lido e ouvido, se alimentou de anotações de um expert no tratamento da realpolitik: Henry Kissinger, principalmente nos livros Nuclear weapons and foreign policy e A world restored — publicados em 1957.


Apesar do protagonismo de Burt Lancaster, o melhor em cena é Charles Durning — disparado. Aceitou o papel recusado por Paul Newman e compôs inspirado retrato para um Presidente estadunidense repleto de boa vontade e ingenuamente enredado nos fios de uma trama há muito consolidada, que lhe escapa totalmente ao controle. Contribuem para o brilho da narrativa a direção de fotografia carregada de inquietante atmosfera de Robert B. Hauser e a empolgante pontuação musical de Jerry Goldsmith, substituto do então enfermo compositor Frank DeVol — colaborador habitual de Robert Aldrich.


Os generais Martin MacKenzie (Richard Widmark) e Lawrence Dell (Burt Lancaster)


Por fim, algumas curiosidades: o título original Twilight's last gleaming é retirado de um verso do Hino Nacional dos Estados Unidos. Richard Widmark em momento algum interagiu com os demais atores, exceto alguns figurantes. Devido aos problemas de agenda, teve todas as cenas filmadas em separado. Nos Estados Unidos a exibição aconteceu com intervalo, apesar da duração nem tão extraordinária de 146 minutos.




Roteiro: Ronald M. Cohen, Edward Huebsch, baseados na novela Viper three de Walter Wager. Produção executiva: Helmut Jedele, Lutz Hengst (Geria), Harry R. Sherman (Lorimar). Música: Jerry Goldsmith. Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Robert B. Hauser. Montagem: Michael Luciano, William Martin, Maury Winetrobe. Assistente de montagem: Paul LaMastra (não creditado). Produção de elenco: Jack Baur. Desenho de produção: Rolf Zehetbauer. Direção de arte: Werner Achmann. Figurinos: Tom Dawson. Maquiagem e penteados: Georg Jauss, Hans-Peter Knoepfle. Supervisão da produção: Harry R. Sokal. Assistente de direção: Rolf M. Degener. Primeiro assistente de direção: Wolfgang Glattes. Segundo assistente de direção: Stefan Zürcher (não creditado). Concepção do poster: Bill Gold (não creditado). Arte do poster: Robert Tanenbaum (não creditado). Edição de som: Gordon Daniel, Gordon Davidson, Gilbert D. Marchant. Operador de boom: John Stevenson. Mixagem da regravação de som: John Wilkinson. Mixagem de som: James Willis. Efeitos especiais: Henry Millar. Assistente de efeitos especiais: Willi Neuner. Dublê: Tony Epper (não creditado). Eletricistas-chefes: Georg Eck, Jack Wilson. Operadores de câmera: Gerhard Fromm, Dieter Matzka.Assistentes de câmera: Franz Knoll, Gernot Köhler, Alfred Leitensdorfer. Fotografia de cena: Karl-Heinz Vogelmann. Supervisão de guarda-roupa: Tom Dawson. Guarda-roupa: Siegi Haubold, Hubert Lindenberg. Montagem musical: Joan Biel. Edição musical: John C. Hammell. Orquestração: Arthur Morton. Coordenação de transportes: Don French (não creditado). Concepção dos créditos: Walter Blake. Publicidade: Dave Davies. Consutoria técnica: Andrew Erwin. Continuidade: Alvin Greenman. Edição em linha: Petra von Oelffen. Assistente de produção: Irmi von Rüxleben. Dublagem para Richard Jaeckel: Klaus Löwitsch (não creditado). Estúdio de divisão de tela: Modern Film Effects. Estúdio de gravação: Glen Glenn Sound Company. Estúdio de elaboração de créditos principais: The Howard Anderson Company. Sistema de mixagem de som: monoaural para cópias óticas em 35mm, estereofônico em quatro pistas para cópias magnéticas em 35mm. Tempo de exibição: 146 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2018)




[1] Atualmente denominado O último clarão do crepúsculo no Internet Movie Database (IMDb - <https://www.imdb.com/title/tt0076845/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1>).