O diretor William H. Witney e o
ator Audie Murphy — o soldado mais condecorado da Segunda Guerra Mundial — já
estavam no inverno de suas carreiras quando foram reunidos pelo modesto
produtor Robert E. Kent, da Admiral Pictures, na realização de Rifles
Apaches (Apache rifles, 1964). É western convencional levado a termo em
regime de baixo orçamento, como outros tantos de semelhante envergadura que
faziam a alegria da garotada nas sessões de domingo de meados dos anos 60.
Witney, mestre da ação rápida, teve a carreira relegada às companhias
produtoras do terceiro escalão — a Republic Pictures, principalmente. Especializou-se
em seriados, veículos para cowboys cantores, aventuras do Lone Ranger — mal
convertido para Zorro no Brasil — etc. Jamais teve a oportunidade de dirigir
filmes suportados por orçamentos mais generosos. Do mesmo mal padece a carreira
de Murphy, protagonista de aproximados 40 westerns ligeiros e baratos rodados
nos anos 50 e 60. Faz, em
Rifles
Apaches , o Capitão Stanton da Cavalaria dos Estados
Unidos. É escalado para enquadrar os Mescaleros chefiados por Vitorio (Joseph
A. Vitale) e seu filho Falcão Vermelho (Michael Dante). O contexto é ameaçado
pelo assédio de mineiros aos veios auríferos encontradas na reserva de San
Carlos e ambição de superiores carreiristas. Prejudicam Stanton o fantasma do
pai, militar caído em desgraça, e o preconceito racial. A ação acontece no
território do Arizona em 1879.
A realização desenvolve ponto de vista favorável aos
índios. A narrativa, apesar de convencional, tem bom pique e garante o
interesse. Infelizmente, por pouco não é completamente arruinada por um dos
piores epílogos da história do cinema. Segue apreciação escrita em 1977, revista
e atualizada em 1985.
Rifles apaches
Apache rifles
Direção:
William H. Witney
Produção:
Robert E. Kent
Robert E. Kent Productions
(Admiral Pictures)
EUA — 1964
Elenco:
Audie Murphy, Linda Lawson,
Michael Dante, L. Q. Jones, Ken Lynch, Joseph A. Vitale, Robert Brubaker, John
Archer, J. Pat O'Malley, Eugene Iglesias, Charles Watts, Howard Wright, Peter
Hansen, Robert Karnes, Hugh Sanders, Sydney Smith, S. John Launer, Robert B.
Williams e os não creditados Jimmie Booth, Fred Carson, Cecil Combs, Herman
Hack, Frank Hagney, Boyd 'Red' Morgan.
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O diretor William H. Witney |
Rifles Apaches é um dos muitos
westerns baratos e convencionais estrelados por Audie Murphy ao longo dos anos
50 e 60. Na forma, é similar a tantos outros. O realizador é o competente
artesão William H. Witney, desde os anos 30 reconhecido como autêntico pau para toda
obra em companhias produtoras menores, notadamente a Republic Pictures. Dirigiu
seriados e significativo número de veículos para os cowboys cantores Roy Rogers
e Rex Allen. Ganhou experiência no desenvolvimento de tramas marcadas pela ação
rápida, da qual se tornou um mestre não reconhecido. Infelizmente, não teve a chance
de se provar em produções de prestígio amparadas por orçamentos mais generosos.
Ostenta na filmografia cerca de 140 títulos, desde que se lançou na atividade
com O
aliado misterioso (The painted stallion, 1937) até o
encerramento da carreira com o obscuro Showdown at Eagle Gap (1982). Nos
anos 60, quando as oportunidades no cinema começaram a escassear diante do lento
e progressivo ocaso do western, encontrou porto seguro na condução de episódios
de diversas séries televisivas — inclusive para a Walt Disney Productions.
Rifles Apaches é o terceiro dos
três westerns protagonizados por Murphy em 1964. Os outros são, pela ordem, Pistoleiro
relâmpago (The quick gun), de Sidney Salkow, e Balas para um bandido (Bullet
for a badman), de R. G. Springsteen. Witney dirige roteiro de Charles
B. Smith adaptado de história de Kenneth Gamet e Richard Schayer. De início, apresenta
seca e concisa aventura da Cavalaria contra os Apaches Mescaleros liderados por
Vitorio (Vitale) com o apoio do filho Falcão Vermelho (Dante). Acossados por
mineiros que invadiram a reserva de San Carlos, no Arizona, os índios abandonam
o lugar. Organizados como força guerrilheira, desferem ataques rápidos pela
região circundante. Visam principalmente os garimpeiros. São perseguidos pela tropa
do Capitão Green (Hansen). Depois de sofrer muitos reveses, o comando passa ao Capitão
Stanton (Murphy). É homem talhado para campanhas demoradas, duro quando necessário
e estrito cumpridor de ordens regulamentos. Prepara uma emboscada e aprisiona
Falcão Vermelho. Submete-o a tratamento inclemente até conseguir a atenção de Vitorio.
Ordena o retorno dos evadidos à reserva e se compromete a expulsar os invasores.
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Vitorio (Joseph A. Vitale) com o filho Falcão Vermelho (Michael Dante) |
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Audie Murphy como o Capitão Stanton |
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O Capitão Stanton (Audie Murphy) e o Sargento Cobb (Robert Brubaker) |
Porém, nem tudo é
tão simples. Há ouro em abundância na reserva. Os mineiros insistem em lá
permanecer. Liderados por Mike Greer (Jones) e Hodges (Lynch), são insuflados
pelo comerciante e financiador Crawford Owens (Watts). Atuam politicamente em Washington
e conseguem reverter parcialmente a situação. Stanton é destituído do comando
da guarnição. Passa à condição de subordinado do substituto, o carreirista e
manipulável Coronel Nathan Perry (Archer) — ansioso por uma promoção. Uma
vitória militar contra os índios seria a oportunidade ideal.
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Crawford Owens (Charles Watts), Hodges (Ken Lynch), Mike Greer (L. Q. Jones) e o Xerife (Robert Karns) |
Os mineiros
também providenciam a eliminação do digno Thompson (Wright), agente de assuntos
indígenas. É atingido nas costas por uma flecha. As suspeitas caem sobre os
Apaches. É motivo suficiente para o desencadeamento de represálias,
oportunidade tão aguardada por Perry. Apesar da aversão racista aos índios, Stanton
tenta controlar a situação e apaziguar os ânimos. Descobre a verdade sobre o
assassinato de Thompson e faz o que pode para enquadrar os mineiros e evitar mais
derramamento de sangue. Também é afetivamente atraído por Dawn Gillis (Lawson),
missionária e professora da reserva. Apresenta-se um duplo problema: ela também
é cortejada pelo irascível Falcão Vermelho e é mestiça, filha de pai branco com
mãe Comanche. Os acontecimentos se passam em 1879.
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O Capitão Stanton (Audie Murphy) e a missionária Dawn Gillis (Linda Lawson) |
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O oficial médico Thatcher (J. Pat O'Malley), Capitão Stanton (Audie Murphy) e Dawn Gillis (Linda Lawson) |
Rifles Apaches desenvolve ponto
de vista favorável aos índios. Revela como eram manipulados por interesses
econômicos e políticos que levavam à ruptura unilateral, pelos brancos, dos acordos
de paz. Infelizmente, tais questões são tratadas superficialmente. Importam
primeiramente a ação e, em segundo plano, as ambiguidades da personalidade de Stanton.
O Capitão é atormentado pelas lembranças do pai — militar respeitador dos
índios e caído em desgraça ao provocar a derrota do pelotão que comandava — e
pelo franco preconceito racial.
Filmado em
locações naturais da Califórnia — Bronson Canyon, Red Rock Canyon State Park,
Deserto de Mojave e Janss Conejo Ranch — e nas instalações da Universal
Pictures, Rifles Apaches é aventura bem contada, apesar de ordinariamente
previsível. O desenvolvimento é fluido, às vezes vigoroso e emocionante. Os
atores estão bem e contribuem para William Witney entregar um trabalho correto,
ou quase.
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Capitão Stanton (Audie Murphy) |
Infelizmente, a
solução encontrada para o epílogo põe tudo a perder de tão constrangedora. Provavelmente,
resulta de arranjo imposto pela distribuidora, a 20th Century-Fox, à revelia do
roteirista e da direção. Falcão Vermelho está enlutado e contrariado por causa
da morte do pai no embate com as tropas do Coronel Perry. Para piorar, os
Apaches estão — mais uma vez — prestes a sofrer nova traição dos militares.
Descontrolado, o herdeiro de Vitorio acerta uma lança em Stanton. A área do
coração é visivelmente atingida. Homem algum sobreviveria a golpe de tamanha
precisão e envergadura. Segue-se um fade-out.
Passam-se três semanas. E não é que o Capitão ressurge vivinho, de posse de
todos os movimentos? Tem apenas o braço esquerdo na tipoia. Falcão Vermelho se alegra
em vê-lo saudável. Depois de tanto conflito e antipatias mútuas, ambos trocam
amabilidades. Todo o racismo de protagonista desapareceu por encanto.
O novo chefe dos
Apaches Mescaleros comunica que San Carlos será deixada à exploração dos
garimpeiros e a tribo partirá de bom grado para reserva supostamente mais
aprazível, no Texas, onde a visita do oficial é aguardada com muito gosto. Também
convence Stanton a não abandonar o Exército, conforme pretendia. Ainda por
cima, deixa-lhe o caminho livre para cortejar Dawn Gillis — até então dada como
morta nas escaramuças.
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Capitão Stanton (Audie Murphy) |
É um final de
papelão, de tão falso e irreal. Parece que foi inspirado nas ilustrações dos folhetos
edificantes distribuídos pelas Testemunhas de Jeová. Nesses, ovelhas pastam
tranquilas ao lado de leões mansos e a natureza está aos cuidados de abençoadas
famílias em um mundo pacificado pelo poder da graça divina. Terrível! Lástima! Noventa
e dois minutos de uma boa história foram desperdiçados por 120 segundos do mais
ridículo e anticlimático epílogo. Uma pena!
Roteiro: Charles B. Smith, baseado em história de Kenneth
Gamet e Richard Schayer. Produção
associada e supervisão da montagem: Grant Whytock. Música: Richard LaSalle. Direção
de fotografia (Deluxe Color): Archie R. Dalzell. Direção de arte: Frank Paul Sylos. Decoração: Morris Hoffman. Maquiagem:
Vincent Romaine, Ben Nye (não creditado). Penteados: Gladys Witten. Gerente
de produção: Joseph Small. Assistente
de direção: Herbert S. Greene. Contrarregra:
Max Frankel. Som: Lambert E. Day. Edição de som: James Richard. Dublês (não creditados): Fred Krone, Boyd
'Red' Morgan, Jim Sheppard (p/Audie Murphy), Norm Taylor. Guarda-roupa: Alexis Davidoff. Edição
musical: Sid Sidney. Tempo de
exibição: 92 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1977, revisto e atualizado
em 1985)