domingo, 2 de dezembro de 2018

ROBERT ALDRICH CONFRONTA O COMPLEXO INDUSTRIAL MILITAR E A ‘REALPOLITIK’ DO TIO SAM

Aos meus critérios, Robert Aldrich é um dos mais importantes cineastas. Liberal da boa cepa, cínico, sem papas na língua — ou nas imagens —, afrontou várias vezes o status quo estadunidense em realizações no mínimo poderosas. As boas considerações à honra militar, ao heroísmo, à política, aos bastidores do teatro foram seriamente arranhadas em filmes vigorosos que invadiram a cena desde os anos 50. Vera Cruz (Vera Cruz, 1954), A morte num beijo (Kiss me deadly, 1955), A grande chantagem (The big knife, 1955), Morte sem glória (Attack, 1956), O último por-do-sol (The last sunset, 1961), O voo do Fênix (The flight of the Phoenix, 1965), Os doze condenados (The dirty dozen, 1967), Resgate de uma vida (The Grisson Gang, 1971), A vingança de Ulzana (Ulzana's raid, 1972) e O Imperador do Norte (Emperor of the North Pole, 1973) honrariam a filmografia de qualquer cineasta. Tive, recentemente, a oportunidade de ver um dos seus últimos trabalhos: a sóbria, simples e realista ficção política O último brilho do crepúsculo (Twilight's last gleaming, 1977), interpretada por atores do primeiro time com destaque para Charles Durning no papel do íntegro, honesto e relativamente ingênuo David Stevens, Presidente dos Estados Unidos. É enredado numa trama provocada pela inesperada ação do rebelde General Lawrence Dell (Burt Lancaster), da Força Aérea, que ameaça lançar mísseis nucleares sobre meio mundo se não forem reveladas algumas verdades sobre a Guerra do Vietnã. Poucos filmes tiveram tanta disposição para desmascarar a estrutura atualmente conhecida como Complexo Industrial Militar e a realpolitik que orienta os rumos, decisões e capacidade de resistência da república estadunidense. O último brilho do crepúsculo fornece a apreciação da vez neste blog.






O último brilho do crepúsculo

Twilight's last gleaming

Direção:
Robert Aldrich
Produção:
Merv Adelson
Bavaria Atelier, Bavaria Film, Geria Productions, Lorimar Productions
EUA, República Federal da Alemanha — 1977
Elenco:
Burt Lancaster, Roscoe Lee Browne, Joseph Cotten, Melvyn Douglas, Charles Durning, Richard Jaeckel, William Marshall, Gerald S. O'Loughlin, Richard Widmark, Paul Winfield, Burt Young, Charles Aidman, Leif Erickson, Charles McGraw, Morgan Paull, Simon Scott, William Smith, Bill Walker, David Baxt, Glenn Beck, Ed Bishop, Phil Brown, Gary Cockrell, Don Fellows, Weston Gavin, Garrick Hagon, Elizabeth Halliday, David Healy, Thomasine Heiner, William Hootkins, Ray Jewers, Ron Lee, Robert Sherman, John Ratzenberger, Robert MacLeod, Lionel Murton, Robert O'Neil, Shane Rimmer, Pamela Roland, Mark Russell, Rich Steber, Drew W. Wesche, Kent O. Doering, Allan Dean Moore, M. Phil Senini, Rich Demarest e o não creditado Gary Harper. 



O cineasta Robert Aldrich durante a realização de O último brilho do crepúsculo



Em 1964, ano capital para a democracia brasileira, John Frankenheimer dirigiu Sete dias de maio (Seven days in May). Nele, Burt Lancaster é o General James Mattoon Scott, falcão da extrema-direita. Contrariado com um tratado de contenção nuclear assinado com a URSS, ameaçou a estabilidade política dos EUA com um golpe de Estado. Agora, no título em apreço, o ator volta ao papel de um militar rebelde de igual patente: Lawrence Dell, da Força Aérea. De início, Lancaster não se interessou pelo personagem. Mudou de ideia ao saber da desistência de Aldrich em dirigir o drama bélico Uma ponte longe demais (A bridge too far, 1977) — passado às mãos de Richard Attenborough — para assumir O último brilho do crepúsculo[1]. É sua quarta parceria com o cineasta. Estiveram juntos nos sólidos westerns O último bravo (Apache, 1954), Vera Cruz (Vera Cruz, 1954) e A vingança de Ulzana (Ulzana’s raid, 1972).


Marcada por vigorosas, realistas e cínicas narrativas — geralmente conduzidas a palo seco —, a carreira do rebelde, liberal e antimilitarista Aldrich entrou em acentuado descenso a partir de 1967, após o sucesso de Os doze condenados (The dirty dozen). A seguir, lançou doze títulos, até o encerramento da carreira em 1981 com o fraco Garotas duras na queda (...All the marbles). Os destaques dessa etapa final são: Triângulo feminino (The killing of sister George, 1968), Resgate de uma vida (The Grisson Gang, 1971), A vingança de Ulzana, O Imperador do Norte (Emperor of North Pole, 1973), Golpe baixo (The longest yard, 1974) e O último brilho do crepúsculo.


O último brilho do crepúsculo é ficção política com ação passada em 1981, quatro anos após o ano da realização. Todas as cenas foram captadas por duas câmeras em operação simultânea, quase sempre em ambiente fechado. A edição final lançou mão da tela dividida, também vista em Golpe baixo. O recurso permitiu a exibição conjunta de dois a quatro segmentos diferentes da ação. Se o artifício pretendia ampliar o dinamismo da exposição e elevar a temperatura nos instantes de tensão, não logrou efeito.


Burt Lancaster no papel do rebelde General Lawrence Dell

Willis Powell (Paul Winfield) e Audie Garvas (Burt Young), auxiliares de Lawrence Dell (Burt Lancaster)


Devido ao tema espinhoso, Aldrich deslocou a base da produção para a República Federal da Alemanha na esperança de contar com maior liberdade e mobilidade criativas. Na mira do diretor está o atualmente denominado Complexo Industrial Militar — jamais mencionado no filme —, considerado o verdadeiro e invisível guardião do poder político nos Estados Unidos. Seus tentáculos são ocultos, inclusive para o Presidente da República. Este é apenas uma espécie de gerente consentido para orientar a sociedade a partir do “controle” do Estado.


Alheio às engrenagens imperceptíveis que operam nas entranhas do sistema, o Presidente é percebido, realisticamente, mais como elemento conjuntural de pouco importância, um mantenedor de aparências passível de pronta remoção a qualquer momento, seja em nome da segurança ou da preservação das estruturas organizadoras dos interesses do status quo.


Em que pese a complexidade do tema com aparência de teoria da conspiração — ainda mais para a época da realização —, O último brilho do crepúsculo tem aspecto de filme “B” ou de produto televisivo. Estes padrões são até fontes de virtudes. Favoreceram a abordagem econômica e direta, sem ostentação. O setor mais requintado da produção reside no elenco estelar. Hoje, seria inviável reunir no mesmo cast tantos nomes de peso sem o grave comprometimento do orçamento. Além de Lancaster, comparecem: Melvyn Douglas, Richard Widmark, Joseph Cotten, Charles Durning, Richard Jaeckel, William Marshall, Paul Winfield, Burt Young etc. Vera Miles e Pippa Scott também marcaram presença, mas foram excluídas do corte final.


Richard Widmark faz o General Martin MacKenzie


A abertura privilegia símbolos estadunidenses. A imagem da Estátua da Liberdade é pano de fundo à apresentação dos créditos ao som de significativos trechos de The Star-Spangled Banne, o Hino Nacional: exaltam o esforço pioneiro e o legado forjado a preservar. Toda a ação se passa em um domingo, 16 de novembro de 1981. O dia prometa folga ao presidente David Stevens (Durning). Logo pela manhã recebe na Casa Branca o amigo de muitos anos, James Forrest (Lee Browne), para discutir assunto pessoal. O diálogo não é fundamental à narrativa. Porém, revela o caráter honesto, íntegro e pragmático — temperado por prudente idealismo — do supremo mandatário do país. Segue-se reunião de rotina com o experiente Secretário de Defesa Zachariah Guthrie (Douglas). O resto do período seria dedicado ao repouso ou aos programas esportivos na TV, desfrutados na companhia do amigo e ajudante de ordens General O'Rourke (O'Loughlin). Porém, chegam notícias alarmantes — logo confirmadas pelo General Martin MacKenzie (Widmark).


Uma base de mísseis nucleares em Montana é tomada pelo brilhante e execrado General Lawrence Dell. Considerado renegado pelo posicionamento explicitamente contrário à Guerra do Vietnã, escapou da prisão na companhia de violentos criminosos comuns: Willis Powell (Winfield), Augie Garvas (Young) e Hoxey (Smith). Conhece profundamente o local; ajudou a construí-lo. Invade a sala de controles e se apodera dos mecanismos de lançamento de nove ogivas Titans voltadas para a Europa, principalmente URSS. Ameaça dispará-las a um só tempo se não for atendido em algumas exigências: dez milhões de dólares a distribuir entre os auxiliares; caminho livre para o grupo escapar pelo avião presidencial, o Air Force One, até um país neutro; revelação pública pelo Presidente, em rede nacional de rádio e TV, de um documento ultra-secreto sobre a Guerra do Vietnã — gerado pelo Conselho de Segurança Nacional em administração há muito passada; e, finalmente, o próprio David Stevens deve se apresentar em Montana como refém.


James Forrest (Roscoe Lee Browne)

David Stevens (Charles Durning), Presidente dos Estados Unidos


Daí em diante o filme engrena e toma pulso após um começo visivelmente burocrático e irritante, marcado pelo desleixo de situações improváveis e comportamentos excessivamente estereotipados da parte dos auxiliares de Dell — um dos quais é logo descartado. Enquanto o General Mackenzie providencia ação armada de retomada da base — logo fracassada —, David Steven se reúne com representantes do alto poder da República: Ralph Whittaker (Erickson), Diretor da CIA; William Klinger (Marshall), Procurador Geral; General Peter Crane (McGraw), Comandante da Força Aérea; Arthur Renfrew (Cotten), Secretário de Estado; General Phil Spencer (Scott), Presidente do Estado Maior Conjunto; Zachariah Guthrie; e o General O’Rourke. De certo modo Robert Aldrich se inspira, em escala bastante reduzida, nas situações apresentadas por Stanley Kubrick na Sala de Guerra de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb, 1964).


David Stevens está visivelmente abalado. O staff não apresenta soluções plausíveis à crise. Lawrence Dell deu mostras da seriedade das ameaças de detonar meio mundo. O General Mackenzie não logra sucesso na tentativa de imobilizar os invasores. Tudo leva a crer que o Presidente terá que se apresentar como refém. Correrá o sério risco de morrer. Chocante, entretanto, são as revelações do secretíssimo memorando 9579 do Conselho de Segurança Nacional, cujo conteúdo deve chegar ao conhecimento do público: os EUA sempre souberam que jamais venceriam no Vietnã. Ainda assim, sacrificaram intencionalmente as vidas de mais de 50 mil jovens convocados para o front e cerca de um milhão de asiáticos. Somente para exibir o poderio militar aos russos e demonstrar que estavam dispostos a tudo na defesa do “mundo livre”. Levaram adiante um holocausto teatral de proporções homéricas e com ares de negligência criminosa.


Zachariah Guthrie (Melvyn Douglas), Secretário da Defesa


O íntegro e ingênuo David Stevens insiste para o documento chegar ao conhecimento do público, mesmo que abale a confiança depositada na condução dos negócios do país. Apela ao Secretário de Defesa. Pressionado, Zachariah Guthrie logo altera a expressão. A câmera lhe capta o semblante revelador. Comunica apenas ao espectador que se trata de um guardião da mais maquiavélica realpolitik, há muito sabedor da existência do memorando. A partir daí começa de fato um jogo de gato e rato de movimentos poucos claros a Stevens. À revelia do chefe de Estado, o staff e o núcleo duro do comando militar — representado pelo General Mackenzie — sabem bem o que fazer em obediência à lógica de que os fins justificam os meios. O epílogo é trágico e pessimista. Nas mãos do realista Robert Aldrich não seria de outra forma.


Ao final das contas, e apesar de algumas incoerências, O último brilho do crepúsculo tem muita envergadura. Traz a marca da melhor mão do diretor, tão habituado aos libelos explosivos — ainda mais em época caracterizada por pleno desencantamento e falta de confiança nos destinos não só dos Estados Unidos como de todo o Ocidente. A realização cairia muito bem para um honroso encerramento de carreira. Infelizmente, Aldrich ainda entregaria os insatisfatórios Garotos do coro (The choirboys, 1977), O rabino e o pistoleiro (The Frisco Kid, 1979) e Garotas duras na queda.


Charles Durning como David Stevens, Presidente dos Estados Unidos


O último brilho do crepúsculo está embasado em roteiro de Ronald M. Cohen e Edward Huebsch, extraído da novela Viper three de Walter Wager. Este suporte, pelo lido e ouvido, se alimentou de anotações de um expert no tratamento da realpolitik: Henry Kissinger, principalmente nos livros Nuclear weapons and foreign policy e A world restored — publicados em 1957.


Apesar do protagonismo de Burt Lancaster, o melhor em cena é Charles Durning — disparado. Aceitou o papel recusado por Paul Newman e compôs inspirado retrato para um Presidente estadunidense repleto de boa vontade e ingenuamente enredado nos fios de uma trama há muito consolidada, que lhe escapa totalmente ao controle. Contribuem para o brilho da narrativa a direção de fotografia carregada de inquietante atmosfera de Robert B. Hauser e a empolgante pontuação musical de Jerry Goldsmith, substituto do então enfermo compositor Frank DeVol — colaborador habitual de Robert Aldrich.


Os generais Martin MacKenzie (Richard Widmark) e Lawrence Dell (Burt Lancaster)


Por fim, algumas curiosidades: o título original Twilight's last gleaming é retirado de um verso do Hino Nacional dos Estados Unidos. Richard Widmark em momento algum interagiu com os demais atores, exceto alguns figurantes. Devido aos problemas de agenda, teve todas as cenas filmadas em separado. Nos Estados Unidos a exibição aconteceu com intervalo, apesar da duração nem tão extraordinária de 146 minutos.




Roteiro: Ronald M. Cohen, Edward Huebsch, baseados na novela Viper three de Walter Wager. Produção executiva: Helmut Jedele, Lutz Hengst (Geria), Harry R. Sherman (Lorimar). Música: Jerry Goldsmith. Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Robert B. Hauser. Montagem: Michael Luciano, William Martin, Maury Winetrobe. Assistente de montagem: Paul LaMastra (não creditado). Produção de elenco: Jack Baur. Desenho de produção: Rolf Zehetbauer. Direção de arte: Werner Achmann. Figurinos: Tom Dawson. Maquiagem e penteados: Georg Jauss, Hans-Peter Knoepfle. Supervisão da produção: Harry R. Sokal. Assistente de direção: Rolf M. Degener. Primeiro assistente de direção: Wolfgang Glattes. Segundo assistente de direção: Stefan Zürcher (não creditado). Concepção do poster: Bill Gold (não creditado). Arte do poster: Robert Tanenbaum (não creditado). Edição de som: Gordon Daniel, Gordon Davidson, Gilbert D. Marchant. Operador de boom: John Stevenson. Mixagem da regravação de som: John Wilkinson. Mixagem de som: James Willis. Efeitos especiais: Henry Millar. Assistente de efeitos especiais: Willi Neuner. Dublê: Tony Epper (não creditado). Eletricistas-chefes: Georg Eck, Jack Wilson. Operadores de câmera: Gerhard Fromm, Dieter Matzka.Assistentes de câmera: Franz Knoll, Gernot Köhler, Alfred Leitensdorfer. Fotografia de cena: Karl-Heinz Vogelmann. Supervisão de guarda-roupa: Tom Dawson. Guarda-roupa: Siegi Haubold, Hubert Lindenberg. Montagem musical: Joan Biel. Edição musical: John C. Hammell. Orquestração: Arthur Morton. Coordenação de transportes: Don French (não creditado). Concepção dos créditos: Walter Blake. Publicidade: Dave Davies. Consutoria técnica: Andrew Erwin. Continuidade: Alvin Greenman. Edição em linha: Petra von Oelffen. Assistente de produção: Irmi von Rüxleben. Dublagem para Richard Jaeckel: Klaus Löwitsch (não creditado). Estúdio de divisão de tela: Modern Film Effects. Estúdio de gravação: Glen Glenn Sound Company. Estúdio de elaboração de créditos principais: The Howard Anderson Company. Sistema de mixagem de som: monoaural para cópias óticas em 35mm, estereofônico em quatro pistas para cópias magnéticas em 35mm. Tempo de exibição: 146 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2018)




[1] Atualmente denominado O último clarão do crepúsculo no Internet Movie Database (IMDb - <https://www.imdb.com/title/tt0076845/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1>).

domingo, 25 de novembro de 2018

PERSONAGENS CARENTES E SOLITÁRIOS, INCLUSIVE O CÃO BIG RED

Dentre as produções marcantes de minha infância está Astúcia de um rebelde (Big Red, 1962), dirigido por Norman Tokar para os Estúdios Disney. Antes de conhecê-la acompanhei, por volta de 1963-64, a adaptação publicada em quadrinhos no Suplemento Dominical do então vibrante jornal Correio da Manhã. Pude vê-la no cinema em 1966. Na oportunidade, o encanto manteve-se preservado e assim permaneceu durante anos. Infelizmente, tomei a decisão de revê-la na entrada da vida adulta e toda a magia se esboroou. Astúcia de um rebelde é o primeiro trabalho do confiável e rotineiro Norman Tokar para o cinema e a Disney. Na empresa, sempre bateu ponto no setor das produções live action. O roteiro de Louis Pelletier, extraído de novela de Jim Kjelgaard, conta história ambientada e filmada nas áreas verdes vizinhas à cidade de Quebec, Canadá. Big Red é um Setter Irlandês treinado para brilhar em exposições. Torna-se o centro da discórdia entre o indiferente e solitário proprietário James Haggin (Walter Pidgeon) e René Dumont (Gilles Payant), garoto órfão e carente contratado como tratador. As contradições evoluem para a quase tragédia e culminam em operação de busca e salvamento por áreas remotas, acidentadas e selvagens das matas próximas. O desenvolvimento é pedestre. Os melhores valores residem nos desempenhos dos personagens centrais e no sóbrio acompanhamento musical a cargo de Oliver G. Wallace e da afamada dupla Richard e Robert M. Sherman. Segue apreciação escrita em 1975.






Astúcia de um rebelde

Big Red

Direção:
Norman Tokar
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA, Canadá — 1962
Elenco:
Walter Pidgeon, Gilles Payant, Émile Genest, Janette Bertrand, Georges Bouvier, Doris Lussier, Rolland Bédard, Teddy Burns Goulet.



O diretor Norman Tokar


Certamente, com respeito aos cães, a Walt Disney Productions merece a palma pela divulgação que lhes proporcionou no cinema. Caninos das mais variadas raças ganharam o conhecimento do grande público graças aos desenhos animados e filmes de ação viva da companhia. Alguns conseguiram ampla popularização por conta desse empenho: o Cocker Spaniel — A dama e o vagabundo (Lady and the tramp, 1955), de Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske; Labrador Retriever — O meu melhor companheiro (Old Yeller, 1957), de Robert Stevenson; Sheepdog — Felpudo, o cão feiticeiro (The shaggy dog, 1959), de Charles Barton; Skye Terrier — Meu leal companheiro (Greyfriars Bobby: the true story of a dog, 1961), de Don Chaffey; Dálmata — A guerra dos Dálmatas (One hundred and one Dalmatians, 1961), de Clyde Geronimi, Hamilton Luske e Wolfgang Reitherman; mestiços — Nikki, o valente indomável (Nikki, wild dog of the North, 1961), de Jack Couffer e Don Haldane; Bluetick Coonhound — Na trilha dos Apaches (Savage Sam, 1963), de Norman Tokar; e os Dachshund e Dogue Alemão — Um amor de companheiro (The ugly Dachshund, 1966), de Norman Tokar.


Walt Disney com o Setter Irlandês Champion Red Aye Scraps, "intérprete" de Big Red

Gilles Payant, intérprete de René Dumont

Foto promocional: Gilles Payant, Champion Red Aye Scraps e Walter Pidgeon, intérprete de James Haggin


Um dos mais carismáticos exemplares dessa leva é o Setter Irlandês batizado de Big Red (o nome real é Champion Red Aye Scraps) em Astúcia de um rebelde. É o título de estreia do rotineiro e confiável Noman Tokar na direção cinematográfica e no quadro de funcionários dos Estúdios Disney. Amparava-o uma experiência de dez anos (1952-1962), quando garantiu o suprimento de episódios para as mais diversas séries da nascente televisão.


Astúcia de um rebelde está preso às limitações do realizador. É obra corriqueira, centrada no carisma do cão e nos desempenhos corretos do reduzido elenco. Se alguma potencialidade havia no roteiro de Louis Pelletier — adaptado do romance Big Red, de Jim Kjelgaard — não se converteu em ato pela direção. Nem os maravilhosos cenários naturais canadenses do entorno de Quebec foram adequadamente aproveitados pela convencional direção de fotografia, em vivo Technicolor, a cargo de Edward Colman. O resultado final é frio, apesar da boa embalagem. Dramaticamente, conta história sobre carências afetivas e personalidades incompreendidas dos solitários James Haggin (Pidgeon), René Dumont (Payant) e, até certo ponto, do próprio Big Red.


O milionário Haggin, criador de cães, pagou vultosa quantia de cinco mil dólares por Big Red. No entanto, não nutre especial afeto por eles. Interessa-se somente nos ganhos financeiros que poderá auferir em exposições e feiras. É viúvo solitário e lacônico, amargurado pela perda do filho durante a guerra. Terá a vida lentamente redirecionada ao contratar o jovem René para auxiliar o veterinário Emile Fornet (Genest) nos cuidados mais básicos exigidos pelo canil.



Acima e abaixo: René Dumont (Gilles Payant) nas brincadeiras com Big Red


Órfão, praticamente só no mundo, René tem forte personalidade e muito poder de decisão. Carente, afeiçoa-se aos animais e é plenamente correspondido — principalmente por Big Red. Esta relação, aos olhos e interesses do imediatista Haggin, revela-se perniciosa. Afinal, o cão é submetido a distrações pouco condizentes com o comportamento centrado exigido pelas rigorosas normas que regem as exposições. Por isso, resolve afastá-los. Os resultados dessa decisão desencadeiam uma quase tragédia de efeitos danosos ao animal. Contra todas as circunstâncias, René assume a pronta determinação de salvá-lo do sacrifício definitivo.


Big Red serve como ponto de intersecção do embate de personalidades entre René e Haggin. Apesar da aparência de homem indiferente, preocupado apenas com dinheiro, o personagem defendido por Walter Pidgeon não deixa de se preocupar com o futuro do garoto — principalmente quanto aos estudos negligenciados. Este, por sua vez, não teme recriminar o patrão pela falta de afeto aos cães — o que não deixa de ser uma forma de extravasamento da própria carência. Para evitar novos problemas e contra a vontade de Haggin, deixa o trabalho. Consegue nova ocupação na propriedade vizinha. Descobre, após breve e áspero contato com o antigo chefe, que Big Red e a companheira Molly foram vendidos e se encontram perdidos em região erma e acidentada após fugirem do trem que os transportava ao novo proprietário.



Acima e abaixo: René Dumont (Gilles Payant) nas brincadeiras com Big Red


Evidentemente, René abre mão de tudo e parte em operação de busca e salvamento. Atrás dele segue James Haggin, vivamente interessado no bem estar do garoto. A partir daí a narrativa é encaminhada para o clímax dramático e da ação. René localiza os cães, acrescidos dos respectivos filhotes. Com a providencial intervenção de Big Red, também encontra e salva o acidentado, ferido e imobilizado ex-patrão ameaçado por um leão da montanha. Juntos, partem para formar uma nova família. O epílogo, cessados todos os conflitos, é tipicamente disneyano.


Apesar das limitações, principalmente do ralo tratamento dramático com respeito aos perfis dos personagens principais, Astúcia de um rebelde conta com excelentes desempenhos do veterano Walter Pidgeon e do novato Gilles Payant em seu único trabalho para o cinema. Quanto a isto, ponto para a produção: não é apenas um filme animado pelas peripécias e olhares carentes de um cachorro esperto e carismático. O elenco de apoio, centrado basicamente em Émile Genest e Janette Bertrand, dá conta do recado apesar de pouco exigido.


René Dumont (Gilles Payant) com Big Red e prole


Por fim, merece destaque a sóbria e pouco invasiva trilha musical de Oliver G. Wallace acrescida da canção Mon amour perdu — também conhecida como Big Red’s Theme — de Richard M. Sherman e Robert B. Sherman.



  
Direção de fotografia (Technicolor, Panavision): Edward Colman. Roteiro: Louis Pelletier, com base em novela de Jim Kjelgaard. Música: Oliver G. Wallace. Figurinos: Chuck Keehne. Montagem: Grant K. Smith. Coprodução: Winston Hibler. Produção associada: Erwin L. Verity. Direção de arte: Carroll Clark, Marvin Aubrey Davis. Som: Robert O. Cook. Decoração: Hal Gausman, Emile Kuri. Operador de câmera: Travers Hill (não creditado). Edição musical: Evelyn Kennedy. Treinador do Setter Irlandês: William R. Koehler. Maquiagem: Pat McNalley. Orquestração: Walter Sheets. Mixagem de som: Dean Thomas. Assistente de direção: Arthur J. Vitarelli. Direção de segunda unidade: Jack Couffer (não creditado). Operador de câmera da segunda unidade: Lorne C. Batchelor. Canções (letra e música): Richard M. Sherman, Robert B. Sherman. Sistema de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 89 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1975)

domingo, 18 de novembro de 2018

PAI, FILHO E DEPENDÊNCIA NA ADVERTÊNCIA DE GRIFFITH EM 1912

Muitos filmes exploram a temática da dependência química: Vício que mata (The pace that kills, 1928), de William A. O'Connor e Norton S. Parker; A porta da loucura (Tell your children/Reefer madness, 1936), de Louis J. Gasnier; Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy Wilder; Vício maldito (Days of wine and roses, 1962), de Blake Edwards; Os viciados (The panic in needle park, 1971), de Jerry Schatzberg; Drugstore cowboy (Drugstore cowboy, 1989), de Gus van Sant; Trainspotting: sem limites (Trainspotting, 1996), de Danny Boyle; e, entre outros tantos, Réquiem para um sonho (Requiem for a dream, 2000), de Darren Aronofsky. Fazem parte de um subgênero cujas raízes podem ser encontradas nos pioneiros curtas de David Wark Griffith para a Biograph Company, particularmente em For his son (1912) — por sua vez tributário do mais primitivo Les victimes de l’alcoolisme (1902), de Ferdinand Zecca. Aborda o vício em cocaína e a alienação provocada pelo acúmulo de riqueza segundo a particularíssima visão de mundo do diretor. É um conto moral. Problematiza a relação entre pai e filho além de fornecer munição aos inimigos de refrigerantes como a Coca-Cola. Formalmente, é uma produção convencional diante dos avanços obtidos pelo cineasta no período. Não obstante, se convenientemente apreciada do ponto de vista histórico ainda se revela impactante e assustadora. Segue apreciação escrita em 2001.





For his son


Direção:
David Wark Griffith
Produção: 
Biograph Company
EUA — 1912
Elenco:
Charles Hill Mailes, Alfred Paget, Blanche Sweet, Charles West, Dorothy Bernard e os não creditados William Bechtel, Christy Cabanne, Edward Dillon, Edna Foster, Robert Harron, Dell Henderson, Grace Henderson, Harry Hyde, J. Jiquel Lanoe, Gus Pixley, W.C. Robinson, Ynez Seabury, Kate Toncray.



O diretor David Wark Griffith (à direita) com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Charles Chaplin
Foto de 5 de fevereiro de 1919, quando da fundação da United Artists



David Wark Griffith dirigiu 72 curtas para a Biograph Company em 1912. Dentre os que conheço, destacam-se The massacre; The New York hat; O dilema do assaltante (The burglar's dilemma); The musketeers of Pig Alley; The painted lady; So near, yet so far; Two daughters of Eve; Um Inimigo Invisível (An unseen enemy); The narrow road; The sunbeam e A sister's love. Percebem-se nessas realizações, da parte do cineasta, a vontade de se emancipar das limitações impostas pela empresa produtora e conferir maior dinamismo à câmera, inclusive ultrapassar as restrições espaciais dos cenários invariavelmente estáticos e captados de um único ponto de vista. O quinto curta do período, For his son, está entre os mais convencionais se comparado aos avanços de Griffith na consolidação de uma expressão própria para a narrativa cinematográfica.


For his son é mais um conto moral tão caro ao diretor. As intenções se manifestam logo na cartela de abertura. Durante aproximados 15 minutos o espectador é apresentado ao “Terrível resultado do egoísmo criminoso”. Decerto é tributário das influências de Ferdinand Zecca em Les victimes de l’alcoolisme (1902). Especificamente, For his son trata da dependência das drogas de forma direta e pouco sutil. Talvez sequer houvesse tempo para uma abordagem menos aguda e intensa do problema. Afinal, narra uma história complexa com pretensões à verossimilhança em exíguos quinze minutos. A deflagração do drama do vício encenado pelo título decorre da excessiva permissividade paterna na educação filial e da ambição desmedida que percebe as pessoas pela ótica do mais vil e imediato cálculo instrumental.


Charles Hill Mailes como o médico

A cocaína surge como resposta imediata aos problemas financeiros


For his son é pioneiro do subgênero “cinema de advertência”. Na sua esteira vieram Vício que mata (The pace that kills, 1928), de William A. O'Connor e Norton S. Parker; Narcotic (1933), de Dwain Esper e Vival Sodar't; The pace that kills ou Cocaine fiends (1935), de William A. O'Connor; A porta da loucura (Tell your children/Reefer madness, 1936), de Louis J. Gasnier; Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy Wilder; Na voragem do vício (Something to live for, 1952), de George Stevens; Vício maldito (Days of wine and roses, 1962), de Blake Edwards; Os viciados (The panic in needle park, 1971), de Jerry Schatzberg; e, entre outros, os mais recentes Drugstore cowboy (Drugstore cowboy, 1989), de Gus van Sant; Vício frenético (Bad lieutenant, 1992), de Abel Ferrara; Trainspotting: sem limites (Trainspotting, 1996), de Danny Boyle; e Réquiem para um sonho (Requiem for a dream, 2000), de Darren Aronofsky.


Apesar de figurar entre as realizações formalmente mais pobres da griffithiana, For his son apresenta muitas frentes narrativas levando-se em conta o momento da realização. Há o consultório médico, a casa da noiva (Blanche Sweet), a antessala, o laboratório, a botica, o pátio da transportadora, o escritório, a rua e a residência da secretária (Dorothy Bernard). Ao espectador contemporâneo, principalmente o mais impressionável, o roteiro de Thomas McWilliams parte do aterrador pressuposto que ainda oferece munição aos inimigos dos refrigerantes, principalmente da Coca-Cola: muitos acreditam na adição de cocaína à composição dessa bebida. Não adiantam os muitos desmentidos da The Coca-Cola Company e de instituições governamentais voltadas ao controle de drogas e alimentos. Porém, não era bem assim quando Griffith realizou For his son. Inclusive, a cocaína era comercializada sem maiores entraves nas farmácias e drogarias.


O médico (Charles Hill Mailes) eufórico com a solução dos problemas financeiros


O refrigerante Dopokoke é sucesso de vendas, inclusive entre crianças

A cocaína, elemento básico do Dopokoke


Por meio da montagem paralela e de alguns enfáticos primeiros planos reveladores, For his son apresenta a relação temerária, de consequências devastadoras, entre um médico (Charles Hill Mailes) e o filho jovem, improdutivo e irresponsável (Charles West). O pai é um profissional remediado. Direciona os parcos ganhos às necessidades do exigente herdeiro. Para solucionar o problema da falta de dinheiro, resolve, após algumas hesitações morais, misturar pequenas doses de cocaína terapêutica a um xarope medicinal. O resultado é uma bebida atraente e estimulante denominada Dopokoke. Produzida em larga escala, torna-se sucesso de vendas. O agora milionário médico pode arcar folgadamente com as despesas do filho. Porém, conforme o esperado, a ambição fala mais alto. Logo se impõe a vontade de enriquecer mais, como se isso fosse um estupefaciente. Os negócios são expandidos. Exigem o apoio de contabilidade e secretaria. Por descuido, o segredo da bebida é revelado. O filho, curioso e volúvel, logo é alcançado pelo vício. A secretária se faz dependente por obra do contador (Alfred Paget). Cenas da crescente procura ao refrigerante por populares, inclusive crianças, são alternadas com a progressiva decomposição física e moral dos viciados. A relação afetiva do herdeiro é interrompida quando a noiva, horrorizada, toma conhecimento da situação. Ele já apela para injeções. Abandonado, busca consolo com a secretária. Unidos na miséria, brigam pela posse de agulhas. Quando o pai adquire ciência do problema é demasiado tarde.


A noiva (Blanche Sweet) horrorizada com a dependência do noivo (Charles West)

A secretária (Dorothy Bernard) e o jovem filho do patrão (Charles West) degradados pelo vício


Griffith explicita o excesso de indulgência paterna na educação do filho. Paralelamente, expõe a cegueira provocada pelo acúmulo de riqueza. O rápido momento no qual o vitorioso médico avança de punhos cerrados em direção à câmera, sorrindo e fumando euforicamente, revela como se alienou à dependência do dinheiro. Nada mais interessa. Até ser cruelmente devolvido à terrível realidade em virtude dos próprios atos impensados. Os letreiros de encerramento alertam: “Ele não se importava com quem vitimava, até encontrar o resultado da própria desonra em sua porta”.


É demasiado tarde para o pai (Charles Hill Mailes) e o filho (Charles West)


Apesar da simplicidade da exposição, Griffith demonstra domínio da narrativa. Isso se percebe sobretudo na gestão do tempo de duração dos planos que conferem vigor à montagem alternada, principalmente quando expõem o crescente consumo de Dopokoke em concomitância à decrepitude das vítimas. Também merecem menção, em função da história e da época da realização, os impactantes primeiríssimos planos que revelam o frasco de cocaína marcado como “veneno” e os dedos em contato com a substância.



  
Roteiro: Emmett C. Hall (não creditado). Direção de fotografia (preto-e-branco) e operador de câmera: G. W. Bitzer. Tempo de exibição: 15 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2001)