domingo, 12 de janeiro de 2014

MELHORES FILMES DE 2013

Não gosto de fazer listas assim. Sempre fico com a desconfortável impressão de ter cometido omissões e injustiças. Alguns conseguem lidar bem com essa sensação. Não é o meu caso, em absoluto. Porém, no começo de janeiro de 2014, pressionado por amigos de um grupo de cinema do Facebook, abri dolorosa exceção e elegi os DEZ melhores filmes aos quais assisti, lançados nos cinemas brasileiros no ano anterior.


Por ordem de preferência, são:

1. Hannah Arendt (Hannah Arendt, 2012), de Margarethe von Trotta; coprodução entre Alemanha, Luxemburgo, França e Israel.





2. Amor (Amour, 2012), de Michael Haneke; coprodução entre França, Alemanha e Áustria.





3. O som ao redor (2012), de Kleber Mendonça Filho; produção brasileira.





4. Django livre (Django unchained, 2012), de Quentin Tarantino; produção estadunidense.





5. Flores raras (2013), de Bruno Barreto; produção brasileira.





6. A caça (Jagten, 2012), de Thomas Vinterberg; coprodução entre Dinamarca e Suécia.





7. Elefante branco (Elefante blanco, 2012), de Pablo Trapero; coprodução entre Argentina, Espanha e França.





8. Dentro de casa (Dans la maison, 2012), de François Ozon; produção francesa.





9. Blue Jasmine (Blue Jasmine, 2013), de Woody Allen; produção estadunidense.





10. Uma garrafa no mar de Gaza (Une bouteille à la mer, 2011), de Thierry Binisti; coprodução entre França, Israel e Canadá.



DERROTA E FALTA DE CONVICÇÃO NAS AREIAS DE DUNQUERQUE

Cresci ouvindo ecos da Segunda Guerra Mundial. Jornais e revistas, ao longo dos anos 60, constantemente estampavam matérias que expunham as entranhas do III Reich, a logística das batalhas, a dinâmica dos campos de extermínio, a caçada aos nazistas foragidos etc. Para mim, a Retirada de Dunquerque foi o acontecimento mais emblemático do conflito. Forneceu a matéria-prima, a partir do premiado romance de Robert Merle, ao primeiro dos muitos filmes que assisti sobre os eventos bélicos de 1939-1945. Estava com 10 anos em 1966 quando vi Gloriosa retirada (Week-end à Zuydcoote, 1964), de Henri Verneuil. É drama de guerra em tom menor. Faz discreta porém crível e comovente reconstituição do episódio, quando cerca de 340 mil soldados aliados, encurralados pelos alemães, foram resgatados por mar, em esforço memorável, e conduzidos à Inglaterra. O drama é contado pelo testemunho do Sargento Maillat (Jean-Paul Belmondo). A morte do personagem marcou a minha infância e ainda me acompanha. A preciação é de 1976.






Gloriosa retirada
Week-end à Zuydcoote

Direção:
Henri Verneuil
Produção:
Raymond Hakim, Robert Hakim
20th. Century-Fox, Paris Film Production, Interopa
França, Itália — 1964
Elenco:
Jean-Paul Belmondo, Catherine Spaak, François Périer, Michel Barbey, Christian Barbier, Marie-France Boyer, Marie Dubois, Georges Géret, Ronald Howard, Jean-Pierre Marielle, Pierre Mondy, Paul Préboist, Jean-Paul Roussillon, Albert Rémy, Nigel Stock, Pierre Vernier, Dominique Zardi, François Guerin, Kenneth Haigh, Alan Adair, Robert Bazil, Charles Boullard, Gerard Darrieu, Robert Deslandes, Jacques Ferriere, Colin Mann, Pierre Collet, Raoul Defosse, Jean-Claude Dubois, Bob Lerrick, Melsen Bernard Musson, Donald O'Brien, Paul Pavel, Robert Rollis, Rolf Spath, Julien Verdier, Marie France Mignal, Robert Napier, René Penetra, Eric Sinclair, Anthony Stuart, Louis Viret.



O diretor Henri Verneuil entre Michèle Morgan (esquerda) e Claudia Cardinale por ocasião das filmagens de Os leões estão soltos (Les lions sont lâchés, 1961)



A Segunda Guerra Mundial começa oficialmente em primeiro de setembro de 1939 com a invasão da Polônia pela Alemanha. Dois dias após, Inglaterra — acompanhada de todos os países da Commonwealth  e França declaram hostilidade ao agressor. Porém, apanhados praticamente na pasmaceira — e mal recuperados dos elevados custos humanos do Grande Conflito de 1914-1918 —, de início pouco conseguem. Deixam ao confiante Hitler excessiva margem de liberdade. O Füher logo revela suas intenções, apoderando-se praticamente sem resistência de todo o Leste Europeu — com exceção da União Soviética, ainda apoiada na validade do pacto Molotov-Ribbentrop de 1939. No front ocidental europeu, os oponentes apenas se miram em operações de pouco ou nenhum efeito, isto até abril de 1940. Em nove desse mês os alemães invadem Dinamarca e Noruega, forçando movimentações mais substantivas de britânicos e franceses. Ambos desembarcam na Noruega em 14 de abril, mas recuam em menos de duas semanas frente ao pesado poder de fogo inimigo. Em 10 de maio — quando da substituição do ineficiente primeiro ministro inglês Neville Chamberlain por Winston Churchill, e com as tropas britânicas e francesas ainda desorganizadas em decorrência do fracasso norueguês —, a Alemanha ocupa a neutra Holanda e, ao mesmo tempo, Bélgica e Luxemburgo. Ato contínuo, avança rumo à França pela fechada Floresta das Ardenas, erroneamente considerada impenetrável aos blindados germânicos. Com essa manobra, as forças de Hitler transformam em elefante branco a mítica Linha Maginot — poderosa sucessão de casamatas erguidas à defesa do território francês na fronteira com a Alemanha. Em 22 de junho de 1940 a República Francesa capitula.


Surpreendidos, os britânicos partem em auxílio dos franceses, cruzando o território belga. Mas a operação fracassa frente à rápida movimentação das bem equipadas e mais leves tropas alemãs. Logo, os combalidos aliados são empurrados ao norte da França, rumo às praias da Normandia em Dunquerque, ficando imprensados entre o Canal da Mancha e os invasores distantes cerca de 80 Km. A derrota aliada no início da guerra é um fato. A situação, desesperadora, obriga o Ministro da Guerra britânico, Anthony Eden, a agir com rapidez e improviso. Assim, é montada a Operação Dínamo: embarcações da marinha e de particulares integram a frota de evacuação do esforço que passará à história como Retirada de Dunquerque: cerca de 340 mil soldados aliados — acuados no litoral francês por terra e pelos constantes bombardeios da Luftwaffe — são transferidos para a Inglaterra entre 26 de maio e 4 de junho.


Jean-Paul Belmondo interpreta o Sargento Maillat

O caos na praia de Zuydcoot

  
Gloriosa retirada dramatiza o episódio a partir de roteiro de François Boyer escrito em parceria com Robert Merle, autor do romance ligeiramente autobiográfico Week-end à Zuydcoote, vencedor do Prêmio Goncourt, equivalente franco ao estadunidense Pulitzer. Merle estava incorporado a uma das unidades francesas encurraladas em Dunquerque, mais especificamente na praia de veraneio de Zuydcoote. Seu relato não se ocupa de batalhas e atos heroicos. É mais a anatomia de uma derrota espelhada no estado de espírito de muitos combatentes tomados pelo desânimo, perplexidade, desespero e falta de convicção enquanto lutavam para sobreviver e sair do encalhe ao qual foram forçados. O resgate parecia uma impossibilidade. Merle teve a sorte de embarcar rumo à Inglaterra, ao contrário de muitos companheiros mortalmente surpreendidos pelo fogo dos bombardeios. Seu livro, pode-se dizer, oferece um painel realista e desesperançado da guerra. Foi convenientemente transposto às telas por Henri Verneuil, competente mas subestimado realizador francês, notabilizado principalmente na comédia e no drama policial.


Pertencem à lavra de Veneuil títulos que celebrizaram o cômico Fernandel como La table aux crèves (1951), O fruto proibido (Le fruit défèndu, 1952), O padeiro de Valorgue (Le boulanger de Valorgue, 1952); O inimigo público número 1 (L'enemi public no 1, 1953), Carnaval (1953), O carneiro de cinco patas (Le mouton à 5 pattes, 1954), O gangster (Le grand chef, 1958) e A vaca e o prisioneiro (La vache et le prisionnier, 1959). Também lhe honram a filmografia os criminais Gangsters de casaca (Melodie em sous-sol, 1961); Os sicilianos (Le clan des siciliens, 1971), A serpente (Le serpent, 1973), Medo sobre a cidade (Peur sur la ville, 1975), Ânsia de vingança (Les corps de mon ennemi, 1976) e I como Ícaro (I... comme Icaro, 1979), sem esquecer o comovente e exasperante drama de guerra A 25a hora (Le vingt-cinquième heure, 1966) e o deslocado western Os canhões de San Sebastian (Guns for San Sebastian/La bataille de san Sebastian, 1968), ambos protagonizados por Anthony Quinn.



Acima e abaixo: o sargento Maillat (Jean-Paul Belmondo) sob bombardeio alemão em Dunquerque 


Verneuil faz de Gloriosa retirada uma discreta, crível e comovente reconstituição do drama de Dunquerque. Pode ser incluído entre seus melhores trabalhos. Jean-Paul Belmondo é o Sargento Julien Maillat. Ele e seu pelotão, extraviados do regimento de origem, chegam à Praia de Zuydcoote no sábado, primeiro de junho. Encontram, até o dia seguinte, um cenário de caos e desolação. Soldados aliados não param de chegar. Veículos destruídos e armamentos abandonados atravancam a movimentação e conferem aparência irreal ao lugar. Na orla, oficiais tentam organizar a retirada sob fogo da aviação alemã. Médicos de um hospital improvisado fazem o possível para socorrer os feridos. Nas proximidades, acumulam-se corpos de militares e civis, inclusive de muitas crianças, alguns sem possibilidade de identificação. A música de Maurice Jarre pontua e comenta lentamente as cenas. A fotografia de Henri Decaë é um trunfo à parte. É solar, brilhante, clara, condizente com a normalidade de um balneário de veraneio como a praia de Zuydcoote. Confere ar de surrealismo ao tom da encenação, dispersada por homens aguardando na areia ao passo que outros tentam a retirada ou escapar da metralha da Luftwaffe. Interrogações são enviadas ao silêncio de Deus e terminam por ressaltar a inutilidade dos gestos e atos. A morte espreita. "Veja os mortos torrando na grelha!", exclama Maillat. Convenientemente, a câmera não revela ao espectador o horror avistado pelo personagem. Mas Zuydcoote é uma fornalha, cada vez mais repleta de homens para queimar. Apesar do enganoso título que recebeu no Brasil, o filme não reserva lugar ao heroísmo e atos gloriosos. O que se vê é apenas o absurdo e a vontade de sobreviver em meio à desolação e melancolia.


Ao centro, o sargento Julien Maillat (Jean-Paul Belmondo) no teatro de operações da retirada

  
Por quase 120 minutos de projeção Maillat perambula pelo terreno conflagrado. Faz de tudo para embarcar, inutilmente. Enquanto o espectador o acompanha, vai conhecendo sua indisposição de soldado derrotado. A geografia humana do balneário também é revelada. O fracasso está em todo lugar, inclusive em suas consequências morais. Maillat conhece Jeanne (Spaak), moradora da localidade que se recusa a abandonar a residência familiar, apesar dos bombardeios e da tentativa de estupro que sofre de dois soldados franceses desgarrados, mortos por ele na única violência que comete ao longo de todo o filme.


Os momentos de Maillat com Jeanne foram considerados pouco críveis por diversos críticos, a ponto de prejudicar o andamento de uma história marcada acima de tudo pela valorização da autenticidade. No entanto, frente às crescentes desumanização do ambiente e do ceticismo do personagem, a moça é uma oportuna injeção de esperança ao drama que terminará, inevitavelmente, de modo trágico. Na tentativa de salvá-la Maillat encontra alguma motivação. Faz de tudo para tirá-la dali, como se isso fosse necessário para reerguer porções e crenças de seu mundo despedaçado.


Jeanne (Catherine Spaak) e Julien Maillat (Jean-Paul Belmondo)


O final é inesquecível e tristemente melancólico. Na praia, Maillat aguarda Jeanne. Juntos, tentarão embarcar. Não sabe, porém, se ela virá. Recomeça o bombardeio aéreo. Sem possibilidades de abrigo, ele é gravemente ferido. Sua cabeça pende para o fundo da cratera deixada pela bomba. Falece, logo após se mover com esforço, somente para divisar Jeanne se aproximando ao longe. Mais ao fundo se processa a retirada.


Jeanne (Catherine Spaak) e Maillat (Jean-Paul Belmondo)

Pierson (Jean-Pierre Marielle) e Julien Maillat (Jean-Paul Belmondo)

  
Gloriosa retirada oferece a Jean-Paul Belmondo uma das suas melhores interpretações. O ator brilha numa composição minimalista, fazendo de Maillat um inesquecível anti-herói a reboque de uma história que, desenrolada à sua revelia, como convém às tragédias, está prestes a se prolongar por contingentes humanos mais amplos. O personagem é quase uma extensão de Michelle, o pacifista fora do contexto de Duas mulheres (La ciociara, 1961), de Vittorio De Sica.





Roteiro: François Boyer, Robert Merle, com base me romance de Robert Merle. Diálogos: Robert Merle. Direção de fotografia (Eastmancolor): Henri Decaë. Música e direção musical: Maurice Jarre. Decoração: Robert Clavel. Assistentes de decoração: Henri Moran, Marc Robert Desage. Chefe de montagem: Claude Durand. Assistente de montagem: Florence Bernard. Assistente de direção: Claude Pinoteau. Operadores de câmera: Charles H. Montel, Alain Douarinou. Assistentes de câmera: François Lauliac, Alain Derobe. Fotografia fixa: Raymond Voinquel. Engenheiro de som: René Longuet. Assistentes de engenheiro de som: Gabriel Solagnac, Pierre Davoust. Continuidade: Lucile Costa. Maquiagem: Jacky Bouban, Roger Chanteau, Goerges Boubon. Administração geral: Paul Dufour. Chefes de costumes: Jean Zay, Leon Zay. Consultor técnico de aeronáutica: Alexander Renaut. Efeitos especiais: Karl Baumgartner. Assistente de efeitos especiais: Daniel Braunchweig. Direção de produção: Ralph Baum. Tempo de exibição: 119 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976)