Para melhores e mais completas
informações sobre a totalidade da filmografia de Humberto Mauro, o cinéfilo
comprometido com os fatos deve buscar antigos catálogos do extinto Instituto Nacional do Cinema Educativo
(INCE) ou o livro Humberto
Mauro: sua vida/sua arte/sua trajetória no cinema, de Alex Viany ―
publicado no Rio de Janeiro, em 1978, pela Artenova associada à Embrafilme. As
filmografias divulgadas pelos sites do Internet
Movie Database (IMDb) e Adoro Cinema ― para ficar apenas com
estes exemplos ― são acintosamente enganadoras de tão incompletas. Mal arranham
a quarta parte uma carreira formada por 12 longas e pouco mais de 250 curtas. O
mestre mineiro, em 1947, idealizou um filme que jamais pôde concretizar. Cinco
anos depois, registrou o argumento em página datilografada. Em 1967, durante
série de entrevistas com Mauro, o surpreso Alex Viany recebeu-a de presente. Imediatamente,
transformou-a em roteiro com a ajuda de David Neves, Miguel Borges e do próprio
autor. O material resultou, depois de muitos contratempos, na realização de um
filme que pretendia reverenciar o espírito e a carreira do mineiro de Volta
Grande ― tomado pela geração do Cinema Novo como modelo a seguir em decorrência
do olhar original, marcadamente brasileiro. Infelizmente, A noiva da cidade (1976) falha
clamorosamente na tentativa de reverenciar o genuíno e único Humberto Mauro. O
elenco não ajuda, a começar por Elke Maravilha escalada para interpretar a
personagem-título. Muitos elementos em cena resultaram numa narrativa dispersa,
fragmentada e sem direção. No geral, apesar de todos os cuidados de Alex Viany,
é um filme insosso, artificial, desprovido de marca autoral. Não honra o
diretor; muito menos o homenageado. Segue apreciação escrita em 1979.
A noiva da cidade
Direção:
Alex Viany
Produção:
Alex Viany
Catavento Produções
Cinematográficas, Embrafilme
Brasil ― 1976
Elenco:
Elke Maravilha, Jorge Gomes, Paulo
Porto, Grande Otelo, Betina Viany, Léa Garcia, Zé Rodrix, Wilson Grey, Carlos
Imperial, Nélson Dantas, Gracinda Freire, Judy Miller, Antero de Oliveira,
Roberto Azevedo, Ivone Gomes, Telma Reston, Fernando Reski, Vera Setta, Claúdio
D’Oliani, Zezé D’Álice, Bibi Viany, Roberto Bonfim, Rafael de Carvalho, José Melo,
Roberto Bataglin, Wandique Vandré, Flávio Migliaccio, Sônia de Paula, Ivã de
Almeida, Augusto César Machado, Augusto Olímpio, Ubirajara Moreira, Olívia
Pineschi, Denise Barroso, Hugo Bidet, Ana Cristina, Zé Heleno, Davi Pinheiro,
Cláudia Versiani, Susana de Moraes, Kátia Suquini, Isolda Cresta, Carlos
Alberto de Souza, Carmem Alvares, Suzana Faini, Guta Machado, Irving São Paulo,
Mário Tupinambá, Paulo César de Oliveira, Tamara Taxman, Alcir Damata, Candoca,
Rogério Goulart, Lurdinha Marcondes, Paulo Pestana, Ronald F. Monteiro, Sidney
Marques, Mirtes Blem, Sandra Escobar, Marcelo Aguiar, Mary Neubauer, Jota
Barroso, Humberto Mauro, Augusto Machado de Campos, Kátia Grumberg, Josephine
Helene, Dalma Ribas.
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O diretor Alex Viany e o mestre Humberto Mauro ladeados pelos atores Jorge Gomes e Elke Maravilha |
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Anos 60: Alex Viany entrevista Humberto Mauro |
Apesar da curta
filmografia, Alex Viany é uma lenda. Presta, com A noiva da cidade,
homenagem ao ainda mais lendário Humberto Mauro ― pioneiro do cinema brasileiro
e síntese bem acabada das ambições de David Wark Griffith e John Ford, mediadas
por Henry King. Desde a estreia, em 1925, Mauro realizou 12 longas e mais de 250
curtas. Destes, a maioria integra o acervo do extinto Instituto Nacional do
Cinema Educativo (INCE). Em 1947 ― três anos antes de concluir o último longa,
o notável O canto da saudade ―, teve as primeiras ideias de um projeto à
época ambicioso: A noiva da cidade. Em 1952, registra o argumento em página
datilografada. Jamais pôde concretizá-lo. As razões decorrem dos altos custos
da produção e do significativo número de atores e figurantes.
Jornalista,
crítico, pesquisador de cinema, roteirista, diretor de produção e realizador,
Alex Viany é ― conforme definição própria ― cineasta bissexto e admirador
inconteste de Humberto Mauro. Enquanto este foi unanimemente aceito pela
geração do Cinema Novo como marco de uma cinematografia brasileira original e
modelo a ser seguido, Viany é realizador do lendário e pouco visto Agulha
no palheiro (1952), obra impregnada pelo Neorrealismo Italiano e
considerada pontapé inicial da carreira de Nelson Pereira dos Santos ― da qual
foi assistente de direção ― e do cinema brasileiro de temática social surgido
em meados dos anos 50: Rio 40 graus (1955), Rio
Zona Norte (1955) e O Boca de Ouro (1963), de Nelson
Pereira dos Santos; O grande momento (1958), de Roberto Santos; Rua
sem sol (1954) e Sol sobre lama (1963), de Viany ― responsável
também pelos curtas A máquina e o sonho (1974); Humberto Mauro, coração do bom
(1978), Maxixe, a dança proibida (1979), e Ana (1954). Este foi transformado
em segmento brasileiro da produção internacional Rosa dos ventos (Die
windrose, 1956), organizada por Joris Ivens e da qual participaram o
francês Yannick Bellon, Alberto Cavalcanti em parceria com o russo Sergei
Gerasimov, e o italiano Gillo Pontecorvo.
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Elke Maravilha, intérprete de Daniela, com Humberto Mauro nas locações de A noiva da cidade |
Em 1967, durante
contatos com Mauro para entrevistas que resultaram no livro Humberto
Mauro: sua vida/sua arte/sua trajetória no cinema[1],
Viany é apresentado à página datilografada com o argumento de A
noiva da cidade. Para sua surpresa, recebe-a de presente. Entusiasmado,
resolve transformá-la em roteiro. Chama David Neves para auxiliá-lo.
Entretanto, o processo de gestação será lento. Apenas em 1973 será finalizado, com
aportes de Miguel Borges e do próprio Humberto Mauro. O original sofreu alguns
retoques, a maioria de atualização da trama. Fora isso, Lúcia, a personagem-título,
teve o nome modificado para Daniela. De início seria interpretada por Dina Sfat.
Porém, dada a gravidez da atriz, entra em cena um mistério inexplicável, inclusive
da parte do diretor: por que Elke Maravilha substituiu Sfat? Não seria mais
razoável escalar alguém de perfil semelhante? A alternativa foi, no mínimo, radical
e insólita.
Entre a
finalização do roteiro e o lançamento comercial, muita água rolou. O
empreendimento enfrentou inúmeros percalços, alguns previstos desde os anos 50:
os custos e o número de personagens. Viany amaciou essas pressões com a força
do carisma pessoal e em apelos emocionados à homenagem prestada por A
noiva da cidade a Humberto Mauro. Muitos atores abriram mão dos cachês.
A produção tomou ares de cooperativa. As tomadas tiveram lugar nas mesmas
paisagens que permitiram o florescimento dos filmes de Mauro no Ciclo de Cataguazes:
nesta cidade, em Volta Grande e Angustura. Pouquíssimas cenas foram rodadas no
Rio de Janeiro. Concluída essa etapa, veio a demorada pós-produção. Muito tempo
foi despendido até Viany e David Neves ― diretor de fotografia ― manifestarem
satisfação com a qualidade das cópias. A seguir, os problemas comuns a todos os
cineastas brasileiros exigiram muita negociação e paciência: conseguir espaço para
o lançamento no cada vez mais rarefeito mercado exibidor nacional. Concluído em
1976, A noiva da cidade chegou ao público três anos depois.
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Acima e abaixo: Beto (Jorge Gomes) e Daniela (Elke Maravilha) |
O filme ― uma
fantasia lírica dominada pela brejeirice ― trata dos dramas vividos por Daniela
(Maravilha), atriz de renome internacional assoberbada pelos compromissos e
artifícios da cidade grande. Estressada, é aconselhada por médicos a um longo período
de repouso. Retorna, assim, à vida simples em Catavento ― terra natal no
interior de Minas Gerais. Aí, segundo as intenções originais de Mauro,
reaprenderia a viver verdadeiramente.
Em grande estilo,
no controle do próprio avião, Daniela causa furor ao reencontrar as origens.
Mal chega e tira a cidade do sossego. Ela mesma não terá oportunidades de
repouso. Todos querem uma casquinha da filha mais famosa do lugar: políticos,
fãs, caçadores de autógrafos e curiosos. Logo percebe: perdeu autonomia em Catavento;
tornou-se patrimônio de todos. Os poucos amigos leais tentam protegê-la do
assédio, principalmente o famoso cantor Beto (Jorge Gomes). Como ela, também
correu o mundo. Porém, jamais perdeu contato com as origens. Diante da
impossibilidade de ter a paz, a garota assume postura mística e se deixa envolver
pelo encanto das paragens naturais mineiras. Até desaparecer misteriosamente,
levada pelo vento.
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Beto (Jorge Gomes) e Lindalva (Betina Viany), melhores amigos de Daniela |
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Líbero (Grande Otelo) e Dr. Carlão (Carlos Imperial) |
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Beto (Jorge Gomes), Daniela (Elke Maravilha) e Plácido (Wilson Grey) |
Nas entrevistas,
Viany deixava claro o compromisso de resguardar a essencialidade maureana da
história. Dizia: “Tudo o que há de bom no filme pertence a Humberto Mauro; tudo
o que houver de falho e ruim o responsável é Alex Viany”. Apesar de simples, A
noiva da cidade sofreu um complexo de males. A princípio, foi
atropelado pelo número excessivo de elementos humanos em cena. Muitos atores tiveram
que ser encaixados em algum ponto da história. Por causa disso e de questões
advindas do roteiro, resultou numa sucessão de episódios fragmentados que
comprometeram a continuidade e fluidez. Todo o conjunto fica ainda mais
prejudicado pela excessiva metragem de 2h10min. Não seria problemática se a
narrativa avançasse como estrutura coesa e homogênea. A direção parece ausente. Viany
se omitiu como organizador, provavelmente por causa da tentativa de se mostrar
excessivamente reverencial a Mauro. Percebem-se influências maureanas, mas faltam
o dinamismo e encanto característicos do cineasta de Sangue mineiro (1929), Lábios
sem beijo (1930), Ganga bruta (1932), Cidade-mulher
(1936), Engenhos e usinas (1955), A velha a fiar (1964) e, entre
muitos outros, Carro de bois (1974). Sobra uma obra sem sabor,
artificialíssima, com ares de concebida ao acaso, desprovida, portanto, de marca
autoral. Não pertence a Viany e muito menos honra o cinema e espírito de Mauro.
O elenco sofre com tudo isso. Está visivelmente desorientado.
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Dr. Carlão (Carlos Imperial), Galã (Roberto Bataglin), Beto (Jorge Gomes), Daniela (Elke Maravilha) etc. |
Se uma das
qualidades fundamentais dos filmes de Humberto Mauro decorre de um gênio capaz
de conferir autenticidade ou naturalidade às imagens, a encenação que resulta da
direção de Viany e da fotografia de Neves está muito distante disso. Às vezes A
noiva da cidade é histriônico quando não deveria. Nesse sentido, é mais
um produto com a marca de Elke Maravilha.
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Lambari (Irving São Paulo) e Daniela (Elke Maravilha) |
Imagens originais
de Mauro surgem na história, como de A velha a fiar. As concepções do
mestre mineiro a respeito de progresso e natureza foram ajustadas ao discurso
de Beto, convertido numa espécie de alter
ego. Para compor o personagem, Viany sondou Chico Buarque, Cláudio Marzo e
Paulo José. Por fim, aceitou a sugestão da filha Betina Viany e ficou com Jorge
Gomes ― notadamente um equívoco. Mauro, certamente, talvez preferisse ― se
possível ― Gary Cooper. É uma de suas grandes frustrações: nunca pode contar com
o ator de Matar ou morrer (High noon, 1952), de Fred Zinnemann,
e Sargento
York (Sergeant York, 1941), de Howard Hawks, fazendo ao menos uma
pontinha, que fosse, em algum filme seu.
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O cineasta estadunidense Orson Welles entre Alex Viany e o poeta Vinícius de Moraes 1942, quando da presença de Welles no Brasil para a realização do inacabado It's all true (É tudo verdade) |
Música e canções: Francis Hime, Chico Buarque de Holanda, Paulo
César Pinheiro. Direção de fotografia (Eastmancolor):
David Neves, Ronaldo Nunes. Roteiro:
Alex viany, Miguel Borges, David Neves, Humberto Mauro, desenvolvido a partir
de argumento original de Humberto Mauro. Assistente
de direção: Carlos del Pino. Assistente
de câmera: Fernando Teixeira de Freitas. Cenografia: Jorge Bastos. Operador
de câmera: Ronaldo Nunes. Som: Walter
Goulart, Carlos Dela Riva. Montagem:
Manfredo Caldas, Alex Viany. Figurinos:
Ruy Land, Elke Maravilha. Maquiagem:
Francisco Guedes Filho. Assistente de
produção e supervisão da pós produção: Humberto Freire. Tempo de exibição: 130 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1979)