domingo, 11 de novembro de 2018

JOHNNY WEISMULLER PASSA A TANGA PARA LEX BARKER NA FONTE MÁGICA

Determinados filmes destinados à infância, se vistos na época correta e em condições favoráveis à apreciação, permanecem inesquecíveis por mais que o tempo passe. Um exemplo é o despretensioso e ligeiro Tarzan e a montanha secreta (Tarzan's magic fountain, 1949), primeiro título assinado por Lee Sholem. Teve exibição na TV como Tarzan e a fonte mágica. Estava para completar sete anos quando o vi no cinema, no começo de 1963. Representou experiência sensorial e tanto, por causa dos elementos fantásticos da aventura — prontos a provocar frisson na garotada facilmente impressionável das matinês: a fonte de água miraculosa, o temporal seguido de rápida inundação, o gigantesco arco de flechas flamejantes, a aterrorizante caverna que aprisiona o Homem-Macaco, o malfadado e divertido contato de Cheeta com pimenta... Certamente, nada disso surtirá efeitos aos olhos de hoje. Tarzan e a montanha secreta marca a estreia de Lex Barker no papel que imortalizou Johnny Weismuller em seis aventuras para a Metro-Goldwyn-Mayer e em igual número para a Sol Lesser Productions associada à RKO Radio. Também assinala a despedida do cinema da atriz Brenda Joyce, responsável por Jane em cinco filmes do Rei das Selvas. Ainda rende homenagens ao primeiro Tarzan cinematográfico: o ator Elmo Lincoln de Tarzan, o homem macaco (Tarzan of the apes, 1918), de Scott Sidney, aparece em rápida figuração de pescador. Segue apreciação escrita em 1978.





Tarzan e a montanha secreta

Tarzan's magic fountain

Direção:
Lee Sholem
Produção:
Sol Lesser
RKO Radio Pictures, Sol Lesser Productions
EUA — 1949
Elenco:
Lex Barker, Brenda Joyce, Albert Dekker, Evelyn Ankers, Charles Drake, Alan Napier, Ted Hecht, Henry Brandon e os não creditados Jane Adams, David Bond, Boyd Cabeen, Henry Kulky, Elmo Lincoln, Rory Mallinson, Suzanne Ridgway, Rick Vallin, Blue Washington.



No tempo de As aventuras do Super-Homem (Adventures of  Superman)
O diretor Lee Sholem com George Reeves devidamente caracterizado como Superman



Após doze filmes, os efeitos do tempo pesaram na silhueta do atleta olímpico e ator improvisado Johnny Weissmuler. Vestiu a tanga de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, em meia dúzia de aventuras produzidas pela Metro-Goldwyn-Mayer: Tarzan, o filho da selva (Tarzan the ape man, 1932), de W. S. Van Dyke; A companheira de Tarzan (Tarzan and his mate, 1934), de Cedric Gibbons e dos não creditados James C. McKay e Jack Conway; A fuga de Tarzan (Tarzan escapes, 1936), de Richard Thorpe e dos não creditados John Farrow, James C. McKay, George B. Seitz e William A. Wellman; O filho de Tarzan (Tarzan finds a son!, 1939), de Richard Thorpe, também responsável por O tesouro de Tarzan (Tarzan's secret treasure, 1941) e Tarzan contra o mundo (Tarzan's New York adventure, 1942). Nesses títulos, o papel de Jane coube a Maureen O’Sullivan.


A seguir, a Sol Lesser Productions — associada à RKO Radio — assumiu o domínio cinematográfico sobre o personagem em 11 títulos. Nos dois primeiros — Tarzan, o vingador (Tarzan triumphs, 1943) e Tarzan em terror no deserto (Tarzan's desert mystery, 1943), dirigidos por Wilhelm Thiele — Jane esteve ausente. Voltou na atuação de Brenda Joyce em cinco realizações: Tarzan e as Amazonas (Tarzan and the Amazons, 1945), Tarzan e a Mulher Leopardo (Tarzan and the Leopard Woman, 1946) e Tarzan e a caçadora (Tarzan and the huntress, 1947) — dirigidos por Kurt Neumann — seguidos de Tarzan e as sereias (Tarzan and the mermaids, 1948), de Robert Florey — no qual se encerra a participação de Weissmuler, substituído por Lex Barker em Tarzan e a montanha secreta do estreante Lee Sholem.


Brenda Joyce e Lex Barker fazem Jane e Tarzan


Barker ainda faria Tarzan e a escrava (Tarzan and the slave girl, 1950), de Lee sholem; Tarzan na terra selvagem (Tarzan's peril, 1951), de Byron Haskin; Tarzan e a fúria selvagem (Tarzan's savage fury, 1952), de Cy Endfield; e Tarzan e a Mulher Diabo (Tarzan and the She-Devil, 1953), de Kurt Neumann. Os papéis de Jane ficaram, pela ordem, com Vanessa Brown,Virginia Huston, Dorothy Hart e Joyce Mackenzie.


A substituição de Johnny Weissmuller gerou operação das mais complicadas. A imagem do mais famoso e crível protagonista de Tarzan estava, há muito, gravada na memória afetiva dos fãs. Para evitar qualquer passo em falso, o produtor Sol Lesser se cercou de todas as garantias. Pessoalmente, entrevistou mais de mil pretendentes ao papel até se deparar com o aristocrático e atlético universitário Lex Barker. De imediato, um importante problema estético se apresentou: o peito excessivamente peludo do novo Tarzan o obrigou a constantes depilações. Quanto ao mais, substituiu Weissmuller à altura. É, ainda, um dos melhores nomes que deram vida ao personagem. Estreou em filme que, aos padrões atuais, preserva relativamente bem o interesse — graças ao tom francamente fabulatório e à movimentação constante. Praticamente não há tempos mortos em Tarzan e a montanha secreta, relançado na televisão como Tarzan e a fonte mágica — opção mais fiel que o original Tarzan's magic fountain.


O novato Leo Sholem se saiu bem na empreitada e ganhou reputação como hábil encenador de produções despretensiosas e ligeiras destinadas ao consumo imediato no cinema e na TV. Dirigiu Maureen O’Hara em A rainha dos renegados (The redhead from Wyoming, 1953), Johnny Weissmuler em Homem crocodilo (Cannibal attack, 1954) e Na selva dos diamantes (Jungle man-eaters, 1954), além de episódios de diversas telesséries como a marcante As aventuras do Super-Homem (Adventures of Superman)[1], protagonizada por George Reeves.


Tarzan (Lex Barker)

Jane (Brenda Joyce)

Jane (Brenda Joyce) e Tarzan (Lex Barker)


O roteiro de Curt Siodmak e Harry Chandlee para Tarzan e a montanha secreta põe o personagem em contato com utopias sobre a preservação da mocidade segundo a descrição de James Hilton para o Shangri-La no romance Horizonte perdido (1933) e as buscas do explorador espanhol Juan Ponce de León, no século 16, pela lendária Fonte da Juventude na região estadunidense atualmente compreendida pela Flórida. O script também reatualiza, de certo modo, o desaparecimento da pioneira aviadora estadunidense Amelia Mary Earhart, em 1937, quando sobrevoava o Oceano Pacífico na tentativa de dar a volta ao mundo. Declararam-na oficialmente morta em 1939.


No filme, Gloria James Jessup (Ankers) sobrevive a acidente de avião há 20 anos — em área próxima à moradia de Tarzan. Deixada aos cuidados dos moradores do secreto Vale Azul, preservou a juventude graças aos efeitos de uma água miraculosa. Jamais voltou à civilização. Tarzan guardou cuidadosamente o segredo de seu paradeiro, inclusive de Jane. Porém, a chimpanzé Cheeta encontra os restos do avião e pertences da sobrevivente. Pressionado pela companheira, o Rei das Selvas resolve enviá-los à família de Gloria, na Inglaterra, pelo transporte aéreo mais próximo. Descobre que Douglas Jessup (Napier), marido da desaparecida, está preso sob a acusação de assassiná-la e sumir com o corpo.



Acima e abaixo: Evelyn Ankers no papel de Gloria James Jessup

  
Aturdido pela consciência, Tarzan volta ao Vale Azul. Ao tomar ciência das novidades, Gloria retorna à civilização para providenciar a libertação de Douglas. O aparecimento causa consternação geral, pois não envelheceu depois de tanto tempo. A partir daí, os ambiciosos e inescrupulosos Trask (Dekker) e Dodd (Drake), empresários do transporte aéreo, não medem esforços para descobrir as causas do mistério e obter lucro financeiro. Desafortunadamente, na distância da fonte milagrosa o envelhecimento retorna.


Passado algum tempo, Gloria retorna à selva na companhia de Douglas, Trask e Dodd. Pretendem chegar ao Vale Azul. Sabiamente, Tarzan se recusa a conduzir o grupo. Prometeu nunca revelar a rota para o lugar. Decepcionada com o companheiro e condoída com o visível envelhecimento de Gloria, Jane se oferece para guia — mesmo com parco conhecimento do terreno e sem desconfiar das intenções de Trask e Dodd. O caminho é cheio de obstáculos. Felizmente, Tarzan acompanha o grupo de perto. Com a providencial ajuda de Cheeta, livra-o de perigos e deixa os Jessup na definitiva segurança do Vale Azul — conforme o pretendido. Os ameaçadores empresários morrem. Resta a Tarzan superar a desconfiança de alguns nativos recalcitrantes, dispostos a eliminar os intrusos de uma vez por todas.


Cheeta em descobertas que desencadeiam a aventura

  
Tarzan e a montanha secreta guarda, apesar da puerilidade, os elementos fantásticos que garantiam sabor às velhas matinês da infância. Graças ao roteirista Curt Siodmak — irmão do renomado cineasta Robert Siodmak —, a narrativa alterna boas sequências de atmosfera com passagens repletas de perigos e obstáculos no caminho do Vale Azul. A inundação que surpreende Jane e comitiva na ravina estreita, quase sem saída, é um achado. Começa com uma chuva logo intensificada ao mesmo tempo em que as águas sobem a ponto de quase afogar a turma. De repente, sobrevém a estiagem e desaparecem os vestígios de umidade no terreno. Na entrada do vale, gigantesca balestra de flechas flamejantes parece ainda mais mortal devido à fotografia de tonalidades expressionistas do mestre Karl Struss. Também é o responsável pelas dimensões assustadoras da caverna na qual Tarzan é imobilizado para perder a visão mediante infernal instrumento em brasa. Certamente, as crianças de agora não sentirão frisson algum com os equipamentos e soluções cinematográficas de antanho. Sinal dos tempos!


David Bond como o Sumo Sacerdote do Vale Azul


Por fim, algumas curiosidades: em Tarzan e a montanha secreta Brenda Joyce abandona não só o papel de Jane; também o cinema. Confessou que nunca morreu de amores pela personagem e amargava as tentativas de assédio da parte de Johnny Weissmuller. Lex Barker faleceu por ataque cardíaco em 1973, aos 54 anos, enquanto caminhava em Nova York. Elmo Lincoln, o primeiro ator a viver Tarzan no cinema — Tarzan, o homem macaco (Tarzan of the apes, 1918), de Scott Sidney — faz ponta como pescador na realização de Leo Sholem.





Roteiro: Curt Siodmak, Harry Chandlee, com base em personagens criados por Edgar Rice Burroughs. Música: Alexander Laszlo. Direção de fotografia (preto e branco): Karl Struss. Montagem: Merrill G. White, John Sheets (não creditado). Desenho de produção: Phil Paradise. Direção de arte: McClure Capps. Decoração: Otto Siegel (não creditado). Maquiagem: Norbert A. Myles. Gerente de produção: Barney Briskin (não creditado). Assistência de direção: Bert Briskin. Técnico de som: Franklin Hansen. Fotografia de cena: Madison S. Lacy (não creditado). Eletricista-chefe: John M. Lee (não creditado). Operador de câmera: William Margulies (não creditado). Assistência de câmera: Morris Rosen (não creditado). Supervisão de guarda-roupa: Frank Beetson Jr. Direção musical: Alexander Laszlo. Amestrador de Cheetah: Albert Antonucci (não creditado). Continuidade: Shirley Baron (não creditada). Publicidade (não creditada): Bob Fender, Harry Niemeyer. Sistema de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 73 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1978)


[1] São 104 episódios distribuídos por seis temporadas com produção de Whitney Ellsworth, Robert J. Maxwell e Bernard Luber. Foram exibidos originalmente pelo canal Syndication de 19 de setembro de 1952 a 28 de abril de 1958.