O produtor, diretor e roteirista irlandês Michael
O'Herlihy teve a carreira praticamente limitada aos telefilmes e às
telesséries. Graças à Walt Disney Productions, realizou para o cinema o hoje
obscuro O valente Príncipe de Donegal (The fighting Prince of Donegal,
1966). O personagem-título, interpretado por Peter McEnery, passou à história
como Red Hugh O’Donnell, sucessor do rei Hugh Roe O’Donnell da localidade de
Tyrconnell, atual Donegal. Corria o quarto final do século XVI. Segundo lenda
local, a hora da independência irlandesa, com a unificação de diversos clãs
rivais pela casa O’Donnell, aconteceria quando Hugh assumisse por direito o
trono de Hugh. O roteiro de Robert Westerby extraído da novela Red
Hugh, Prince of Donegal, de Robert T. Reilley, toma várias liberdades
históricas. A principal, talvez, é elevar a idade do personagem principal para
a faixa dos 20 e poucos anos. Na verdade, estava com apenas 15 quando os
ingleses o aprisionaram em
Dublin. Escapou com a ajuda dos O’Neill. Conseguiu a unidade
dos clãs e significativas vitórias contra o invasor. Contou inclusive com o
apoio militar espanhol. O valente Príncipe de Donegal aborda
rapidamente a ascensão de Red Hugh ao trono e os esforços pela unificação
nacional. Detém-se por tempo considerável no período da prisão. Após a fuga,
resume os esforços para a retomada do castelo da família, no qual a mãe (Peggy
Marshall) e a prometida Kathleen McSweeney (Susan Hampshire) são mantidas na
situação de reféns. Há boa reconstituição de época e adequada valorização da
cor local com destaque para o mítico verde-esmeralda irlandês. O
valente Príncipe de Donegal encerra um período no qual a Disney, por
imposições fiscais, se valeu dos recursos cinematográficos e naturais
britânicos para a realização de alguns filmes desde que adentrou na ficção live action com A ilha do tesouro (Treasure
island, 1950), de Byron Haskin. Segue apreciação firmada em 1976.
O valente Príncipe
de Donegal
The fighting Prince of Donegal
Direção:
Michael O'Herlihy
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA, Inglaterra — 1966
Elenco:
Peter McEnery, Susan Hampshire,
Tom Adams, Gordon Jackson, Andrew Keir, Norman Wooland, Bill Owen, Richard
Leech, Peggy Marshall, Peter Jeffrey, Maurice Roëves, Marie Kean, Donal McCann,
Fidelma Murphy, John Forbes-Robertson, Patrick Holt, Robert Cawdron, Maire
O'Neill, Maire Ni Ghrainne, Roger Croucher, Keith McConnell, Inigo Jackson,
Peter Cranwell e o não creditado Peter Brooks.
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O diretor Michael O'Herlihy |
Por causa de
imposições fiscais que retinham no Reino Unido considerável parte dos lucros de
filmes da Walt Disney Productions aí exibidos, a empresa abriu a unidade de
produção com atores reais e iniciou as atividades naquele país em 1950. Assim,
poderia movimentar parte do capital não repatriado. Cerca de oito títulos foram
filmados em locações e estúdios britânicos, começando por A ilha do tesouro (Treasure
island, 1950), de Byron Haskin. Seguiram-se: Robin Hood, o justiceiro
(The
story of Robin Hood and his merrie men, 1952), de Ken Annakin; Entre
a espada e a rosa (The sword and the rose, 1953), de
Ken Annakin; O grande rebelde (Rob Roy: the highland rogue, 1953),
de Harold French; A espada de um bravo (Kidnapped, 1960), de Robert
Stevenson; O príncipe e o mendigo (The Prince and the pauper, 1962), de
Don Chaffey; O cavaleiro da máscara negra (Dr. Syn, alias the Scarecrow,
1963); de James Neilson; O segredo das esmeraldas negras (The
moon-spinners, 1964), de James Neilson; e, por fim, O
valente Príncipe de Donegal.
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Peter McEnery e Susan Hampshire nos papéis de Red Hugh O'Donnell e Kathleen McSweeney |
Por trás da
realização de Michael O'Herlihy há a real história do nobre jovem irlandês Red Hugh
O’Donnell (1571-1602), filho do rei Hugh Roe O’Donnell da localidade de Tyrconnell,
atual Donegal. Segundo os relatos, a família, desde 1500, tentava inutilmente atrair
vários clãs rivais para costurar uma forte oposição militar e política aos
invasores ingleses. Hugh Roe abdicou, isolando-se em um mosteiro. Red Hugh o
sucedeu. Era a confirmação de uma lenda: Quando Hugh assumir o lugar de Hugh, é
sinal de que chegou o momento de esquecer diferenças e desavenças locais. Os
clãs deveriam ter apenas uma bandeira comum: a independência. Corria o ano de
1587. O jovem Príncipe de Donegal contava apenas 15 anos quando foi aprisionado
no castelo do Vice-Rei Sir John Perrott (Wooland), em Dublin, por ordem da
temerosa rainha Elizabeth I. Escapou em 1591 para ser imediatamente recapturado.
Com a ajuda do clã O’Neill empreendeu nova e vitoriosa fuga em 1592. Tornou-se,
aos 20 anos, The O'Donnell, Lord of Tyrconnel. Unificados os clãs, declarou
guerra aos ingleses em 1593. Nos anos seguintes, principalmente entre 1596 e 1598,
venceu os invasores em sucessivas batalhas. Apesar do reforço espanhol, não conseguiu
evitar a derrota em 1602. Red Hugh O’Donnell buscou refúgio na Espanha.
Enquanto negociava novo apoio militar de Felipe III, contraiu misteriosa
enfermidade e faleceu. Segundo alguns historiadores, a morte resultou de envenenamento
por um agente inglês infiltrado na corte. Não deixou herdeiros.
O valente Príncipe
de Donegal tem roteiro de Robert Westerby extraído da novela Red
Hugh, Prince of Donegal, de Robert T. Reilley. Tomou liberdades
excessivas com os fatos, principalmente com a idade do personagem. Representado
pelo esquálido e pouco convincente Peter McEnery, aparenta pouco mais de 20
anos ao cair prisioneiro dos ingleses. No filme, a sucessão acontece pelo
falecimento de Hugh Roe O’Donnell. Red Hugh tenta levar adiante os esforços em
prol da união dos clãs quando é capturado. Cerca de 50 minutos da trama são
reservados às sequências no cárcere vigiado pelo pérfido Capitão Leeds
(Jackson). Aí, passado algum tempo, o líder irlandês recebe a companhia dos
também forçados Henry O'Neill (Adams) e Sean O’Toole (McCann). Foge com Henry
graças ao valioso auxílio do carcereiro e servente Martin (Roëves).
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Norman Wooland como Sir John Perrott |
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Henry O'Neill (Tom Adams), Sean O'Toole (Donal McCann) e Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery) |
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Lord McSweeney (Andrew Keir) e filha Kathleen McSweeney (Susan Hampshire) |
A jornada ao
encontro da segurança é pontuada de percalços e alguns momentos de morna
comicidade garantidos por Henry O’Neill. Os instantes decisivos se resumem à
batalha pela recuperação do castelo dos O’Donnell, ocupado pelos ingleses e onde
a mãe de Red Hugh, princesa Ineen (Marshall), e a prometida Kathleen McSweeney
(Hampshire) são mantidas na situação de reféns.
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A princesa Ineen (Peggy Marshall) e Kathleen McSweeney (Susan Hampshire) |
Filmado nos
estúdios Pinewood e arredores do condado rural inglês de Iver Heath em Buckinghamshire,
O
valente Príncipe de Donegal tem convincente reconstituição de época e
não descuidou da mítica cor local irlandesa: o verde-esmeralda, presente desde
a sequência de abertura e preservada na aparência geral das paisagens. Infelizmente,
a Walt Disney Productions perdeu a oportunidade de realizar uma boa aventura de
capa-e-espada a partir de uma história em tudo promissora. O diretor Michael
O’Herlihy até se esforça para ousar um pouco mais em um produto destinado ao
consumo familiar. Porém, sente-se que foi contido. Os personagens irlandeses
são enquadrados no modelo tão estereotipado pelo cinema: emotivos, beberrões,
sentimentais, briguentos e bem humorados. Essa caracterização, dramática e
comicamente tão adequada em filmes de John Ford, aqui não diz a que veio,
apesar do talento de Andrew Keir no papel de Lord McSweeney. Tom Adams, o
respiro cômico, é pouco aproveitado. A mocinha Kathleen McSweeney é vivida por
uma insossa Susan Hampshire. Há brilho nos desempenhos de Donal McCann e
Maurice Roëves, apesar de lhes sobrar pouco tempo em tela. Gordon Jackson
tem oportunidades de demonstrar valor com mais intensidade. Afinal, os
personagens malvados em histórias sobre feitos de gente heroica e boazinha são
sempre os mais interessantes.
O bonitinho Peter
McEnery não emplacou. Exame superficial de sua filmografia revela que teve
poucas chances no cinema. Terminou restrito aos telefilmes e telesséries. Antes
de viver Red Hugh O’Donnell teve papel de coadjuvante no notável Meu
passado me condena (Victim, 1961), de Basil Dearden, e fez
par romântico de Hayley Mills na razoável aventura disneyana O
segredo das esmeraldas negras. Quando embarcou na aventura irlandesa de
Michael O'Herlihy, havia experimentado o melhor momento na ocasião no fraco O
perigoso jogo do amor (La curée, 1966), de Roger Vadin. O
problema da atuação de McEnery em O valente Príncipe de Donegal
resulta da opção de querer projetar mais um rosto simpático e sorridente e não
necessariamente o líder arrojado e compromissado na luta pela independência da
Irlanda.
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Na prisão, Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery) é submetido ao algoz Capitão Leeds (Gordon Jackson) |
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O acerto de contas de Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery) com o Capitão Leeds (Gordon Jackson) |
A direção de
fotografia de Arthur Ibbetson e a trilha musical de George Bruns, baseada em
temas tradicionais irlandeses, são pontos a destacar. A realização é, no mais
das vezes, diversão descompromissada para espectadores pouco exigentes. É pena
que os resultados gerais sejam tão corriqueiros. Havia potencial para retratar
com mais substância uma época e um personagem tão pouco conhecidos.
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Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery) e Kathleen McSweeney (Susan Hampshire) |
Para finalizar, uma curiosidade: o
ator Mark Eden foi obrigado a abandonar as filmagens logo no início. Assim, perdeu
um contrato de cinco anos com a Walt Disney Productions. Por obra do azar,
torceu o tornozelo e terminou imobilizado após afundar a perna numa toca de
coelho.
Roteiro: Robert Westerby, baseado na novela Red
Hugh, Prince of Donegal, de Robert T. Reilley. Direção de fotografia (Technicolor): Arthur Ibbetson. Operador de câmera: Freddy Cooper. Direção de arte: Maurice Carter. Figurinos: Anthony Mendleson. Efeitos fotográficos especiais: Peter
Ellenshaw. Montagem: Peter Boita. Música: George Bruns. Orquestração: Walter Sheets. Produção associada: Hugh Attwooll. Maquiagem: Harry Frampton. Penteados: Eileen Warwick. Continuidade: June Faithfull. Casting: Maude Spector. Primeiro assistente de montagem: Peter
Keen (não creditado). Gravação de som:
Ken Rawkins. Mixagem de som: Gordon
K. McCallum. Gerente de produção:
David C. Anderson. Assistente de
direção: David Bracknell. Co-produção:
Bill Anderson. Decoração: David
Ffolkes. Segundo assistente de direção:
Carl Mannin (não creditado). Terceiro
assistente de direção: Michael Meighan (não creditado). Edição de som: Peter Keen. Operador de câmera sonora: Ted Karnon
(não creditado). Operador de boom: Charlie
McFadden (não creditado). Mixagem da
combinação de sons: Otto Snel (não creditado). Dublês: Bill Weston, Richard O'Brien (acrobacias/não creditado). Assistentes de câmera (não creditados):
Bill Knowles, Bert Mason, Alec Mills, Ron Robson. Fotografia de cena: Ricky Smith (não creditado). Direção musical: Eric Rogers. Secretaria de produção: Amy Allen (não
creditada). Estúdio de mixagem de som:
RCA Sound Recording. Tempo de exibição:
110 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1976)