Em
8 de agosto de 2015 concedi entrevista a Emerson T Lima, publicada em seu blog Cronologia do Acaso. Reproduzo-a, com o cuidado de fazer algumas retificações e
também sanar omissões provocadas por falhas da memória e pelo "calor da
hora". Porém, sei que tais percalços continuarão a marcar presença. São inevitáveis.
"Há
bastante tempo eu queria entrevistar criadores de conteúdo voltados para cinema.
existem muitos blogs excelentes, que, inclusive, são inspirações para o Cronologia
do Acaso continuar por três anos falando sobre cinema alternativo.
Procurando
por blogs, dentre tantos, encontrei um que me chamou a atenção Eugenio em Filmes cujo escritor se chama José Eugenio Guimarães. O conteúdo é voltado para o
cinema clássico, com resenhas altamente aprofundadas e prazerosas de ler, do
tipo que se aprende algo, o que, por sinal, está em falta hoje em dia.
Eu
entrei em contato com José Eugenio Guimarães, primeiramente, para desabafar o
quanto estava encantado, depois para solicitar uma entrevista. Felizmente a
resposta foi positiva e o resultado vocês conferem abaixo" (Emerson Teixeira
Lima).
1 – Para os leitores do Cronologia
do Acaso, por favor, se apresente. Quem é José Eugenio?
Um Engenheiro Agrônomo diversificado em
Zootecnia. Também sou Cientista Social com maior concentração em Ciência
Política e Sociologia. Tenho 59 anos. Nasci em Colatina, Espírito Santo. Mas
passei boa parte da vida em Viçosa, Minas Gerais. Profissionalmente, atuo como
professor, pesquisador e consultor.
2 – Como e quando começou o seu
amor por cinema?
Estava com dois anos, em 1958. Minha mãe,
cinéfila, queria ir ao cinema e não tinha com quem me deixar. Levou-me junto. O
filme era Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan y Vino, 1955), de
Ladislao Vajda. Segundo ela, eu o vi com a maior atenção, o tempo todo sem
tirar os olhos da tela. O problema é que a partir daí comecei a fazer birra
para voltar ao cinema. Então, posso dizer que tenho 57 anos de cinefilia. A
coisa começou a ficar mais séria em 1964, quando estava com oito anos. Meus
pais eram cinéfilos e anotavam os filmes vistos. Então, comecei a fazer igual. Como
foi na companhia deles que havia visto todos os filmes até então, ficou fácil
saber quantos assistira e completar a minha lista. Ainda a tenho. Até o
momento, vi 6523. Tenho todos os títulos anotados com as respectivas fichas.
Desse montante, cerca de quatro mil estão comentados. Com esses comentários ou apreciações,
escritos em épocas as mais diversas, alimento o blog.
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Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan y Vino), realização espanhola de 1955, do diretor Ladislao Vajda, é o primeiro filme que vi, aos dois anos, em 1958 |
3- Cite obras e/ou diretores que
mudaram a sua vida.
Obra alguma mudou a minha vida. Ajudaram,
no máximo, a ter uma compreensão melhor do mundo, como alguns livros também o
fizeram. Meus diretores preferidos são John Ford, Howard Hawks, Jules Dassin,
Anthony Mann, Stanley Kubrick, Orson Welles, King Vidor, Alfred Hitchcock,
Woody Allen, Michael Powell, Billy Wilder, Ernst Lubitsch, Nelson Pereira dos
Santos, Glauber Rocha, Humberto Mauro, François Truffaut, Luchino Visconti,
Federico Fellini, Roberto Rossellini, Jacques Feyder, Yasujiro Ozu, Kenji
Mizoguchi, Akira Kurosawa, Sergio Leone, Sergei Eisenstein, Ingmar Bergman, Pier
Paolo Pasolini, Satyajit Ray, Alberto Cavalcanti, Carl Theodor Dreyer, David
Lean, Rainer Werner Fassbinder, Frank Borzage, Leon Hirszman, F. W. Murnau,
Yasujirô Ozu, René Clair, Raoul Walsh, Fritz Lang, Vittorio De Sica, Mario
Peixoto e outros tantos.
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Alguns dos meus mais importantes cineastas: de cima para baixo e da esquerda para a direita: John Ford, Luchino Visconti, o brasileiro Humberto Mauro, Howard Hawks e Orson Welles |
Alguns filmes que me marcaram:
Jejum de amor (His girl Friday, 1940), de Howard Hawks; A sombra de uma dúvida (Shadow of a doubt, 1943), de Alfred Hitchcock; O encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin, 1925), de Sergei M. Eisenstein; Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder; 8 1/2 (8 1/2, 1963), de Federico Fellini; Era uma vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968), de Sergio Leone; O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valance, 1962), de John Ford; Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos; Pistoleiros do entardecer (Ride the high country, 1962), de Sam Peckinpah; Rastros de ódio (The searchers, 1956), de John Ford; Terra em transe (1967), de Glauber Rocha; Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959), de François Truffaut; O leopardo (Il gattopardo, 1963), de Luchino Vistonti; Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), de Orson Welles; A palavra (Ordet, 1955), de Carl Theodor Dreyer; Aurora (Sunrise, 1927), de F. W. Murnau; Era uma vez em Tóquio (Tôkyô monogatari, 1953), de Yasujiro Ozu; 2001: Uma odisseia no espaço (2001: A space odissey, 1968), de Stanley Kubrick; A quermesse heroica (La kermesse héroique, 1935), de Jacques Feyder; Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959), de Howard Hawks; No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford; Rio Vermelho (Red River, 1948), de Howard Hawks; Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969), de Sam Peckinpah; Os brutos também amam (Shane, 1953), de George Stevens; mas pode estar certo de que há mais, muito mais.
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Posters de alguns filmes que considero fundamentais, entre outros tantos |
4 – Por que decidiu criar o blog?
Resolvi criar o blog para dar vazão
pública às apreciações de filmes que escrevi ao longo da vida e continuo a
escrever. Comecei a fazer isso em 1974. Alguns textos foram publicados em
revistas acadêmicas. Mas a maior parte permanece inédita.
5 – Você vai ao cinema? Qual as
diferenças mais gritantes entre aqueles cinemas de bairros que tínhamos e os de
hoje? Me parece que o cinema se tornou apenas mais uma loja dos Shoppings, você
concorda?
Costumo ir ao cinema. Se bem que reduzi
muito a frequência nos dias que correm. O cinema, atualmente, não é mais o
templo ao qual fui habituado. Hoje são mais pardieiros elegantes de gente
inquieta. Os tempos mudaram, não necessariamente para melhor. Mas continuo indo
aos cinemas. Em Niterói, onde moro, sou vizinho de um excelente cinema: o Cine
Arte UFF. No Rio há o Grupo Estação e seus derivados. Também há a Cinemateca do
MAM e as mostras do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil. Fui muito ao cinema,
quase todos os dias, quando morei em BH, nos anos 80. Em Viçosa/MG, onde passei
a minha infância e parte da juventude, tive acesso facilitado aos três cinemas
da cidade, atualmente fechados, época em que via cerca de três filmes por
semana.
6- Em relação aos filmes que andam
saindo (tanto para o grande público como no circuito alternativo) qual sua
opinião sobre? O melhor ficou no passado ou existe coisas boas ainda? Caso
queira, cite filmes e diretores novos que considera bom.
Ainda sai muita coisa boa, que me convida
ao cinema. Cinematografias estranhas e interessantes estão dando as caras e me
atraem: Irã, Coreia, China... O Japão continua sendo um foco de atração. Os
italianos, parece, estão experimentando um renascimento. A Argentina está com um cinema excelente. Mas sinto falta de uma
certa efervescência marcada por debates acirrados. Sinto falta dos movimentos
como Free Cinema Inglês, Nouvelle Vague, seja a francesa ou tcheca, da
inquietação de um Glauber etc. Claro que esse tempo não voltará. Hoje, o que
sinto falta é do debate que as obras produziam. Estamos meio que largados,
atualmente, a uma infantilização excessiva do cinema, por causa do que se
tornou o majoritário cinema americano. Veja bem: não reclamo de filmes
infantis. Este tem que existir, sempre. Mas falo de uma onda crescente que vem
considerando o público como entidade dotada de idade mental inferior. Há muito
imbecilidade no cinema de hoje. Super heróis em excesso. Gosto de super heróis
também. Mas fico injuriado com cada lançamento da Marvel, por exemplo, ganhando
aura de evento que dura o ano todo e bloqueia quase todos os canais. Outro
coisa que também estranho é o excesso de filmes dublados. Não gosto.
7- Qual sua opinião sobre a
crítica de cinema?
A crítica está morta. Pelo menos a
crítica que eu lia nos anos 60 e 70, nos jornais e revistas. O crítico tinha
espaço para tecer seu comentário com profundidade. Dava prazer ler, mesmo que
não se concordasse com o autor. Eram textos fundamentados. Hoje é crítica é
como jujuba. Algo que desce rápido mas sem o menor sabor. Também não se pode esquecer
que há muito crítico que não tem a menor noção de história do cinema e seus
grandes momentos. A crítica de hoje não mais me motiva. A não ser algumas ilhas
de excelência cada vez mais restritas a determinados blogs e sites perdidos na
selva da Internet.
8- Para mim, o verdadeiro (bom)
conteúdo de cinema, hoje, nós temos nos blogs. Existem diversos por ai que se
sobressaem de forma incrível, como o seu, por exemplo, o que você acha disso?
Tem indicações de blogs bacanas de cinema? O que é preciso para escrever bem
sobre cinema?
Para escrever bem sobre cinema não basta
gostar de cinema. Tem que ter um conhecimento diversificado sobre muita coisa.
É preciso ter leitura. Afinal, o cinema dialoga com várias áreas do saber. Não
é só o filme que interessa. Eu sou neófito em blogs. Ainda estou formando uma
base de conhecimento sobre eles. Ainda estranho muito essa área e, para ser
franco, nem sei muito bem o que estou fazendo. Mas vou insistindo. Sei que há
muitos blogs bons. Não me arrisco a fazer uma listagem dos melhores. O meu é
simples. Não tem firulas. É mais textual, mesmo. Nem sabia como fazer quando
comecei. Simplesmente pedi a uma amiga que o “desenhasse”, da forma a mais
simples e didática possível, sem cores carregadas, pois desde cedo tomei a decisão
de que o texto predominaria em relação aos demais aspectos.
9- Qual gênero de filme você
prefere?
Afetivamente, por causa de minha idade e
das sensações que trago da infância, tenho forte relação com o western. Quando
era garoto, os filmes da hora eram os westerns. Não para menos tenho John Ford,
Howard Hawks e Anthony Mann entre os meus cineastas preferidos.
10- Qual sua opinião sobre o
download de filmes, pois, temos uma dificuldade imensa para assistir filmes
alternativos nos grandes cinemas, cópias somente dubladas, enfim, o download
não seria uma forma interessante de buscar essa cultura?
Francamente, não sei responder. Como sou
analfabeto em computadores e Web, pouco faço downloads. Quem cuida desse setor
em minha casa é minha filha. Já pedi a ela para baixar algumas coisas que
queria rever e não estavam à disposição em DVD etc.
11- No Cronologia do Acaso,
abordamos, quase que exclusivamente, o cinema alternativo, qual sua relação com
esse cinema?
Sem o cinema alternativo não há
renovação. É este tipo de cinema que permite a mudança. Aliás, são
cinematografias chamadas de alternativas bem como filmes alternativos que me
atraem ao cinema, hoje.
12 – Além de cinema, gosta de
livros, músicas etc.? Cite exemplos, ainda mais, essas outras artes acrescentam
a sua visão cinematográfica, de que modo?
Estou sempre lendo, de tudo. Minha
profissão me obriga à continuada leitura. Não somente livros de ciências
sociais. Minha maior frustração é saber que vou morrer sem dar conta de todos
os livros que tenho. A música sempre fez parte de minha vida, dos mais diversos
gêneros. A casa dos meus pais era musical. Ao gosto deles somou-se o meu. Foi
por causa de minha afinidade com livros que tive a atenção voltada para a
escrita e, principalmente, para a vontade de escrever.
13- O cinema tem o poder de mudar
uma vida?
Ah! Não sei! Gostaria de saber. O certo é
que amplia a nossa visão de mundo. Gosto de filmes que instalam a dúvida diante
de uma realidade atolada na certeza e no senso comum. Mas nem sempre isso é
possível.
14- Para finalizarmos, deixe uma
frase ou uma mensagem para aqueles que gostam do seu trabalho na internet e,
evidentemente, para aqueles que passarão a te conhecer melhor depois dessa
entrevista.
A quem me lê – se é que alguém lê o que
escrevo – só peço para não estranhar o cinema. Deve-se estar aberto à
diversidade de possibilidades que o cinema permite. Foi algo que aprendi com o
meu pai. Se num dia víamos um western, no outro estávamos vendo algo do
Mizoguchi ou da Nouvelle Vague ou do Cinema Novo. No cinema não cabe a
estreiteza da visão afunilada. Há que se olhar para todos os lados.
(José Eugenio
Guimarães, 2015)
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