MÍRIAM SILVESTRE, vencedora do PRIMEIRO PRÊMIO
"CLÁSSICOS DO CINEMA" (Grupo CLÁSSICOS DO CINEMA -https://www.facebook.com/groups/1429635047317891/ ) com o ensaio:
RENÉ CLAIR: A PERMANÊNCIA NO TEMPO SEM OS JORNAIS DO AMANHÃ
Míriam Silvestre
RENÉ CLAIR: A PERMANÊNCIA NO TEMPO SEM OS JORNAIS DO AMANHÃ
Míriam Silvestre
Curioso
pensar sobre como a obra de um cineasta consegue chegar até nós. Por vezes sua
obra original atravessa os mais diversos meandros até que compreendemos o quão
presente ele pode estar em nossas lembranças, graças a como outros artistas se
remeteram a seus trabalhos. Creio que o diretor, ator e escritor francês René
Clair (1898-1981) seja um dos nomes que melhor exemplificam esse poder do
percurso das imagens. Se um dia ouvi dizer quem fora este artista, foi porque
assisti a Tempos modernos (Modern times, 1936), de Charles Chaplin... Talvez,
para uma geração mais jovem, o caminho possa ter sido intermediado pela série
televisiva Early edition (1996-2000).
Filmes, seriados de televisão, produtos da cultura de massa que nos remetem aos diferentes trabalhos do cineasta francês – o primeiro a ter seu lugar na Academia Francesa. O que é possível ressaltar na obra deste cineasta que encantou Chaplin e que discretamente tem seu toque presente em diversos trabalhos? Ressalto dois pontos em especial que andam juntos em sua filmografia: o humor e a fantasia como elementos para observar e entender a realidade.
Nesse sentido, gostaria de comentar um momento específico de sua carreira, durante a II Guerra Mundial, exilado nos EUA, a produção de O tempo é uma ilusão (It happened tomorrow, 1944). Não, sua obra sob nenhum olhar deve restringir-se apenas a este trabalho. Sua obra é extensa, diversificada, mesmo que feita de momentos pautados no modelo mais tradicional de cinema, como escreveu um jovem e revolucionário François Truffaut, insatisfeito com alguns dos títulos de Clair ao contrapô-lo a Jean Renoir. Ao assistir alguns de seus trabalhos, senti um pouco da falta de frescor e originalidade tão presentes nesse filme em questão. Na primeira vez que vi Paixão fatal (The flame of New Orleans, 1941), por exemplo, questionei-me sobre o que acontecera com o cineasta de dez anos antes, aquele que inspirara Chaplin... Contudo, A nós a liberdade (À nous la liberté, 1931) e O tempo é uma ilusão por si valem toda a obra de Clair (ainda que, infelizmente, não conheça completamente sua filmografia).
É possível encontrarmos em O tempo é uma ilusão um pouco de tudo que Clair havia feito como cineasta. O ano de sua estreia foi 1944, quando já havia se estabelecido como diretor estrangeiro no mercado americano. Este fora o quarto de cinco filmes realizados durante o conflito mundial. É possível percebermos em sua produção do período uma predileção (casual ou imposta pelos estúdios, muito provavelmente) por tramas leves em sua superfície. Este filme, em especial, com uma trama ousada que se pauta no desejo humano de conhecer o futuro, tem um enredo sustentado pela originalidade. A riqueza do filme revela-se já no título original, It hapenned tomorrow, ao apresentar um intrincado trocadilho que brinca com a construção da frase, ao dizer que “aconteceu amanhã”...
Um pacato e infeliz escritor de obituários, Lawrence Stevens (Dick Powell) começa inusitadamente a receber do misterioso entregador de jornais Pop Benson (John Philliber) as edições do dia seguinte... sem que os acontecimentos tenham ocorrido. Stevens enxerga ali sua chance de crescimento profissional e passa a ser o detentor dos grandes furos. Como nem toda farsa consegue sustentar-se eternamente, ele se vê diante da notícia da própria morte – e tendo de fazer algo a esse respeito. Integrando o elenco, Linda Darnell no papel de Sylvia – a ajudante do farsante visionário Oscar Smith (Jack Oakie) – e namorada do jornalista Stevens.
Em tempos de aparente final de conflito um filme de enredo baseado no surreal e na possibilidade de rápido crescimento pessoal. Assim é possível ver em linhas gerais esse filme de René Clair. No entanto, sua fina ironia demonstra quão perigosa pode ser essa escolha por caminhos permeados por atalhos. Aqui, o fantástico, o irônico e o humor brincam com o desejo humano de saber sobre o amanhã. Elementos assim são facilmente encontráveis na obra deste cineasta tão rechaçado em vida como antiquado pela Nouvelle Vague. Tais presenças sutis ou explícitas nos mostram que conhecer sua obra pode proporcionar interessantes reflexões... Cabe predispormos o nosso olhar...
Filmes, seriados de televisão, produtos da cultura de massa que nos remetem aos diferentes trabalhos do cineasta francês – o primeiro a ter seu lugar na Academia Francesa. O que é possível ressaltar na obra deste cineasta que encantou Chaplin e que discretamente tem seu toque presente em diversos trabalhos? Ressalto dois pontos em especial que andam juntos em sua filmografia: o humor e a fantasia como elementos para observar e entender a realidade.
Nesse sentido, gostaria de comentar um momento específico de sua carreira, durante a II Guerra Mundial, exilado nos EUA, a produção de O tempo é uma ilusão (It happened tomorrow, 1944). Não, sua obra sob nenhum olhar deve restringir-se apenas a este trabalho. Sua obra é extensa, diversificada, mesmo que feita de momentos pautados no modelo mais tradicional de cinema, como escreveu um jovem e revolucionário François Truffaut, insatisfeito com alguns dos títulos de Clair ao contrapô-lo a Jean Renoir. Ao assistir alguns de seus trabalhos, senti um pouco da falta de frescor e originalidade tão presentes nesse filme em questão. Na primeira vez que vi Paixão fatal (The flame of New Orleans, 1941), por exemplo, questionei-me sobre o que acontecera com o cineasta de dez anos antes, aquele que inspirara Chaplin... Contudo, A nós a liberdade (À nous la liberté, 1931) e O tempo é uma ilusão por si valem toda a obra de Clair (ainda que, infelizmente, não conheça completamente sua filmografia).
É possível encontrarmos em O tempo é uma ilusão um pouco de tudo que Clair havia feito como cineasta. O ano de sua estreia foi 1944, quando já havia se estabelecido como diretor estrangeiro no mercado americano. Este fora o quarto de cinco filmes realizados durante o conflito mundial. É possível percebermos em sua produção do período uma predileção (casual ou imposta pelos estúdios, muito provavelmente) por tramas leves em sua superfície. Este filme, em especial, com uma trama ousada que se pauta no desejo humano de conhecer o futuro, tem um enredo sustentado pela originalidade. A riqueza do filme revela-se já no título original, It hapenned tomorrow, ao apresentar um intrincado trocadilho que brinca com a construção da frase, ao dizer que “aconteceu amanhã”...
Um pacato e infeliz escritor de obituários, Lawrence Stevens (Dick Powell) começa inusitadamente a receber do misterioso entregador de jornais Pop Benson (John Philliber) as edições do dia seguinte... sem que os acontecimentos tenham ocorrido. Stevens enxerga ali sua chance de crescimento profissional e passa a ser o detentor dos grandes furos. Como nem toda farsa consegue sustentar-se eternamente, ele se vê diante da notícia da própria morte – e tendo de fazer algo a esse respeito. Integrando o elenco, Linda Darnell no papel de Sylvia – a ajudante do farsante visionário Oscar Smith (Jack Oakie) – e namorada do jornalista Stevens.
Em tempos de aparente final de conflito um filme de enredo baseado no surreal e na possibilidade de rápido crescimento pessoal. Assim é possível ver em linhas gerais esse filme de René Clair. No entanto, sua fina ironia demonstra quão perigosa pode ser essa escolha por caminhos permeados por atalhos. Aqui, o fantástico, o irônico e o humor brincam com o desejo humano de saber sobre o amanhã. Elementos assim são facilmente encontráveis na obra deste cineasta tão rechaçado em vida como antiquado pela Nouvelle Vague. Tais presenças sutis ou explícitas nos mostram que conhecer sua obra pode proporcionar interessantes reflexões... Cabe predispormos o nosso olhar...
(Míriam Silvestre, 2014)
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