Aleluia, Gretchen (1976) é, seguramente, o melhor filme de Sylvio Back e uma das grandes
realizações do cinema nacional em qualquer tempo. Poucos cineastas conseguiram,
de modo tão acurado, discutir as influências da tradição e do peso do passado
na formação dos indivíduos e na permanência das ideias. Se ainda não o viu,
veja! É realização de visão obrigatória. Acompanhe, ao longo de 40 anos, a saga
dos alemães da família Kranz e seus agregados. Junte-se a eles na
elaboradíssima sequência final, ao som de A cavalgada das valquírias.
A apreciação a seguir foi escrita em 1979.
Aleluia, Gretchen
Direção:
Sylvio Back
Produção:
Sylvio Back
Sylvio Back
Produções Cinematográficas Ltda., Embrafilme
Brasil — 1976
Elenco:
Kate Hansen, Selma
Egrei, Sérgio Hingst, Miriam Pires, Carlos Vereza, José Maria Santos, Lilian
Lemmertz, Elizabeth Destefanis, Lourival Gipiella, Narciso Assumpção, Lauro
Hanke, Lala Schneider, Maurício Távora, Sale Wolokita, Edson D’Ávila, Abílio
Mota, Rafael Pacheco, Joel de Oliveira, Lúcio Weber, Irineu Adami.
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Sylvio Back |
Certamente,
no presente momento ao menos, Sylvio Back[1] é o único cineasta de
renome em atividade no Sul do Brasil[2]. Desde a estreia no
cinema com o curta Moradas (1964), dedica-se, com raras exceções, ao
sistemático mapeamento cinematográfico da região, privilegiando a parte
compreendida pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Aborda temas os mais diversos, dispersos por curtas — Os imigrantes
(1965), Curitiba amanhã (1965), Curitiba,
uma experiência em planejamento urbano (1974), Teatro
Guaíra
(1976), Um Brasil
diferente? (1978) e Crônica sulina (1979) — e longas-metragens — Lance maior (1970), A
guerra dos pelados (1971), Aleluia, Gretchen (1976) e República
Guarani, em andamento.
Aleluia,
Gretchen, empreendimento ambicioso e bem sucedido, é
exercício de ficção alimentado por fatos. O roteiro está apoiado em informações
obtidas nos arquivos das Secretarias de Estado da Segurança Pública do Rio
Grande do Sul e de Santa Catarina, sobre a movimentação de simpatizantes do
nazismo e membros da Quinta Coluna no Brasil. Recupera também a memória
familiar e afetiva do diretor, descendente de imigrantes europeus: é filho de
pai húngaro e mãe alemã. Aborda questões até então praticamente ausentes da
temática geral do cinema brasileiro: a imigração alemã contra um pano de fundo
histórico no qual se cruzam referências ao nacional-socialismo e ao seu
correlato brasileiro, o integralismo. Registra, ao longo de 40 anos, a saga dos
Kranz, fugitivos de Hitler instalados, desde 1937, em cidade paranaense onde
exploram o Hotel Flórida. Para alegria de alguns familiares e relativa tristeza
de outros, principalmente do patriarca Ross (Hingst), ex-professor
universitário de ideias liberais, o local é transformado em ponto de encontro
de simpatizantes do nazismo.
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O Hotel Flórida, da família Kranz, hostilizado durante os anos da Segunda Guerra Mundial |
Ross
pertence a uma geração de alemães formada sob o signo da frustração. Apoia, sem
muita convicção, a subida de Hitler ao poder. Optará pela omissão política tão
logo a serpente desponte do ovo que a gerou. Horrorizado com a prática nazista
de queimar livros “não recomendados” em praça pública, prefere emigrar.
Acompanham-no
a esposa Frau Lotte (Pires), os filhos Josef (Gipiella), Gudrum (Egrei) e Heike
(Hansen), a governanta Frau Minka (Schneider) e o filho desta, Wilhelm
(Pacheco). Excluindo o professor, os demais vieram contra a vontade. Heike
chega grávida de membro da SS. Ostenta as características arianas segundo a
cartilha de Hitler. Fora agraciada pelo fuhrer como mãe privilegiada dos filhos
da “nova Alemanha”. Dará a luz a Gretchen, saudada euforicamente por Frau Lotte
como a primeira ariana nascida em solo brasileiro. Porém, com saúde frágil, a
criança logo falece, trazendo profunda depressão aos Kranz. Josef é a esperança
de recomposição do orgulho familiar. Jovem, entra em contato com grupos
nazistas locais. Recebe treinamento militar e doutrinação política. Retornará à
Alemanha para lutar ao lado das forças do Reich.
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Velório de Gretchen |
Circulam
próximos aos Kranz, de certa forma complementando-os em estilo bem brasileiro,
o serviçal negro Repo (Assumpção), quase um animal de estimação de Frau Lotte;
o integralista Dr. Aurélio (Santos), simbolizando o cruzamento entre os ideais
de superioridade germânica e o meio local; e Eurico (Vereza), caixeiro-viajante
apolítico e ambicioso, hóspede regular do hotel e futuro marido de Gudrum.
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Miriam Pires como Frau Lotte |
O
Hotel Flórida, com o fim da guerra, torna-se referência para nazistas em fuga,
principalmente para a Argentina. Assim, nos anos 50 os Kranz hospedam os casais
SS Rose Marie (Lemmertz)/Kaput (Távora) e Merts (Wokolita)/Bruckner (Mota), que
preenchem o ambiente de tensão física e psicológica. Eurico, refratário em lhes
fornecer auxílio, recebe na carne, de forma crua, fria e brutal, mostras da
superioridade e do poder de convencimento dos estrangeiros. Com eles os Kranz
são obrigados a rememorar um passado dolorido, repleto de glórias efêmeras e
ilusões perdidas.
O
passado, que muitos preferem esquecer ou, no máximo, rememorar silenciosamente
na solidão dos ambientes reservados, é o ponto central das preocupações de Sylvio
Back em Aleluia, Gretchen. Motivo de orgulho ou vergonha, é o
passado que alimenta os sobreviventes, fornecendo-lhes força para a
continuidade da vida, ainda que a duras penas. Do passado ninguém escapa,
parece dizer o diretor. É a raiz de nossa ligação com o mundo; contém os germes
da nossa formação e os elementos que nos humanizam, apreciados ou não. E
passado quer dizer História. Impõe lembranças constantemente reatualizadas,
sobrevivências ou estruturas que nos embasam, que independem de nós e resistem
à passagem do tempo.
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Acima e abaixo, o treinamento da Juventude Hitlerista |
Aleluia,
Gretchen é o
mais importante trabalho de Sylvio Back. Encerra uma etapa de aprendizado. Se
não atinge a perfeição, está muito à frente das limitações quase artesanais que
marcaram a condução dos longas anteriores, Lance maior e A guerra dos pelados.
Momentos de notável intensidade dramática são conseguidos ao longo de uma
narrativa que, apesar de linear, não lança mão da continuidade para ligar os
blocos que a compõem. Essas unidades formam sequências que se completam;
encerram pedaços de dramas que dão significado à saga de 40 anos dos Kranz;
possuem início, meio e fim, ordenando-se em número de seis, separadas umas das
outras por frações não definidas de tempo. Primeiro há a chegada da família
Kranz ao Brasil e o recomeço da vida no Hotel Flórida. Seguem-se o treinamento
de Josef com os membros da juventude hitlerista local (cenas prejudicadas pela
censura, pois os rapazes estavam sempre nus demonstrando a pretensa
superioridade física ariana) e seu retorno à Alemanha; o nascimento e morte de
Gretchen; o casamento de Gudrum e Eurico; os anos de guerra com as hostilidades
praticadas contra os imigrantes; e a acolhida aos nazistas em trânsito.
Por
fim, há a incrível e engenhosa sequência de encerramento: o piquenique de
confraternização ao qual comparecem todos os personagens, brasileiros e
alemães, nazistas e integralistas, pretos e brancos, torturadores e torturados.
Neste epílogo, ao som de inédito arranjo rock de A cavalgada das
valquírias, de Wagner, pelo grupo O Terço, percebe-se que a passagem
dos anos não significou o envelhecimento físico dos personagens. Apenas
atualizou aparências. Mentalmente, também continuam os mesmos, crentes na força
de ideias e convicções trazidas de longa data. Esse recurso dramático é
ampliado por observações e comentários pronunciados ao longo da sequência:
“Quando as ideias não envelhecem o corpo resiste”, diz Dr. Aurélio. Outro
personagem afirma em tom questionador: “A história se repete, se imita, não lhe
parece?”. Por fim, um participante observa profeticamente: “Continua fecundo o
ventre de onde saiu essa gente”. São sentenças que informam a percepção que o
diretor tem de História. Ao mesmo tempo contribuem para o espectador
compreender as intenções narrativas. Mais que encenar um drama a respeito do
nazismo, do integralismo e da imigração, Back quer saber dos fatos que
sobreviveram a tão turbulento período. De forma proposital, não recorre à
palavra “Fim” no encerramento do filme. Isto porque, conforme explicou, o drama
encenado termina apenas na tela. Prossegue na vida real. A História continua.
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Kate Hansen no papel de Heike e Elizabeth Destefanis como Inge |
Os
personagens, ao longo de quase todo o tempo, são captados na fixidez de planos
próximos que evidenciam apenas rostos e, ocasionalmente, porções maiores dos
corpos. Geralmente estão enclausurados e sentados. Não há, pois, muito espaço à
movimentação dos atores. Portanto, não são as ações que definem os personagens
mas os diálogos. Tudo é compartilhado com o espectador: conversas, discursos,
monólogos, bate-papos, lamentações, exaltações e recordações. Este acaba
envolvido na intimidade dos Kranz. É praticamente intimado a decifrar enigmas e
metáforas em diversos trechos do filme.
Aleluia,
Gretchen demandou
muito tempo de preparo. Foram quatro meses de pré-produção, dois de filmagem em
Blumenau e Curitiba, outros quatro para montagem e finalização. O resultado
vale a pena. Dentre os últimos filmes produzidos no Brasil, é o de melhor
elaboração. Chega a ser detalhista na reconstituição dos figurinos, ambientes e
épocas. A direção de atores é um trunfo à parte. Difícil dizer quem interpreta
melhor.
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Eurico (Carlos Vereza) é submetido ao poder de convencimento do nazismo |
Convidado
a participar de vários festivais de cinema nacionais e internacionais, Aleluia,
Gretchen recebeu 15 prêmios nas mais diversas categorias apenas em um
ano. Também colecionou polêmicas, algumas gratuitas e estúpidas como a
desencadeada por Alberto Cavalcanti, presidente do Júri no Festival de
Brasília. Homem inteligente e cineasta de renome internacional que construiu a
maior parte da carreira no exterior, Cavalcanti não se conteve. Não contente
por não entender o filme, resolveu acusá-lo de fazer pregação do nazismo, uma
incrível bobagem. Aliás, o Festival de Brasília foi o único a não conferir
prêmios a Aleluia, Gretchen. Inconformado, o público vaiou o
júri. Em compensação, no Festival de Gramado recebeu láureas pela Melhor
Fotografia (José Medeiros) e Melhor Ator Coadjuvante (José Maria Santos). Da
Air France conquistou prêmios para Melhor Direção e Melhor Atriz (Miriam Pires). Pela Associação Paulista dos Críticos de Arte foi agraciado pelo Melhor
Roteiro (Sylvio Back, Oscar Volpini e Manoel Carlos Karan), Melhor Ator (Sérgio
Hingst), Melhor Figurino (Afonso Burigo) e Melhor Cenografia (Ronaldo Leão Rego
e Marcos Carrilho). Também recebeu a Coruja de Ouro nas categorias de Melhor
Atriz (Miriam Pires) e Melhor Fotografia. Conquistou o Golfinho de Ouro para
Melhor Direção. Da Embrafilme veio o Prêmio Qualidade. Por fim, foi brindado
com o Troféu Governador do Estado de São Paulo para Melhor Argumento (Sylvio
Back), Melhor Cenografia e Melhor Fotografia.
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Eurico (Carlos Vereza), Frau Lotte (Miriam Pires), Professor Ross (Sérgio Hingst) e Gudrun (Selma Egrei) |
Roteiro: Sylvio Back, Oscar Volpini, Manoel
Carlos Karan, a partir de um argumento de Sylvio Back. Diálogos: Sylvio Back. Fotografia (Eastmancolor): José Medeiros. Cenografia: Ronaldo Leão Rego, Marcos Carrilho. Montagem: Inácio Araújo. Figurinos: Afonso Burigo. Música: A cavalgada das valquírias,
de Wagner, interpretada por O Terço; fragmentos de Avante, hino integralista de
Plínio Salgado. Direção musical: Carlos Castilho. Assistente de direção: Manoel Carlos Karan. Diretor de produção: Plínio Garcia Sanchez. Tempo de exibição: 109 minutos.
(José
Eugenio Guimarães, 1979)
[1] Apesar de surgir grafado como Silvio, inclusive no
material de divulgação, o correto é Sylvio.
[2] Esta apreciação é de
1979. Atualmente, a afirmação carece de sentido. O Rio Grande do Sul é um dos
mais dinâmicos pólos de produção e criatividade cinematográfica no Brasil,
concentrando nomes como Jorge Furtado, Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil, Ana
Luísa de Azevedo, José Pedro Goulart, José Roberto Torero, Cecílio Neto etc.,
reunidos em torno da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora independente
fundada em 1987.