Apoiado no prestígio de
gêneros de forte apelo popular, há muito consolidados, o ator Kirk Douglas
resolveu passar à direção na primeira metade dos anos 70. Infelizmente, fez
apenas dois filmes. O primeiro, de 1973, resultou em malfadada tentativa de
revisitar com bom humor as boas e velhas sagas de piratas com As
aventuras de um velhaco (Scalawag). O segundo rendeu o sólido
e promissor western Ambição acima da lei (Posse, 1975). Não é realização a
merecer lugar entre os grande filmes ambientados no cenário de um Velho Oeste
pronto a ser engolfado pelos valores modernos e civilizados, principalmente no
que representam de pior. A direção às vezes é frouxa; o desenvolvimento, previsível.
Ainda assim, há marca autoral de sobra e passagens particularmente vigorosas. Provavelmente,
as melhores qualidades de Ambição acima da lei são devidas ao
coeso roteiro de William
Roberts e Christopher Knopf. A peça possibilitou a construção de uma narrativa
seca e convenientemente estruturada, sem concessões aos tempos mortos. De outro
lado, conta história viva e dinâmica, alimentada não somente pelos valores da
fronteira. É um filme político, propositalmente contaminado por elementos que
marcaram a vida pública estadunidense no momento da realização: o cínico
personalismo temperado por corrupção e demagogia. A narrativa — perpassada por
desencantamento, desesperança, instrumentalização, amoralismo e frustração —
acompanha a espalhafatosa campanha política do delegado federal Howard
Nightingale (Kirk Douglas), candidato ao senado pelo Texas. A caça aos votos mobiliza
a orgânica integração de recursos os mais diversos na espetacular perseguição
ao notório assaltante de trens Jack Strawnhorn (Bruce Dern). Interesses
particulares de monopólios privados estão diretamente envolvidos no esforço e,
evidentemente, são sobrepostos aos públicos. A imprensa, ainda desinteressada, tenta
atuar com independência no afã de divulgar a “verdade” aos leitores. No
entanto, os indivíduos logo se tornam prisioneiros de circunstâncias
desprovidas de controle e os mais elementares princípios éticos deixam de nortear
as ações. Céu e inferno misturados em turbilhão concedem poucas margens de
manobra e autonomia ao antes tão confiante e racional Howard Nightingale. Segue
apreciação escrita em 1994.
Ambição acima da lei
Posse
Direção:
Kirk Douglas, Anne Douglas (não
creditada)
Produção:
Kirk Douglas
Bryna
Productions, Zeeuwse Maatschappij N. V., Paramont Pictures
EUA — 1975
Elenco:
Kirk
Douglas, Bo Hopkins, Bruce Dern, James Stacy, Luke Askew, Alfonso Arau, David
Canary, Katherine Woodville, Mark Roberts, Dick O'Neill, Louie Elias, Beth
Brickell, William H. Burton Jr., Gus Greymountain, Allan Warnick, Jess Riggle,
Larry Finley, Roger Behrstock, Dick Armstrong, Pat Tobin, Stephanie Steele,
Melody Thomas Scott.
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O diretor de Ambição acima da lei, Kirk Douglas, no papel do delegado federal Howard Nightingale |
Ambição acima da
lei é a segunda incursão de Kirk Douglas na realização. A primeira, dois
anos antes, resultou na saudável e infelizmente frustrada tentativa de retomar
as velhas e boas sagas de piratas: As aventuras de um velhaco (Scalawag,
1973), com o ator e diretor no papel do bucaneiro Peg. Literalmente, é uma
produção que deu com os burros n’água.
Em Ambição
acima da lei Douglas retorna a um gênero tradicional: o western, no
qual consolidou notável experiência como protagonista de títulos vigorosos: Duelo
de titãs (Last train from Gun Hill, 1958), de John Sturges; Homem
sem rumo (Man without a star, 1955), de King Vidor; O último por-do-sol (The
last sunset, 1961), de Robert Aldrich; Sem lei e sem alma (Gunfight
at the O.K. Corral, 1957), de John Sturges; O rio da aventura (The
big sky, 1952), de Howard Hawks; e, entre outros, o desmistificador Ninho
de cobras (There was a crooked man..., 1970), de Joseph L. Mankiewicz.
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Acima e abaixo: Kirk Douglas como o ambicioso delegado federal Howard Nightingale |
Agora, a direção
de Douglas alcança resultados surpreendentes. De Ambição acima da lei se
pode até lamentar a condução burocrática, prisioneira da previsibilidade.
Porém, assisti-la é uma experiência prazerosa — principalmente nesta época de westerns
escassos. O roteiro de William Roberts e Christopher Knopf é coeso, sem brechas
para tempos mortos. Tudo faz sentido. A ação, conduzida com segurança, sempre
prende a atenção.
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Howard Nightingale (Kirk Douglas) e Jack Strawhorn (Bruce Dern) |
O título original
— Posse
— remete a uma tradição, praticamente uma instituição do Velho Oeste: um grupo
armado é revestido de autoridade legal para levar adiante a caça e, se
possível, o aprisionamento de procurados pela Justiça. O delegado federal Howard
Nightingale (Douglas), à frente de cinco atiradores de elite, promete revirar
céu e terra para capturar Jack Strawnhorn (Dern) — notório e sagaz assaltante
de trens considerado perigoso e covarde. Na verdade, a missão é um trampolim
para as pretensões políticas de Nightingale: conseguir votos para se eleger
senador. O ambicioso e cínico agente da lei também é friamente calculista.
Impede a todo custo a interposição de fatores que podem lhe prejudicar os
objetivos imediatos. Assim, sem maiores considerações éticas, instrumentaliza do
jeito que puder os recursos materiais e humanos ao seu alcance. Capturar
Strawnhorn é somente uma espetacular estratégia de campanha que lança mão de
transporte ferroviário específico — cedido pela companhia sempre assaltada —
transformado em quartel-general da caçada e comitê eleitoral volante. Se bem
que, propriamente, não há delimitação rígida entre essas instâncias. O expresso
é equipado com escritórios, alojamentos, estábulo, sala de imprensa, restaurante,
laboratório fotográfico, acomodações para auxiliares, prisão para Strawnhorn
etc.
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Kirk Douglas como Howard Nightingale |
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Os auxiliares do delegados federal Howard Nightingale (Kirk Douglas) |
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Bruce Dern como o assaltante de trens Jack Strawhorn |
Mesmo que não
passe à história como filme de primeira linha, Ambição acima da lei
possui algo mais: a temática transpõe para o passado estadunidense situações de
um presente muito atual: o cínico personalismo político acompanhado de
corrupção e demagogia. Sem esquecer que a narrativa avança pela tênue linha que
separa — e une — os interesses eleitoreiros de Nightingale e a esfera privada
dos negócios escusos da estrada de ferro — a ajuda prestada ao candidato não é desinteressada,
em absoluto. Ambição acima da lei também enfoca criticamente um momento de
transição, quando o Oeste firmado na aventura de indivíduos que se bastavam
cede a vez aos valores civilizados: estabilidade legal, econômica e social; urbanidade;
trabalho racionalizado. Apagam-se as colorações do tempo que legitimava tipos
como Strawnhorn; inicia-se o flerte com a dubiedade de gente pragmática, sempre
disposta a negociar valores e particularismos — inclusive os mais arraigados
ideais, como faz Nightingale. O séquito que lidera sequer encontrará espaço de
recomposição nos novos tempos: é formado por personalidades destituídas de
mérito, facilmente descartáveis, fadadas à marginalidade nas novas
configurações do Oeste modernizado. Essa transição também capta o período no
qual as comunidades urbanas, assediadas por marginais sem rumo, tornam-se,
grosso modo, prisioneiras de outros personagens igualmente erráticos: os aspirantes
à representação política na caça aos votos.
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Acima e abaixo: Kirk Douglas como Howard Nightingale |
O revelador embate
frente a frente entre Nightingale e Strawnhorn merece lugar na antologia dos
epílogos cinematográficos.
Desenho de produção: Lyle R. Wheeler. Montagem: John W. Wheeler. Direção
de fotografia (Technicolor, Panavision): Fred J. Koenekamp. Fotografia adicional: Jules Brenner. Música e direção musical: Maurice
Jarre. Produção executiva: Phil
Feldman. Roteiro: William Roberts,
Christopher Knopf, baseado em história de Christopher Knopf. Tratamento do roteiro: Larry Cohen (não
creditado). Decoração: Fred Price,
Lyle R. Wheeler. Penteados: Judith
A. Cory. Maquiagem: Loren Cosand,
Jack H. Young (não creditado). Supervisão
da pós produção: Peter Douglas. Gerente
de unidade de produção: Howard Pine. Executivo
responsável pela produção na Paramount Pictures: Lindsley Parsons Jr. (não
creditado). Segundo assistente de
direção: Pat Kehoe. Primeiro
assistente de direção: Jack Roe. Chefe
de equipe no departamento de arte: Leonard Cross (não creditado). Assistente de contrarregra: Mike Ezzes
(não creditado). Assistente da direção
de arte: Frederick P. Hope (não creditado). Chefe de pintura: Johnny Lattanzio (não creditado). Contrarregra: Terry E. Lewis (não
creditado). Responsável por áreas
verdes: Roger MacKechnie (não creditado). Coordenação de construções: William Maldonado (não creditado). Assistente de pintura: Woody Willis (não
creditado). Produção de mixagem de som:
Tom Overton. Mixagem da regravação de
som: Richard Portman. Edição de
efeitos sonoros: Keith Stafford. Operador
de boom: Dennis Jones (não creditado). Supervisão
de efeitos especiais: Phil Cory. Capataz
de efeitos especiais: Charles E. Dolan. Efeitos especiais: Phil Cory (não creditado). Dublê: William H. Burton Jr. (não creditado). Fotografia de cena: Orlando Suero. Operadores de câmera (não creditados): John Bailey, Joseph M.
Wilcots. Assistentes de camera (não
creditados): William Jay Gahret, Paul Jones, Chuck Morgan, Michael
Nakamura, Andy Nelhams, Byron White. Eletricista-chefe:
Doug Pentek (não creditado). Produção de
elenco extra: Michael Kennedy. Supervisão
de guarda-roupa: Lambert Marks (não creditado). Assistente de guarda-roupa: Willie Perez (não creditado). Gerente de locações: Jack N. Young (não
creditado). Edição musical: George
Brand. Músico: Tommy Tedesco
(violão/não creditado). Capitão de
transportes: Alan Falco (não creditado). Assistente para o produtor: Joel Douglas. Planejamento de créditos: Wayne Fitzgerald. Auditoria da produção: Justin Buehrlen (não creditado). Publicidade: Dave Davies (não
creditado). Desenhos técnicos: John
Dolan (não creditado). Médico: Ernie
Fuentes (não creditado). Continuidade:
Marshall Schlom (não creditado). Lutas:
Rudy Ugland (não creditado). Secretaria
da produção: Mary Winters (não creditado). Tempo de exibição: 92 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1994)