domingo, 25 de setembro de 2016

O 'FILME DENOREX' DE GARCIA & MARTINS RECOMENDADO PARA VOYEURS

O título O olho mágico do amor (1981) prevaleceu ao mais picante e explícito O buraco do amor. Este primeiro longa de José Antônio Garcia e Ícaro Martins assinala a estreia da também diretora Carla Camurati como atriz de cinema. É um filme infiltrado, a partir da opção narrativa de investigar, pelo lado de dentro, os elementos constituintes de um gênero cinematográfico marcante à memória afetiva de muitos espectadores brasileiros: a comédia de conotações eróticas ou pornochanchada. Aliás, os incautos e mal iniciados assim classificam a realização. Equívoco maior não há. Evidentemente, os diretores aceitaram as exigências facilitadoras às filmagens, impostas pelo experimentado produtor Adone Fragano da Olympus Filmes, empresa instalada na Boca do Lixo paulista, reduto do pornoerotismo nacional. Assim, incluíram, a título de agradecimento, considerável número de cenas picantes à história, levando julgadores apressados ao engano em se tratando da classificação genérica. É um filme de baixo orçamento mas de muita criatividade. A reprimida e carente secretária Vera Maria Gatta (Camurati) acaba descobrindo a solução para se libertar da passividade depois de se vocacionar como voyeur das desinibidíssimas atividades de Penélope (Tânia Alves), uma profissional do sexo. No centro das considerações estão o comportamento e as atitudes dos aficionados pelo cinema erótico e pornográfico. Percebem-se elementos de afamadas realizações de Luís Buñuel e há participações especiais de muitas pessoas famosas, nem todas relacionadas ao universo cinematográfico. A apreciação a seguir é de 1994.






O olho mágico do amor

Direção:
José Antônio Garcia, Ícaro Martins
Produção:
Adone Fragano
Olympus Filmes
Brasil — 1981
Elenco:
Carla Camurati, Tânia Alves, Sérgio Mamberti, Enio Gonçalves, Cida Moreira, Tito Alencastro, Leonor Lambertini, Ismael Ivo, Luiz Roberto Galizia, Antônio Maschio, Gisele Reis, Maria Duarte Mamberti, José Antônio Garcia, Luiz Felipe, Arrigo Barnabé, Jorge Mautner, Nélson Jacobina, Wladimir, Pitta, Sofia Loren, Vavá Torres, Eduardo Mutarelli, Ícaro Martins, Maria Helena, Hércules Barbosa, Alaor Santos, Casagrande.



O diretor Ícaro Martins, parceiro de José Antônio Garcia na direção de O olho mágico do amor
As atrizes Tânia Alves, à esquerda, e Carla Camurati, intérpretes respectivas de Penélope e Vera Maria Gatta


O olho mágico do amor[1] é "filme Denorex[2]": parece ser o que de fato não é. Para os incautos e não iniciados este trabalho que assinala a estréia no longa metragem dos diretores José Antônio Garcia e Ícaro Martins — egressos do curso de cinema da Universidade de São Paulo (USP) com passagens pela publicidade e pelo curta — se enquadraria perfeitamente na categoria de pornochanchada. Porém, nada mais enganoso: O olho mágico do amor passa longe dessa classificação. É certo que foi realizado na Boca do Lixo paulista, tomando por cenários a Rua do Triunfo e arredores, redutos certos do pornoerotismo nacional. Os produtores Adone Fragano e a Olympus Filmes são escolados no gênero — tal qual muitos técnicos empregados na realização. Concederam todas as facilidades aos realizadores, exigindo em troca a inclusão de razoável número de cenas picantes. Garcia e Martins aproveitaram a oportunidade e cumpriram com o acordado. Porém, agiram mais como agentes infiltrados. Valeram-se de elementos, recursos e profissionais do universo da pornochanchada e contaram com o beneplácito do meio para, exatamente, observar criticamente o seu interior.


Vera Maria Gatta é interpretada por Carla Camurati

  
Carla Camurati estreia no cinema na interpretação de Vera Maria Gatta, garota de 17 anos criada em família de classe média baixa. É secretária de uma impagável Sociedade dos Amigos da Ornitologia, sediada em conjunto de um edifício situado em plena Boca do Lixo. Entre aves empalhadas, recipientes de clorofórmio, artigos de taxidermia e embalsamamento, nada tem de muito criativo a fazer. O trabalho maçante demanda a organização de papéis e fichas de endereços dos associados. O patrão Prolíxenes (Mamberti) permanece fora a maior parte do tempo. Solitária, inventa atividades para aplacar a rotina: alterar a posição dos quadros que enfeitam o escritório, por exemplo. É quando descobre um orifício na parede, que se comunica com a alcova da prostituta Penélope (Tânia Alves em atuação espetacular) no edifício vizinho, colado ao seu. Sem conter a curiosidade, Vera divisa tudo o que se passa do outro lado. Logo esquece as horas solitárias no trabalho e se entrega ao prazer da voyeur, sempre na observação de Penélope em incansável atividade sexual com clientes de todos os tipos, inclusive Prolíxenes. Enquanto isso, a recatada e reprimida secretária cede asas à imaginação.


Tânia Alves como a prostituta Penélope


Observar Penélope se transforma em obrigação e absorve Vera por completo. Mas a fixação na atividade da fogosa e insaciável meretriz não é simples obsessão doentia. É mais uma catarse, um exercício de emancipação aos efeitos negativos da vida medíocre experimentada pela jovem no ambiente doméstico partilhado com a família. Mora numa casa que é o reino da castração e da confusão. A mãe dominadora e pouco compreensiva (a cantora lírica Cida Moreira) não dá vez a ninguém. É vendedora de porta em porta e desse trabalho vem a maior parte do sustento da família. O pai, fracassado, quando não está bêbado também passa o tempo furando paredes para observar os familiares em seus momentos mais recônditos. A televisão barulhenta permanece ligada ao léu, sem alguém para assisti-la. Ainda há as companhias do irmão desocupado e da tia alienada.


A cantora lírica Cida Moreira interpreta a autoritária mãe de Vera (Carla Camurati)


Depois de devassar o mundo oculto de Penélope, Vera sofre radical mudança na personalidade e no interesse por sexo. O namorado, com quem mantinha transas esporádicas e burocráticas, não mais a satisfaz. Pelo voyeurismo afloram os verdadeiros pendores da garota. Logo que toma consciência disso resolve dar adeus ao mundinho pequeno e infeliz que a envolvia.


Novamente procura Penélope. A primeira tentativa foi particularmente dolorosa. Ao tentar entrada no hotel onde a prostituta mantém o covil, foi assediada, estuprada e assaltada pelo violento gigolô Átila (Gonçalves). Desta vez nada a impedirá. Está disposta a tudo, inclusive a matar para redirecionar a vida e assumir relação de parceria junto à meretriz. Átila que se cuide!



Depois de se dedicar ao voyeurismo, observando secretamente as atividades de Penélope (Tânia Alves), acima, a passiva Vera Maria Gatta (Carla Camurati) decide pela radical mudança de vida

  
Sim, O olho mágico do amor trabalha com elementos da pornochanchada, mas não é um filme à imagem e semelhança do gênero. É mais uma tomada de posição a partir de dentro, por um prisma que visa particularmente o público consumidor dos artigos produzidos na Boca do Lixo ou em outras praças dedicadas à produção do pornoerotismo. O alvo da realização é esse espectador, claramente identificado e prolongado nos personagens de Vera e seu pai, dois voyeurs: respectivamente, a assumida e o enrustido. Cultivam taras por orifícios de paredes e buscam nos segredos de alcova, do outro lado, compensações para carências e frustrações. A platéia típica da pornochanchada é parecida a esses dois na busca de satisfação via observação do alheio. É feita de passividade moldada por outros, como as aves empalhadas que ornamentam a sala da Sociedade dos Amigos da Ornitologia. Mas Vera ao menos rompe com a atitude imobilizadora e vai à luta, ou provoca o público a fazer o mesmo. Esta é a saída, caso contrário se tornaria uma frustrada irrecuperável, como o pai.


Penélope (Tânia Alves) com um cliente


O final, em tom de brincadeira segundo as propostas dos diretores, mostra Vera e Penélope trocando carícias eróticas na cama, enquanto outros personagens vistos ao longo da história aparecem no aposento para apreciar a cena.


O jogador de futebol Casagrande e os compositores Arrigo Barnabé, Jorge Mautner e Nelson Jacobina dão o ar da graça, rapidamente, em papéis especiais. A atriz Sofia Loren é, no caso, produto genuinamente nacional.


Vera Maria (Carla Camurati) se prepara para a emancipação e Penélope (Tânia Alves) com um cliente


Luis Buñuel também marca presença, de certa forma, em O olho mágico do amor. Vera guarda estreitas semelhanças com as personagens Tristana e Séverine Serizy, interpretadas por Catherine Deneuve em realizações do diretor espanhol, respectivamente: Tristana, uma paixão mórbida (Tristana, 1970) e A bela da tarde (Belle de jour, 1967). São mulheres insatisfeitas que apelaram ao poder subversivo do sexo para transgredir os papéis que deveriam socialmente representar. Com isso romperam os limites frágeis da moralidade burguesa que as cerceavam.


Depois de muito observar a ativa Penélope (Tânia Alves), Vera Maria (Carla Camurati) deixa de ser agente da passiva


O olho mágico do amor é produção de baixo orçamento mas de alta criatividade. Custou, em 1981, a bagatela de 7 milhões de Cruzeiros. Hoje, desconsiderada a inflação galopante que corrompia a segurança monetária do Brasil antes do advento do Real, tal valor, provavelmente, estará reduzido a alguns centavos.


Por seu desempenho Carla Camurati foi premiada, em 1982, como Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Cinema Brasileiro de Gramado. No mesmo ano, em igual categoria, mereceu o prêmio Governador do Estado de São Paulo.





Fotografia de cena: Hércules Barbosa. Direção de arte e decoração: Cristina Mutarelli. Assistente de câmera: Luiz Antônio de Oliveira. Assistentes de produção: Marcos Cunha, Filé. Assistente de montagem: Wanderley Klein. Eletricistas: José Manir, Fu Manchu, Valdecy Rodrigues. Maquiagem: Vavá Torres. Continuidade: Cida Braidotti. Laboratório: Líder. Som: Odil Fono do Brasil. Diretor de produção: Félix Aidar. Trilha musical: Luís Lopes. Intérpretes das músicas e canções: Celso Cascarelli, Albino Infantosi, Franklin Paolitto. Montagem e edição musical: Jair Garcia Duarte. Direção de fotografia (Eastmancolor) e operador de câmera: Antônio Meliande. Assistente de fotografia e de câmera: Luiz Antônio de Oliveira. Argumento e roteiro: José Antônio Garcia, Ícaro Martins. Contrarregra: Filet. Tempo de exibição: 85 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1994)


[1] Tem por título alternativo, mais provocador, O buraco do amor.
[2] Denorex é a marca de famoso shampoo anticaspa com forte odor de medicamento. O produto ficou caracterizado pelo reclame publicitário que dizia: "Tem cheiro de remédio, parece remédio, mas não é".