domingo, 11 de maio de 2014

WESTERN EXEMPLAR DE HENRY KING EXPÕE A ALMA TORTURADA DO MATADOR

Anticlimático, estruturado como o avesso do western que é, O matador (The gunfighter, 1950) é brilhante em sua composição enganadoramente simples. É um dos grandes momentos do diretor Henry King e de Gregory Peck. Magnificamente fotografado em preto-e-branco por Arthur C. Miller e com discreto mas eficaz acompanhamento musical de Alfred Newman e Dimitri Tiomkin, o filme une ao western a inevitabilidade grega da tragédia. Peck interpreta o amargurado Jimmy Ringo, pistoleiro de alma destruída e destituído de lugar no cenário dos últimos dias do velho Oeste. Por força das circunstâncias e das próprias escolhas perdeu o controle sobre os rumos de sua existência. Vive impulsionado pela intervenção de variáveis alheias, esculpidas pelo destino. Erroneamente classificado como o primeiro western psicológico, O matador é, entretanto, um dos expoentes dessa vertente inaugurada por John Ford com o clássico e modelar No tempo das diligências (Stagecoach, 1939). A apreciação a seguir é de 1986.






O matador
The gunfigther

Direção:
Henry King
Produção:
Nunnally Johnson
20th. Century-Fox
EUA — 1950
Elenco:
Gregory Peck, Helen Westcott, Jean Parker, Karl Malden, Richard Jaeckel, Skip Homeier, Millard Mitchell, Anthony Ross, Verna Felton, Ellen Corby e os não creditados Archie Twitchell, Larry Buchanan, Angela Clarke, Cliff Clarke, David Clarke, Eddie Ehrhart, Jack Elam, Alan Hale Jr., Jean Inness, Mae Marsh, Harry B. Mendoza, James Millican, Alberto Morin, Ed Mundy, B. G. Norman, Eddie Parks, Hank Patterson, John Pickard, Harry Shannon, Kim Spalding, Houseley Stevenson, Ferris Taylor, Kenneth Tobey, William Vedder, Anne Whitfield, Credda Zajac, Victor Adamson, Murray Alper, Chet Brandenburg, Edmund Cobb, Dick Curtis, Harry Harvey, Tommy Lee, Pierce Lyden, Warren Schannon, Jack Tornek, Dan White, Blackie Whiteford, Michael Branden.



O diretor Henry King - o segundo da esquerda para a direita - na companhia dos seus pares:
Frank Lloyd (primeiro à esquerda), John Ford e Frank Borzage (primeiro à direita)


Gregory Peck estrelou meia dúzia de filmes para Henry King. Desconheço o sexto, O ídolo de cristal (Beloved infidel, 1959), sobre o romance entre Francis Scott Fitzgerald e a colunista Sheilah Graham. Para Rubens Ewald Filho é realização infeliz e, segundo a própria Sheilah, “tão ruim e (...) mentiroso” que ela preferiu sair “da cidade (Hollywood) por uns tempos”[1]. O terceiro, David e Betsabá (David and Bathsheba, 1952), extraído da Bíblia, é insatisfatório, o mesmo valendo para o quarto, As neves do Kilimanjaro (The snows of Kilimanjaro, 1952), baseado em livro homônimo de Ernest Hemingway. O primeiro, o intimista drama de guerra Almas em chamas (Twelve O’clock high, 1949), indicou Peck ao Oscar de Melhor Ator[2] e concorreu na categoria de Melhor Filme. O quinto é o bom Estigma da crueldade (The bravados, 1958), western de narrativa rápida e segura, um dos mais eficientes sobre o batido tema da vingança. Mas nada se compara ao segundo filme da dupla, o discreto, despojado e enganadoramente simples O matador. Não ganhou prêmios, mas frequenta as listas dos melhores westerns de todos os tempos.


1880: o velho Oeste está próximo do fim. O “texano alto e magro” Jimmy Ringo (Peck) goza de muita notoriedade e nenhuma tranquilidade. Pistoleiro, matou 12 homens. O magnetismo da fama lhe credita mortes que não causou em cidades que sequer conhece. O personagem faz, entre amargo e irônico, o balanço de uma existência chegada aos 35 anos sem nada construir. Sequer possui a segurança de um lugar que possa reconhecer como seu. “É uma bela vida, não é? Procurando continuar vivo. Sem viver realmente. Sem apreciar nada. Só tentando evitar ser morto”. Onde quer que vá encontra alguém, geralmente um jovem em busca de afirmação, querendo lhe tomar o título de gatilho mais rápido que se conhece.


"O texano alto e magro" Jimmy Ringo (Gregory Peck)


As primeiras cenas de O matador exibem os créditos sobre o personagem cavalgando no deserto. É simbólica essa imagem. A amplidão do espaço vazio e árido, distante de tudo e todos, incapaz de sustentar a vida, traduz o mundo e a alma de Jimmy Ringo. Revela a nulidade de uma trajetória feita de destruição. Ele tem ciência do significado de seu papel. Sabe que seu tempo se aproxima do fim, como o selvagem Oeste dos pistoleiros no qual foi formado. As cidades crescem, impulsionadas pelos valores da civilização. Mas não abrem espaço para gente como Ringo. É no deserto  distante dos laços da sociabilidade e da ousadia dos fanfarrões que lhe pretendem o posto  que encontra paz e segurança não permitidas pela má fama. Na primeira localidade em que chega é obrigado a matar o arrogante Eddie (Jaeckel), rapazola que o desafiara. Perseguido pelos irmãos da vítima (Hale Jr., Cliff Clarke e Pickard), ruma para Cheyenne, Novo México, onde se haverá com Hunt Bromley (Homeier), outro jovem candidato à fama.


Jimmy Ringo (Gregory Peck)


Jimmy Ringo lamenta a própria sorte ao manifestar pesar pela estúpida morte do amigo e pistoleiro Buck, encontrado num beco, estirado, com um tiro na nuca. Para a desamparada viúva Molly (Parker) deixou apenas dois revólveres, um cavalo, uma sela e 15 dólares. Silenciosamente, inveja o ordeiro e pacato Johnny (Twitchell), casado e dono de propriedade adquirida com o trabalho. Sente o mesmo por Mark Strett (Mitchell), atual delegado (marshal) de Cheyenne, outrora celerado como ele, mas que teve a sorte de saber o momento de parar e mudar de vida. Mark é o exemplo de homem que ele oferece a Jimmie (Norman) — o filho de 8 anos que teve com a professora Peggy Walsh (Westcott).


Gregory Peck é o torturado Jimmy Ringo.


São 7h50min quando Johnny Ringo chega ao Palace Bar, em Cheyenne. Daí em diante o filme conta as pouco mais de duas horas de vida que lhe restam. Não parece perigoso — notam alguns personagens. Na descrição do delegado está “um pouco mais velho, mais cansado, menos atrevido do que costumava ser”. Ou, segundo Molly, “Não está mais selvagem, apenas triste”. Na verdade, encontra-se esgotado. Veio a Cheyenne revirar o passado e arriscar a construção de um futuro alternativo, se possível em algum lugar distante (América do Sul, por exemplo) onde não o conheçam e possa ter paz. Deseja pendurar as pistolas e levar vida normal. Mas há muito perdeu o controle sobre a própria história. Vive impulsionado pela intervenção de variáveis alheias à própria vontade. Tem existência moldada pelo destino, como um personagem de tragédia. Mark sabe disso. Apesar da amizade a Ringo, pede-lhe para não se demorar em Cheyenne. Teme que sua presença traga consequências nefastas para a cidade.


Ringo deseja rever Peggy e conhecer o filho. Ela, em luta contra o passado, resiste à ideia. É professora em Cheyenne; uma agente da civilização, portanto. Faz parte de um mundo gregário e estável. Divulga ideias e valores diametralmente opostos aos representados pelo pistoleiro errante. Na cidade ninguém sabe de seu envolvimento com Jimmy Ringo, exceto o delegado. Jamais revelou a Jimmie que ele é filho do homem mais famoso daquelas bandas.


Gregory Peck no papel de Jimmy Ringo


Jimmy Ringo, por recomendação de Mark, passa quase todo o tempo acomodado no Palace Bar, esperando a oportunidade de se avistar com Peggy. Mesmo assim, praticamente oculto, tumultua Cheyenne. Não demora para toda a cidade saber de sua presença — principalmente os garotos, que montam plantão na porta do estabelecimento. Discutem quem, no Oeste, é mais rápido. Ringo se incomoda com a algazarra. Não pretendia servir de mau exemplo. Fica sabendo que Jimmie faz parte da turma. Pensa na própria infância, nas oportunidades que desperdiçou ou não teve. Questiona Mark: “Que bela maneira de educar um menino! Fazendo confusão na porta de um bar. Não há uma escola nessa cidade?” É informado que a meninada cabulou aula para vê-lo.


As representantes da liga da decência de Cheyenne  Mrs. Pennyfeather (Felton), Mrs. Devlin (Corby), a esposa (Angela Clarke) do barman (Malden) e Mrs. O'Brien (Marsh)  se mobilizam contra a presença do pistoleiro e pedem providências ao delegado. O idoso Sr. Jerry Marlow (David Clarke) se arma para emboscar Ringo, acreditando erroneamente que se trata do assassino de seu filho. O candidato a pistoleiro Hunt Bromley, enciumado com a repercussão da presença do personagem de Peck na cidade, resolve provocá-lo, na tentativa de provar que é o melhor. É regiamente escorraçado. Peggy afasta Jimmie da frente do bar. Tranca-o em casa. Mas o garoto foge pelo telhado e volta ao Palace. Os irmãos de Eddie chegam à cidade.


Molly (Jean Parker) e Jimmy Ringo (Gregory Peck)


Com a intervenção de Molly, Ringo encontra Peggy ao se esgotar o tempo de sua permanência em Cheyenne. Tenta convencê-la a participar de seu projeto de mudança de vida. Ela, a princípio, reluta, mas lhe dá uma chance. Porém, mais importante, apresenta-o a Jimmie. Ringo não revela ao garoto que é seu pai. Mesmo assim, conversam demoradamente sobre o futuro. Está pronto para partir. Charlie (Ross), auxiliar do delegado, aprisiona os irmãos de Eddie quando preparavam uma emboscada. O problema é o ressentido Hunt Bromley: atira pelas costas quando Ringo iniciava a cavalgada. Os ferimentos são mortais. Antes de expirar, Ringo convence Mark a não prender o assassino. Diz a ele: “Faria um favor se o deixasse ser enforcado e acabasse logo com isso. Mas quero que viva. Seja um matador durão. Mais tarde entenderá. Espere e verá”. Ringo lançou sobre Hunt a marca da maldição, que todos os pistoleiros carregam. “Há muitos esperando pela chance de matar o homem que matou Jimmy Ringo” — completa Mark, antes de expulsar de Cheyenne o novo matador.


Jimmy Ringo (Gregory Peck) e Peggy Walsh (Helen Westcott)

  
O matador é magnificamente fotografado em preto-e-branco por Arthur C. Miller e traz discreto mas eficiente acompanhamento musical de Alfred Newman e Dimitri Tiomkin. O sisudo Gregory Peck oferece como o lacônico e amargo personagem do título um dos melhores desempenhos de sua carreira. O papel se encaixa maravilhosamente ao fenótipo do ator, que teve a chance de repetir a proeza ao interpretar Jim Douglas, o vingador de poucas palavras de Estigma da crueldade.


Jimmy Ringo (Gregory Peck) com o filho Jimmie (B. G. Norman)


Pela forma da narração O matador se assemelha mais a um antiwestern. Isso quer dizer: Henry King construiu um drama intimista, sobre alguém que amarga uma vida dominada pela falta de sentido. Quase não há tomadas exteriores. O filme se passa praticamente em ambiente fechado. Os portentosos, expansivos e marcantes horizontes dos westerns são exibidos somente na abertura, durante a apresentação dos créditos, e na evocativa e crepuscular cena final. Cumprem função de reforçar os aspectos mítico e lendário da vida de Jimmy Ringo, que ele nunca controlou. Mas o principal bloco narrativo é todo anticlimático. Mostra um homem fechado em estoicismo, manifestando sincera vontade de romper com o próprio mito, desejando a prosaica tranquilidade do cidadão comum, ansioso para reordenar em sentido contrário a trajetória em que se firmou. Henry King carrega de austeridade e concisão essa antiepopeia crepuscular. O filme conduz a conclusões acres e melancólicas. Por um lado há o indivíduo Jimmy Ringo, impotente diante dos ordenamentos da vida. De outro há uma sociedade incapaz de reajustar os próprios valores ao pretender incorporar os mores do mundo civilizado; conservando atuantes os fatores que favorecem o surgimento dos pistoleiros. O cioso delegado Mark Strett, representante da lei e da ordem, não consegue evitar a tragédia final. Como mães, as moralistas senhoras de Cheyenne se revelam incompetentes para impedir o surgimento de negações sociais como Hunt Bromley. A escola é ineficaz para incutir novos valores nas crianças em formação.


Jimmy Ringo (Gregory Peck) com 0 delegado Mark Strett (Millard Mitchell) e sendo desafiado por Hunt Bromley (Skip Homeier)


Para muitos, O matador é o primeiro western psicológico. Ora, não é mesmo! Antes dele há Sangue na lua (Blood on the moon, 1948), de Robert Wise, e, principalmente, No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford, precursor de todos os westerns modernos, inclusive os psicológicos.






Roteiro: William Bowers, William Sellers (não creditado), Roger Corman (não creditado), André De Toth (não creditado), baseados em história de William Bowers e André de Toth. Música: Alfred Newman, Dimitri Tiomkin (não creditado). Direção de fotografia (preto-e-branco): Arthur C. Miller. Direção de arte: Lyle R. Wheeler, Richard Irvine. Decoração: Thomas Little, Walter M. Scott. Montagem: Barbara McLean. Direção de guarda-roupa: Charles Le Maire. Figurinos: Travilla. Orquestração: Edward B. Powell. Maquiagem: Ben Nye. Efeitos fotográficos especiais: Fred Sersen. Som: Alfred Bruzlin, Roger Herman. Penteados: Myrtle Ford (não creditada). Gerente de produção: Joseph C. Behm (não creditado). Assistente de diretor: F. E. 'Johnny' Johnston (não creditado). Dublês: Ted Mapes (não creditado), Duke York (não creditado). Operador de câmera: Paul Lockwood (não creditado). Fotografia de cena: Cliff Maupin (não creditado). Guarda-roupa: Sam Benson (não creditado), Ed Wynigear (não creditado). Direção musical: Alfred Newman (não creditado). Continuidade: Teresa Brachetto (não creditado). Edição do roteiro: Roger Corman (não creditado). Sistema de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 85 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1986)



[1] EWALD FILHO, Rubens. Os filmes de hoje na TV. São Paulo: Global, 1977. p. 101. Parênteses de José Eugenio Guimarães.
[2] Peck ganhou a estatueta de Melhor Ator por O sol é para todos (To kill a mockingbird, 1962), de Robert Mullingan. Além de Almas em chamas recebeu indicações por As chaves do reino (The keys of the kingdom, 1944), de John M. Stall; Virtude selvagem (The yearling, 1946), de Clarence Brown; e A luz é para todos (Gentleman’s agreement, 1947), de Elia Kazan.