A realização de Judith of Bethulia (1914) é um revés na
carreira de Griffith. Devido a isso, sofre sanções na Biograph. Confiante, procura
trabalho com maior independência para suas pesquisas. É contratado pela Mutual
Films Corporation. The Clansman, do pastor presbiteriano-fundamentalista Thomas
Dixon, apresenta-se como possibilidade a um filme único, no qual consolida em
escala épica suas invenções e aperfeiçoamentos. O nascimento de uma nação
retira o cinema da infância envergonhada e o eleva ao patamar de adulto e
respeitável meio de expressão, mas às expensas do mais desabrido racismo. Transforma
o diretor, apesar das reações negativas, no mais importante cineasta dentro e
fora dos Estados Unidos. Anos mais tarde será comparado a "Deus" pelo
soviético Sergei M. Eisenstein. As principais contribuições de O
nascimento de uma nação (The birth of a nation, 1914) serão agora abordadas, junto com a percepção da
história estadunidense, pelo realizador, carregada de apelo sentimental,
ressentimento e mistificação frente à imagem do “Velho Sul” derrotado na Guerra
de Secessão. A peça é arrojada evocação ao doloroso parto dos Estados Unidos
como nação moderna. Porém, para horror dos horrores, quem possibilita tal nascimento
é a terrorista Ku-Klux-Klan, apontada como guardiã da pureza racial branca
contra a barbárie perpetrada por abolicionistas e negros defensores de uma improvável
e incômoda igualdade. Ao mostrar o drama de um país esfacelado pela guerra
civil, Griffith a um só tempo exibe sua maturidade como artista e faz a vingança
dos confederados derrotados militar e moralmente. O nascimento de uma nação
apela à concórdia na forma de uma inconcebível impostura ideológica referendada
pelo próprio Jesus Cristo.
O nascimento de uma
nação
The birth
of a nation
Direção:
David Wark
Griffith
Produção:
David Wark
Griffith, Thomas F. Dixon
David Wark
Griffith Corporation, Epoch Productions Corporation, Reliance-Majestic, Mutual
Films Corporation
EUA — 1914
Elenco:
Lillian
Gish, Henry B. Walthall, Mae Marsh, Ralph Lewis, George Siegmann, Josephine
Crowell, Mirian Cooper, Donald Crisp, Wallace Reid, Elmer Clifton, Joseph
Henabery, Spottiswoode Aitken, Robert Harron, Walter Long, J. A. Beringer,
Jennie Lee, Maxfield Stanley, Mary Alden, Howard Gaye e os não creditados
Eugene Pallete, Bessie Love, Raoul Walsh, Elmo Lincoln, Erich von Stroheim,
Sean Aloysius "John Ford/Jack Ford" O’Feeney, Alberta Franklin,
Alberta Lee, Allan Sears, Alma Rubens, Betty Marsh, Bob Burns, Charles Eagle
Eye, Charles King, Charles Stevens, D. W. Griffith, Dark Cloud, David Butler,
Donna Montran, Edmund Burns, Edward Burns, Fred Burns, Fred Hamer, George
Walsh, Gibson Gowland, Harry Braham, Jules White, Lenore Cooper, Madame
Sul-Te-Wan, Mary Wynn, Monte Blue, Olga Grey, Peggy Cartwright, Russell Hicks,
Sam De Grasse, Tom Wilson, Vester Pegg, Violet Wilkey, Walter Huston, William
De Vaull, William E. Cassidy, William Freeman.
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David Wark Griffith |
Fundamental à
carreira de Griffith é o impacto de Quo Vadis? nos cinemas estadunidenses.
Diante da grandiosidade da encenação italiana, propõe uma contrapartida ousada,
um épico bíblico de quatro rolos, Judith of Bethulia. Desenvolve a
produção contrariando os maiorais da Biograph. No final, a obra fica a dever em
magnitude na comparação ao produto italiano. Ressentida, a companhia impede o lançamento.
Também fere a susceptibilidade do cineasta, rebaixando-o à função de supervisor[1].
Diante disso, demonstrando plena confiança em sua capacidade, Griffith deixa a
Biograph. Oferece serviços em "anúncio de página inteira no The
New York Dramatic Mirror". Proclama-se "Fundador da moderna técnica da arte fílmica por ter
inventado figuras em grande plano, planos longos utilizados pela primeira vez
em Ramona,
o retrospecto, o suspense, o escurecimento e o controle de expressão"[2].
Logo é contratado
com carta branca pela Mutual, companhia que abrigará também o gênio em ascensão
de Charles Chaplin. A ideia de superar qualitativamente a produção épica
italiana não o abandona. É quando tem a atenção despertada por Frank Woods[3]
para o romance The Clansman, do reverendo presbiteriano sulista Thomas Dixon.
A peça, medíocre segundo os que a leram, é uma monstruosidade histórica sem
tamanho. Lamenta a derrota dos Estados Confederados na Guerra de Secessão.
Responsabiliza diretamente os abolicionistas e os próprios negros
recém-emancipados da escravidão — em luta pela igualdade civil — como
diretamente responsáveis pela ruína moral e econômica do "Velho Sul".
Furiosamente racista, não titubeia em glorificar os feitos da criminosa e
terrorista Ku-Klux-Klan, apontada como guardiã da pureza branca contra a barbárie.
O autor dedica The Clansman ao tio, Coronel Leroy McAfee, a quem chama de
"Grande Titã" da organização.
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O fracasso de Judith of Bethulia impõe novos rumos à carreira de David Wark Griffith |
A desagregação do
Sul após a guerra civil sempre repercutiu negativamente em Griffith. Quando
criança, ouvia do pai Jacob Wark Griffith, médico e coronel confederado,
inúmeras histórias a respeito do modo de vida aristocrático e cavalheiresco que
se perdeu, passagens sobre um tempo e um mundo mais míticos que reais, levados
pelo vento, como dirá metaforicamente outra sulista nostálgica, Margareth
Mitchell, em famoso romance escrito anos depois[4].
O livro de Dixon reaviva as lembranças do cineasta. Casa-se perfeitamente com
as memórias paternas. Essa questão de fundo sentimental leva-o a endossar
positivamente The Clansman. Por isso não é possível concordar com John Howard
Lawson que simplesmente lhe atribui "mau juízo artístico e histórico"
pela escolha do argumento[5].
Ora, Griffith foi socializado ouvindo loas sobre os "bons e velhos
tempos" de outrora. Imagens míticas — passadas pelo
pai, por Thomas Dixon e Woodrow Wilson — e não
propriamente históricas, moldaram-lhe a visão de mundo. Junte-se a isso o
ressentimento provocado pela derrota, prolongado por gerações, afetando muita
gente, inclusive Griffith.
Ao preço de dois
mil e quinhentos dólares, mais participação nos lucros, Dixon vende os direitos
de filmagem. Também contribui ativamente na adaptação, o que conserva o
espírito do original. Mesmo assim, revela Arthur Knight, Griffith toma o
cuidado de eliminar e/ou atenuar as passagens mais furiosamente racistas[6].
Seis semanas são despendidas no planejamento (pré-produção). As filmagens,
iniciadas em 4 de julho de 1914, consomem dois meses. O trabalho de montagem se
prolonga por outros três. Há controvérsias sobre se Griffith filmou com ou sem
roteiro. Alguns afirmam que ele redigiu cuidadosamente um script, detalhando
cada um dos 1500 planos que compõem a produção. Outros alegam que nenhum tipo
de guião foi utilizado, pois desde o começo o filme estava pronto na sua
cabeça.
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Lillian Gish no papel da heroína Elsie Stoneman de The birth of a nation |
Em 8 de fevereiro
de 1915 acontece a premiere em Los Angeles. The
Clansman ainda é o título. Somente quando estreia em Nova York , em 3 de março
do mesmo ano, passa a se chamar, mais apropriadamente, O nascimento de uma nação,
não se sabe se por sugestão de Lewis Jacobs ou do próprio Griffith. O filme
evoca justamente o parto doloroso dos Estados Unidos da América como nação
moderna. Nisso, a Guerra de Secessão é um divisor de águas. A clássica
declaração de Daniel Webster, "Liberdade e União, únicas e inseparáveis,
agora e sempre", é recorrente no filme. Griffith se serve dela para
mostrar como o desejo de união, simbolizado pelo Norte, teve que se ajustar com
a vocação à autodeterminação da qual o Sul nunca abriu mão. Só que, no filme,
para espanto geral, esse casamento é selado sob chancela da Ku-Klux-Klan.
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O italiano Quo vadis? (1912), de Enrico Guazzoni, exerce considerável influência na carreira de Griffith |
Os letreiros de abertura
são significativos. Lê-se que a chegada dos africanos aos Estados Unidos
plantou as sementes do ódio que esfacelaria o país. A seguir são apresentadas
as famílias Stoneman (nortista) e Cameron (sulista), polos fundamentais da
narrativa. São ajuntamentos que defendem interesses diferentes. Servem de
metáfora à encenação da divisão que desemboca na fratricida Guerra de Secessão.
Antes do conflito, apesar de separados pela distância, Stoneman e Cameron estão
afetivamente próximos, tanto que se visitam. Em Piedmont, na Virgínia, a casa
dos Cameron recebe calorosamente os filhos de Austin Stoneman (Lewis). Phil
Stonemam (Clifton) enamora-se de Margaret Cameron (Cooper). Por sua vez, Ben
Cameron (Walthall) — mais tarde chamado de "o
pequeno coronel" — encanta-se por Elsie (Gish), irmã
de Phil, após vê-la num retrato.
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Margtaret Cameron é interpretada por Miriam Cooper |
Os Cameron são
mostrados como felizes e unidos. A mãe (Crowell) é afetuosa e o pai (Aitken) está
sempre presente. Austin Stonemam, por sua vez, aparenta viuvez. Pouco convive
com os filhos. É um deputado nortista identificado como radical, mais
preocupado com a campanha abolicionista e a defesa intransigente dos direitos à
igualdade civil que prega para os negros. Tem por amante uma mulata, a manhosa
Lydia (Austin), imediatamente apontada como responsável pelo seu modo de ser.
Dessa forma, logo no começo, fica exposto o principal motivo de temor dos
brancos conscienciosos do filme: a mistura de raças, a miscigenação, o
“inaceitável” contato sexual entre brancos e negros.
Os Stoneman e os
Cameron poderiam compor única e imensa família se nenhuma fatalidade impedisse
a união de seus filhos. Entretanto a guerra explode, gerando infelicidade para
ambos os lados. Separadas pelo conflito, as casas nortista e sulista enviam
respectivamente dois e três filhos para o confronto. Eufórico e em festejos, o
Sul comemora a partida dos soldados para o front.
São vistos como combatentes da liberdade e da autodeterminação. Mas a dura
realidade é logo sentida. A guerra entre irmãos resulta num morticínio sem
precedentes. Um filho de Stoneman e dois de Cameron são mortos em combate. A miséria se acerca
dos lares sulistas. A ampla e ricamente decorada sala da mansão dos Cameron
fica vazia e triste. Quase tudo é levado como contribuição ao esforço de
guerra. As irmãs Margaret e Flora (Marsh) — a caçula —, premidas pelas
dificuldades, trajam-se grosseiramente. Mas não basta a privação econômica. O
pior é a provação moral: o lar dos Cameron é violado e saqueado por
destacamento negro comandado por oficial branco.
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Mae Marsh como Flora Cameron |
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Antes da guerra, os Stoneman e os Cameron eram próximos, apesar de defenderam visões opostas sobre o país |
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Eclode a guerra - Os sulistas, confiantes e festivos, comemoram a secessão Sobre o cavalo, de partida para a frente de combate, o Coronel Ben Cameron (Henry B. Walthall) |
A guerra está
prestes a terminar com a total derrota e incorporação do Sul à União. Ben
Cameron, ferido aos pés de Phil Stoneman e por este socorrido, convalesce num
hospital militar nortista sob o beneplácito do próprio Abraham Lincoln
(Henabery)[7]
e aos cuidados da dedicada enfermeira Elsie Stoneman. Apoiado em fontes
históricas precisas, Griffith reconstitui a assinatura do tratado de paz entre
os generais Ulisses S. Grant (Crisp) e Robert Lee (Gaye), no qual o Sul aceita
a rendição incondicional. A região torna-se presa fácil para negociantes e políticos
inescrupulosos do Norte — Austin Stoneman entre eles —, que querem a região de
joelhos, amortizando todos os custos do conflito. Lincoln, observado
simpaticamente por Griffith, contém os especuladores e patrocina a reconstrução
do Sul. Novamente o destino conspira. O presidente é assassinado no Teatro Ford
durante uma encenação. Esta é uma das sequências mais eficazes do filme, devido
ao rigor e fidelidade de Griffith na reconstituição do fato. Com base nas
fotografias tomadas por Mathew Brady[8]
logo após o atentado, o Teatro Ford foi todo reconstruído em estúdio, com
exatidão, da forma em que se encontrava na noite do crime. É, até hoje, um dos
maiores cenários erguidos para um filmagem[9].
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Ben Cameron (Henry B. Walthall), internado no hospital de campanha, recebe a visita da mãe Mrs. Cameron (Josephine Crowell) e de Elsie Stoneman (Lillian Gish) |
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Os generais Robert Lee (Howard Gaye) e Ulisses S. Grant (Donald Crisp) na assinatura do tratado de paz |
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À direita, no Teatro Ford, o Presidente Abraham Lincoln (Joseph Henabery) |
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O Presidente Lincoln (Joseph Henabery) é assassinado no Teatro Ford por John Wilkes Booth (Raoul Walsh) |
O apreço do
diretor por Lincoln é confirmado pelo patriarca dos Cameron (alter ego de Jacob Wark Griffith), que
recebe consternado a notícia da morte do Presidente. Transmite-a aos familiares
da seguinte forma: "Nosso melhor amigo morreu, o que será de nós
agora?". Encerra-se aí a primeira parte de O nascimento de uma nação.
A segunda, com o nome de Reconstrução: a agonia do Sul enquanto nasce
uma nação, acintosamente racista e temerosa quanto à miscigenação, é
francamente baseada no romance de Dixon. A primeira recebeu mais influências
das Notas
autobiográficas do pai do cineasta. Poderia haver uma terceira parte
com o nome, por exemplo, de Reação: o Sul se levanta com a Ku-Klux-Klan.
Mas esta se incorpora à segunda.
Sem Lincoln, o
Sul sofre seguidos reveses. Está nas mãos de especuladores e oportunistas de
todos os tipos. Os piores são os políticos integracionistas como Austin
Stoneman, insuflando negros a ocupar espaço no seio da comunidade branca. O
mulato Silas Linch (Siegman) — fruto do pecado
original que envergonha o puritano — é o agente
nomeado por Stoneman para organizar politicamente os negros em Piedmont. Nos
letreiros, lê-se: "Os negros instigados pelo gavião branco e sagaz do
Norte são instados a tripudiar sobre os despojos do Sul". No filme há
negros bons e maus. Os primeiros preferem continuar servindo a seus senhores,
como Mammy (Lee), governanta dos Cameron, sempre pronta a se sacrificar por
eles. Os que procuram a autodeterminação e se organizam politicamente,
intrometendo-se no negócio dos brancos, são apresentados como invejosos,
dissimulados, vis, intriguentos, manhosos, fingidos, venais, vingativos,
truculentos e praticantes de desmandos. Em suma, estão ao léu, sem nada que os
controle. Constituem perigo à continuidade do mundo erguido pela civilização
branca. Griffith enfatiza essa diferença em duas sequências grotescamente
constrangedoras: na primeira, Mammy, aquela que conhece seu lugar, trava
diálogo ríspido com o criado negro de Austin Stoneman e o chama de "lixo
negro nortista". Na outra, após a eleição de Silas Linch a Vice-Governador,
a maioria negra do parlamento atua sem o menor decoro, como símios em plena
selva. Durante as eleições os negros controlam o pleito e sabotam a
participação branca.
Uma das partes
mais significativas de O nascimento de uma nação resulta da
retirada de Austin Stoneman para temporada de descanso. A conselho de Phil e
Elsie, viaja a Piedmont. Hospeda-se, a princípio, na casa dos Cameron. O que
segue comprova o quanto Griffith — apesar de seu
arraigado sentimento sulista e da visão estereotipada e preconceituosa do negro — lamentava a divisão do país. A maneira encontrada para
representar essa cisão é não mostrar o encontro do visitante com o anfitrião,
Dr. Cameron. Por outro lado, as possibilidades de romance entre Phil-Margaret e
Ben-Elsie não se concretizam. São anuladas pelas dolorosas lembranças da guerra
e pela hostilidade demonstrada por Ben com a missão desenvolvida pelo pai da
pretendente. Com o tempo, os Stoneman ocupam casa defronte à residência dos
Cameron. Apenas uma rua os separa, mas mal se comunicam. Nesse símbolo do
espaço público reside o perigo e a razão de todas as diferenças. Na rua os
brancos se ofendem com a insolente desenvoltura dos negros segundo a visão de
Griffith. Estes mostram acintosamente que são, agora, portadores de direitos,
entre os quais a igualdade.
Na rua, Ben
Cameron é humilhado e repreendido por Silas Linch. Preocupado com a situação,
recomenda a Flora que não saia desacompanhada. Quando testemunha uma
brincadeira, na qual crianças brancas disfarçadas sob lençol da mesma cor
assustam as negras, recebe a inspiração que faltava. Reúne-se a brancos
igualmente insatisfeitos e funda a Ku-Klux-Klan com o claro objetivo de
aterrorizar os negros e resguardar as tradições aristocráticas sulistas. As
palavras do letreiro são claras. Griffith torna seu o elogio que Woodrow Wilson
endereçou aos cavaleiros encapuzados: "...A grande Ku-Klux-Klan, o
verdadeiro império do Sul, protegerá o povo sulista". Recupera também uma
definição da época: "A Ku-Klux-Klan, organização que salvou o Sul das
regras anarquistas dos negros não sem antes derramar mais sangue que em
Gettysburg".
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No Sul derrotado de Griffith, o Dr. Cameron (Spottiswoode Aitken), à direita, é humilhado por negros - um dos fatores que desencadeia a reação da Ku-Klux-Klan |
No filme a
Ku-Klux-Klan é criada para assustar. Mas radicaliza as ações quando os negros
reagem e matam componentes do bando. Ou quando as ameaças de contato sexual
inter-racial ficam mais evidentes. Nisso, a família Cameron colhe vítima fatal.
Flora esquece as recomendações e vai ao campo em busca de água e frutos. É
seguida e assediada por Gus (Lang), negro andarilho que manifesta clara
intenção de desposá-la. Foge apavorada. Perseguida, é encurralada no alto de um
penhasco. Prefere saltar para a morte a ser violentada. Encontrada pelo irmão, falece
a tempo de revelar o nome do perseguidor.
A bandeira
confederada que Flora guardava desde criança, com extremo zelo e dedicação,
torna-se emblema de um juramento solene que fazem Ben Cameron e toda a
Ku-Klux-Klan. Diz o "pequeno coronel": "Esta bandeira será o
clamor das almas sulistas e de uma mulher que teve sua vida sacrificada no
altar da vergonhosa civilização". Gus é encontrado, sumariamente julgado e
enforcado. Tem o corpo atirado à porta da residência de Silas Linch, que ordena
a busca aos culpados. Espiões negros vigiam as residências brancas. Descobrem
um uniforme da Ku-Klux-Klan na casa dos Cameron. O patriarca é preso, conduzido
pelas ruas e exposto à zombaria dos negros. Margaret busca socorro junto a
Elsie Stoneman. Enquanto isso, a fiel Mammy, auxiliada por Phil, resgata o
patrão. Fogem para o campo, junto com Margaret e a Senhora Cameron. Abrigam-se
no casebre de um sitiante, ex-soldado da União que aí mora com a filha menor e
um companheiro. Logo estarão cercados pelos perseguidores.
Enquanto isso,
Elsie Stoneman intercede pelos Cameron. Na ausência do pai recorre diretamente
a Silas Linch. O líder mulato, bêbado, aproveita para externar a atração que
sente por ela, absurdo que decorre de outra subversão moral na visão de
Griffith: a relação entre Austin Stoneman e a mulata Lydia. Silas deve ter
pensado: se um branco vive com uma mulata por que não posso viver com uma
branca? Horrorizada, Elsie recusa o pedido de casamento. É aprisionada. Na rua,
os negros em polvorosa festejam a decisão do líder. Temerosas, as famílias
brancas se isolam nas casas. Austin retorna no auge dos acontecimentos.
Parabeniza Silas quanto às suas futuras núpcias. Mas reage furiosamente ao
saber que Elsie é a noiva. Também é aprisionado.
O terror à
miscigenação está explícito nessas cenas. A dubiedade de caráter resultante da
união inter-racial também. O mulato Linch demonstra não ser confiável. Trai
Austin Stoneman, seu principal mentor. Não defende nem mesmo a causa dos
negros. Utiliza-a apenas como meio à construção de um império próprio.
Mas a
Ku-Klux-Klan está alerta. Agentes seus, disfarçados de negros, testemunham os
eventos. A organização cavalga para reinstalar a ordem em sequências que provam
o poder da montagem paralela. Planos que mostram Austin e filha aprisionados,
mais o casebre acuado, são intercalados com o galope dos encapuzados rumo ao
salvamento que acontece no último minuto, quando tudo parecia perdido, como
manda o figurino tornado clássico pelos filmes de perseguição e suspense. No
casebre, desprovidos de munição, os homens tentam conter a derrubada das portas
e janelas Deixam as coronhas das armas descarregadas pairando sobre as cabeças
das mulheres. Estão prontos a sacrificá-las, num ato de misericórdia.
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A triunfante entrada de Ku-Klux-Klan em Piedmont: a organização racista impõe a paz branca e, segundo Griffith, consolida a união entre Sul e Norte. |
Todos os negros
são postos a correr. Vitoriosa, a Ku-Klux-Klan entra triunfante em Piedmont,
num desfile que reúne nortistas e sulistas salvos da selvageria e finalmente
irmanados. Os Cameron e os Stoneman agora somam um: "Liberdade e união,
juntas e inseparáveis, agora e sempre". Mas do somatório desse contrato
social os negros são excluídos, impedidos de votar inclusive. Nas imagens
finais fica coroada a segregação. O racismo está legitimado. O Sul branco,
derrotado na Guerra de Secessão, sai vencedor na encenação de Griffith. Ao
Norte não resta outra alternativa senão a de se espelhar na imagem do oponente.
Ambos têm por inimigo comum o "negro vil, traiçoeiro e ambicioso"
contra o qual devem unir forças[10].
Para celebrar a paz branca, Griffith lançou mão de outra cena constrangedora:
nela, o próprio Cristo abençoa o pacto. Pode-se dizer que foi transformado em
membro da Ku-Klux-Klan.
Acesse a primeira parte em:
O MODERNO CINEMA NARRATIVO NASCE NO BERÇO DO MAIS VIL E GROTESCO RACISMO — PRIMEIRA PARTE
Acesse a terceira e última parte em:
O MODERNO CINEMA NARRATIVO NASCE NO BERÇO DO MAIS VIL E GROTESCO RACISMO — TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE
Acesse a primeira parte em:
O MODERNO CINEMA NARRATIVO NASCE NO BERÇO DO MAIS VIL E GROTESCO RACISMO — PRIMEIRA PARTE
Acesse a terceira e última parte em:
O MODERNO CINEMA NARRATIVO NASCE NO BERÇO DO MAIS VIL E GROTESCO RACISMO — TERCEIRA E ÚLTIMA PARTE
Direção de fotografia (preto-e-branco): G. W. "Billy" Bitzer. Roteiro: David Wark Griffith, Frank E. Woods, Thomas
Dixon, com base nas novelas de Thomas Dixon Jr., The Clansman: An historical romance
of the Ku Klux Klan, The leopard's spots, e nas Notas
autobiográficas de Jacob Wark Griffith. Produção executiva: Harry E. Aitken. Montagem: David Wark Griffith, Joseph Henabery, James Smith, Rose
Smith, Raoul Walsh. Assistentes de
direção (não creditados): Erich von Stroheim, Woody S. Van Dyke, Jack
Conway, Raoul Walsh, George Siegman, Monte Blue, Christy Cabanne, Elmer
Clifton, Donald Crisp, Allan Dwan, Howard Gaye, Fred Hamer, Robert Harron,
Joseph Henabery, Thomas E. O'Brien, Herbert Sutch, Baron von Winther, Henry B.
Walthall, Tom Wilson. Compositores do acompanhamento musical à época do
lançamento: Joseph Carl Breil,
David Wark Griffith. Supervisão da
restauração: Paul Killiam, curador do espólio de David Wark Griffith. Organização da trilha musical e arranjos
pela Killiam Shows: Fraser MacDonald. Figurinos
(não creditados): Robert Goldstein, Clare West. Contrarregra (não creditado): Ralph M. DeLacy. Carpintaria (não creditada): Shorty English. Assistência de carpintaria (não creditada): Jim Newman. Pintura (não creditada): Cash Shockey, Edificações (não creditadas): Joseph
Stringer. Assistência de contrarregra
(não creditada): Hal Sullivan. Planejamento
do set (não creditado): Frank Wortman. Supervisão
de efeitos especiais (não creditada): Walter Hoffman. Efeitos especiais (não creditados): 'Fireworks' Wilson. Dublês (não creditados): Monte Blue,
Charles Eagle Eye, Leo Nomis. Operador
de câmera (não creditado): Karl Brown. Assistente
de câmera (não creditado): Frank B. Good. Confecção de figurinos (não creditados): Robert Goldstein. Restauração dos negativos pela Killiam
Shows: Karl Malkames. Arranjos
musicais do relançamento em 1921 em
New York (não creditado): William Axt. Músico (não creditados): Harry Berken
(trumpete). Direção musical (não creditada):
Carli Elinor. Adaptação musical à versão
de som sincronizado em 1930 (não creditado): Louis F. Gottschalk. Arranjo musical da reapresentação de 1921 em New York (não creditado):
Herman Hand, Erno Rapee. Compositor da
abertura na premiere em
Los Angeles (não creditado): Joseph Nurnberger. Apresentação: David Wark Griffith. Segurança (não creditado): Jim Kidd. Técnico de laboratório (não creditado):
Abe Scholtz. Companhia de confecção de
figurinos: Goldstein and Company. Guarda-roupa:
Western Costume Company. Tempo de
exibição: 190 minutos na velocidade original de 16 fotogramas por segundo; 170
minutos na versão analisada; há versões com 160 e 154 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1985)
[1] LAWSON, John Howard. O
processo de criação no cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1967. p 43.
[2] Ibidem. "A inclusão desses
termos técnicos num anúncio de jornal indica a popularização da linguagem
cinematográfica, já nos primórdios de seu desenvolvimento" (Ibidem.).
[3] Ibidem. p. 45.
[4] Trata-se de ...E o vento levou (Gone
with the wind), evocação do "Velho Sul" que originará o filme
do mesmo nome, superprodução de David O. Selznick com direção creditada a
Victor Fleming e realizada em 1939.
[5]
LAWSON, John Howard. Op. Cit. p. 45.
[6] KNIGHT, Arthur. Uma
história panorâmica do cinema: a mais viva das artes, Rio de Janeiro:
Lidador, 1970. p. 25.
[7] Lincoln era considerado feio
segundo os padrões ocidentais de aferição de beleza. Mas essa característica é
exagerada em O nascimento de uma nação: o Presidente aparenta feições de
bode.
[8] Brady é fonte permanente de
inspiração. Com base em suas fotografias Griffith atingiu o realismo também na
encenação das batalhas da Guerra Civil. Cf. LAWSON, John Howard. Op. cit. p.
48.
[9] Outro cuidado foi revelado na
"reprodução histórica do Salão Presidencial" segundo fotografia
mostrada em Lincoln: a history, de Nicholas e Hay.
[10] "O nascimento de uma nação
é o Velho Testamento que exclui os negros do processo histórico, como raça
primitiva, elegendo em construtores da Nação as classes brancas
protestantes" Cf. ROCHA, Glauber. O século do cinema. Rio de Janeiro:
Alhambra/Embrafilme/Secretaria da Cultura do MEC, 1983. p. 10.