domingo, 24 de maio de 2015

UM INDIANO DESLOCADO NA FESTA HOLLYWOODIANA DE FUTILIDADES E APARÊNCIAS

Poucas realizações cômicas do cinema estadunidense, vindas à luz nos anos 60, resistem à revisão. Deu a louca no mundo (It's a mad, mad, mad, mad world, 1963), de Stanley Kramer; Cassino Royale (Casino Royale, 1967), de John Huston, Val Guest, Robert Parrish e Joseph McGrath; A corrida do século (The great race, 1966), de Blake Edwards; Esses homens maravilhosos com suas máquinas voadoras ou como voei de Londres a Paris em 25 horas e 11 minutos (The magnificent men in theirs flying machines or how I flew from London to Paris in 25 hours and 11 minutes, 1965), de Ken Annakin — tão divertidas quando lançadas — parecem perder totalmente a graça se vistas hoje. Gostosa exceção é Um convidado bem trapalhão (The party, 1968), terceira parceria entre o ator Peter Sellers e o diretor Blake Edwards. Essencialmente, é um conjunto de variações em torno de única piada. Trata das desventuras de um ator indiano tornando persona non grata em Hollywood. É Hrundi V. Bakshi (Sellers), convidado acidentalmente para uma festa da fina flor da comunidade cinematográfica. A sucessão de equívocos e confusões também permite ao diretor o lançamento de um olhar levemente crítico a um meio revestido de empáfia, futilidade, ignorância e estupidez. A apreciação a seguir, de 1974, foi ligeiramente revista e ampliada vinte anos após.






Um convidado bem trapalhão
The party

Direção:
Blake Edwards
Produção:
Blake Edwards
United Artists, Mirisch Corporation
EUA — 1968
Elenco:
Peter Sellers, Claudine Longet, Marge Champion, Jean Carson, Al Checco, Corinne Colle, Dick Crockett, Frances Davis, Danielle De Metz, Herbert "Herb" Ellis, Paul Ferrara, Steven Franken, Kathe Green, Allen Jung, Sharron Kimberly, James Lamphier, Buddy Lester, Stephen Liss, Gavin MacLeod, Jerry Martin, Fay McKenzie, J. Edwards McKinley, Denny Miller, Elianne Nadeau, Thomas "Tom" W. Quine, Timothy Scott, Ken Wales, Carol Wayne, Donald R. Frost, Helen Kleeb, George Winters, Linda Gaye Scott, Natalia Borisova e os não creditados John McKee, Vin Scully.



O diretor Blake Edwards



Um convidado bem trapalhão é a terceira união de Peter Sellers com o diretor Blake Edwards. Os encontros anteriores ocorreram em A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther, 1963) e Um tiro no escuro (A shot in the dark, 1964). Em ambos, Sellers interpreta o desastrado detetive Inspetor Jacques Clouseau, responsável pelo prolongamento da parceria em A volta da Pantera Cor-de-Rosa (The return of the Pink Panther, 1975), A nova transa da pantera Cor de Rosa (Pink Panther strikes again, 1976), A vingança da Pantera Cor-de-Rosa (The revenge of the Pink Panther, 1978) e A trilha da Pantera Cor-de-Rosa (Trail of the Pink Panther, 1982)[1].


Em Um convidado bem trapalhão Sellers é Hrundi V. Bakshi, ator indiano, de Nova Deli, convidado a trabalhar em Hollywood em produção que lembra Gunga Din (Gunga Din, 1939), de George Stevens. Entretanto, é um desajeitado que vive em mundo à parte. Não sintoniza com nada. Leva o diretor (Ellis) à loucura. Estraga sequências inteiras. Seu personagem insiste em permanecer vivo quando deveria morrer após ser crivado de balas; usa relógio de pulso à prova d'água, instrumento inexistente à época da história; e, por fim, explode o cenário antes da hora. Despedido, torna-se persona non grata ao estúdio. Mas por descuido de Fred Clutterbuck (McKinley), chefe de produção, é incluído entre os convidados da festa que esse oferece em sua residência.


Peter Sellers como o atrapalhado ator indiano Hrundi V. Bakshi


A ocasião, bem comportada, reúne a fina flor de Hollywood. Transcorre em paz até a chegada de Bakshi. Daí em diante tudo desanda, num crescendo de trapalhadas e insanidade. Comédia de situações e equívocos, Um convidado bem trapalhão trata de um sujeito desambientado e sonso, estranhado por todos, que só provoca confusões quando tenta se enturmar. O filme resulta de variações em torno de única piada. Poderia cansar de imediato, mas o talento da dupla Edwards-Sellers garante a devida sustentação ao esticar as gags até o limite devido.


Geralmente, a produção cômica do cinema dos anos sessenta não resiste à revisão. Filmes como Deu a louca no mundo (It's a mad, mad, mad, mad world, 1963), de Stanley Kramer; Cassino Royale (Casino Royale, 1967), de John Huston, Val Guest, Robert Parrish e Joseph McGrath; A corrida do século (The great race, 1966), de Blake Edwards; Esses homens maravilhosos com suas máquinas voadoras ou como voei de Londres a Paris em 25 horas e 11 minutos (The magnificent men in theirs flying machines or how I flew from London to Paris in 25 hours and 11 minutes, 1965), de Ken Annakin, e outros títulos que soaram tão divertidos quando lançados, mostram-se, apreciados hoje, destituídos de maior graça. Ficaram extremamente datados, a ponto de provocar perplexidade. Levam-nos a pensar: "Era disso que tanto ríamos?" Saudável exceção é Um convidado bem trapalhão. Suas piadas, apesar de batidas, assaltam nossos olhares com a fresca aparência de coisa nova. Não provocam gargalhadas, mas o riso manso, franco e gostoso. É impossível não se divertir com Bakshi perdendo o sapato no lago artificial; metendo-se onde não é chamado; rindo do que não deve; refrescando a mão no caviar e, depois, fixando o forte odor das ovas em todos que cumprimenta; lançando sem querer um galeto inteiro sobre o penteado de uma diva alcoolizada; procurando desesperadamente um banheiro; alterando sem perceber, por mera curiosidade, o cenário do ambiente ao manipular o painel que o controla.


Hrundi V. Bakshi (Peter Sellers) deslocado num cenário de convenções e cartas marcadas


A graça só ameaça esmaecer pelo final, quando entram em cena os músicos russos e Molly (Green), filha do anfitrião, acompanhada de amigos antiestablishment mais Jongo, elefante psicodelicamente pintado, em cujo corpo estão grafados slogans do período. É com esses "sem lugar" que Bakshi se enturma. Pouco antes estreitara laços com Michele Monet (Longet), tímida e insatisfeita aspirante a atriz que o salvou de afogamento. Ela está pouco à vontade na festa. Acompanhava o produtor Divot (McLeod), que pretendia lançá-la em grande estilo em troca de favores sexuais. É salva por Bakshi, que termina com o caso ao se interpor atabalhoadamente entre ambos.




Acima, ao centro, abaixo: Hrundi V. Bakshi (Peter Sellers) encontra uma turma com a qual se identifica, inclusive um elefante


Molly e seus amigos, acompanhados de Bakshi, russos e Monet, promovem o fim da festa quando, a pedido do "trapalhão", resolvem lavar o elefante. O animal, segundo os indianos, não pode transitar pintado como estava. O local do banho é o lago artificial em torno do qual estão os convidados. Logo, o excesso de sabão se espalha sobre tudo e todos. Enquanto isso, em casa  para onde foi depois de ver desfeitos os planos com Monet , Divot descobre que Bakshi é o responsável pela ruína do filme. Volta para alertar Fred Clutterbuck. Mas é tarde. O ambiente, tomado de espuma, está literalmente de pernas para o ar, com a anfitriã Alice Clutterbuck (McKenzie) pronta a ser hospitalizada após sucessivos escorregões no piso ensaboado.


Um chic jantar transformado em palco de constrangimentos por obra e graça do atrapalhado e indevido convidado  Hrundi V. Bakshi (Peter Sellers), à direita


Um convidado bem trapalhão também serve para Edwards criticar, ainda que levemente, a comunidade cinematográfica estadunidense. A festa, conforme o diretor, foi concebida em acordo com o figurino da autêntica recepção hollywoodiana[2]. É um desfile de empáfia que serve de capa à futilidade, ignorância e estupidez. O anfitrião reúne todas essas qualidades: comunicado sobre o acidente da esposa, pede apenas para salvar as joias; anticomunista feroz, credita aos russos a culpa pelo fracasso da recepção.



Acima e abaixo: Hrundi V. Bakshi (Peter Sellers) em Um convidado bem trapalhão (The party), raro exemplar do humor cinematográfico estadunidense, produzido na década de 60, a suportar a prova do tempo


Bakshi garante outros bons momentos ao se atrapalhar no banheiro, por não se entender com a descarga e o papel higiênico; ter a corrida interrompida ao atravessar a sala onde Monet se apresentava ao violão; confortar a mocinha com provérbios indianos "bonitos mas enigmáticos", incompreensíveis também a ele; perguntar se teria espaço "ao menos na televisão", quando é despedido sob juras de que jamais voltaria a trabalhar no cinema. Também há o garçom bêbado (Franken) e o simplório "Wyoming Bill" Kelso (Miller), intérprete de cowboy ao qual não há diferença alguma entre índios e indianos.





Direção de fotografia (Panavision, Color DeLuxe): Lucien Ballard. Roteiro: Blake Edwards, Frank Waldman, Tom Waldman, baseados em história de Blake Edwards. Música: Henry Mancini. Canções: Nothing to lose (interpetada por Claudine Longet), The party, compostas por Don Balck (letras) e Henry Mancini (música). Desenho de produção: Fernando Carrere. Figurinos: Jack Bear. Montagem: Ralph. E. Winters. Produção associada: Ken Wales. Guarda-roupa feminino: Angela Alexander. Guarda-roupa masculino: Wesley "Wes" Jeffries. Coordenador de construções: William Maldonado. Som: Robert Martin. Decoração: Reginald Allen, Jack Stevens. Efeitos especiais: Norman Breedlove. Edição musical: Richard Carruth. Contrarregra: Arthur Friedrich. Primeiro assistente de direção: Mickey McCardle. Segundos assistentes de direção: Malcolm R. Harding, Montgomery "Monty Masters" Banta. Assistente de montagem: Frank Mazzola. Penteados: Alice Monte, Pat Whiffing (não creditado). Gerente de produção: Patrick J. Palmer. Regravação de som: Clem Portman. Edição de som: Benjamin "Ben" Kimball Smith. Supervisão de maquiagem: Allan Snyder. Supervisão de script: Esther Stephenson. Supervisão de produção: Allen K. Wood. Supervisão aquática: Dick Crokett (não creditado). Produção executiva: Walter Mirisch (não creditado). Maquiagem: Lynn F. Reynolds (não creditado). Coordenação de dublês: Dick Crockett (não creditado). Dublês (não creditados): Dick Crockett, John Moio. Fotografia de cena: Bruce McBroom (não creditado). Consultor musical para Peter Sellers: Ravi Shankar (não creditado). Transportes: Frank Khoury (não creditado). Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 99 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974; revisto e ampliado em 1994)



[1] Sellers estava morto, desde 1980, quando estrelou A trilha da Pantera Cor-de-Rosa. Explica-se: numa atitude oportunista, que dificilmente terá precedentes, Edwards montou o filme utilizando trechos não aproveitados dos demais exemplares da série. Foi processado, com toda razão, pela família do ator.
[2] Cf. VIVIANI, Christian. Dans la tradition classique: entretien avec Blake Edwards. Positif. Paris: Terrain Vague, n. 151, jun. 1973. p. 40.