Os anos 50 encontram o vigoroso e incansável pioneiro
Raoul Walsh entrando no inverno de sua carreira. Mesmo assim, ainda assinaria
22 títulos até se despedir definitivamente das telas, em 1964, com o western Um
clarim ao longe (A distant trumpet). Destacam-se, nessa
fase, O falcão dos mares (Captain Horatio Hornblower R.N.,
1951), Embrutecido pela violência (Along the great divide,
1951), Tambores distantes (Distant drums, 1951) e O
mundo em seus braços (The world in his arms, 1952). Dirigiu
138 títulos, desde 1913. Hoje, certamente, são raros os cinéfilos que lhe conhecem o nome
e a obra. Dentre os grandes realizadores estadunidenses, Walsh é dos poucos que
experimentaram as aventuras retratadas. Seu cinema é marcado pela movimentação
constante, ação compacta e direta, narrativas sem floreios e personagens bem
delineados. O menor Irmãos inimigos (Gun fury, 1953) — filmado no antigo
processo de terceira dimensão — se beneficia, de certo modo, dessas qualidades. O
título opõe duas representações do individualismo extremado e deletério em
momento historicamente complicado dos Estados Unidos, quando o país fazia o
balanço de seus despojos para se reconstruir após o término da Guerra de
Secessão. A apreciação a seguir é de 1998.
Irmãos inimigos
Gun fury
Direção:
Raoul
Walsh
Produção:
Lewis J.
Rachmil
Columbia
Pictures Corporation
EUA — 1953
Elenco:
Rock
Hudson, Donna Reed, Philip “Phil” Carey, Roberta Haynes, Leo Gordon, Lee
Marvin, Neville Brand, Ray Thomas, Robert Herron, Phil Rawlins, Forrest Lewis e
os não creditados Alma Beltran, Don Carlos, John L. Carson, Charlita, John
Dierkes, Leo Gordon, Robert Griffin, Carl Harbaugh, Pat Hogan, Christey Marlo,
Bob Morgan, Post Park, Maudie Prickett, J. C. Quinn, Jim Reeves, Drake Smith,
Elaine Stritch, Rosa Turich, Mel Welles, Ray Wise, Frank Fenton, Jim Hayward,
Ethan Laidlaw, Henry Rowland, Dan White.
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O diretor Raoul Walsh, uma lenda do cinema |
Rock Hudson
contava 23 anos quando estreou no cinema. Integrava o setor não creditado do elenco
de Sangue,
suor e lágrimas (Fighter squadron, 1948), aventura bélica
realizada por Raoul Walsh. Cinco anos mais tarde voltaria ao convívio do
diretor, como protagonista de Gigantes em fúria (Sea
devils), Irmãos inimigos e Bando de renegados (The lawless
breed).
Irmãos inimigos é western
passado no Arizona logo após a Guerra de Secessão. Originalmente foi filmado no
antigo processo de terceira dimensão, logo abandonado, do qual guarda poucos
sinais, mostrados perto do fim: o bandido Frank Slaton (Carey) arremessa
sucessivamente, em primeiro e bem acentuado plano, em direção ao público, um
galho de árvore e uma pedra sobre o perseguidor Ben Warren (Hudson).
Apesar de Hudson
ser o protagonista, os melhores momentos dos 83 minutos de ação praticamente
contínua de Irmãos inimigos pertencem a Phil Carey. Está bastante
convincente como Frank Slaton, aristocrata frio e ressentido com a derrota do
Sul na Guerra de Secessão. Arruinado pelo conflito, vive de assaltos liderando
quadrilha formada por ex-soldados que comandou. Impulsivo, toma para si tudo o
que quer e utiliza as pessoas como bem entende. Amparado pelos seus celerados, assalta
a diligência na qual viajava em companhia dos jovens e também sulistas Jennifer
Ballard (Reed) e Ben Warren, noivos com planos de se estabelecerem em rancho na
Califórnia. A ação fulminante dos bandidos liquida o cocheiro e parte da
escolta militar. Ben é ferido ao tentar reagir. Dado por morto, é abandonado na
estrada. Jennifer é levada por Frank, na fuga da quadrilha rumo ao México.
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À direita, Ben Warren (Rock Hudson), junto à janela, e Jennifer Ballard (Donna Reed). Frank Slaton (Philip Carey) é o primeiro à esquerda |
Jess (Gordon),
lugar-tenente de Frank, discorda do rapto da moça, fator que poderá atrasar o
deslocamento do bando. Tenta libertá-la numa parada, mas enfrenta a fúria do
chefe, que a deseja. Jess é amarrado e abandonado para morrer sob o sol. Enquanto
isso, Ben desperta. Recupera um cavalo da diligência e parte na pista dos
bandidos. Encontra Jess quase morto. Salva-o. Tornam-se parceiros na
perseguição. Ganham um aliado: o índio Brazos (Brand), com contas a ajustar com
Frank.
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Frank Slaton (Philip Carey) é a sensação de Irmãos inimigos |
Jennifer tenta a
fuga. Logo é recapturada por Frank. É quando o bandido oferece, com uma fala, o
melhor momento do filme: “Seu homem morreu, foi escolha dele, não minha. Se
pensar em fugir de novo veja bem para onde vai. A resposta é: lugar nenhum. Eu
trouxe você porque é tão sozinha como eu. Me olha desse jeito porque vive num
mundo que não existe mais. Se a tivesse conhecido antes da guerra... Mas não
foi assim. E o Sul é um mundo diferente agora, um mundo cercado por três
exércitos: um de viúvas, um de aleijados, outro de ladrões. Felizmente eu estou
inteiro e não tem ninguém chorando por mim”.
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Jennifer Ballard (Donna Reed) no laço de Frank Slaton (Philip Carey) |
Frank Slaton é um
individualista pernicioso. Ben, de outra maneira, também o é. Mas, ao contrário
do bandido, não nutre ressentimentos. Pretendia apenas construir um futuro de
paz e tranquilidade junto a Jennifer, pouco ligando para os acontecimentos ao redor.
Seu pacifismo é alimentado pelo desejo de se preocupar exclusivamente com os
próprios problemas. Frank e Ben são prisioneiros de convicções extremadas.
Passam ao largo de qualquer atitude que lembre responsabilidade social.
Entretanto, a perda de Jennifer conduz Ben a um processo de expiação, no qual
experimenta o sabor amargo do egoísmo. Onde quer que busque ajuda, ninguém se
dispõe a acompanhá-lo. Todos se fecham em torno dos próprios interesses.
Ben conta apenas
com Jess e Brazos. Depois, ganha a adesão de Stela (Haynes), namorada que Frank
renega para ficar com Jennifer. Na perseguição, o personagem de Hudson passa
por um processo de crescimento moral. Percebe a importância do outro, mesmo que
este lhe seja diferente em tudo. Isso explica sua reação quando Jess é
covardemente assassinado por Frank.
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Ben Warren (Rock Hudson) passa por um processo de crescimento moral |
Após se
aproveitar de Jennifer, Frank perde o interesse por ela. Sabedor da perseguição
que lhe movem, propõe a Ben trocá-la por Jess. Argumenta que necessita do ex-companheiro
para controlar a quadrilha. Jess aceita, mas é morto. Por certo, Frank pensava que
Ben não fosse se importar com o fato, pois conseguiu Jennifer de volta. Porém,
princípios estavam em jogo, mais que a mera satisfação de desejos primários.
Frank não cumpriu o acordo. Matou Jess, que foi leal a Ben durante todo o
trajeto. Segue-se a previsível prestação de contas. Frank é morto. Quem o mata
é Brazos, em ação que salva o noivo de Jennifer da morte certa.
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Acima, ao centro e abaixo: Ben Warren (Rock Hudson) e Jennifer Ballard (Donna Reed) |
Irmãos inimigos é western menor
na carreira de Walsh. Mesmo assim, possui marcas inconfundíveis do diretor:
movimentação constante, ação compacta e direta, narrativa sem floreios. As
falhas, em parte, devem ser creditadas ao roteiro que não se aprofunda na
exploração das nuanças que acentuam as diferentes particularidades nas
personalidades do bandido e do mocinho. Por outro lado, Rock Hudson afunda na
pasmaceira. Seu tipo não ajuda. Definitivamente, não se enquadra no figurino e
no tom do herói másculo e francamente decidido de Walsh. Para saber do que se
fala, basta confrontá-lo aos marcantes James Cagney, Humphrey Bogart, John
Wayne, Douglas Fairbanks, George Raft, Robert Mitchum e Clark Gable, estes sim,
firmes modelos de decisão segundo o imaginário que povoa o cinema do diretor.
Roteiro: Irving Wallace,
Roy Huggins, com base na novela The against Caesar, de Kathleen E.
Granger, George Granger, Robert A. Granger. Direção de fotografia (Technicolor): Lester H. White. Consultor
de cor: Francis Cugat. Direção de arte: Ross Belah. Montagem: Jerome Thoms, James Sweeney. Decoração: James Crowe. Assistente de direção: Jack Corrick. Engenheiro de som: Josh Westmoreland. Direção musical: Mischa Bakaleinikoff. Música (não creditada): Mischa
Bakaleinikoff, Arthur Morton, George Duning, Irving Gertz, Fred Karger, Paul
Sawtell, Marlin Skiles. Penteados:
Dotha Hippe (não creditado). Dublês (não
creditados): Robert Bradshaw, John L. Cason, Bob Herron, Bob Morgan, Post
Park, Al Wyatt Sr. Stand-in: Fritz
Ford (não creditado). Sistema de mixagem
de som: Mono pela RCA Sound System. Tempo de exibição: 83 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1998)