domingo, 8 de julho de 2018

A LONGA MARCHA CHEYENNE NO ÚLTIMO WESTERN DE JOHN FORD — SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE

Os primeiros antecedentes para as filmagens de Crepúsculo de uma raça (Cheyenne Autumn, 1964) são encontrados em Richard Widmark. O intérprete do Capitão Thomas Archer no derradeiro western de John Ford foi professor universitário em Yale antes de optar pela carreira de ator com o intuito de se divertir. Formado em Literatura Inglesa, Artes e Direito, Widmark conhecia profundamente o tema da épica e longa marcha dos últimos Cheyennes rumo às terras de origem — inclusive o livro Cheyenne Autumn, de Mari Sandoz, publicado em 1953. A migração — um movimento milenarista — aconteceu em 1878. Graças ao ator, Ford tomou ciência do assunto. Inicialmente, não pretendia filmá-lo. Mudou de ideia no começo dos anos 60 e escalou Widmark para protagonista. Ao estampar a dramática situação de penúria física e material dos Cheyennes, o realizador — malgrado todas as críticas acerca das caracterizações dos líderes tribais e de alguns diálogos por demais enfáticos — inovou. Trata-se de um western avesso às principais convenções do gênero. Grosso modo, a má compreensão acompanhada de menosprezo ao filme decorre de avaliadores que optaram, metaforicamente, por observar árvores isoladas e não o conjunto da floresta. Mesmo limitado pela enfermidade que lhe abreviou a vida em 1973, Ford armou narrativa das mais complexas em estrutura vigorosamente anticlimática. Um dia — quem sabe? — Crepúsculo de uma raça será considerado com boa vontade e justiça, não somente por ser um dos mais importantes westerns revisionistas. Nele, o cineasta reavalia criticamente a própria trajetória no cinema, inclusive as esperanças alimentadas para os Estados Unidos em períodos marcados por maior otimismo. A visão acinzentada e tingida de pessimismo que passou a endereçar ao país se acentuava nos últimos filmes desde Rastros de ódio (The searchers, 1956) e, pode-se dizer, atingiu o paroxismo em Crepúsculo de uma raça. É fundamental perceber as motivações e falas dos personagens interpretados por Carroll Baker e Mike Mazurki — Deborah Wright e Stanilslaus Wichowsky — e as mudanças operadas na visão de mundo do Capitão Thomas Archer para se ter a certeza de que a realização apresenta um cineasta na plena maturidade, em diálogo crítico consigo mesmo e ao longo de todas as estações temporais nas quais consolidou uma das mais sólidas filmografias, principalmente os títulos ambientados no velho Oeste. Segue a segunda e última parte de uma apreciação originalmente escrita em 1978, revista e ampliada em 1996.







Crepúsculo de uma raça

Cheyenne Autumn

Direção:
John Ford
Produção:
John Ford (não creditado), Bernard Smith
Warner Brothers, Ford-Smith Productions
EUA — 1964
Elenco:
Richard Widmark, Carroll Baker, Ricardo Montalban, Gilbert Roland, Dolores Del Rio, Sal Mineo, James Stewart, Edward G. Robinson, Karl Malden, Arthur Kennedy, Patrick Wayne, Elizabeth Allen, John Carradine, Victor Jory, Mike Mazurki, George O'Brien, Sean McClory, Judson Pratt, Carmen D'Antonio, Ken Curtis e os não creditados Ben Johnson, Bing Russell, Carleton Young, Chuck Hayward, Chuck Roberson, Denver Pyle, Donna Hall, Harry Carey Jr., James Flavin, Jeannie Epper, John Qualen, Lee Bradley, Louise Montana, Many Muleson, Mary Statler, Nancy Hsueh, Nanomba "Moonbeam" Morton, Sam Harris, Shug Fisher, Stephanie Epper, Walter Baldwin, Walter Reed, William Henry, Willis Bouchey, James O'Hara, Frank Bradley, Danny Borzage, Dean Smith, David H. Miller, Ted Maples, Al Bain, Bert Stevens, Bill Borzage, Bill Williams, Bryan 'Slim' Hightower, Cap Somers, Charles Morton, Charles Seel, Dan Carr, Dave Dunlop, Eddie Juaregui, Harry Hickox, Harry Holcombe, Harry Strang, Jack Williams, Jerry Gatlin, Joe Brooks, Joe McGuinn, John McKee, John Roy, Mae Marsh, Mathew McCue, Michael Jeffers, Montie Montana, Philo McCullough, Rudy Bowman, Steven Manymules, Syl Lamont, Ted Smile, William Forrest, Zon Murray.



John Ford dirige sequência na guarnição militar da reserva dos Cheyennes em Crepúsculo de uma raça


Durante a penosa marcha os Cheyennes percorrem uma terra que, de familiar, lhes é, agora, totalmente estranha. Além da perseguição, enfrentam fome e doenças. Logo nos primeiros quilômetros falece o velho, alquebrado e enfermo Árvore Alta. Passa a Lobo Pequeno o “pacote sagrado”, símbolo da liderança. Isso não significa o alijamento de Faca Cega. Ambos decidem em conjunto; pensam e agem como um. Essa unidade é essencial ao grupo. Caso se rompa — se a “palha” se interpuser entre os líderes —, a nação Cheyenne correrá o risco da dissolução.


A tradução cinematográfica da unidade Cheyenne resulta na percepção da tribo como massa individualizada. É um dos trunfos de Crepúsculo de uma raça. Essa concepção se apresenta desde o início, quando os índios rumam à guarnição da reserva para a vã espera. O cenário da marcha, enquadrado pelos majestosos e maciços rochedos vermelhos de Monument Valley[1], amplia ainda mais a idéia de homogeneidade. Os Cheyennes quase sempre são percebidos emoldurados por essa paisagem mítica que remete às noções de solidez, tenacidade e permanência. Dentre as várias qualidades do cinema de Ford, Crepúsculo de uma raça destaca particularmente o rigor na combinação dos personagens com o meio envolvente. A integração dos índios com o ambiente é perfeita. As vigorosas formações do Monument Valley traduzem a coesão dos Cheyennes. Estes, por sua vez, têm ampliada a dimensão mítica pretendida pela direção, principalmente quando vistos cercados por um cenário que em tudo lembra a atemporalidade petrificada. Assim, quando a câmera capta o avanço da coluna índia diante da linha do horizonte — ou junto às mesas, aos rochedos e paredões; no centro dos vales, ou na vastidão da planície —, nada mais faz que firmar um diálogo entre uma instância que desafia o tempo — a paisagem — e outra que parece fazer o mesmo na luta pela sobrevivência — os fugitivos.


Entretanto, a moldura do Monument Valley também assume dimensões fúnebres. Apesar do significado heroico da jornada, sabe-se: aos evadidos não haverá futuro sorridente no Oeste totalmente conquistado e moldado pela vontade do colonizador. Dessa forma, a câmera iguala a coluna dos estropiados Cheyennes a mortos-vivos vagando sem descanso, inutilmente, sobre a terra que não herdarão. De fato, por mais que avancem a paisagem não muda. Ao fundo, ao lado e ao centro permanecem impávidos os mesmos rochedos do Monument Valley. Isso reforça a ideia de que, apesar da marcha rumo ao lugar de origem, os índios parecem imóveis ou caminham em círculos na aridez desesperançada de um cenário que assume ares de imenso sepulcro sob céu aberto. A percepção de imobilidade está presente desde os créditos de abertura, ilustrados por imagens de índios à semelhança de inofensivas estátuas ou miniaturas de brinquedo — pálidos reflexos da existência que levaram antes da conquista. Mas é a fixidez de Monument Valley que fala mais alto. Nunca, nem em Rastros de ódio, o cenário preferido de Ford assumiu dimensões tão invernais, trágicas, até sinistras.


Richard Widmark como o Capitão Thomas Archer e Mike Mazurki no papel do Primeiro Sargento Stanilslaus Wichowsky 

Carroll Baker como a missionária e professora Deborah Wright


Assegurar a unidade da tribo é desafio constante. Assim como o Capitão Archer às voltas com a impetuosidade de Scott, os Cheyennes também precisam lidar com a inquietação de seus rebeldes representados por Camisa Vermelha (Mineo). A mocidade, o físico imponente e o tom resplandecente e vivo das vestes do jovem e aguerrido filho de filho de Faca Cega e Espanhola (Del Rio) se destacam no conjunto aparentemente neutro e uniforme da tribo. Ele encarna a frustração do bravo que nunca participou de combates. Imprudente, ataca os soldados. Também desafia a autoridade de Lobo Pequeno, tomando-lhe uma das esposas. Suas ações trazem insegurança e provocam dissenso entre os líderes. Ameaçam a unidade. A divisão assume dimensões concretas em pleno inverno nevado, após 1100 Km percorridos, quando os Cheyennes estavam no atual estado do Nebraska, distantes 1300 Km de Yellowstone. A esta altura cessam as esperanças de matar a fome. Os bisões foram praticamente exterminados pela caça predatória dos brancos. Antigos aliados, como os Dakota, também não aparecem. A terra está vazia. Liderado por Faca Cega e confiantes na intermediação de Deborah, um grupo resolve alterar o curso e buscar socorro em Fort Robinson.


Fort Robinson é destacamento avançado comandado pelo Capitão Wessels, militar de estilo prussiano desprezado por Ford. Nada conhece dos índios, a não ser o que aprendeu em livros de autores que nunca estiveram no Oeste — a exemplo do alemão Karl May. A princípio, acolhe com humanidade os Cheyennes. Fornece-lhes aquecimento e alimentação. Ambicioso, pretende subir na hierarquia militar. Porém, recebe do alto comando ordens para aprisioná-los. Severo cumpridor de regulamentos, desprovido das necessárias temperança e margem de autonomia para fazer frente a problema tão espinhoso, não pensa duas vezes. Obedece cegamente às determinações sob os protestos de Deborah e Archer. Confina a tribo em paiol desprovido de aquecimento. Aí devem aguardar a condução sob escolta armada para a reserva. Preocupado com o rumo dos acontecimentos e pressionado pela frustração de Deborah, Archer toma a decisão de sua vida. Solicita licença e parte para Washington, ao encontro de Carl Schurz (Robinson, em papel inicialmente pensado para Spencer Tracy), Secretário do Interior que tem sob jurisdição o Departamento Indígena. Sem força política, enfrenta o fogo cruzado de militares, políticos e especuladores fundiários que o pressionam a resolver a questão Cheyenne de uma vez — de preferência pela força —, pois a paz é fundamental aos negócios. Está prestes a perder o cargo.


O Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) toma a decisão mais arriscada de sua vida


Logo no começo Ford antecipa a capacidade de iniciativa de Archer em passagem aparentemente desprovida de significado: o acomodado e centrado oficial, solicitado por Deborah, conserta a cadeira que serviria a um senador. Agora, esse ato encontra desdobramentos. Archer leva a Schurz notícias bem fundamentadas sobre a tragédia dos Cheyennes. Também confronta interesses poderosos que lhe ameaçam a carreira. Entretanto, a situação se descontrola em Fort Robinson. As atitudes intempestivas do Capitão Wessels forçam os índios a uma reação desesperada. Escapam sob o fogo dos soldados. Resta um banho de sangue, um assassinato em massa que Ford expõe sem máscaras. Poucos sobrevivem. As cenas do pátio nevado da guarnição estão apinhadas de cadáveres. Crianças índias, atônitas e desesperadas, a tudo testemunham. Wessels, bêbado e catatônico, perambula no cenário de horror. São momentos dos mais fortes e pungentes da fordiana.


O Capitão Wessels (Karl Malden) no cenário do massacre em Fort Robinson


Os sobreviventes — dentre os quais Faca Cega, Espanhola e Camisa Vermelha — se reúnem ao grupo do qual se separaram a 1800 Km do início da jornada, no atual estado do Dakota, em um lugar expressivamente denominado Caverna da Vitória pelos Cheyennes. Porém, não há tempo para confraternizações. O exército, sob as ordens do General Sheridan, cerca a área com apoio de canhões. O espectador familiarizado à obra de Ford certamente se lembrará: herói da Guerra de Secessão, Philip Henry Sheridan mereceu bela e emocionada homenagem em Rio Grande, último filme da Trilogia da Cavalaria completada por Sangue de heróis e Legião invencível. Interpretado por J. Carrol Naish, foi saudado como “The Bold Fenian Man” pela evocativa e tradicional canção Down by the glen side executada pelos soldados interpretados pelo conjunto The Sons of the Pioneers (Ken Curtis, Hugh Farr, Karl Farr, Lloyd Perryman, Shug Fisher e Tommy Doss). Quatorze anos depois, em Crepúsculo de uma raça, Sheridan não goza de prestígio algum. É apenas um personagem sem rosto, somente um nome que ordenou covarde cerco a um grupo inferiorizado de infelizes maltrapilhos.


Diante da Caverna da Vitória
Lobo Pequeno (Ricardo Montalban), Faca Cega (Gilbert Roland) e Camisa Vermelha (Sal Mineo) 


Felizmente os canhões não disparam, graças à providencial chegada de Carl Schurz e Archer. O Secretário do Interior ordena o fim da insensatez e adverte o renitente Coronel (Bouchey) no comando das tropas. Adianta-se para dialogar com Faca Cega e Lobo Pequeno, apesar da irada reação de Camisa Vermelha. O monumental esforço iniciado nas áridas paragens do território de Oklahoma chega ao fim. A grandeza da epopéia é reconhecida. A Presidência dos EUA consente no retorno dos Cheyennes à terra ancestral. Resta a cura das feridas. Em cerimônia tribal, o humilhado Lobo Pequeno mata Camisa Vermelha em ajuste de contas. A seguir, transfere para Faca Cega o “pacote sagrado” — símbolo do chefe dos chefes — e se aparta do grupo. Afinal, conforme a tradição, “Não poderá permanecer na terra dos Cheyennes aquele que derramou o sangue de outro Cheyenne”.


O Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) e o Secretário do Interior Carl Schurz (Edward G. Robinson)


Apesar das muitas virtudes, Crepúsculo de uma raça não é plenamente realizado. As dificuldades decorrem do próprio estado físico de John Ford, visivelmente adoentado e necessitado de cuidados médicos ao longo de praticamente todo o extenuante processo de filmagens em locações. Muitas quebras de tom impedem a solidez de uma estrutura narrativa coerentemente armada. Além do mais, o diretor enfrentou desafios de outra ordem: alguns pelo fato de levar adiante uma autoexpiação ou mea culpa; outros por Crepúsculo de uma raça desafiar as próprias concepções cinematográficas do western e do Oeste. Às vezes padece por causa da longa duração, outras de inconstâncias rítmicas. As maiores virtudes decorrem da fotografia invernal de William Clothier e música de Alex North — ainda assim considerada excessiva por Ford. Também não apreciou o hipnótico formato Super Panavision 70 mm. Responsabilizou-o por provocar considerável dispersão dos elementos cênicos quando pretendia integrá-los mais intimamente à imagem.


Entretanto, os principais problemas de Crepúsculo de uma raça não decorrem da direção. Ford se queixou das decisivas intromissões do coprodutor Bernard Smith: optou por montagem que não contribuiu para a fluência do relato e suprimiu cenas consideradas importantes. Assim, prejudicou a desconcertante sequência de Dodge City — com Wyatt Earp (Stewart) e Doc Holliday (Kennedy). Parece apartada do conjunto, como se fosse um trecho inserido a fórceps e incapaz de informar a que veio. Originalmente, Ford concebeu-a como intermission. Seria uma distração ao espectador, para diluir a dimensão por demais trágica e densa da história. Confirmou para Peter Bogdanovich o desvirtuamento da idéia: a intromissão de Bernard Smith nada mais fez que incluir um descanso de verdade em meio à tragédia[2]. Desta forma, a frustrada Batalha de Dodge está mais para uma sequência burlesca ao estilo dos Keystone Cops. Nem todas as cópias de Crepúsculo de uma raça apresentam integralmente a intermission. Ainda assim, apesar de desconectada, vale apreciá-la. Ford aproveitou-a para desmistificar dois dos mais preciosos mitos do Oeste e de sua filmografia: Wyatt Earp e Doc Holliday, imortalizados em Paixão dos fortes. O Earp interpretado por James Stewart em nada se parece ao xerife cavalheirescamente gentil vivido por Henry Fonda em 1946. Agora é cínico, vaidoso e amoral — praticamente um prolongamento do maculado Marshal Guthrie McCabe (novamente Stewart) de Terra Bruta, mais preocupado com em obter ganhos extras em desacordo com as liturgias do cargo. Apesar disso, o personagem critica a paranóia instalada com relação aos índios. Já o Doc Holliday personificado por Arthur Kennedy pouco lembra o tísico jogador e pistoleiro vivido por Victor Mature. Está totalmente curado em Crepúsculo de uma raça.


John Carradine, James Stewart e Arthur Kennedy fazem Major Jeff Blair, Wyatt Earp e Doc Holliday

  
Bernard Smith também vetou planos para a melhor caracterização dos Cheyennes. Segundo Tag Gallagher, Ford foi obrigado a engolir um elenco de feições caucasianas e meia idade para dar vida aos principais personagens índios[3]. Já os protegidos Navajos se encarregaram do grosso da figuração. O diretor trabalhou insatisfeito com Gilbert Roland, Ricardo Montalban, Sal Mineo e Karl Malden — distantes das características fundamentais da The Ford Stock Company.


Carroll Baker foi outra imposição. Apesar de admirá-la, Ford queria atriz mais madura para interpretar Deborah Wright. Afinal, segundo a novela Cheyenne Autumn, de Mari Sandoz — principal base para o roteiro de James R. Webb e Patrick Ford —, a professora que acompanhou os índios era uma solteirona de idade avançada que abandonou a jornada por incapacidade física. Porém, confessa Ford: queriam para o papel “uma mulher jovem e bonita”[4]. Apesar de tantas interferências que pretendiam deixar o filme mais palatável ao público médio estadunidense, Crepúsculo de uma raça fracassou nas bilheterias. A crítica, descontadas as raríssimas exceções, considerou-o enfadonho.


Outras alterações em relação ao original de Sandoz foram percebidas por Tag Gallagher: Lobo Pequeno não matou Camisa Vermelha e, sim, Alce Pequeno. Essa morte se deu em circunstâncias diferentes de uma cerimônia tribal. A mulher pivô da questão era filha e não esposa. Faca Cega foi descrito como um bêbado e não um chefe altivo e determinado[5]. Já o Secretário do Interior Carl Schurz não se envolveu diretamente com os Cheyennes e, provavelmente, nunca foi ao Oeste.


Primeiro Sargento Stanilslaus Wichowsky  (Mike Mazurki) e o Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) 


Algumas passagens refletem um idealismo gritantemente ingênuo, até para época da realização. Exemplo é Archer dizendo a Shcurz: “Se o povo tivesse visto (a situação dos Cheyennes) não iria gostar”. Ou o questionamento de Faca Cega para o Secretário: “O povo! Quem contará ao povo o que aconteceu em Fort Robinson?” “Eu contarei!” — responde Schurz taxativamente.


Crepúsculo de uma raça possibilita uma das mais belas homenagens que o cinema ofereceu a Abraham Lincoln. Sempre que podia, Ford o reverenciava. A primeira vez foi em O cavalo de ferro. A seguir, Lincoln ilustrou figurativamente, como homem de boa vontade, O prisioneiro da Ilha dos Tubarões (The prisoner of the Shark Island, 1938). Em 1939 serviu de tema a uma das obras mestras da fordiana: A mocidade de Lincoln[6]. Em Crepúsculo de uma raça, Carl Schurz questiona o que parece simplesmente uma parede. Pergunta: “E você, velho amigo, o que faria?”. Logo a câmera revela o contracampo: o retrato do assassinado presidente sob o vidro que reflete o rosto do Secretário do Interior.


Alguns atores caros a Ford aparecem em Crepúsculo de uma raça. Praticamente repetem papéis de outros filmes do diretor. Ben Johnson, por exemplo: o soldado Plumtree não deixa de ser o Sargento Tyree de Legião invencível. Johnson, campeão de rodeios e cowboy de verdade, contou com a proteção de Ford no início da carreira. Estreou no cinema em O céu mandou alguém (3 godfathers, 1948). Atuou em Rio Bravo e protagonizou Caravana de Bravos. Também comparece em Os brutos também amam (Shane, 1953), de George Stevens; A face oculta (One-eyed jacks, 1961), de Marlon Brando; e em realizações de Sam Peckinpah: Juramento de vingança (Major Dundee, 1965), Meu ódio será sua herança (Wild bunch, 1969), Dez segundos de perigo (Junior Bonner, 1972), Os implacáveis (The getaway, 1972). Foi dublê de John Wayne. Conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em A última sessão de cinema (The last picture show, 1971), de Peter Bogdnovich.


Shug Fisher e Ted Maples, respectivamente intérpretes do bêbado chutado do saloom pelo barman (Jack Pennick) e do gago vaqueiro Kentucky em O homem que matou o facínora retomam essas personas em Crepúsculo de uma raça. John Carradine, no papel do Major Jeff Blair — companheiro de pôquer de Wyatt Earp e Doc Holliday —, interpretou o jogador Hatfield em No tempo das diligências. Com Ford, Carradine também atuou em O prisioneiro da Ilha dos Tubarões, Mary Stuart, rainha da Escócia (Mary of Scotland, 1936), O furacão (The hurricane, 1937), Quatro homens e uma prece (Four men and a prayer, 1938), Patrulha submarina (Submarine patrol, 1938), Ao rufar dos tambores, As vinhas da ira (The grapes of wrath, 1940), O último hurra (The last hurrah, 1958) e O homem que matou o facínora.


De volta à terra de origem: os Cheyennes chegam ao fim da longa marcha


Por fim, há George O’Brien — ator caro a Ford. Começou no cinema na década de 20 como assistente de câmera e dublê de Tom Mix. Para o diretor protagonizou O cavalo de ferro, Thank you (1925), Coração intrépido (The fighting heart, 1925), Três homens maus (Three bad men, 1926), A águia azul (The blue eagle, 1926), Em continência (Salut, 1929) e Sob as ondas (Seas beneath, 1931). Também trabalhou com Ford em Sangue de heróis e Legião invencível, nos papéis de oficiais da cavalaria tal qual em Crepúsculo de uma raça. Foi o protagonista de Aurora (Sunrise, 1927), obra mestra de Friedrick Wilhelm Murnau.





Roteiro: James R. Webb, Patrick Ford (não creditado), sugerido da novela Cheyenne Autumn, de Mari Sandoz, e da não creditada novela The last frontier, de Howard Fast. Direção de fotografia (Technicolor, Super Panavision 70): William H. Clothier. Direção de arte: Richard Day. Montagem: Otho Lovering, David Hawkins (não creditado). Som: Francis E. Stahl. Decoração: Darrell “Darryl” Silvera. Assistentes de direção: Wingate Smith, Russell “Russ” Saunders. Associado à direção e direção de segunda unidade: Ray Kellogg. Consultor de assuntos indígenas: David H. Miller. Música e direção musical: Alex North. Coordenação de dublês: Chuck Roberson. Narradores: Spencer Tracy, Richard Widmark. Figurinos (não creditados): Frank Beetson Jr., Ann Peck. Maquiagem: Norman Pringle (não creditado). Efeitos especiais: Ralph Webb (não creditado). Dublês (não creditados): Eli Bo Jack Blackfeather, Jeannie Epper, John Epper, Stephanie Epper, Jerry Gatlin, Donna Hall, Chuck Hayward, Bryan 'Slim' Hightower, John Hudkins, Loren Janes, Leroy Johnson, Eddie Juaregui, Cliff Lyons, Ted Mapes, John McKee, Louise Montana, Montie Montana, Rudy Robbins, Chuck Roberson, Dean Smith, Neil Summers, Bill Williams, Jack Williams. Operador de câmera: Gerald Perry Finnerman (não creditado). Fotografia de cena: John R. Hamilton (não creditado). Aparelhamento elétrico: Doug Mathias (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): George R. Schrader, Harrold Weinberger. Assistente de figurinos: Luster Bayless (não creditado). Gerente de locações: Bill Cornford (não creditado). Orquestração (não creditada): Henry Brant, Gil Grau. Sistema de mixagem de som: Stereo em 6 pistas para cópias em 70mm e mono para 35 mm. Tempo de exibição: 159 minutos (165 minutos na versão original).


(José Eugenio Guimarães, 1978; revisto e ampliado em 1996)



[1] Essa área de singular beleza, esculpida pela erosão eólica, está situada no coração da Reserva Navajo, entre os estados do Utah e Arizona. Com o tempo, tornou-se a locação predileta de John Ford que aí rodou No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), Paixão dos fortes, Sangue de heróis, Legião invencível, Rastros de ódio, Audazes e malditos e Crepúsculo de uma raça. É cortada pelo Rio San Juan — atravessado pelos Cheyennes quando deixam os limites da reserva — que, segundo o diretor, parece "desenhado por (Frederick) Remington (artista estadunidense considerado mestre na recriação do velho Oeste). É o rio do Oeste mais típico que conheço. Clássico!". Cf. BODANOVICH, Peter. Op. cit. 1986. p. 172 (parênteses de José Eugenio Guimarães).
[2] Cf. BOGDANOVICH, Peter. Op. cit. 1983, p. 99.
[3] GALLAGHER, Tag. John Ford: the man and his films. Bekerley: University of California. 1988. p. 429.
[4] BOGDANOVICH, Peter. Op. cit., 1983, p. 99.
[5] GALLAGHER, Tag. Op. cit. p. 429.
[6] Charles Edward Bull, Frank McGlynn Sr. e Henry Fonda interpretaram Abraham Lincoln, respectivamente, em O cavalo de ferro, O prisioneiro da Ilha dos Tubarões e A mocidade de Lincoln.

domingo, 1 de julho de 2018

A LONGA MARCHA CHEYENNE NO ÚLTIMO WESTERN DE JOHN FORD — PRIMEIRA PARTE

Geralmente, nos dias que correm, Crepúsculo de uma raça (Cheyenne Autumn, 1964) — último western de John Ford — só pode ser visto na diminuta e medíocre tela da TV. É desses filmes só plenamente apreciados nos cinemas, ainda mais se as salas admitirem a esplendorosa, hipnótica e inesquecível projeção no original Super Panavision 70 mm — formato, apesar de tudo, mal avaliado pelo diretor. Responsabilizou-o pela dispersão dos elementos cênicos quando a intenção era integrá-los mais intimamente à imagem. A realização apresenta outros problemas, decorrentes sobremaneira das intervenções do produtor majoritário Bernard Smith. É o mesmo financiador do ambicioso e superficial empreendimento épico de A conquista do Oeste (How the West was won, 1962), de Henry Hathaway, George Marshall e John Ford. Em Crepúsculo de uma raça, Ford é produtor minoritário não creditado. Apesar de desenvolver um projeto do coração, teve que se sujeitar a muitas interferências do sócio majoritário. Essas se refletiram na escolha do elenco considerado inadequado para a representação das lideranças Cheyennes, montagem que suprimiu cenas e passagens consideradas importantes e, entre outras, no mau aproveitamento da sequência de Dodge City — concebida como intermission. Informações a confirmar atestam: Bernard Smith assumiu responsabilidades por John Ford junto às seguradoras em vista da fragilidade provocada pela doença que o consumia. As atividades em locações naturais do Arizona, Utah, Colorado e Califórnia exigiam considerável esforço físico e eram arriscadas para o velho e incansável cineasta. Em parte baseado no romance Cheyenne Autumn de Mari Sandoz, o roteiro de James R. Webb e do não creditado Patrick Ford incorpora elementos do não referenciado escritor Howard Fast em The last frontier. Apesar dos senões, Crepúsculo de uma raça é um feito de singular beleza carregado de intensa sinceridade. Como uma tragédia das mais compassadas, reconstitui dramática e histórica epopéia digna de figurar entre os grandes movimentos milenaristas: os últimos remanescentes da derrotada nação Cheyenne, militarmente submetidos aos rigores de uma reserva inóspita, enfrentam o sobre-humano desafio de voltar à região de origem: a terra sem males distante milhares de quilômetros em Yellowstone. Esta é a primeira das duas partes de uma apreciação originalmente escrita em 1978, revista e ampliada em 1996.






Crepúsculo de uma raça

Cheyenne Autumn

Direção:
John Ford
Produção:
John Ford (não creditado), Bernard Smith
Warner Brothers, Ford-Smith Productions
EUA — 1964
Elenco:
Richard Widmark, Carroll Baker, Ricardo Montalban, Gilbert Roland, Dolores Del Rio, Sal Mineo, James Stewart, Edward G. Robinson, Karl Malden, Arthur Kennedy, Patrick Wayne, Elizabeth Allen, John Carradine, Victor Jory, Mike Mazurki, George O'Brien, Sean McClory, Judson Pratt, Carmen D'Antonio, Ken Curtis e os não creditados Ben Johnson, Bing Russell, Carleton Young, Chuck Hayward, Chuck Roberson, Denver Pyle, Donna Hall, Harry Carey Jr., James Flavin, Jeannie Epper, John Qualen, Lee Bradley, Louise Montana, Many Muleson, Mary Statler, Nancy Hsueh, Nanomba "Moonbeam" Morton, Sam Harris, Shug Fisher, Stephanie Epper, Walter Baldwin, Walter Reed, William Henry, Willis Bouchey, James O'Hara, Frank Bradley, Danny Borzage, Dean Smith, David H. Miller, Ted Maples, Al Bain, Bert Stevens, Bill Borzage, Bill Williams, Bryan 'Slim' Hightower, Cap Somers, Charles Morton, Charles Seel, Dan Carr, Dave Dunlop, Eddie Juaregui, Harry Hickox, Harry Holcombe, Harry Strang, Jack Williams, Jerry Gatlin, Joe Brooks, Joe McGuinn, John McKee, John Roy, Mae Marsh, Mathew McCue, Michael Jeffers, Montie Montana, Philo McCullough, Rudy Bowman, Steven Manymules, Syl Lamont, Ted Smile, William Forrest, Zon Murray.



Nas locações de Crepúsculo de uma raça:
John Ford orienta cena com Richard Widmark, George O'Brien (sentado)  e Walter Baldwin (atrás do diretor, intérpretes respectivos  do Capitão Thomas Archer, Major Braden e Jeremy Wright



Três anos após se despedir do cinema com Sete mulheres (Seven women, 1966) e quatro antes de falecer em 31 de agosto de 1973, John Ford ofereceu entrevista a Claudine Tavernier. Dentre os próprios títulos, listou rapidamente os preferidos: O sol brilha na imensidão (The Sun shines bright, 1953) e A mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln, 1939), seguidos por A longa viagem de volta (The long voyage home, 1940), Como era verde o meu vale (How green was my valley, 1941), Ao rufar dos tambores (Drums along the Mohawk, 1939), Legião invencível (She wore a yellow ribbon, 1949), Audazes e malditos (Sergeant Rutledge, 1960), Domínio de bárbaros (The fugitive, 1947) e Crepúsculo de uma raça[1].


O último título relacionado — epopéia perpassada por dor e tragédia — é o relato anticlimático de um episódio marginal da consolidação da conquista do Oeste. Os personagens, movidos por disposição heroica, desafiam a morte na tentativa de recomposição da humanidade e dignidade perdidas. Hoje, certamente, os fatos em tela estão esquecidos — atropelados pela rapidez das conjunturas sociais. No máximo — como lembra a narração — ilustram algumas notas de rodapé nas páginas da História.


Os guerreiros Cheyennes protagonizam Crepúsculo de uma raça. Vencidos pelo General Milles em 1877, foram removidos da região que sempre habitaram — Yellowstone, entre os atuais estados do Wyoming e Dakota do Norte — e concentrados a 2400 Km em área inóspita do futuro estado de Oklahoma. A calamitosa situação seria, em princípio, provisória. Afinal, aos vencidos os vitoriosos prometeram dias melhores nos tratados firmados.


A narrativa começa em sete de setembro de 1878. Restam apenas 286 índios dos mil chegados à reserva um ano antes. Foram dizimados por doenças, fome, frio e falta de perspectivas. Nesse dia, apesar do ceticismo, amanhecem esperançosos. Chegará de Washington a tão aguardada representação do Senado para validar a palavra solenemente empenhada nos acordos de paz. Andrajosos, com os rostos sulcados por rugas, dor, melancolia e descrença, os sobreviventes se dirigem à guarnição militar que administra e vigia a área. À frente segue o velho chefe Árvore Alta (Jory), ladeado pelos imediatos Faca Cega (Roland) e Lobo Pequeno (Montalban). O grupo se detém a poucos passos da mesa cerimonial. Sob o sol abrasador começa longa, lenta e silenciosa vigília. Árvore Alta não suporta o esforço exigido e cai. Porém, o corpo alquebrado, ainda obediente à determinação e dignidade do chefe, dispensa auxílio e se ergue pelo próprio esforço. A espera se prolonga pelo resto do dia. Às 17 horas chega a notícia: a comissão não virá.


O chefe Árvore Alta (Victor Jory) ladeado pelo imediatos Lobo Pequeno (Ricardo Montalban) e Faca Cega (Gilbert Roland)

Árvore Alta (Victor Jory) durante a longa, penosa e inútil espera

Confirmam-se as más notícias: mais uma vez os acordos não serão cumpridos
 Lobo Pequeno (Ricardo Montalban), Árvore Alta (Victor Jory) e Faca Cega (Gilbert Roland)


O começo de Crepúsculo de uma raça é contundente. John Ford expõe economicamente, em poucas cenas, a penúria dos Cheyennes. Valoriza closes, planos de conjunto e, acima de tudo, o silêncio quebrado vez ou outra pelas intervenções dos soldados e pungentes notas da melodia em tom de réquiem de Alex North. Na filmografia do diretor a realização segue a O aventureiro do Pacífico (Donovan’s reef, 1963). É seu último western e antepenúltima realização. Faria a seguir O rebelde sonhador (Young Cassidy, 1965)[2] e Sete mulheres.


Uma injustiça paira sobre John Ford, alimentada inclusive por ele. Em entrevista a Peter Bogdanovich praticamente deu razão aos detratores que invariavelmente o acusavam de dizimador de índios: “Sabe, matei mais peles-vermelhas que Custer, Beecher e Chivington juntos”[3]. Ainda que possa ser verdadeira a autoapreciação, há que destacar: Ford foi um dos primeiros cineastas a recompor a humanidade ao índio. Em Sangue de heróis (Fort Apache, 1948), de corajoso pioneirismo, o chefe Cochise (Miguel Inclán) denuncia em alto e bom som as injustiças sofridas, promessas sempre quebradas e os acordos nunca cumpridos. Ford também amparou os Navajos que o homenagearam, na língua tribal, com o nome de Natani Nez ou Chefe Alto. Não é exagero afirmar: Sangue de heróis abre as portas para Flechas de fogo (Broken Arrow, 1950), libelo favorável aos índios de Delmer Daves. Da mesma forma, Crepúsculo de uma raça possibilita O Pequeno Grande Homem (Little Big Man, 1970), de Arthur Penn; Quando é preciso ser homem (A soldier blue, 1970), de Ralph Nelson; e Dança com Lobos (Dances with Wolves, 1990), de Kevin Costner — títulos que denunciam massacres e genocídios cometidos pelo Exército dos Estados Unidos.


Qualquer filme de Ford revela aguda sensibilidade histórica. Ele sabia: muitas verdades passadas à posteridade são somente versões de acontecimentos pouco gloriosos ou heroicos. Assim foi a conquista do Oeste. A formação dos Estados Unidos da América é bem estampada em quase todos os filmes que realizou e obedece a um ponto de vista muito particular. Se o cineasta na “idade da inocência” — começo da carreira, em 1917, ao fim dos anos 30 — muitas vezes exaltou, inclusive com euforia, os mitos e lendas acerca dos vencedores, isso de deve mais à sua própria mocidade coincidente com a juventude do país. Nessa época, terra e homem buscavam afirmação. Orientavam-se por imagens e ideias pouco críticas quanto às projeções do passado ainda fresco, lembrado e reconstituído com emoção. Entretanto, há um diferencial: mesmo as análises pouco criteriosas dessa fase revelam em Ford uma ligação incomum não com os grandes personagens, mas com aqueles que ficaram à margem: a gente simples formada de pioneiros, imigrantes, vaqueiros, pistoleiros, esposas, mães e soldados rasos que não encontram espaços à individualização nos livros, hinos e compêndios. Para Ford, o país é, prioritariamente, o resultado do esforço e determinação de anônimos.


Após a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos assumem posição de vanguarda no concerto internacional. Esse amadurecimento e maior visibilidade forçam a poderosa nação à desconfortável reavaliação de seu papel, inclusive dos pilares sobre os quais foi internamente erguida. Segura de si e de seu destino, inicia o questionamento de mitos e resgata personagens até então desprezados. No cinema, essa mudança de perspectiva é claramente sentida, principalmente no western. O cowboy impoluto e bom abandona a tela; torna-se representação do passado; humaniza-se. Mais lentamente, a figura do índio também é reavaliada. As inúmeras tribos que desafiavam o expansionismo predatório do colonizador estavam há muito derrotadas e enquadradas. Deixaram de oferecer ameaças. O inimigo estadunidense abandonou o interior do país. O temor vermelho mudou de significado e se deslocou para o front externo. Assim, os selvagens das pradarias se convertem em lembranças de um tempo agora iluminado pela crítica revisionista. Estão firmadas as condições sociais para contar o outro lado da História através da visão mais matizada dos fatos. Nesse novo cenário encontramos John Ford reavaliando a si e ao seu cinema. É o período que vai de Sangue de heróis a Crepúsculo de uma raça.


Ford declarou para Peter Bogdanovich[4] que os estadunidenses sempre trataram os índios muito mal. “Isso será sempre uma mancha em nossa história. Enganamos, roubamos (...) assassinamos. Porém, se eles matassem somente um branco, por Deus, chamavam o Exército para combatê-los”[5]. Ainda na ocasião, acerca de Crepúsculo de uma raça, confessou emocionado: “Há muito queria fazê-lo. Gosto muito dos índios. São um povo muito digno. Têm uma literatura própria. Não escrita, oral. São muito bondosos. Gostam de crianças e animais. E quis mostrar, uma vez que fosse, o ponto de vista deles”[6].


Isso fez o diretor. Realizou uma comovente e melancólica epopeia crepuscular na qual atribui o máximo de dignidade a uma gente em tudo vilipendiada pelas armações da conquista. Destaca o porte altivo dos Cheyennes, detalha expressões sofridas, enrugadas e carregadas de significados, enfatiza curtos trechos de diálogos, como estes: “Vocês continuam comprometidos a obedecer a lei, lembrem-se disso” — diz o Capitão Archer (Widmark) a Faca Cega e Lobo Pequeno. Este contrapõe: “Pedem a nós para lembrar muito, homem branco não lembra nada”. Mais adiante Faca Cega afirmará com contundência: “Até um cão pode ir aonde quer, não um Cheyenne”. Tocado pelo impacto de Crepúsculo de uma raça, o crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva o definiu como “um hino à dignidade do índio”[7].


Liderados por Árvore Alta (Victor Jory), os Cheyennes aguardam pelo cumprimento dos tratados

A professora quaker Deborah Wright (Carroll Baker), testemunha da miséria Cheyenne


Crepúsculo de uma raça foi filmado em Monument Valley, Reserva Navajo, Deserto de Moab e nos canyons de Gunnison no estado do Colorado. Custou significativos — para a época — 6,5 milhões de dólares e exigiu os esforços de 600 pessoas aproximadamente. Certamente, é a única superprodução sonora de Ford[8]. Após tantos filmes nos quais revelou a necessidade e funcionalidade da lenda como elemento estruturador à consolidação e legitimação de uma visão social de mundo, alterou radicalmente o enfoque. Quanto a isso, é bom recorrer às palavras de Ely Azeredo: “... O último western de (Ford) ilustra simultaneamente a coragem crítica (...) e sua inigualável visão da história do Oeste Americano. Plasticamente, (...) com vigor de composição digno dos melhores exteriores fordianos, focaliza com precisão quase documentária o ‘último capítulo da história da nação Cheyenne’. (...). Respeitando as grandes linhas históricas, John Ford se arriscou a digressões pouco favoráveis à armação épica, à evolução dramática que lastreava a popularidade de seus westerns de estatura clássica. O crepúsculo (...) dos Cheyennes tem o estilo coerente e comunicativo habitual em Ford, mas o cineasta se recusa, por fidelidade a um objetivo maior, a empolgar o espectador. A grande respiração épica do cinema fordiano aparece como que petrificada no décor hibernal, no ritmo ritualístico-trágico. É fácil observar, também, que (...) Ford abandonou a adesão entusiástica as legendas da conquista e da colonização do Oeste. (...) Peter Bogdanovich marcou bem (essa) evolução (...) a partir do (otimista, jovial e desconcertantemente simples) Caravana de bravos (Wagon master, 1950) (...). Depois da Trilogia da Cavalaria, encerrada com Rio Bravo (Rio Grande, 1950), seu western seguinte, feito seis anos mais tarde, ‘mostrava o início de uma mudança[9]: uma história épica, feita de comédia e drama, Rastros de ódio (The searchers, 1956), termina com uma nota trágica quando o homem do Oeste, Ethan Edwards (John Wayne) (...), parte sozinho. Marcha de heróis (The horse soldiers, 1959), Audazes e malditos e Terra bruta (Two rode together, 1961), são crescentemente amargos em espírito até que com (o amargo e crítico) O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valance, 1962) ele parece fazer o testamento final sobre o western”[10].


Ludibriados pelos senadores, outra vez frustrados por um acordo solene rompido, os Cheyennes desistem de esperar. À morte lenta e desonrosa nas inóspitas paragens de Oklahoma, decidem tomar as rédeas do destino. Contra tudo e todos voltarão à terra de origem. Reúnem os poucos pertences, armas e animais. À noite abandonam a reserva. Deborah Wright (Baker) — jovem professora quaker e alfabetizadora das crianças da tribo — os acompanha na fuga. Assume duplo papel durante a jornada: o claramente demarcado de missionária abnegada e protetora dos Cheyennes, e, simbolicamente, testemunha da degradação à qual foram expostos na reserva e durante a longa marcha.


Deborah Wright, principal ponto de vista crítico do filme, prolonga o olhar humanista de Ford. É a interseção ou o equilíbrio entre duas concepções conflitantes: a do Exército, representado por homens como o Major Bradley (O’Brien) — que toma a evasão dos Cheyennes como ato de guerra e parte para combatê-los — e a dos próprios índios — acuados e desesperados, dispostos ao sacrifício extremo para superar limites. Deborah busca o meio-termo, a concórdia, o convívio pacífico e digno entre os diferentes. Não para menos é professora. Como educadora tem por missão preparar o futuro. Acredita — tal qual diretor — em um porvir melhor que o presente. Ocupa posição oposta ao soldado moldado pelo pragmatismo. Este percebe apenas a realidade e as relações sociais como instâncias imóveis, sempre idênticas. Deborah expõe seu ponto para Archer. Para este, os índios serão sempre “violentos e malvados sanguinários, guerreiros natos”, mesmo os Cheyennes da reserva “tão dignos de pena”. Deborah contrapõe: “Você só vê o passado e o presente. Eu penso no futuro” ou na integração com a educação servindo de base à consolidação desse projeto ou utopia.


O Capitão Thomas Archer (Richard Widmark)


A valorização da educação, logo da cidadania, é constante nos filmes de Ford. Deborah Wright tem predecessores ilustres: Clementine Carter (Cathy Downs) de Paixão dos Fortes (My darling Clementine, 1948), a resoluta e determinada Senhora Jorgensen (Olive Carey) de Rastros de ódio, e Ramson Sttodart (James Stewart), o teimoso progressista de O homem que matou o facínora.


A professora Clementine Carter chega do Leste à inóspita Tombstone. Apesar das desilusões desta terra de ninguém, resolve permanecer e fundar uma escola. A Senhora Jorgensen, outrora professora, recusa a maldição que o marido Lars (John Qualen) lança às violentas paragens texanas nas quais perdeu o filho. Mantém a esperança e prevê: “Um dia esta terra será um bom lugar para viver”. Recentemente chegado a Shinbone, o jovem advogado Ramson Sttodart acredita na educação como pilar da democracia. Contra a opinião cristalizada pelo senso comum, ensina as letras e o significado das leis — opondo-as à irracionalidade do gatilho e dos punhos.


No entanto, Crepúsculo de uma raça é um Ford carregado de desencanto. O diretor perdeu as esperanças em integração e futuro promissor. Praticamente prolonga a visão pessimista e desesperançada endereçada ao Oeste, por extensão à América, em Terra bruta. A fronteira, tantas vezes percebida como espaço da promissão, torna-se lugar de egoísmo, mesquinharia e exclusão. Nesse sentido, Crepúsculo de uma raça destaca: 1) o cowboy lendário, qual nobre cavaleiro andante das paragens do Oeste cinematográfico, agora é o estúpido, sinistro e covarde matador de índios famintos como Joe (Curtis) e companheiros; 2) um conluio de interesses espúrios entre especuladores fundiários, militares e políticos corruptos é responsável pela dramática situação dos Cheyennes; 3) o Exército, tantas vezes exaltado por Ford como ambiente de convívio democrático, serve apenas ao carreirismo e farisaísmo de oficiais preocupados com a honra pessoal a exemplo do Capitão Wessels (Malden); 4) esse mesmo Exército, sem meios-tons, é comparado pelo Primeiro-Sargento Stanilslaus Wichowsky (Mazurki) — fazendo a consciência do diretor — aos cossacos que lhe aterrorizavam a Polônia natal, matando poloneses “apenas por serem poloneses, como nós estamos querendo matar índios só porque são índios. Eu tinha orgulho de ser soldado americano. Mas não sinto orgulho de ser cossaco. (...). Enfrentei índios que queriam brigar comigo. Não um bando de famintos peles-vermelhas que só querem voltar para casa”; e, 5) o jornalista idealista e generoso como Duton Peabody (Edmond O'Brien) de O homem que matou o facínora deu lugar ao noticiador inescrupuloso e sensacionalista que amplia conscientemente a real dimensão dos fatos ao falseá-los com o objetivo de vender mais jornais, ou a tomar o partido dos índios com idêntico fim.


Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) e o soldado Plumtree (Ben Johnson)


Nesse contexto de desilusões parecem quixotescas as imagens e esperanças de Deborah Wright. Quanto a isso é exemplar a cena na qual toca exaustiva e inutilmente o sino, chamando as crianças índias para as aulas. Para que escola se as “palavras dos brancos são mentiras? É melhor que nossas crianças não as aprendam”, diz Lobo Pequeno à professora. Ford não faz reparos à fala. Como assinalou J. A. Place, em Crepúsculo de uma raça valores como “democracia” e “educação” parecem inadequados pelo fato de não se acreditar em seus significados[11]. Essa visão pessimista explica a derradeira cena do filme: as minúsculas silhuetas de Lobo Pequeno e esposa (D’Antonio) na amplidão do horizonte revelam mais que a simples e aparente imagem de dois desgarrados que se excluíram do grupo de pertencimento ao término da longa marcha. Representam o destino do índio em geral, expulso da terra à qual pertencia, transformado em pária, sem lugar numa sociedade que o negará sempre.


O Capitão Thomas Archer — oficial de campo moldado na ação, profundo conhecedor da terra e dos homens que comanda — é o personagem emblemático de Crepúsculo de uma raça. Representa a parte do Exército poupada por Ford. Não tem a limitação do burocrático militar de gabinete que percebe o mundo conformado a regulamentos rígidos. Plástico, molda-se às mais diversas situações. Participou de campanhas contra os índios; tem ciência de que a racionalidade dos combates não corresponde exatamente aos planos elaborados por estrategistas acomodados confortavelmente em ambientes apartados do calor, sangue e da poeira. Se Ford está diluído nos papéis interpretados por Carroll Baker e Mike Mazurki, aparece por inteiro em Archer. É aos olhos do oficial que praticamente reconstitui a trágica peregrinação Cheyenne. Richard Widmark interpreta um personagem em processo. Antes preconceituoso para julgar os índios, passa à compaixão e, finalmente, arrisca a própria carreira ao assumir a determinação de socorrê-los e impedir a consumação de desgraça maior. A mudança de visão e atitude de Archer encontra equivalente nas maneiras como John Ford concebeu e tratou os índios nas realizações ambientados no Oeste. Dos primeiros aos últimos westerns, o cineasta transitou do enfoque turvo, sinistro e sem alma dos peles-vermelhas até o ponto de realçá-los em nuanças e matizes próprios dos grupos que fazem parte da longa, complexa e diversificada experiência humana aos lhes oferecer rosto e dignidade.


O aguerrido e rebelde Camisa Vermelha (Sal Mineo)


Archer parte em perseguição aos Cheyennes tão logo é informado da fuga. Sabe da determinação dos evadidos. Entretanto, recusa o papel de algoz. Evita o ataque e qualquer contato da tropa com os índios. Apenas se propõe a segui-los. Contraria oficiais aguerridos e dispostos ao enfrentamento a qualquer preço, como o belicoso Segundo Tenente Scott (Wayne) e o preconceituoso Major Braden, comandante da guarnição da reserva. Scott é gravemente ferido ao tomar a tola e imprudente iniciativa de atacar, a ponto de por em risco o próprio destacamento. Quanto ao Major, morre na primeira escaramuça.


 Lobo Pequeno (Ricardo Montalban) e Faca Cega (Gilbert Roland)

  
A princípio, o que explica o excesso de prudência de Archer? Não é o zelo do oficial com a tropa ou a patente, mas o amor por Deborah Wright. Teme deixá-la em situação de risco. Mas é a determinação dessa mulher tão desapegada e confiante no futuro que converterá o Capitão, principalmente após os acontecimentos que antecipam a tragédia em Fort Robinson.





Roteiro: James R. Webb, Patrick Ford (não creditado), sugerido da novela Cheyenne Autumn, de Mari Sandoz, e da não creditada novela The last frontier, de Howard Fast. Direção de fotografia (Technicolor, Super Panavision 70): William H. Clothier. Direção de arte: Richard Day. Montagem: Otho Lovering, David Hawkins (não creditado). Som: Francis E. Stahl. Decoração: Darrell “Darryl” Silvera. Assistentes de direção: Wingate Smith, Russell “Russ” Saunders. Associado à direção e direção de segunda unidade: Ray Kellogg. Consultor de assuntos indígenas: David H. Miller. Música e direção musical: Alex North. Coordenação de dublês: Chuck Roberson. Narradores: Spencer Tracy, Richard Widmark. Figurinos (não creditados): Frank Beetson Jr., Ann Peck. Maquiagem: Norman Pringle (não creditado). Efeitos especiais: Ralph Webb (não creditado). Dublês (não creditados): Eli Bo Jack Blackfeather, Jeannie Epper, John Epper, Stephanie Epper, Jerry Gatlin, Donna Hall, Chuck Hayward, Bryan 'Slim' Hightower, John Hudkins, Loren Janes, Leroy Johnson, Eddie Juaregui, Cliff Lyons, Ted Mapes, John McKee, Louise Montana, Montie Montana, Rudy Robbins, Chuck Roberson, Dean Smith, Neil Summers, Bill Williams, Jack Williams. Operador de câmera: Gerald Perry Finnerman (não creditado). Fotografia de cena: John R. Hamilton (não creditado). Aparelhamento elétrico: Doug Mathias (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): George R. Schrader, Harrold Weinberger. Assistente de figurinos: Luster Bayless (não creditado). Gerente de locações: Bill Cornford (não creditado). Orquestração (não creditada): Henry Brant, Gil Grau. Sistema de mixagem de som: Stereo em 6 pistas para cópias em 70mm e mono para 35 mm. Tempo de exibição: 159 minutos (165 minutos na versão original).


(José Eugenio Guimarães, 1978; revisto e ampliado em 1996)

[1] Cf. TAVERNIER, Claudine. La 4ème dimension de la vieillesse. Cinéma 69. Paris, n. 137, p. 39, jun.1969.
[2] Filme pouco conhecido, O rebelde sonhador pertence à seção de temas irlandeses da fordiana. Narra a juventude do dramaturgo Sean O’Casey em Dublin, com base na autobiografia do autor. Ford adoeceu após duas semanas de filmagens. Foi substituído por Jack Cardiff.
[3] Cf. BOGDANOVICH, Peter. Nacos do tempo: crônicas de cinema. Lisboa: Horizonte, 1986. p. 173.
[4] BOGDANOVICH, Peter. John Ford. 2. ed. Madri: Fundamentos, 1983.
[5] Ibidem. p. 98.
[6] Ibidem. p. 175.
[7] PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. O Globo, Rio de Janeiro, 7 set.1973. Segundo Caderno.
[8] No período silencioso, em 1924, Ford dirigiu O cavalo de ferro (The iron horse), superprodução sobre o empreendimento conjunto da Union Pacific e Central Pacific para a construção da primeira ferrovia transcontinental. Em 1962 Ford se envolveu com outra superprodução bancada pelo mesmo Bernard Smith que coproduziu Crepúsculo de uma raça: A conquista do Oeste (How the west was won), para a qual dirigiu somente o breve episódio da Guerra Civil (The Civil War) centrado na Batalha de Shiloh, provavelmente o mais sangrento do conflito (Cf. BOGDANOVICH, Peter. Op. cit. 1983. p. 187.). Os outros diretores de A conquista do Oeste, Henry Hathaway e George Marshal, responsabilizaram-se respectivamente pelos episódios Os rios, as planícies, os bandidos (The rivers, the plains, the outlaws) e A estrada de ferro (The railroad).
[9] Quanto ao “início dessa mudança”, o mais correto é localizá-la em Sangue de heróis, filme inaugural da Trilogia da Cavalaria, particularmente na sequência em que Cochise (Miguel Inclán) lista para o arrogante Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) as mazelas da conquista — uma história de expropriações, submissões e massacres — que custaram a dignidade, a determinação e o orgulho de sua gente.
[10] AZEREDO, Ely. O homem universal do Oeste. Filme cultura, Rio de Janeiro, n. 25, p. 12-13, mar. 1974 (Parênteses de José Eugenio Guimarães).
[11] Cf. PLACE, J. A. The western films of John Ford. Secaucus: Citadel Press, 1974. p. 236.