Arthur Hiller é um dos muitos diretores
estadunidenses formados pela televisão nos anos 50 e 60. No cinema, tem
filmografia marcada pela irregularidade. Seu maior sucesso de público é o
lacrimoso e apelativo Love story ― uma história de amor (Love
story, 1970). Porém, os melhores títulos que concebeu são os
menosprezados Não podes comprar o meu amor (The Americanization of Emily,
1964), Tobruk (Tobruk, 1967), O homem de La Mancha (Man
of La Mancha ,
1972) e o plenamente reconhecido Hospital (The hospital, 1971). Por
este filme George C. Scott foi novamente indicado ao Oscar de Melhor Ator, um
ano após recusar a estatueta em igual categoria por Patton ― rebelde ou herói?
(Patton,
1970), de Franklin J. Schaffner. No papel do médico Herbert Bock ― profissional
consciencioso e à beira do colapso nervoso em uma grande instituição hospitalar
em crise ―, Scott é uma das sólidas pedras angulares da realização. A outra é o
bem amarrado e complexo roteiro de Paddy Chayefsky. Hospital está entre os
raros filmes capazes de antecipar os rumos de um momento histórico em gestação,
quando os sinais característicos do novo tempo ainda se mostravam incompletos e
embrionários. A caótica e aparentemente inadministrável organização na qual
trabalha o abnegado Dr. Bock é um retrato nítido das ameaças que logo pairariam
sobre o serviço público e vocações de profissionais zelosos, atentos ao bem
comum. Atualmente, desde 1995, o título integra o National Film Registry da
Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como obra de preservação obrigatória
pelo “reconhecido significado cultural, histórico e estético”. Vi Hospital
em 1975, quando também escrevi a seguinte apreciação. De imediato fui absorvido
pela narrativa em tom de comédia de humor negro nervosamente ritmada. É uma
valiosa e socialmente bem contextualizada sátira em forma de alegoria política
sobre os descaminhos gerais dos serviços hospitalares e da medicina.
Hospital
The hospital
Direção:
Arthur Hiller
Produção:
Howard Gottfried, Paddy Chayefsky
(não creditado)
United Artists, Simcha Productions
(A Howard Gottfried/Paddy Chayefsky Production in Association with Arthur
Hiller)
EUA ― 1971
Elenco:
George C. Scott, Diana Rigg, Barnard Hughes, Richard A. Dysart, Stephen Elliott, Donald Harron, Andrew Duncan, Nancy Marchand, Jordan Charney, Roberts Blossom, Lenny Baker, Richard Hamilton, Arthur Junaluska, Kate Harrington, Katherine Helmond, David Hooks, Frances Sternhagen, Robert Walden, William Perlow M.D., Bette Henritze, Rehn Scofield, Dora Weissman, Carolyn Krigbaum e os não creditados Robert Anthony, Leigh Beery, Cynthia Belgrave, Norman Berns, Charles Bershatsky, Jacqueline Brookes, Lonnie Burr, Stockard Channing, Paddy Chayefsky, Alex Colon, Matthew Cowles, Reid Cruickshanks, Anita Dangler, Jean David, Lorrie Davis, Dennis Dugan, Eddie Epstein, Milton Earl Forrest, George Garcia, Julie Garfield, Richard Goode, Nat Grant, Sarina C. Grant, Christopher Guest, Bette Howard, Hughes, Paul Jott, Bruce Kornbluth, Bill Lazarus, Paul Mace, Nancy MacKay, Marja Maitland, Tony Major, Shawn McAllister, Ruth Attaway Morrison, Joy Nicholson, Bob O'Connell, Angie Ortega, Janet Paul, Lou Polan, Paul B. Price, Janet Sarno, Sab Shimono, Marilyn Sokol, Tom Spratley, John Tremaine, Tracey Walter, Paul Whaley, Gena Wheeler, Lydia Wilen.
Rodado nas
dependências do Metropolitan Hospital de Nova York, este é, até o momento, o filme
mais consistente do irregular Arthur Hiller ― responsável pelos recentes Hotel
das ilusões (Plaza suite, 1971) e O
homem de La Mancha
(Man
of La Mancha ,
1972). Hiller também rodou o bom Tobruk (Tobruk, 1967) ― sobre a
campanha aliada contra o General Erwin Rommel no Norte da África durante a
Segunda Grande Guerra ― e o injustamente menosprezado Não podes comprar o meu amor
(The
Americanization of Emily, 1964). É egresso da TV, para a qual trabalhou
quase que ininterruptamente de 1954
a 1965. Nesse período, fez esporádicas incursões no
cinema: Se a mocidade soubesse (The careless year, 1954), Ao
passar do vendaval (Miracle of the white stallions,
1963) e Simpático, rico e feliz (The Wheeler dealers, 1963). Infelizmente,
terá a carreira para sempre marcada pelo retumbante sucesso de público do
xaroposo Love story — uma história de amor (Love story, 1970).
Hospital é frenética comédia
de humor negro com pretensões de alegoria político sobre os descaminhos da organização
hospitalar e da medicina. Ao mesmo tempo engraçado e assustador, deixa a
plateia incomodada com a sátira às grandes instituições de tratamento de saúde.
Essas unidades engessadas pela burocratização se tornaram gigantes
ingovernáveis. No filme, servem de metáfora a uma sociedade enferma, desprovida
de crenças amalgamadoras. As exposições beiram o absurdo de tão exageradas. O
conjunto é valorizado pela luminosa atuação de George C. Scott como o abnegado Dr.
Herbert Bock. Com a vida pessoal devastada pela crise conjugal e incapacidade
de interagir com os filhos, procura se fiar no orgulho profissional e senso de
humanidade esperado de alguém vocacionado ao salvamento de vidas. Luta
quixotescamente para impor o mínimo de ordem ao hospital no qual trabalha. O
lugar está prestes a fechar por decisão da municipalidade. Os esforços de Bock
são sabotados por incessantes cortes de verbas, movimentos grevistas, desvios
de conduta de colegas e acontecimentos escabrosos envolvendo inexplicáveis mortes
de pacientes e assassinatos de médicos. Está à beira do esgotamento nervoso e pensa
seriamente no suicídio. Falha na tentativa graças à intervenção da jovem Barbara
Drummond (Rigg). Ela acompanha o pai idoso (Hughes) acometido de grave
enfermidade. Logo uma benfazeja atração se estabelece entre o cético médico e a
moça. Acertadamente, ela o percebe como a alma fraturada de um grande, feroz,
impotente e acuado animal ferido.
George C. Scott como o atormentado Dr. Herbert Bock |
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Diana Rigg no papel de Barbara Drummond |
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O Dr. Herbert Bock (George C. Scott) às voltas com o ensandecido Mr. Drummond (Barnard Hughes) |
George C. Scott é
uma das duas sólidas âncoras do filme. O papel do Dr. Bock é difícil e o
desempenho pode ser classificado de excepcional. O personagem é a representação
crível, solidamente acabada, de alguém perpassado por conflitos nos planos
interiores e exteriores ― neste caso, a caótica realidade envolvente. No
limite, tenta manter intactos, como médico e profissional consciencioso, os
ideais iluministas do serviço público ― apesar de corroídos por dentro. O Dr.
Bock indicou George C. Scott, mais uma vez, ao Oscar de Melhor Ator ― um ano
após recusar o prêmio em idêntica categoria pelo papel do General George S.
Patton Jr. em Patton ― rebelde ou herói? (Patton, 1970), de
Franklin J. Schaffner. Porém, em 1971
a estatueta terminou nas mãos de Gene Hackman pelo desempenho
de Jimmy “Popeye” Doyle em
Operação
França (The French Connection), de William
Friedkin.
O outro seguro
apoio de Hospital é o rico roteiro de Paddy Chayefsky, repleto de
possibilidades dramáticas. A peça valoriza principalmente atores e diálogos. O
autor vinha, ao menos desde 1955, comprovando habilidade no desenho de personagens
verdadeiros e plenos de humanidade na comunicação de esperanças e fragilidades.
Escreveu o guião de Marty (Marty, 1955), de Delbert Mann. Teve
melhores oportunidades no teatro e na TV. Chayefsky também roteirizou Não
podes comprar o meu amor, um dos melhores títulos de Hiller.
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O Dr. Herbert Bock (George C. Scott) tenta aliviar as tensões |
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Barbara Drummond (Diana Rigg) auxilia o Dr. Herbert Bock na dura rotina hospitalar |
Por Hospital,
Chayefsky levou o Oscar de Melhor Roteiro Original. Também foi agraciado com o
Globo de Ouro, BAFTA (British Academy of Film and Television Arts) Film Award e
WGA Award do Writers Guild of America. No Festival de Berlim, edição de 1971, o
filme fez jus ao prêmio do OCIC ― Ofício Católico Internacional de Cinema ―
endereçado a Hiller. Na ocasião, o diretor também foi laureado com o Urso de
Prata (Prêmio Especial do Júri) e teve indicação ao Urso de Ouro. Ao Globo de
Ouro, a realização ainda candidatou George C. Scott por Melhor Atuação Masculina
em Drama e Diana Rigg por Melhor Atriz Coadjuvante.
Mr. Drummond (Barnard Hughes), Barbara Drummond (Diana Rigg) e Herbert Bock (George C. Scott) |
No plano
estético-formal, a direção de fotografia de Victor J. Kemper estampou o caos
institucional e humano de Hospital ao tingir os interiores com
cores fortes e escuras. Fornecem ao ambiente a aparência suja e ocre. Parece até
que a ferrugem impregna o visual, como se percebe nas carcaças em lenta
decomposição de navios envelhecidos e há muito abandonados às forças corrosivas
dos ventos e das marés.
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Os Drs. Herbert Bock (George C. Scott) e Brubaker (Robert Walden) |
Hospital, de certa forma,
é premonitório. Capta a respiração de um tempo que rompe com as utopias
integradoras para se fazer prisioneiro da dessensibilização com as demandas do
bem comum. É marcado pela fragmentação social e descrença institucional.
Antecipa, com vigor, a entrada em cena dos deletérios poderes e vontades de
interesses particularizados, desconectados de obrigações e comprometimentos.
Prova disso é o Dr. Wellbeck (Richard Dysart), o médico celebridade, mais
preocupado com ganhos obtidos na atividade privada e publicidade nas capas de
revistas. Enquanto isso, o grosso de seus pacientes é negligenciado nos leitos
da indiferença. Os opostos, como os doutores Brubaker (Robert Walden) e o
próprio Bock são raríssimas exceções. Para o bem e o mal Hospital exibe as consequências
letais do descaso médico e institucional com a saúde. Uma entidade irada, qual
anjo vingador, passa a assombrar quartos e enfermarias. Troca prontuários de
pacientes, conduz à morte caridosa doentes terminais em sofrimentos prolongados
e assassina médicos que não honram a função.
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Barbara Drummond (Diana Rigg) e Dr. Herbert Bock (George C. Scott) |
Pessimista e
trágico, Hospital não se rende às alternativas momentaneamente fáceis. A
ingênua Barbara Drummond comparece como espécie de mítica criatura, um já
anacrônico e envelhecido espírito livre que oferece ao enfastiado e desiludido
Bock a promessa da salvação. A alternativa regeneradora exige o rompimento com
a civilização e consequente adoção dos valores da vida comunitária numa suposta
interação harmoniosa com gente simples e a natureza em reserva indígena de algum
recanto mexicano. Nesse local, o pai idoso da jovem é um líder reverenciado,
legitimado pela posse de milenar sabedoria compartilhada desinteressadamente
com todos em prol do bem comum. Fragilizado, Bock é tentado pela miragem da
radical mudança de vida. No entanto, fecha questão com o realismo. Afinal,
fugir dos problemas não é a melhor saída. Decide permanecer no hospital. Apesar
de tudo, é o mundo que conhece. Considera que vale a pena retornar e lutar para
resolver os problemas institucionais e humanos. A ação política é o caminho e
além dessa possibilidade nada resta.
Roteiro: Paddy Chayefski. Direção de fotografia (Panavision, Color DeLuxe): Victor J. Kemper.
Direção de arte e desenho de produção:
Gene Rudolf. Decoração: Herb F.
Mulligan, Robert Reilly. Títulos:
Don Record. Montagem: Eric
Albertson. Música: Morris Surdin. Produtor associado: Jack Grossberg. Figurinos: Frank L. Thompson. Segundo assistente de direção: Larry Y.
Albucher. Maquiagem: Vincent
Callaghan. Chefe de transportes:
William Curry. Casting: Marion
Dougherty. Assistentes de câmera:
James W. Finnerty, Jack Brown (não creditado), Sheldon Lubow (não creditado),
William Ward (não creditado). Supevisão
de guarda-roupa: Martin Gaiptman. Operador
de câmera: Edward Gould. Mixagem de
som: Dennis Maitland. Eletricista-chefe:
Richard Quinlan. Supervisão de script:
Barbara Robinson. Arte cênica: Bruno
Robotti. Primeiro assistente de direção:
Peter R. Scoppa. Consultor técnico:
Evelyn Woerner. Gerente de produção:
Jack Grossberg (não creditado). Estagiária
do Directors Guild of America: Barbara Bass (não creditada). Carpintaria: Harry Lynott. Camareiro: Robert Reilly. Assistente de construções: Walter Way. Contrarregra: Connie Brink (não
creditado). Operador de boom: Vito
L. Ilardi (não creditado). Gravação de
som: Gus Mortensen (não creditado). Dublê:
Harry Daley (não creditado). Fotografia
de cena: Josh Weiner (não creditado). Casting
extra: Sybil Reich. Guarda-roupa
feminino: Florence Foy (não creditado). Direção musical: Morris Surdin. Produção associada: Florence Nerlinger. Assistentes de produção (não creditados): Antonio Encarnacion,
Henry Polonsky (não creditado). Auditoria
da produção (não creditada): Sam Goldrich, Arthur Seewald. Secretária da produção: Terry Ladin
(não creditado). Secretária para o
produtor: Mary Proteau (não creditada). Publicidade: Sheldon Roskin (não creditado). Reconhecimento à: The Dept. of Public Works of the City of New
York, New York City Health and Hospitals. Serviços
ópticos: Imagic Inc. Tempo de exibição:
103 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1975)