Por causa das particularidades da
praça cinematográfica de Viçosa/MG e dos círculos cultivados por meu pai, enfrentei
poucas dificuldades, na adolescência, para vencer os limites da censura diante
de filmes vedados a menores. No caso de interdição até os 18 anos, tinha
entrada franqueada se os títulos não exibissem “conteúdo picante” — segundo a
subjetividade de porteiros, operadores e gerentes —, nudez e sexo. Assim, por tais
critérios, somente em 1974 — já alistado para o serviço militar e apto a votar
— fui apresentado ao erotismo cinematográfico. Com os hormônios à flor da pele,
foi uma festa. O canadense A primeira noite de uma mulher (L’initiation,
1969), de Denis Héroux, abriu a temporada. Segundo os valores e conveniências da
época, trazia generosa exposição de belos corpos femininos ao natural e muita
lascívia. Diante da ação do tempo e de mudanças no campo dos costumes, tais
encenações tidas como ousadas ou escandalosas se tornaram pudicas e evangelicamente
recatadas. Entretanto, lá estava a então lendária atriz franco-canadense
Danielle Ouimet incendiando os olhos e o imaginário da curiosa juventude
carente há pouco emancipada. Apesar de tanta carnalidade e explosão de
sensualidade, algo chamava a atenção. Era época de atenta vigilância da Divisão
de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal. O instituto mutilava ou
proibia integralmente produtos os mais ousados no âmbito das artes e do
entretenimento de massas. Como A primeira noite de uma mulher passou
praticamente incólume pela avaliação dos censores? Provavelmente, por ser obra
das mais conservadoras e moralistas — apesar de revestida pela ousada e vistosa
embalagem erótica de então. A apreciação a seguir é de 1974.
A primeira noite de
uma mulher
L'initiation
Direção:
Denis Héroux
Produção:
John Dunning, André Link
Cinépix
Canadá — 1970
Elenco:
Chantal Renaud, Danielle Ouimet,
Jacques Riberolles, Gilles Chartrand, Serge Laprade, Céline Lomez, Louise
Turcot, France Dionne, Daniel Gadouas, Michel Girouard, Jean-Pierre Payette, Béatrice
Picard, Janine Sutto, Jacques Zouvi, Pierre Labelle.
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Denis Héroux dirige Samantha Eggar no episódico Trama sinistra (The uncanny, 1977) |
Final dos anos
60: no rastro da liberação de costumes propiciada pela “revolução sexual”, o
Canadá — via polo de produção de Quebec — experimentou dinâmica e ambiciosa
efervescência cinematográfica. Uma das pontas de lança do movimento, o diretor
Denis Héroux, realizou em 1969 os aparentemente ousados Valérie e A
primeira noite de uma mulher (L’initiation). Repletos de erotismo
e generosas exibições de corpos femininos ao natural, tais títulos angariaram
relativo sucesso na praça de origem e mereceram exibição nos mercados da Europa
ocidental e Estados Unidos. O filão erótico não demorou a se esvair. Porém, projetou
a desinibida atriz franco-canadense Danielle Ouimet e confirmou o vigor da
cinematografia canadense — logo aberta a outras possibilidades.
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Nadine (Danielle Ouimet) |
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Louise Turcot no papel de Judith |
Em Valérie,
Ouimet interpreta a personagem-título. Segundo as depreciativas avaliações
moralistas tão em voga — inclusive nos países mais arejados no campo dos
costumes —, é a libertina mulher emancipada pela “revolução sexual”. Estudante
católica, narcisista e exibicionista, vive em Montreal e experimenta de tudo em relacionamentos. Protagoniza
inúmeras aventuras com múltiplos parceiros, apresenta-se em clubes de
strip-tease e segue carreira como garota de programa. Um dia encontra o amor
verdadeiro, o tal homem dos sonhos. Chegou o momento de se estabilizar emocionalmente,
acredita! Ledo engano! A vida plena e feliz é frustrada pelos ecos das opções
passadas. Valérie é punida pela consciência e pelos rescaldos do “irrecuperável”
vício no sexo sem barreiras. Dificilmente haveria mensagem mais reacionária e
tão carregada de moralismo barato.
Danielle Ouimet retorna
em A
primeira noite de uma mulher. O título padece de idêntico mal. Agora é
coadjuvante. Interpreta Nadine, amiga da quase universitária Victoire —
protagonista vivida com correção pela também cantora Chantal Renaud. Tal qual
em Valérie,
Montreal é o cenário da história. Pobre Victoire! Deseja ardentemente uma vida
sexual sadia e estável. Porém, é constantemente tentada pelo comportamento
desregrado de Nadine e demais companheiras partidárias do prazer sem barreiras
à medida que surgem as oportunidades. A realização mira o despertar da garota
para o sexo saudável, sem a instrumentalização do prazer e dos relacionamentos.
Parece ótimo! Entretanto, o vil puritanismo continua à espreita — mais
indiscreto que nunca.
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Acima e abaixo: Danielle Ouimet no papel de Nadine |
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A protagonista Victoire, interpretada por Chantal Renaud |
Enquanto Nadine
carrega nas tintas em viscerais aventuras sexuais com exposições fartas de
nudez, a sardenta e delicada Victoire é mais centrada e racional na busca pela
felicidade. Está insatisfeita com os envolvimentos casuais completados por
parceiros poucos interessados em algo sólido e duradouro. Tudo muda após
conhecer o livro erótico-científico L’initiation, do francês Gervais
Messiambre (Riberolles). Para melhorar, o próprio autor vem ao Canadá para
apresentar suas pesquisas na universidade de Montreal. A interessada Victoire aproveita
o ensejo para conhecê-lo pessoalmente e encontrar as benfazejas respostas para muitas
dúvidas e questionamentos. Segundo os manuais da previsibilidade, tudo se
completa com lições práticas ministradas pelo solícito Gervais. Ele logo volta
à França. No entanto, cumpriu a missão. Para trás deixou Victoire, mais segura acerca
das matérias relacionadas ao sexo, amor, prazer e desejo. Poucas vezes alguém amadureceu
tão rapidamente nos planos físicos e intelectuais. Bastou somente uma noite, integralmente
dedicada ao conhecimento empírico das interações satisfatórias de mente-corpo
em prol da plenitude da existência diária. Aliás, a relação entre Chantal
Renaud e Jacques Riberolles ultrapassou os limites profissionais. Segundo o
folheto publicitário da distribuidora, engrenaram um caso durante as filmagens.
Voaram juntos para a França — terra de origem do ator — ao término do trabalho.
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Victoire (Chantal Renaud) e a mãe de Nadine (Janine Sutto) |
Cinematograficamente,
a produção é bem embalada. Os valores visuais são plenamente aceitáveis; as atrizes,
belas e desinibidas. Infelizmente, por trás de tanta ousadia no tratamento supostamente
livre e descontraído da sexualidade, há uma terrível mistura de pretensão e
vazio. A primeira noite de uma mulher — título nacional dos mais
apelativos e oportunistas[1]
— é colagem de imagens ousadas logo banalizadas. Faz referências a uma ciência
de almanaque. O epílogo não deixa dúvidas: após aprender o melhor do sexo e do
amor na companhia de Gervais, Victoire tem apenas uma saída para os próximos
capítulos da vida de mulher feliz e realizada: abandona as amigas libertinas,
cada vez mais compenetradas em noitadas orgiásticas, e busca abrigo na
Associação Cristã de Moças. Meu Deus! Puxa vida! Homessa!
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Nadine (Danielle Ouimet) com a mãe (Janine Sutto) |
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Victoire (Chantal Renaud) |
Apesar de ter a
profundidade de um pires, A primeira noite de uma mulher apresenta
performances sinceras e envolventes. A arrojada Danielle Ouimet pode ser classificada
como força da natureza pela carga erótica de Nadine. Chantal Renaud exala
ternura e demonstra possuir talento para voos mais altos. Infelizmente, o empenho
das atrizes não basta. Falta ao filme um essencial estágio de amadurecimento ou
desenvolvimento das personagens. São apresentadas como seres sem história ou recheio.
No entanto, roteirista e diretor não merecem reparos acerca desse pormenor. Afinal,
o nada exigente público-alvo de produções assim pouco interesse tem na coerente
progressão das personalidades. O desenho de produção, os figurinos e a música são
afinados com a moda e as tendências culturais do final da década de 60.
Roteiro: Yves Thériault. Direção de fotografia (Eastmancolor): René Verzier. Música: François Cousineau. Tempo de exibição: 94 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)
[1] O título brasileiro tem a clara e desonesta
intenção de se aproveitar do sucesso de A primeira noite de um homem (The
gratuate, 1967), de Mike Nichols.