domingo, 20 de março de 2016

ENTRE A FRUSTRAÇÃO E A RESIGNAÇÃO: "NÃO É ISSO QUE VOCÊ CHAMA DE DEMOCRACIA?"

Francisco Ramalho Jr., diretor de Anuska, manequim e mulher (1968) e À flor da pele (1977) — provavelmente o seu melhor filme —, vinha da realização do frustrante O cortiço (1978) quando se abriu para dramática e intimista prestação de contas com a ditadura militar imposta ao Brasil pelo golpe de Estado de 1964. Paula — A história de uma subversiva (1979) é trabalho corajoso para a época. Vivia-se o primeiro ano da Abertura Política do governo do General João Batista Figueiredo. A anistia alcançou militantes que se levantaram contra o regime militar e os operadores clandestinos do Estado, responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos. O amargurado arquiteto Marco Antônio Carvalho (Walter Marins) é obrigado a confrontar suas lembranças com o desaparecimento da filha Celina. À frente das investigações está Oliveira (Armando Bógus), notório torturador e provável assassino da militante Paula Bertazzo (Carina Cooper). Na aproximação entre passado e presente, Paula — A história de uma subversiva é, provavelmente, a primeira produção do cinema brasileiro a enfrentar, sem metáforas, os nossos anos de chumbo. Estranhamente, passou incólume pela censura ainda em vigor e cumpriu carreira sem sobressaltos no circuito de exibição. Apesar da inadequação do elenco em geral, explora com propriedade o fracasso e amarguras das gerações envolvidas pela atmosfera rarefeita do regime de exceção. A apreciação a seguir é de 1981.






Paula — A história de uma subversiva

Direção:
Francisco Ramalho Jr.
Produção:
Sylvio Band, Stefan Burstin, Cid Gomes Fernandes
Oca Cinematográfica Ltda., Embrafilme, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo
Brasil — 1979
Elenco:
Marlene França, Armando Bógus, Regina Braga, Walter Marins, Carina Cooper, Helber Rangel, Sheila Agnelli, Carlos Cambraia, Hugo Della Santa, Kátia Grumberg, José Amadeu Natali, Gustavo Pinheiro, Marcos Santos, Ilana Sherl, Adriano Silva, Ronaldo Costa, Celso Gil, Vicente Barcellos, Célia Loscalzo, Álvaro Bittencourt, Adriano Silva, Cristina Ferreira, Emma Stedile, Lígia Rodrigues, Júlio A. Artigas, Vylma Abdalla, Reginaldo de Paiva, Vicente Kutca Neto, Hilda Wickerhouser, Blanca Abalo, Paloma Ipólito, Roberto Bianchi, Cândida Villares, José Tauil, Daicy Alves.



O diretor Francisco Ramalho Jr.


São Paulo, capital, final dos anos 70: Marco Antônio Carvalho (Marins) toca a duras penas, diante da instável situação econômica do país, uma agência de arquitetura. Tenta alavancá-la ao inscrever dois projetos em concurso. No plano pessoal sente os efeitos da crise afetiva e profissional que consome Bia (Braga), companheira e fotógrafa bem mais nova. A situação piora quando desaparece a filha Celina (15 anos), fruto do primeiro casamento com a professora Marta (França). A jovem e uma amiga não retornaram de uma festa nos arredores da cidade. À frente das buscas está o delegado Oliveira (Bógus), de amargas lembranças.


Bia (Regina Braga) com Marco Antônio Carvalho (Walter Marins).


Paula ― A história de uma subversiva é drama político e intimista. O diretor Francisco Ramalho Jr. dedicou-o à memória do amigo Bené — conforme os créditos de abertura — e aos mortos e desaparecidos da fase mais aguda da brutal repressão aos militantes que se posicionaram contra a ditadura militar implantada pelo golpe de Estado de 1964. Provavelmente, é o primeiro filme nacional a tratar, clara e diretamente, sem metáforas, dos custos humanos do período — principalmente após a decretação do Ato Institucional Número 5 (AI5). Este instrumento jogou por terra qualquer aparência de legitimidade constitucional do regime ao dar livre curso ao império da mais arbitrária violência policial.


Trata-se de filme corajoso, realizado nos momentos iniciais do processo de Abertura desencadeado no começo do mandato do General João Batista Figueiredo (1979-1985). A iniciativa redemocratizadora ganhou, de início, a reação de militares da linha dura e de integrantes dos órgãos de repressão que operavam na clandestinidade com franca liberdade de movimento. Felizmente, passou incólume pela censura e cumpriu carreira sem sobressaltos no circuito exibidor.


Há dez anos, por volta do fim de 1968, Marco Antônio — simpático aos ideais de esquerda — era discreto professor da Faculdade de Arquitetura. O endurecimento do regime o afastará compulsoriamente das atividades. Envolve-se afetivamente com a estudante e militante Paula Bertazzo (Cooper). Conheceram-se quando a abrigou da perseguição do famigerado Oliveira, delegado e torturador do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Comparado a Paula, o arquiteto é reles e acomodado pequeno burguês próximo dos 30 anos. Ela, oito anos mais jovem, esbanja energia e vitalidade. Determinada, valoriza a ação. É um dos alvos mais visados da repressão. Apesar das diferenças nas concepções políticas, apaixonaram-se. A relação é estreitada no primeiro semestre de 1969. Nessa época, Marco Antonio contribui intensamente com a militância de Paula. Rompe a união com Marta. Celina contava apenas cinco anos.



Acima e abaixo: Paula Bertazzo (Carina Cooper) e Marco Antônio Carvalho (Walter Marins)


Paula é aprisionada; a seguir, Marco Antônio. Mesmo torturada, não entrega o companheiro. Ele, elemento de baixa periculosidade, sofre mais os transtornos psicológicos do interrogatório. Oliveira o considerava “peixinho, lambari, coisa miúda”. Perdeu somente o emprego. Paula desapareceu por completo em 1971. Havia voltado ao Brasil clandestinamente, depois de libertada e banida na permuta de prisioneiros por diplomata sequestrado.


Marco Antônio Carvalho (Walter Marins) submetido ao interrogatório do Dr. Oliveira (Armando Bógus)

  
O reencontro com Oliveira reatualiza o passado de Marco Antônio da pior maneira. A situação é complicada, carregada de contradições. O arquiteto abomina o investigador. Este continua fiel aos métodos violentos cultivados na ditadura. A trágica e surreal conciliação dos anos de arbítrio e violência política com as pretensões à normalidade democrática — sem que excesso algum fosse julgado — oferece a tônica da reaproximação dos personagens. É como se nada houvesse acontecido após tanto tempo. Oliveira, provável assassino de Paula, agora procura Celina. Lúcido e cruel, zomba cinicamente da situação. “Estou aqui para servi-lo” — diz a Marco Antônio, logo após reconhecê-lo. O pai, aflito e sem alternativas, só pode sucumbir resignado à estranha relação de dependência. Oliveira se aproveita do contexto permitido pelos novos tempos de abertura política à brasileira: “Temos que aprender a conviver juntos. Eu de um lado, você do outro. Tenho que aguentar a sua estupidez e você precisa dos meus serviços para manter a sua paz, a sua tranquilidade. Não é isso que você chama de democracia?”.


Ao final, consuma-se mais uma tragédia na vida de Marco Antônio. Primeiro, perdeu Paula, o grande amor. Agora, recebe de Oliveira a notícia da morte de Celina. Ela e a amiga foram assassinadas por traficantes. O arquiteto carregará para sempre a culpa pela precoce perda da filha, provocada, segundo insinuações de Marta, pela ausência da presença paterna após a cisão familiar.


No Instituto Médico Legal: Marco Antônio Carvalho (Walter Marins) e Marta (Marlene França)


Paula ― A história de uma subversiva é repleto de fragilidades, a começar pelo elenco. A amadora Carina Cooper não passa autenticidade alguma como aguerrida militante de esquerda. É fraquíssima, tanto na atuação como na entonação desprovida de convicção. A bem da verdade, apenas Armando Bógus é convincente. Fala e age com naturalidade. Os demais atores são iguais a integrantes mirins em peça de grupo escolar. Carregam ênfase exagerada em quase todos os diálogos, como se discursassem com a clara intenção de serem compreendidos pelo público da última fileira da audiência. Também é gratuito o excesso de exposição do corpo nu de Regina Braga. Despe-se sem necessidade dramática, como se fosse movida pelo exibicionismo. Marlene França, demasiado contida, é pura apatia.


Os momentos no cárcere, desprovidos de intensidade, não convencem. Ainda contam com o inacreditável padre interpretado por Helber Rangel, perdido na exortação de palavras de ordem — tão risíveis que não caberiam sequer numa assembleia estudantil — e nas admoestações à consciência de Oliveira.


O padre (Helber Rangel) e Oliveira (Armando Bógus)


Por outro lado, explora-se muito bem o drama do fracasso geracional. Francisco Ramalho Jr. desenvolve com certo vigor uma história sobre vidas desperdiçadas. Paula e Marco Antônio hipotecaram ideais e ações à causa da transformação do país, mas colheram mortes e frustrações, despedaçados que foram pela violência institucional. O arquiteto é pesarosamente transportado a uma atualidade de mudanças apenas superficiais. O arbitrário e brutal Oliveira emergiu dos porões apoiado nos mesmos métodos de outrora, para ganhar respeitabilidade nos novos tempos. Marta e o ex-marido fracassaram como pais. Bia é fruto da geração perdida, alienada, que ficou à margem do caminho. Apenas se ajustou como pôde aos ares pouco respiráveis de então. Abusou das drogas e da liberdade sexual, mas não encontrou alternativas para se erguer efetivamente no plano existencial, quando houve a necessidade, ditada pelo amadurecimento, de se integrar à realidade. O filme explora a contento as situações de melancolia, frustração, desencanto e falta de sentido decorrentes da opção política autoritária que moldou o país ao longo de duas décadas.


Marco Antônio Carvalho (Walter Marins) entre companheiros de Paula e diante dos cartazes que marcaram uma época


Mesmo lamentando as lutas e vidas perdidas, Paula — A história de uma subversiva abre brecha à esperança com o simples e belo plano final do rosto questionador de Flávia (Scherl), irmã mais nova da personagem do título. É uma composição significativa. Certamente, passou despercebida. Depois de entregar ao melancólico e enlutado Marco Antônio os desenhos e pinturas elaborados por Paula, Flávia se despede. Na rua, diante de um realejo, tenta a sorte. Integrante de geração ainda não testada, que lhe reserva o futuro? Abre um sorriso largo, que logo se faz discreto e interrogador ao divisar o semblante amargurado de Marco Antônio. Há um misto de incerteza e confiança impregnando o fotograma congelado enquanto sobem os letreiros de encerramento.


No Instituto Médico Legal: Oliveira (Armando Bógus) diante do condoído e frustrado Marco Antônio Carvalho (Walter Marins)


Roteiro: Francisco Ramalho Jr. Diálogos: Consuelo de Castro. Música: Alberto Caribé da Rocha. Direção de fotografia (Eastmancolor) e operador de câmera: Zetas Malzoni. Montagem: Maurício Wilke. Direção de arte e figurinos: Abílio Viana Neto. Maquiagem: Flávio Torres. Assistentes de direção: Jayme Monjardim Matarazzo, Maria Inês Villares. Assistente de direção de arte: Ivan Novais. Edição de efeitos sonoros: Francisco M. Coca. Mixagem da regravação de som: José Luiz Sasso. Assistente de câmera: Odair Guarany. Fotografia de cena: Nícia Guerreiro. Eletricista: Luiz Antônio Silva. Assistente de montagem e continuidade: Vânia Buchioni. Planejamento de créditos: Júlio Abe Wakahara. Equipe de produção: José Luis Ferreira, Billy Menzil, Roberto Bianchi. Pesquisa: Emma Stedile. Maquinista: Lélio Rodrigues. Trilha sonora: Orlando Piani. Tempo de exibição: 96 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1981)