Documentários sobre insetos e aracnídeos existem aos
montes, principalmente em canais versados nas particularidades do mundo natural
das TVs por assinatura. Há alguns anos os cinemas exibiram com relativo sucesso
o francês Microcosmos (Microcosmos: le peuple de l'herbe,
1996), de Claude Nuridsany e Marie Pérennou. Encantou o grande público com a
visão idílica e graciosa dos insetos encontrados nos jardins, prados e lagoas.
É praticamente um contraponto romântico à terrível, inquietante e premonitória
realização de 1971 a
cargo de Walon Green — roteirista de Meu ódio será sua herança (The
wild bunch), de Sam Peckinpah — e Ed Spiegel: o raro documentário
dramatizado A crônica de Hellstrom (The Hellstrom chronicle). É
apresentado e narrado pelo entomólogo interpretado pelo ator Lawrence Pressman,
o Dr. Nills Hellstrom. Pesquisador fora do esquadro, pouco dado às exigências
de objetividade e precisão do discurso científico, foi praticamente banido do
mundo acadêmico ao assumir a apostólica missão de alertar o público, com todas
as tintas, sobre o papel reservado aos insetos no futuro do planeta. Os seres
humanos estão previamente derrotados. Não herdarão a Terra e disso podem ser
responsabilizados. Ficção, antecipação e realidade se misturam na pregação do
Dr. Hellstrom enquanto câmeras de alta definição invadem os aspectos mais
recônditos de cupinzeiros, formigueiros e colmeias para tratar da resistência,
plasticidade e vocação à sobrevivência dos insetos frente às mais variadas
catástrofes e ameaças humanas. Aranhas, escorpiões e plantas carnívoras também
são considerados. Porém, os bichinhos de seis patas têm primazia quase
absoluta. São ampliados a ponto de serem captados em fascinantes e nítidos closes.
O que se vê não é bonito: a luta pela vida nas dimensões mais cruas.
Espectadores facilmente impressionáveis podem perder o sono durante dias, como
aconteceu comigo ao ser surpreendido por A crônica de Hellstrom em 1974,
quando escrevi a apreciação a seguir.
A crônica de
Hellstrom
The Hellstrom chronicle
Direção:
Walon
Green, Ed Spiegel
Produção:
Walon
Green
Wolper
Pictures
EUA — 1971
Elenco:
Lawrence Pressman e os não
creditados Conlan Carter, Ian McShane (cenas de arquivo), Suzanne Pleshette
(cenas de arquivo).
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O diretor Walon Green |
Sem o melhor a
fazer, resolvi ver A crônica de Hellstrom em plena semana útil. Nada sabia a
respeito. O cartaz, pouco atraente, não mobilizou a atenção. Pareceu filme de
ficção científica. Como apreciador do gênero, pensei: menos mal. Surpreendentemente,
revelou-se rara e hipnótica experiência. O fascínio também decorreu de momentos
apavorantes, terrivelmente reais. Facilmente impressionável, tive prejudicadas
as noites de sono pelos dias seguintes. Muito depois, soube: a realização de
Walon Green — roteirista e autor da história de Meu ódio será sua herança
(The
wild bunch, 1969), de Sam Peckinpah — em parceria com Ed Spiegel mereceu
prêmios e se fez preferida por reputados entomólogos em vista das verdades
científicas expostas e especulações no mínimo arriscadas quanto ao futuro do
planeta, da humanidade e, principalmente, dos resistentes e plásticos insetos.
O filme e a
direção fizeram jus, em 1971, ao Grand Prix Technique no Festival de Cannes e, no
ano seguinte, ao Oscar de Melhor Documentário e Flaherty Documentary Award do
British Academy Film Awards (BAFTA). Em 1972, David Seltzer foi indicado ao
prêmio de Melhor Roteiro Dramático Original do Writers Guild of America.
Aparentemente, A
crônica de Hellstrom é documentário. Porém, a participação do ator
Lawrence Pressman na pele do divertido narrador e fictício entomólogo Nills
Hellstrom expande as limitadas fronteiras da classificação genérica. Apesar de
não tratar apenas de insetos — plantas carnívoras, aranhas e escorpiões também
são mostrados —, estes recebem o grosso das atenções. O personagem, misto de
cientista e divulgador, faz, de início, uma abordagem darwiniana da evolução
das espécies e também trata poeticamente da criação pelo prisma bíblico-religioso.
Porém, logo abandona as veleidades para afirmar bombasticamente: “A Terra não foi criada pela gentil carícia do amor, mas por
brutal violência da violação”. Acrescenta: somente a superficial percepção da
existência aceitaria a ideia de uma natureza idílica. Logo a câmera prescruta
gramados, superfície do solo, ares, árvores, amontoados de rochas, restos de
construção, cupinzeiros e formigueiros para revelar a brutal aspereza da luta
pela vida em patamares quase inacessíveis à observação humana. O que se vê não
é bonito: ataques, emboscadas, desmembramentos, perfídias e matanças friamente cometidas
por criaturas em tudo mais adaptadas na luta pela sobrevivência. Parecem saber
— apesar de despidas de qualquer traço de racionalidade — que viver não é fritar
bolinhos. Durante a exposição, Hellstrom pergunta: Quem herdará a Terra? O
homem, considerado superior e preferencial, apoiado em tecnologias e princípios
morais? Ou o inseto insignificante, simplesmente moldado a viver por viver?
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Lawrence Pressman interpreta o entomólogo Dr. Nills Hellstrom |
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O close-up de uma abelha |
A partir daí
começa um show deliciosamente exagerado, engenhoso e repleto de dramaticidade.
Descreve em tons proféticos a trajetória dos minúsculos espécimes de seis patas
ao longo de aproximados 300 milhões de anos e o faz nos seguintes termos: “A
cada geração novas experiências moldam esses seres em espectros ilimitados, praticamente
inimagináveis”. Nills Hellstrom chama para si a missão algo apostólica de
espalhar a “boa nova” que desbanca o ser humano do topo do pedestal para
substituí-lo por organismos considerados desprezíveis. Estes, apesar de tanta
diferenciação e especialização, agem em uníssono em prol da sobrevivência grupal.
Comparativamente, o homem individualista, egoísta e fratricida não terá
condições de sobreviver como espécie diante de uma hecatombe nuclear ou pelo impacto
de um corpo celeste de grandes proporções.
Este filme incomum tem em Nills Hellstrom mestre de cerimônias dos mais
inusitados, a começar pelo modo como se apresenta. Não é um acadêmico no
sentido estrito. Ao contrário, é um inconformado pesquisador pouco dado às
objetividades científicas. Foi banido dos círculos oficiais. Perdeu financiamentos,
apoio de colegas e amizades desde que assumiu a tarefa de divulgar a verdade
sobre os insetos e o papel a eles reservado no porvir do planeta.
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O cupinzeiro, colônia de térmitas |
Com ênfase, Nills Hellstrom destaca as principais razões da ameaça. Residem
no próprio homem, incapaz de lidar com o meio no qual vive. Para combater
insetos e mais pragas que destroem alimentos e transmitem incontáveis moléstias,
envenena a atmosfera e cursos d’água, desmata e desertifica. Torna a Terra inviável
à própria sobrevivência. Enquanto isso, hexapodas e octópodes são capazes de se
adaptar e sobreviver em condições às mais adversas. Desenvolvem rápida resistência
aos mais diversos defensivos. Enquanto os homens destroem o planeta no esforço
vão e paradoxal de dominá-lo, os insetos herdarão tudo o que restar. Em caso de
sobrevivência a uma conflagração nuclear de alcance global, Hellstrom afirma:
os seres humanos necessitarão de um a dois milhões de anos para recuperar o
contingente populacional e ganhos civilizatórios perdidos. Comparativamente, os
insetos levariam apenas três semanas. Ilustra a possibilidade ao disparar potentes
jatos d’água contra um formigueiro. De início, provoca destruição de aparência irremediável.
Na realidade, não passa de simples percalço. Tudo será devidamente reconstruído
em pouquíssimo tempo. DDT e outros pesticidas apenas causaram degradação
ambiental pela morte colateral de variados outros seres: pássaros, as
utilíssimas e frágeis abelhas etc. Porém, gafanhotos e outras pragas imediatamente
aprendem a conviver com resistência renovada às ameaças.
Por outro lado, graças aos sentimentos e raciocínio, os seres humanos não
se oferecem olimpicamente ao sacrifício pelo bem de todos. Já os insetos não
temem a morte quando se trata da perpetuação de suas comunidades. Numa colmeia,
os zangões são úteis apenas para fecundar a rainha. Feito isso, são despejados
e morrem de fome. Se permanecessem nas colônias, seriam apenas consumidores
parasitários de recursos. Os insetos têm comportamento altamente mecanizado,
imediato e instrumentalizado. Cumprem papéis aos quais foram geneticamente
moldados, sem delongas e considerações. Da mesma forma as aranhas: o macho da viúva-negra
é imediatamente imobilizado pela fêmea ao terminar a fecundação. Será embalado
e preservado para alimentar os filhotes prontos a nascer.
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Abelha em polinização |
Diz Hellstrom: insetos e aracnídeos são programados para agir em nome do
todo ou da sobrevivência da espécie. Desse modo, são equipados com algo
parecido a uma inteligência coletiva consubstanciada na total capacidade de
trabalho especializado e em instintos os mais afiados. Com tais
características, travam luta surda e incansável pelo domínio do planeta. Mais
que animais sociais, são como milagres de engenharia com seus precisos aparatos
de caça, combate e defesa, além de todos os cuidados necessários para garantir
segurança aos herdeiros. É algo cientificamente sabido. Mesmo assim, Hellstrom
faz questão de confirmar com a simples e catastrófica intervenção em uma
colmeia. Removeu a rainha. Com a vacância, as operárias logo se mobilizam.
Convertem simples estágios larvais em potenciais candidatas ao trono pela
injeção de geleia real. Com o nascimento da primeira rainha, as demais possibilidades
são destruídas. Zangões também são criados e enviados para fecundar a nova majestade
em voo nupcial. A seguir, ela terá por toda a vida a incumbência de garantir a
produção de ovos para assegurar o futuro da colmeia. Será alimentada pelas operárias
e protegida por guardiões prontos a repelir ataques potencialmente lesivos de
invasores externos quais formigas e vespas. Idêntico comportamento em prol da
sobrevivência grupal é percebido em cupinzeiros e formigueiros.
A sequência final, reservada às africanas formigas-correição, é assombrosa
de tão terrível e reveladora. Também não deixa de ser fascinante vê-las em
ação, como se marchassem indefinidamente para algum lugar misterioso enquanto
destroem e devoram toda a vida que encontram à frente, inclusive animais de
grande porte. Atravessam volumosos cursos de água graças às pontes e elevatórias
improvisados pelos corpos de semelhantes dispostos ao supremo sacrifício pelo
bem da coletividade.
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As formigas-correição em franca atividade sobre um lagarto... |
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...e às voltas com os restos de uma borboleta. |
Tipos variados de insetos percorrem a tela em atividades típicas que
envolvem nascimento, alimentação, reprodução e morte. O filme é um espetáculo recheado
de macro-visões de capturas e atos inclementes de esquartejamento e
devoramento. Pinças, ferrões, garras, presas e patas são vistas em ação pelos
mais variados ângulos. O funcionamento de colmeias, cupinzeiros e formigueiros
é coberto nos mínimos detalhes, com todas as etapas de desenvolvimento dos
seres: dos ovos às larvas e aos estágios adultos. Batalhas de morte entre
formigas, o percurso completo de traças, o curto estágio vital de apenas 17
horas de borboletas desde a última metamorfose, perigosos louva-a-deus no
ataque, a defesa dos bichos-pau, besouros lutando pela vida, formigas atacando
lagartos, gafanhotos ameaçando o voo de aviões pulverizadores... Os
aparentemente simples e primitivos insetos — e seres com eles confundidos — são
mostrados em variados níveis de exigência dados pela programação instintiva. O
plano final, premonitório segundo as intenções do filme, exibe ameaçador e vitorioso
besouro de chifre filmado contra a crepuscular luz do sol. Praticamente encobre
com o frontal aparato de defesa a imagem alaranjada do astro-rei. É uma tomada
para impressionar e coroar a realização com o devido impacto.
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Os instantes finais de A crônica de Hellstrom |
A crônica de Hellstrom está entre os melhores documentários dramáticos sobre o mundo natural.
Embala na justa medida a ficção com o factual. Para aguçar o interesse, cenas
de filmes que se valeram de insetos são inseridas: A selva nua (The
naked jungle, 1954), de Byron Haskin; Enquanto viverem as ilusões
(If
it's Tuesday, this must Be Belgium, 1964), de Mel Stuart; e o seminal O
mundo em perigo (Them!, 1954), de Gordon Douglas.
Walon Green e Ed Spiegel — este dirigiu apenas as sequências com o Dr. Hellstrom —
entregaram um produto informativo, educativo, perspicaz e visualmente
deslumbrante.
As imagens foram obtidas por câmeras especiais de alta velocidade e
definição. Desvendaram a intimidade das colonias e observaram os dados mais
prosaicos de existências que, no mais das vezes, passam despercebidas. Muitas
imagens são nítidos e impressionantes close-up de curiosas e pouco glamourosas faces. A abertura se vale de um fantástico zoom iniciado na elevada varanda de um
prédio em New York
e encerrado nos níveis inferiores de um gramado do Central Park. Aí, diligentes
formigas estão entregues à labuta cotidiana, indiferentes e invisíveis aos
indivíduos que ali passam e descansam.
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O Dr. Nills Hellstom (Lawrence Pressman) e a ampliação de uma de suas assustadoras criaturas |
Lalo Shifrin compôs uma música à base de frenéticas vibrações de baterias e
cordas. Obteve acordes que reproduzem os sons ampliados dos insetos.
Praticamente recriou uma natureza para a grandeza do cinema, feita de rumores sinistros
que lembram terríveis previsões apocalípticas.
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Vespas |
A companhia produtora Wolper Pictures, do renomado David L. Wolper, teve
proeminência na geração de documentários de qualidade durante os anos 60. O
agricultor entrevistado por Nills Hellstron é, na verdade, um personagem
fictício interpretado pelo não creditado Conlan Carter.
Música: Lalo Schifrin. Roteiro: David Seltzer. Produção
associada: Sascha Schneider, Linda May Strawn (não creditada). Produção executiva: David L. Wolper. Direção de Fotografia (cores): Helmuth
Barth, Walon Green, Vilis Lapenieks (cenas com o Dr. Hellstrom). Montagem: John Soh. Maquiagem: Lawrence Abbott, Scott
Hamilton. Gerente de unidade: Andy
Babbish. Supervisão da pós-produção:
George Fredrick. Executivo responsável
pela produção: Conrad Holzgang. Edição
de efeitos sonoros: Charles L. Campbell. Gravação de som: David M. Ronne. Fotografia adicional: Ferdinando Armati, J. M. Boufle, Tony Coggans,
James Fonseca. Eletricista-chefe: Ross
A. Maehl, Heinz Sielmann, Gerald Thompson. Direção
de fotografia das sequências com insetos: Ken Middleham. Chefe de iluminação das sequências com o
Dr.Hellstron: Glenn Roland. Assistente
de câmera: Bob Stein. Supervisão
musical: Jack K. Tillar. Assistente
de produção: Diane Hovanesian. Continuidade:
Malcolm Leo. Produção associada:
Marge Pinns. Agradecimentos especiais a: Gérald
Calderon, Conlan Carter, Jim Dannaldson, Philip Leakey, Lloyd Martin, John
Moore, Lenita Moore, Jim Robertson, Monty C. Ruben, Linda May Strawn, Mel
Stuart. Reconhecimentos da produção a:
Anti-Locust Research Center (Londres), California Institute of Technology
(Caltech), Entomological Society of America, Griffith Observatory, Lorquin
Entomological Society, National Museums of Kenya, U. S. Atomic Energy
Commission, University of California, Los Angeles (UCLA). Tempo de
exibição: 90 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)