A última criança (The last child, 1971), de Jonh
Llewellyn Moxey, é modesto e inquietante telefilme algumas vezes exibido pela
TV Globo nas noites de sábado. Era parte do programa Premiere Mundial. Assustava o espectador atento às conjecturas
lançadas pelo economista britânico Thomas Malthus nos primeiros anos do século
XIX. Na centúria passada, estiveram na ordem do dia de fins dos anos 60 e por
quase toda a década seguinte. Os atualmente clássicos No mundo de 2020 (Soylent green, 1973), de Richard Fleischer, e o menos conhecido A
mais cruel batalha (No blade of grass, 1970), de Cornel
Wilde, também são reflexos das catastróficas antecipações malthusianas. Em
futuro próximo o mundo estará praticamente inviabilizado pela explosão
demográfica. Esse tempo em A última criança é 1994. Os Estados
Unidos tomam medidas drásticas para limitar nascimentos e impedir aos idosos o tratamento
médico-hospitalar e acesso às farmácias. A Polícia de Controle Populacional
atua com rigor. Gestantes fora-da-lei são encaminhadas às clínicas de aborto. Se
a gravidez estiver avançada, aguarda-se o parto para a pronta eliminação do bebê.
O casal refratário Alan Miller (Michael Cole) e Karen (Janet Margolin) é
descoberto pelas autoridades e tenta escapar para o menos populoso e mais
liberal Canadá. Apesar de se entregar às rotinas do filme de perseguição e da
concepção pobre, a direção é competente na obtenção de climas e atmosferas. Se
porventura resistiu à implacável passagem dos anos, A última criança
permanece como realização sombria e angustiante. Contém a última atuação do
veterano Van Heflin e apresenta Edward Asner como um cioso burocrata que não
merece reparos. Segue apreciação escrita em 1977.
A última criança
The last child
Direção:
Jonh Llewellyn Moxey
Produção:
William Allyn
American Broadcasting Company
(ABC), Aaron Spelling Productions Inc.
EUA — 1971
Elenco:
Michael Cole, Van Heflin, Janet
Margolin, Harry Guardino, Edward Asner, Kent Smith, Michael Larrain, Philip
Bourneuf, James A. Watson Jr., Barbara Babcock, Sondra Blake, Roy Engel,
Phyllis Avery, Ivor Francis, Jason Wingreen, Bill Walker, Victor Izay, Frank
Baxter.
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O diretor John Llewellyn Moxey |
O argentino Jonh
Llewellyn Moxey consolidou carreira de diretor nas praças estadunidenses e
inglesas, principalmente na televisão — em filmes e séries. Para o cinema fez,
até o momento, apenas Emboscada no Cairo (Foxhole
in Cairo, 1960), Ricochet (Ricochet, 1963), Strangler's
Web (Strangler's Web, 1965) e O circo do medo (Circus
of fear, 1966). Por ora, merece notoriedade entre os telespectadores
brasileiros das noites de sábado: é um dos melhores e mais presentes diretores
de telefilmes exibidos pelo programa Premiere
Mundial da TV Globo. Os títulos, em geral, pecam pela falta de ousadia —
limitação imposta pelo veículo — e condução burocrática. Dentre os destaques
está o inquietante A última criança.
Pode-se dizer que
é ficção científica com implicações políticas, familiares e demográficas. Apóia-se,
de certo modo, nas teorias do economista britânico Thomas Robert Malthus
(1766-1834) acerca de uma provável explosão populacional que deixaria em risco
a sobrevivência das espécies, principalmente a humana, em futuro não muito
distante. Esse tempo chegou em A última criança. Corre o ano de 1994
nos Estados Unidos. As pessoas mal conseguem caminhar pelas ruas sem esbarrar
umas nas outras. A superpopulação obrigou um governo de rosto anônimo e
draconiano — para não dizer fascista — a baixar medidas severas de controle demográfico.
Os nascimentos estão restritos a um filho por casal. Os refratários deverão se
entender com a rigorosa Polícia de Controle Populacional. As gestações
indevidas são interrompidas. Caso o desenvolvimento fetal esteja muito
adiantado, aguarda-se o parto para a consequente eliminação do recém-nascido.
Além disso, idosos a partir dos 65 anos estão impedidos de receber qualquer
assistência médico-hospitalar e acessar farmácias.
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Acima e abaixo: Janet Margolin e Michael Cole nos papéis de Karen Miller e Alan Miller |
As imagens de
abertura são simples e impactantes. Contribuem para segurar a atenção por todo
o resto do filme, mesmo com o arrefecimento da tensão quando a narrativa é
tomada pelos clichês do rotineiro drama de perseguição. Apresentados os
créditos, a câmera enquadra em plano fechado a movimentação da multidão nervosa
e apressada em uma espécie de longa galeria. No fluxo, uma mulher (Sondra
Blake) perde o filho John (Frank Baxter). O desespero dura pouco. O garoto é
prontamente encontrado pelos amigos Sandy (Michael Larrain) e Alan Miller
(Michael Cole). Porém, ao devolvê-lo à mãe a polícia intervém. Descobre uma
fora-da-lei, grávida do segundo filho. É aprisionada e nada pode ser feito. A ação
é implacável. Ciosos funcionários das agências de controle populacional atuarão
com todo o rigor, principalmente Barstow (Edward Asner). É o duro vilão da
história dividida entre bons e maus.
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O implacável agente Barstow (Edward Asner) |
Os espectadores
estadunidenses provavelmente assistiram horrorizados a A última criança. São
cidadãos socialmente organizados segundo o credo liberal. Aos indivíduos é
concedida plena autonomia nas decisões com respeito à esfera privada, inclusive
as relacionadas ao corpo e à natalidade. A proibição estatal da gravidez e a
obrigatoriedade do aborto — inclusive a condenação do recém-nascido não
autorizado à morte —, certamente soaram como os piores anátemas à centralidade
dos indivíduos. São atos que ferem frontalmente o direito considerado sagrado e
inviolável à liberdade de escolha. Entretanto, a premissa de A
última criança — por mais cruel e autoritária que possa ser — não deixa
de ser possibilidade muito real. Não para agora, muito menos brevemente — como
antecipa o pessimista Jonh Llewellyn Moxey a partir do roteiro de Peter S.
Fischer. Porém, em algum momento medidas impopulares e pouco benevolentes — autoritárias
ou democráticas — serão tomadas pelos governos e estados quando a explosão
demográfica descontrolada se revelar arriscada à sobrevivência.
Em A
última criança o drama gira em torno do casal Alan Miller (Michael
Cole) e Karen Miller (Janet Margolin). Perderam o filho autorizado. A concepção
de outro não é permitida. Não obstante, planejaram nova gravidez e estão sob
risco. Descobertos, fogem depois de aprisionados e encaminhados ao departamento
médico sob cuidados do Dr. Young (Ivor Francis). Este, apesar dos problemas de
consciência que o atormentam, avisa friamente ao casal: a gravidez está
avançada e não pode ser interrompida; seguirá um parto normal e imediata morte
do bebê.
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Alan Miller (Michael Cole) e Karen Miller (Janet Margolin) |
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Harry Guardino no papel de Howard Drumm |
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Van Heflin no papel do Senador Quincy George |
A partir daí A
última criança se converte em filme de fuga e perseguição. O casal ludibria
a vigilância e tenta embarcar para o liberal e menos populoso Canadá. Barstow parte
na perseguição. Qualquer pessoa é potencial denunciante. Rotas de fuga e meios
de transporte são vigiados. Por sorte, contam com a acidental proteção do
respeitável ex-Senador Quincy George (Van Heflin), contrário às políticas de
controle. Além de abrigar Karen e Alan, oferece-se para ajudá-los na fuga. Entretanto,
logo são descobertos e acuados. Apesar da respeitabilidade pessoal do protetor,
a residência é cercada. Ainda há um complicador. Aos 72 anos, Quincy George é
diabético. Precisa de medicação constante, proibida à idade. A insulina que receberia
por contrabando é bloqueada pelo cerco policial. A ajuda chega de forma
inesperada, da parte do legalista Howard Drumm (Harry Guardino).
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Karen Miller (Janet Margolin) |
A concepção
visual de A última criança é pobre. A sociedade do futuro antecipada em
1971 — ano da produção — é muito parecida à realidade presente, principalmente
em trajes e cenários. A produção, pelo visto, não teve recursos para ousar. Vale
a atmosfera sombria. Jonh Llewellyn Moxey soube traduzir com adequadas doses de
inquietação e angústia o bom roteiro de Peter S. Fischer, mesmo quando a
história se torna corriqueira.
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Karen Miller (Janet Margolin) e Alan Miller (Michael Cole) em fuga |
Indicado ao Globo
de Ouro de Melhor Filme de TV em 1972, A última criança traz o derradeiro
desempenho de Van Heflin. Faleceu em 1971, aos 62 anos, poucos meses antes de a
produção receber as primeiras veiculações pelas emissoras da rede ABC (American
Broadcasting Company). Michael Cole, o protagonista, ganhou notoriedade graças
ao papel de Pete Cochran — um dos jovens auxiliares da polícia de Los Angeles
no combate ao crime, principalmente o tráfico de drogas, na série Mod
Squad[1]. Tinha
por parceiros Linc Hayes e Julie Barnes, vividos por Clarence Williams III e
Peggy Lipton. Edward Asner também ganhou notoriedade nas séries de TV, notadamente
pelo papel de Lou Grant em Mary
Tyler Moore[2].
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Os atores de A última criança: Ao centro, Van Heflin; à esquerda, Edward Asner (acima) e Harry Guardino; à direita, Michael Cole e Janet Margolin |
Roteiro: Peter S. Fischer. Direção de fotografia (cores): Archie R. Dalzell. Direção de arte: Paul Sylos. Assistente de direção: Wesley Barry. Montagem: Art Seid. Decoração: Ken Swartz. Costumes: Robert "Bob" Harris
Sr., Vou Lee Giokaris. Nolan Miller. Maquiagem:
Howard Smith. Penteados: Pat
Whiffing. Supervisão de script:
Helen Parker. Coordenador de construções:
Jesse Stone. Engenheiro de som:
Tommy Thompson. Edição musical:
Rocky Moriano. Edição de som: Gene
Elliot. Gravação de som: Glen Glen
Sound Company. Gerente de produção:
Norman Henry. Supervisão de produção de
elenco: Bert Remsen. Fornecimento de
veículos: Chrysler Corporation, General Motors Corporation. Música: Lawrence Rosenthal. Contrarregra: Jerry MacFarland. Produção executiva: Aaron Spelling. Tempo de exibição: 73 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1977)
[1] Ao todo, a série é formada por cinco temporadas e
124 episódios, cada qual com aproximados 60 minutos. Teve Bud "Buddy"
Ruskin na criação e, no desenvolvimento, Tony Barrett, Harve Bennett e Sammy
Hess. Foi produzida por Thomas-Spelling e veiculada originalmente pela
Worldvision Enterprises para a American Broadcasting Company (ABC) de 24 de
setembro de 1968 a
23 de agosto de 1973.
[2] Série de sete temporadas e 168 episódios, cada
qual com aproximados 30 minutos. Criação de James L. Brooks e Alan Burns para a
rede CBS (Columbia Broadcast System). Originalmente exibida de 19 de setembro
de 1970 a
19 de março de 1977.