domingo, 10 de junho de 2018

O MUNDO EXCESSIVO, DESIGUAL E ENFADONHO DE MEL BROOKS

O ator, diretor, compositor, roteirista, produtor e criador de piadas Mel Brooks está com 92 anos. Realizou o último filme em 1995, o mal apreciado Drácula — morto mas feliz (Dracula: dead and loving it). Encerrou a carreira de cineasta em boa hora. À exceção de S.O.S.: tem um louco solto no espaço (Spaceballs, 1987), os últimos trabalhos se revelam pesados, apelativos, excessivos, desiguais e, lógico, fatais para o humor que pretendiam explorar: A louca! Louca história de Robin Hood (Robin Hood: men in tights, 1993), Que droga de vida! (Life stinks, 1991) e, principalmente, o pretensioso e empacado História do mundo — parte I (History of the world: part I, 1981). Este se revelou um fracasso tão estrondoso a ponto de resultar no cancelamento já iniciado da continuação. Pode-se dizer: a partir desse título o mundo começou a terminar para o Mel Brooks cineasta. É um dos piores filmes que vi. Com a pretensão de encenar comicamente aspectos relevantes da história da humanidade, da pré-história à Revolução Francesa, o máximo que conseguiu foram alguns bons e isolados momentos de humor dos mais compartimentalizados: esgotam-se neles mesmos. Sobrou um mosaico épico da comédia estadunidense desprovido de dinamismo. Sequer permite o riso nervoso. Brooks é considerado um dos renovadores da comédia em seu país, não apenas a cinematográfica. Atuou em outras áreas e enriqueceu o talento de cômicos os mais variados. Ao todo, dirigiu 12 filmes. Destacam-se Primavera para Hitler (The producers, 1967), Banzé no Oeste (Blazing saddles, 1974) — com muitas ressalvas —, O jovem Frankenstein (Young Frankenstein, 1974) e — vá lá — S.O.S.: tem um louco solto no espaço. A rápida apreciação para História do mundo — parte I, a seguir, é de 1995.






História do mundo — parte I

History of the world: part I

Direção:
Mel Brooks
Produção:
Mel Brooks
Brooksfilms Limited, 20th. Century Fox
EUA — 1981
Elenco:
Mel Brooks, Dom DeLuise, Madeline Kahn, Cloris Leachman, Harvey Korman, Ron Carey, Gregory Hines, Pamela Stephenson, Spike Milligan, Shecky Greene, Sid Caesar, Mary-Margaret Humes, Rudy DeLuca, Leigh French, Richard Karron, Susette Carrol, Sammy Shore, J. J. Barry, Earl Finn, Suzanne Kent, Michael Champion, Howard Morris, Charlie Callas, Dena Dietrich, Paul Mazursky, Ron Clark, Jack Riley, Art Metrano, Diane Day, Henny Youngman, Hunter von Leer, Fritz Feld, Hugh Hefner, Pat McCormick, Barry Levinson, Sid Gould, Ronny Graham, Jim Steck, John Myhers, Lee Delano, Robert Goldberg, Jay Burton, Robert Zappy, Ira Miller, Milt Freedman, Johnny Silver, Charles Thomas Murphy, Rod Haase, Eileen Saki, John Hurt, Henry Kaiser, Zale Kessler, Anthony J. Messina, Howard Mann, Sandy Helberg, Mitchell Bock, Gilbert Lee, Molly Basler, Debora Dawes, Christine Dickinson, Lisa Sohm, Michele Drake, Jeana Tomasino, Lisa Welch, Janis Schmitt, Heidi Sorenson, Karen Morton, Kathy Collins, Lori Sutton, Lon Mulford, Jackie Mason, Ronny Graham, Phil Leeds, Jack Carter, Jan Murray, Andréas Voutsinas, John Hillerman, Sidney Lassick, Jonathan Cecil, Andrew Sachs, Fiona Richmond, Nigel Hawthorne, Bella Emberg, Geoffrey Larder, George Lane Cooper, Stephanie Marrian, Royce Mills, Mike Cottrell, Gerald Stadden, John Gavin, Rusty Goff, Scott Henderson, Michael Miller, Royce D. Applegate, Alan U. Schwartz, voz de Orson Welles e os não creditados Bea Arthur, Sean Barry-Weske, Ava Cadell, Harry Fielder, Rod Haask, Walter Henry, Linda Hoxit, Denise McKenna, Cleo Roços, Peter Ross-Murray, Dom Salinaro, Ted White, Albert Whitlock, Fred Wood.



O diretor Mel Brooks


Após parodiar o western — Banzé no Oeste (Blazing saddles, 1974), o terror — O jovem Frankenstein (Young Frankenstein, 1974), o cinema silencioso — A última loucura de Mel Brooks (Silent movie, 1976) e o suspense de Hitchcock — Alta Ansiedade (High anxiety, 1977), Mel Brooks resolveu zombar da trajetória de parte humanidade. Saiu do começo dos tempos e chegou à Revolução Francesa. Admiremos o pretensioso cineasta. Nem o megalômano Cecil B. De Mille ousaria tanto.


O imperador Nero na estampa de Dom DeLuise

Ron Carey como o romano Swiftus

Mel Brooks no papel do filósofo desempregado Comicus


Em tela são destacados momentos supostamente relevantes da História com plena liberdade de especulação. Acima de tudo, havia o nobre objetivo de produzir humor. Na pré-história é revelado o processo de descoberta da música. No Monte Sinai, os originais Quinze Mandamentos são abreviados para Dez pelo descuido de Moisés com a queda e rompimento da terceira tábua. O Império Romano é reduzido a um período de permissividade sexual. Convidado para pintar a Santa Ceia, Leonardo da Vinci conta com os próprios Jesus e apóstolos como modelos. Os porões da Inquisição Espanhola servem à encenação de um musical abrilhantado pelo talento de Torquemada no canto e na dança. Nas vésperas da Revolução Francesa a miséria do povo francês faz contraponto ao luxo e desperdício da nobreza e corte de Luís XVI. O diretor assume vários personagens: o libertador dos hebreus, Comicus — filósofo romano desempregado —, o cruel guardião do Santo Ofício espanhol, o plebeu revolucionário Jacques e o décimo sexto monarca da dinastia dos Capeto.


Mel Brooks: um estranho na Santa Ceia de Leonardo Da Vinci (Art Metrano)

Ronny Graham e Jackie Mason, judeus nas mãos do Santo Ofício na Espanha


Em geral, Mel Brooks é excessivamente incensado por parcela da crítica e amplas fatias do público. É tido como um dos grandes renovadores da comédia estadunidense. Não é o que me parece. À exceção de Primavera para Hitler (The producers, 1967), O jovem Frankenstein — seguramente o seu melhor filme — e S.O.S.: tem um louco solto no espaço (Spaceballs, 1987) — recebido com ressalvas pela maioria dos apreciadores —, seu trabalho resvala para o humor exageradamente grosseiro e apelativo. Tem mão pesada, falta-lhe senso de medida para calcular adequadamente a extensão de uma piada — algo fatal para qualquer humorista. Ainda desconheço A última loucura de Mel Brooks.


História do mundo — parte I é um veículo empacado. Nada consegue tirá-lo do lugar. É excessivamente maçante. O conjunto não possui graça. Há alguns momentos geniais: o episódio de Moisés, o desmascaramento do falso eunuco Josephus (Hines), a Santa Ceia e as miseráveis ruas de Paris. Infelizmente, são situações curtas, próprias ao humor compartimentalizado — que se esgota nele mesmo. Os episódios mais pesados são logo os mais longos: o Império Romano e a Revolução Francesa.


O Conde de Monet (Harvey Korman) e o Rei Luís XVI (Mel Brooks)


Diante da frieza com a recepção de História do mundo — parte I, Brooks desistiu da continuação então em andamento.


Moisés (Mel Brooks) e as Tábuas da Lei

Madeline Kahn faz a Imperatriz Nympho e Gregory Hines como o pouco confiável eunuco Josephus


Orson Welles, com a peculiaridade do seu vozeirão, narra os episódios e tenta passar uma ideia de continuidade.


Pamela Stephenson como Mademoiseille Rimbaud e Mel Brooks no papel de Luís XVI

  
Roteiro: Mel Brooks. Direção de fotografia (Panavision, Color DeLuxe): Woody Omens. Desenho de produção: Harold Michelson. Efeitos visuais especiais: Alber J. Whitlock. Montagem: John C. Howard. Música: John Morris. Figurinos: Patricia Norris. Coreografia: Alan Johnson. Sequência da Revolução Francesa: John Trehy (auditoria da produção), Loretta Ordewer (coordenação da produção), Chris Warren (operador de vídeo/não creditado), Brian Ellis (foco/não creditado), Maurice Gillett (eletricista-chefe), Penny Daniels (continuidade), Bill Hobbs (coordenação de dublês), David Murphy (supervisão de guarda-roupa), Stuart Graig (desenho de produção); Paul Wilson (direção de fotografia); Alexander De Grunwald (Gerente de produção); Brian Cooke, Michael Stevenson (assistentes de direção); Terry Needham (gerente de locações); Maggie Cartier (casting); Bob Cartwright (direção de arte); Harry Cordwell (decoração); Bert Hearn (contrarregra); John Morgan, Ginger Gemmell (operadores de câmera); Mike Sale (mixagem de som); Reg Richards (gerente de construções); Eric Allwright, Jill Carpenter (maquiagem); Paula Gillespie (penteados). Canções: Jews in space (Mel Brooks); The Inquistion (Mel Brooks, Ronny Graham); Funkytown (Steve Greenberg). Gerente de produção: Ralph Singleton. Assistentes de direção: Jerry Ziesmer, Mitchell Bock. Ken Tuohy (não creditado). Produtor da mixagem de som: Gens S. Cantamessa. Casting: Mike Fenton, Jane Feinberg. Operador de câmera: Chuy Elizondo. Mixagem da regravação de som: Arthur Plantadosi, Les Fresholtz, Tex Rudloff. Edição de som: Scott A. Hecker. Supervisão da edição de som: Robert R. Rutledge. Decoração: Antony Mondello. Contrarregra: Jack Marino. Construção do set: Christina Productions. Títulos: Intralink Film Graphic Design. Orquestração: Jack Hayes. Edição musical: John R. Harris. Assistente de coreografia: Charlene Painter. Assistentes de montagem: Carol Ann DiGiuseppe, George A. Martin, Stephen Jovejoy, Danford B. Greene. Orquestação da sequência da inquisição espanhola: Ralph Burns. Efeitos especiais: Phil Cory, Richard L. Hill (não creditado). Fotografia de cena: Elliot Marks. Supervisão de script: Betsy Norton. Coordenador de produção: Judy Rosner. Pesquisa histórica: Lillian Michelson. Guarda-roupa feminino: Nancy Martinelli. Guarda-roupa masculino: Jered Edd Green. Maquiagem: Robert Norin, Gustaf Norin (não creditado). Penteados: Vivian McAteer. Narração: Orson Welles. Produtores associados: Stuart Cornfeld, Alan Johnson. Coprodução: Joel Chernoff (não creditado). Direção de arte: Norman Newberry. Consultoria artística: Harold Michelson. Planejamento do pôster: John Alvin (não creditado). Mestre de pintura: Adrian Start (não creditado). Propmaker gangboss: Robert Van Dyke (não creditado). Planejamento do som: Sandy Berman (não credidado). Operador de boom: Raul A. Bruce (não creditado). Som: Steve Cantamessa (não creditado). Edição de efeitos sonoros: Samuel C. Crutcher (não creditado). Equipe de efeitos visuais (não creditada): Charles Chiodo, Edward Chiodo, Stephen Chiodo. Sequência dos Judeus no espaço: Robert Costa (efeitos ópticos/não creditado), John Curtis (construção de modelos/não creditado), Anthony Doublin (miniaturas fotográficas/não creditado), Bob Greenberg (Efeitos em laser/não creditado), Bill Hedge (efeitos visuais/não creditado). Assistente de pintura matte: Syd Dutton (não creditado). Operadores de câmera/matte (não creditado): Dennis Glouner, Mike Moramarco. Miniaturas: William Guest (não creditado). Pintura matte: Henry Schoessler (não creditado). Fotografia matte: Bill Taylor (não creditado). Pirotecnia: Susan Turner (não creditado). Assistente de câmera/matte: Mark Whitlock (não creditado). Coordenação de dublês: Gary Combs. Dublê performer: Philip Romano (não creditado). Dublês (não creditados): Desiree Ayres, Gilbert B. Combs, Dick Durock, James M. Halty. Eletricista-chefe: Gibby Germaine. Assistentes de câmera: Gerald King, John Szajner, Alan Barry (não creditado), Dennis Young (não creditado). Eletricista: Gary Cross (não creditado). Gerentes de locações: John Spencer-Churchill, Bill Borden (não creditado). Mixagem da trilha musical: Dan Wallin (não creditado). Assistentes para o produtor: Randy Auerbach, Leah Zappy. Contabilidade: Lenna Katich, Jim Turner. Publicidade: Irene Walzer. Companhia de efeitos fotográficos especiais: The Magic Lantern. Laboratório de cor: DeLuxe Laboratories. Equipamentos de câmera e iluminação: Lee Lighting. Produção de efeitos ópticos: Pacific Title. Companhia de transportes: Transcord. Sistema de mixagem de som: Stereo. Tempo de exibição: 92 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1995)

domingo, 3 de junho de 2018

NICK ROBEY ANTECIPA A TRÁGICA E PREMATURA MORTE DE JOHN GARFIELD

A adaptação para o cinema da novela He ran all the way, de Sam Ross, era, originalmente, projeto a ser desenvolvido por George Stevens em 1947. Infelizmente, a falência da companhia independente Liberty Films após o fracasso de público e crítica de A felicidade não se compra (It’s a wonderful life, 1946), de Frank Capra, impôs adiamento de quatro anos. Somente saiu do papel sob a chancela da minúscula Roberts Pictures e direção do blacklisted John Berry. O roteiro de Dalton Trumbo e Hugo Buttler, também perseguidos pelo macarthismo, resultou num dos mais compactos e densos exemplares do cinema noir. Contém a última atuação de John Garfield, outra vítima do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas. Intensamente pressionado a confessar filiação ao Partido Comunista e a delatar membros e simpatizantes da agremiação, o ator resistiu até falecer por ataque cardíaco em 1952 com apenas 39 anos. Exemplarmente filmado, Por amor também se mata (He ran all the way, 1951) apresenta em narrativa poderosa e envolvente os últimos dias de vida do paranoico e antissocial assaltante Nick Robey (Garfield). O título praticamente inaugura o pequeno filão cinematográfico sobre famílias alheias ao perigo externo e rendidas em seus próprios lares por assassinos e psicopatas. Garfield tem desempenho frenético no papel do descontrolado assaltante que toma a família Dobbs como refém ao longo de dois tensos dias. Contracena com os não menos admiráveis Wallace Ford e Shelley Winters nos respectivos papéis do pai e marido Fred e da ambígua e carente filha Peg. A força da explanação é garantida acima de tudo por interpretações que passam da contenção à visceralidade mais extrema. Também há a abordagem direta imposta pelo seguro John Berry, a nervosa pontuação musical de Franz Waxman e a iluminação do mestre da fotografia cinematográfica James Wong Howe. Os momentos finais estão entre os mais antológicos do noir.








Por amor também se mata
He ran all the way

Direção:
John Berry
Produção:
Bob Roberts, John Garfield (não creditado)
Roberts Pictures Inc.
EUA — 1951
Elenco:
John Garfield, Shelley Winters, Wallace Ford, Selena Royle, Gladys George, Norman Lloyd, Robert “Bobby” Hyatt, Clancy Cooper, Vici Raaf, Keith Hetherington, Robert Karnes e os não creditados Jimmy Ames, Chet Brandenburg, Ralph Brooks, Johnny Duncan, A. Cameron Grant, Mark Lowell, James Magill, Renny McEvoy, John Morgan, William H. O'Brien, Lucile Sewall, Dale Van Sickel.



O diretor John Berry




Por amor também se mata aborda essencialmente os últimos dias da vida de um pequeno perdedor: o assaltante Nick Robey (Garfield). Criado em lar disfuncional e achincalhado pela mãe (George) vil e omissa, cresceu à margem das convenções sociais mais básicas. Inseguro, tenso e impulsivo, é constantemente dominado pelo pânico decorrente das paranoias forjadas pela solidão e personalidade desestruturada. Estas características o impedem de confiar em si próprio e nos outros. A sequência final, da morte do personagem, é um dos grandes momentos do cinema noir: baleado, tenta correr para o carro de fuga ansiosamente aguardado enquanto a câmera o enquadra quase ao rés do chão. Apenas cambaleia pela rua escura e úmida até tombar definitivamente na sarjeta tomada pela água da chuva. É o último papel do ator. De certa forma, Garfield encontrou no personagem intensamente representado um equivalente real aos duros momentos enfrentados na ocasião. Estava acossado pelo Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas do senador Joseph McCarthy e promotor J. Parnell Thomas. A pressão inquisitorial lhe cobrava a confissão de membro do Partido Comunista e a revelação de nomes. Resistiu à ignomínia até sucumbir por ataque cardíaco em 21 de maio de 1952, com apenas 39 anos.


John Garfield no papel de Nick Robey


O diretor John Berry, também estigmatizado pela “caça às bruxas”, tornou-se o décimo primeiro blacklisted. Antes foram indiciados os famosos “Dez de Hollywood”: os roteiristas Alvah Bessie, Lester Cole, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson, Samuel Ornitz, Adrian Scott, Albert Maltz, Dalton Trumbo, Herbert Biberman[1] e o diretor Edward Dmytryk, condenados a um ano de reclusão em presídios federais e impedidos de retornar ao trabalho. Berry conseguiu ludibriar os agentes do FBI e fugir para Paris após terminar Por amor também se mata. Em 1950 rodou o documentário curto The Hollywood Ten, parte de um projeto maior de arrecadação de fundos para custear a defesa dos colegas indiciados. Ironicamente, viu-se delatado pelo arrependido Edward Dmytryk — que assim pôde retornar à carreira de cineasta.


Para o lançamento comercial de Por amor também se mata, a produção teve que cumprir algumas exigências vergonhosas do Comitê: o diretor e os roteiristas Hugo Butler (apenas suspeito de ligações com o comunismo) e Dalton Trumbo teriam os nomes excluídos dos créditos de abertura. O assistente de direção Emmett Emerson se tornou responsável pela realização. Butler e Trumbo comparecem sob a falsa identidade de Guy Endore. Estranhamente, a versão do filme que permitiu a presente apreciação comete a justiça de conceder os créditos a Berry e Butler. Porém, o maldito Trumbo permanece oculto. Um dos responsáveis pela tensão visual da narrativa, o diretor de fotografia James Wong Howe, por pouco não se enredou nas teias do macarthismo.


Ao que parece, Por amor também se mata inaugura o subgênero sobre famílias alheias ao perigo exterior e subitamente tomadas como reféns em suas próprias casas por assassinos e personalidades disfuncionais. Lewis Allen, três anos depois, adicionaria à temática Meu ofício é matar (Suddenly), seguido por William Wyler com Horas de desespero (The desperate hours, 1955) — refilmado por Michael Cimino em 1990[2].


Por amor também se mata não disfarça as origens modestas. É produção de baixo orçamento exemplarmente filmada. A direção inspirada explorou sabiamente o lado sombrio da personalidade disfuncional do desempregado e pequeno marginal sem perspectivas Nick Robey. Ele tinha tudo para ser um ótimo sujeito. A câmera participa ativamente na comunicação das sensações que o lançam na desconfortável e viva insegurança. Esse estado é transmitido por angulações pouco convencionais e “planos desequilibrados” que ferem os rigores da abordagem meramente objetiva dos fatos e da alma ferida do personagem. Logo no começo, na apresentação dos créditos, a tensão que escorre pela narrativa é antecipada pela frenética, envolvente e emocional pontuação musical de Franz Waxman. Cordas alternadas por percussão expressam nervosismo e respiração descontrolada. Esclarecem as pretensões do título original: He ran all the way/“Ele correu por todo o caminho” — e praticamente não saiu do lugar. O que se vê é exatamente o inútil esforço de alguém vencido pelo desespero da solidão, em luta contra os próprios temores e o mundo assustador que o envolve. Incapaz de confiar em si mesmo, Nick é lançado pela consciência perturbada numa guerra infrutífera e angustiante contra tudo e todos.


Nick Robey desperta envolvido em maus presságios no dia em que é lançado numa espiral de eventos trágicos. Além do pesadelo que o transtornou, a mãe irritadiça o obriga — sob o peso de imprecações — a sair da cama no quarto escuro e desorganizado. A manhã está perto de terminar. Diante das circunstâncias, acha melhor adiar a atividade combinada com Al Molin (Lloyd): apoderar-se do dinheiro destinado ao pagamento dos funcionários de uma transportadora. Porém, o companheiro o obriga a seguir com o plano. O golpe, por mais simples que parecesse, era perigoso. Exigia precisão, determinação, coragem, calma e fôlego. Armado e nervoso, Nick acerta gravemente a cabeça do agente (Grant) responsável pelo transporte dos valores e mata um policial (Sickel). Molin, ferido durante a troca de tiros, é preso. A ação é rápida e vibrante. Sozinho e desesperado, o personagem representado por John Garfield escapa pelas ruas com o produto do roubo  cerca de dez mil dólares. Mistura-se à multidão enquanto tenta, inutilmente, permanecer calmo e racional. Como se fosse guiado pelo imponderável, esconde o dinheiro no vestiário de uma piscina pública à qual chegou por acaso. Tenta espairecer entre os banhistas. Acidentalmente conhece a carente e pouco segura Peg Dobbs (Winters). Ela se esforça para aprender a nadar. O lado prestativo e afável de Nick se revela. O encontro — apesar dos equívocos provocados pela falta de traquejo social e agressividade do personagem — dá a impressão de que veio a calhar para ambos.


Nick Robey (John Garfield) desperta em dia de maus presságios

Nick Robey (John Garfield) e Peg Dobbs (Shelley Winters)


Logo Nick está na casa dos Dobbs, a convite de Peg. Conhece o pai Fred (Ford), a mãe (Royle) e o caçula Tommy (Hyatt). A família — afável e feliz reduto da classe trabalhadora — logo conhece o inferno. O nervosismo, insegurança e falta de contenção verbal não demoram a revelar o assaltante e assassino da transportadora. Para piorar, o ferido Al Molin entregou o nome do cúmplice. Peg e os seus se tornam reféns sem a menor condição de pedir ajuda. Nick impõe regras nem sempre claras e objetivas na tentativa de escapar de uma situação que ele próprio produziu. A situação é inusitada, pois gostaria de ser membro de um grupo estável e aconchegante como os Dobbs. Jamais conheceu um lar erguido sobre as bases do afeto. Aparentemente, gostaria de ser responsável pelo bem estar daquela gente e parece sinceramente apaixonado por Peg. Porém, é incapaz de ser compreendido. Com a arma em punho e temendo traições, domina a situação ao longo de dois tensos dias. A autoridade paterna de Fred é seriamente abalada, pois se vê incapaz de zelar pela segurança da família que construiu. Um desfecho trágico com sérias e generalizadas consequências parece inevitável. As ambiguidades nas falas e ações do protagonista e da reprimida Peg só aumentam as incertezas. Nick, no fundo, poderia ser um bom rapaz não fosse a indiferença da mãe que sempre o renegou e jamais se esforçou para educá-lo. Por sua vez Peg oscila entre o temor ao assaltante que pode ferir seus familiares e a atração que sente por ele.


Peg Dobbs (Shelley Winters), Nick Robey (John Garfield), Fred Dobbs (Wallace Ford) e Tommy Dobbs (Robert Hyatt)

Mrs. Dobbs (Selena Royle), Fred Dobbs (Wallace Ford) e Tommy Dobbs (Robert Hyatt)

Mrs. Dobbs (Selena Royle) e Nick Robey (John Garfield)


Na origem, Por amor também se mata teria direção e produção de George Stevens em 1947. Os direitos de filmagem pertenciam à independente Liberty Film, fundada por Frank Capra ao término da Segunda Grande Guerra e à qual também estava integrado William Wyler. O empreendimento faliu em decorrência do fracasso de público e crítica do filme de estreia, o frankcapriano A felicidade não se compra (It’s a wonderful life, 1946). Diante disso, todos os projetos da companhia e contratos firmados foram vendidos à Paramount Pictures. Por amor também se mata renasceu pelas mãos de John Berry para a pequena Roberts Pictures. É um drama claustrofóbico repleto de tensão, carregado de atmosfera angustiante, amparado por bons diálogos e interpretações das mais convincentes — principalmente de Garfield, Ford e Winters. Em muitos momentos dispensa a verbalização. Os ângulos de câmera e a iluminação valorizadora de áreas sombreadas — aspectos puramente cinematográficos — geram as sensações essenciais à comunicação.


Nick Robey (John Garfield) e Peg Dobbs (Shelley Winters)

Nick Robey (John Garfield)


John Garfield transmite com muita convicção a dualidade de Nick Robey, tão ansioso por ser aceito, compreendido e amado. Entretanto, pelas imperfeições do caráter, só consegue gerar rejeição. Falta-lhe inclusive a capacidade de verbalizar o que sente com a devida clareza, ao menos para explicar e justificar por que não é o tipo que gostaria de ser. É apenas um selvagem acuado pelo medo provocado por demônios internos. Também falta traquejo a Peg, um desafio para a interpretação contida de Shelley Winters. Sem muita experiência de vida, é lançada abruptamente no centro de uma situação perigosa que a divide na atração por Nick e na responsabilidade devida à própria família acuada. Para onde penderão suas escolhas? A inconstância da filha aumenta ainda mais as pressões sobre o frustrado Fred Dobbs, obrigado pelas exigências sociais de seu status de marido e pai a reagir além dos limites aos quais estava conformado. Por amor também se mata também é valorizado por desempenhos que obrigaram os atores ao extravasamento de possibilidades expressivas as mais viscerais. Lamentavelmente, Gladys George teve pouco tempo em cena como a omissa e megera mãe de Nick. Tivesse a produção maior disponibilidade de recursos, poderia haver espaço para o desenvolvimento de algumas interessantes elaborações freudianas. Porém, se faltou algo mais em termos de complexidade, sobrou a abordagem direta, precisa, concisa e econômica de um tipo de cinema que há muito deixou de ser realizado.





Roteiro: Dalton Trumbo (sob a alcunha de Guy Endore), Hugo Butler, baseados em novela de Sam Ross. Produção associada: Paul Trivers. Música: Franz Waxman. Direção de fotografia (preto e branco): James Wong Howe. Supervisão de montagem: Francis D. Lyon. Desenho de produção: Harry Horner. Decoração: Edward G. Boyle. Penteados: Hollis Barnes. Maquiagem: Gustaf “Gus” Norin. Supervisão da produção: Ben Hersh. Assistente de direção: Emmett Emerson. Som: Victor B. Appel, Mac Dalgleish. Guarda-roupa: Joe King. Orquestração: Leonid Raab (não creditado). Assistente para a produção: Louis Brandt. Direção de diálogos: Arnold Laven. Assistente de produção: Robert H. Justman (não creditado). Sistema sonoro: RCA. Tempo de exibição: 77 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2016)



[1] Biberman e Scott também eram, respectivamente, diretor e produtor.
[2] Horas de desespero (Desperate hours). 

domingo, 27 de maio de 2018

NADA SOBRA PARA RONALD REAGAN COM BARBARA STANWYCK NO WESTERN

Como geralmente acontecia nos westerns, Barbara Stanwyck dispensou dublês e realizou praticamente todas as arrojadas façanhas exigidas para a determinada personagem Sierra Nevada Jones. Recentemente chegada do Texas às áreas abertas à colonização do território de Montana, ela comprova que é “homem com ‘M' maiúsculo”. Enfrenta em pé de igualdade o especulador fundiário Tom McCord (Gene Evans), pistoleiros e índios belicosos. Não para menos mereceu o respeito e a homenagem dos Pés Pretos contratados para a figuração: fizeram-na irmã de sangue e membro honorário da tribo ao batizá-la como “Princesa Vitoriosa”. Pior para Ronald Reagan em desempenho mais apagado que o habitual. No papel de Farrell, o futuro Presidente dos Estados Unidos foi relegado ao posto de mero coadjuvante das proezas de Sierra Nevada Jones. Tentou ampliar as dimensões do personagem junto à produção, mas estava escrito que Montana, terra do ódio (Cattle queen of Montana, 1954) seria um filme de cowgirl e não de cowboy. É o terceiro dos dez títulos de baixo orçamento assinados pelo lendário pioneiro Allan Dwan, durante os anos 50, para o produtor Benedict Bogeaus. Trata de colonização, relações de índios com brancos, vingança e especulação fundiária. Tem por atrativos o desempenho de Stanwyck, a direção de fotografia de John Alton e os exuberantes cenários naturais do Glacier National Park. Infelizmente, é produção de rotina que pouco acrescenta à trajetória de um cineasta com história e filmes dignos de conhecimento. Oficialmente, segundo o Internet Movie Database (IMDb), dirigiu pouco mais de quatrocentos títulos entre 1911 a 1961. Porém, há estudiosos que lhe atribuem outros mil, atualmente impossíveis de serem localizados e convenientemente registrados. Os atentos apreciadores da saga de Marty McFly (Michael J. Fox) em De volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert Zemeckis, certamente se lembrarão da referência a Cattle queen of Montana.






Montana, terra do ódio

Cattle queen of Montana

Direção:
Allan Dwan
Produção:
Benedict Bogeaus
RKO Radio Pictures, Benedict Bogeaus Production, Filmcrest Productions
EUA — 1954
Elenco:
Barbara Stanwyck, Ronald Reagan, Gene Evans, Lance Fuller, Anthony Caruso, Jack Elam, Yvette Duguay, Morris Ankrum, Chubby Johnson, Myron Healey, Rodd Redwing, Paul Birch, Byron Foulger e os não creditados Burt Mustin, Dorothy Andre, Bob Burrows, Wayne Burson, John Cason, Bill Coontz, Glenn Strange, Danny Fisher, Roy Gordon, Jonathan Hale, Betty Hanna, Riza Royce, Ralph Sanford, Tom Steele, Harry Tyler, Bob Woodward.



Barbara Stanwyck - caracterizada como Sierra Nevada Jones - e o diretor Allan Dwan
Bastidores de Montana, terra do ódio



Atualmente pouco se fala do lendário Allan Dwan. A ele o Internet Movie Database (IMDb) credita pouco mais de 400 títulos realizados de 1911 a 1961. Porém, esse número pode ser bem mais elevado segundo historiadores, algo em torno dos incríveis 1400. Acredita-se que Dwan tenha iniciado a carreira em 1909, ou antes, quando pouca preocupação havia com preservação e registros acurados. Muitos de seus trabalhos estão definitivamente perdidos ou lançados na conta da autoria desconhecida. Remetem a um período de filmagens apressadas e aos borbotões. Os produtos eram imediatamente consumidos em feiras, circos, igrejas, teatros de variedades, bares e cafés. Pela listagem do IMDb, 263 curtas de um ou dois rolos são atribuídos ao cineasta nos três primeiros anos oficialmente reconhecidos da carreira.


Em 1914, com The unwelcome Mrs. Hatch, Dwan adere às produções de maior fôlego. Eclético, realiza dramas, comédias e aventuras diversas. Ganha a confiança de atores e atrizes da era embrionária do star system: Donald Crisp, Mary Pickford, Dorothy e Lillian Gish, Douglas Fairbanks, Norma Talmadge, Marion Davis, Wallace Beery, Monte Blue etc. Atinge o auge na década seguinte. Faz Robin Hood (Robin Hood, 1922) com Fairbanks, e Zaza (1923) para Gloria Swanson — de quem se torna diretor preferido. Formam parceria em A society scandal (1924), Manhandled (1924), Her love story (1924), Wages of virtue (1924), Folia (The coast of folly, 1925) e Este mundo é um teatro (Stage struck, 1925). Lança em 1927 o bem sucedido Titanic (East side, West side). Passa sem problemas ao cinema sonoro: O triunfo (The big noise, 1928), O máscara de ferro (The iron mask, 1929) com Fairbanks e Que viúva! (What a window!, 1930) com Swanson. Reconstitui a trajetória de Wyatt Earp (Randolph Scott) em A lei da fronteira (Frontier Marshal, 1939); permite um dos mais sinceros desempenhos a John Wayne no drama de guerra Iwo Jima – O portal da glória (Sands of Iwo Jima, 1949). Os anos 50 o encontram em franca atividade: dirige quase 20 títulos, sobretudo westerns, até o encerramento da carreira em 1961.


Ronald Reagan e Barbara Stanwyck nos papéis de Farrell e Sierra Nevada Jones

O especulador Tom McCord (Gene Evans) e o aliado ocasional Natchakoa (Anthony Caruso)


Montana, terra do ódio é a terceira das dez realizações de baixo orçamento assinadas por Dwan para o produtor Benedict Bogeaus. As demais são: Homens indomáveis (Silver Lode, 1954), Sob a lei da chibata (Passion, 1954), Selvas indomáveis (Escape to Burma, 1955), A sereia dos Mares do Sul (Pearl of the South Pacific, 1955), A audácia é a minha lei (Tennessee's partner, 1955), O poder do ódio (Slightly Scarlet, 1956), Matar para viver (The river's edge, 1957), O maior ódio de um homem (Enchanted island, 1958) e O mais perigoso dos homens (Most dangerous man alive, 1961).


O título em apreço é western frouxo, conduzido com displicência; um dos piores de Allan Dwan. O interesse é garantido pelo desempenho de Barbara Stanwyck no papel de Sierra Nevada Jones. É uma cowgirl para homem algum apontar defeito. Está determinada a vingar a morte do pai Pop Jones (Ankrum) além de recuperar o gado e o domínio rural que lhe foram tomados. Tem por oponente o grande proprietário e criador Tom McCord (Evans), especulador com pretensões de se apossar de vastas áreas abertas à colonização em Montana. A ação transcorre em 1888, um ano antes de o território passar à condição de estado da União.


Pop Jones (Morris Ankrum) e a filha Sierra Nevada Jones (Barbara Stanwyck)


Sierra Nevada Jones é uma das várias personagens fortes e aguerridas cultivadas por Stanwyck em westerns, principalmente nos anos 50. Há muito a atriz consolidava reputação em papéis similares: Mollie Monahan — Aliança de aço (Union Pacific, 1939), de Cecil B. De Mille; Lily Bishop — Califórnia (California, 1947), de John Farrow; Vance Jeffords — Almas em fúria (The Furies, 1950), de Anthony Mann; Martha Wilkison — Um pecado em cada alma (The violent men, 1954), de Rudolph Maté; Kit Banion — Até a última bala (The maverick Queen, 1956), de Joseph Kane; Cora Sutliff — Vingança no coração (Trooper Hook, 1957), de Charles Marquis Warren; Jessica Drummond — Dragões da violência (Forty guns, 1957), de Samuel Fuller e, entre outros, a inesquecível Victoria Barkley dos 112 episódios da telessérie The Big Valley[1], dos anos 60.


Em seu esforço verídico de atuação, com a costumeira dispensa de dublês, Stanwyck, aos 46 anos, cavalgou, saltou, correu, lutou e laçou. Desempenhou pessoalmente as façanhas que lhe exigiam destreza física. Por isso, angariou o respeito e admiração dos índios Pés Pretos contratados como figurantes. Foi honrada com a elevação à condição de irmã de sangue ou membro honorário da tribo. Recebeu a alcunha de “Princesa Vitoriosa” ou algo parecido.


A trama, roteirizada por Robert Blees e Howard Estabrook a partir de história de Thomas W. Blackburn, lança Sierra Nevada Jones contra os interesses monopolistas de Tom McCord e no centro dos conflitos internos dos Pés Pretos em decorrência da disputa pelo poder travada pelos irmãos Colorados (Fuller) — conciliador, favorável à aproximação cultural com os brancos — e Natchakoa (Caruso) — reafirmador da tradição guerreira, no momento aliado a McCord em troca de armas e bebida. A situação se complica, inclusive no plano amoroso, com a intervenção de Farrell (Reagan). De início é capataz de Tom McCord e contrário aos interesses da mocinha.


Colorados (Lance Fuller)

Natchakoa (Anthony Caruso)


Sierra Nevada, o pai e o auxiliar Nat Collins (Johnson) despenderam sete meses numa jornada do Texas às terras conquistadas em Montana. Chegaram ao destino com pouco tempo para legalizar a posse. Trouxeram cerca de mil cabeças de gado. Na primeira noite passada no domínio, tiveram o rebanho estourado por Natchakoa e incorporado à propriedade de McCord. Durante o tumulto, Pop Jones morreu. Feridos, Sierra Nevada e Nat recebem o inesperado auxílio e cuidados médicos de Colorados. São levados ao acampamento da tribo, apesar dos veementes protestos do irmão belicoso e desconfiança inicial do velho chefe (Strange) como dos convalescentes. Colorados tem formação universitária. Pretende incorporar sua gente aos valores dos brancos. Ganha a confiança de Sierra Nevada. Auxilia-a nos planos de recuperação das perdas. No entanto, pode ser tarde. Após o estouro da boiada, os papéis de legitimação da propriedade, encontrados junto ao corpo de Pop Jones, passaram às mãos de McCord. Agora, as terras estão incorporadas aos domínios do especulador. Inconformada, Sierra Nevada abre luta por justiça. Recebe a ajuda inesperada e pouco desinteressada de Farrell. No prosseguimento das contendas o fiel Nat Collins é assassinado.


Farrell (Ronald Reagan) e Sierra Nevada Jones (Barbara Stanwyck)

Ralph Sanford como lojista e Barbara Stanwyck no papel de Sierra Nevada Jones


Além da enérgica atuação de Barbara Stanwyck, outras boas qualidades de Montana, terra do ódio decorrem dos majestosos cenários naturais do Glacier National Park — vivamente captados pela direção de fotografia do expert John Alton. Tanta paisagem verde — rica em cursos d’água, árvores e vegetação arbustiva — parece até nota estranha a um western. O gênero é geralmente ambientado em meio às pradarias secas, dominadas por areia e rocha, castigadas por vento, sol e poeira. As poucas internas e o conjunto urbano se devem ao Iverson Ranch de Chatsworth, Los Angeles, e parque cenográfico conjuntamente administrado pela Columbia e Warner Brothers em Burbank.


Yost (Jack Elam), Farrell (Ronald Reagan) e Tom McCord (Gene Evans)

  
A história não empolga. Allan Dwan não estava em seus melhores dias. Falta agilidade à trama. Os planos são corriqueiros; as caracterizações, sofríveis. Glenn Strange oferece desempenho lamentavelmente estereotipado como o velho chefe dos Pés Pretos. A estampa de Lance Fuller, o Colorados, é simplesmente inacreditável. Pior é Ronald Reagan, visivelmente contrariado e desinteressado — condição agravada por sua conhecida limitação na atuação. De início, o papel de Farrell seria de Robert Mitchum — que desistiu por discordar do roteiro. O futuro presidente dos Estados Unidos o substituiu. Acreditava que seria atendido nas ponderações em prol da alteração do desenho do personagem, francamente subalterno diante da predominância da Sierra Nevada. Como não foram consideradas, Reagan ficou relegado à condição de quase coadjuvante de Barbara Stanwyck. Desinteressou-se e sequer representou com o mínimo de credibilidade. A direção também não se esforçou para contornar a apatia. Anthony Caruso faz um bom Natchakoa. Infelizmente, qual Barbara Stanwyck, não tem alguém à altura para contracenar. Yvette Duguay é mal aproveitada como a ciumenta e caprichosa Estrela de Fogo, frustrado interesse amoroso de Colorados. Opta pela traição e paga com a vida. O índio bonzinho e — convenhamos — subserviente vivido por Lance Fuller chega solitário ao final. Ao menos será o chefe da tribo.


De volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert Zemeckis
O personagem Marty McFly (Michael J. Fox) em 1955 na cidade de Hill Valley


Uma curiosidade: em De volta para o futuro (Back to the future, 1985), de Robert Zemeckis, o filme em exibição no Cine Essex do passado da cidade de Hill Valley é Cattle queen of Montana.





Roteiro: Robert Blees, Howard Estabrook, com base em história de Thomas W. Blackburn. Música: Louis Forbes, Howard Jackson (não creditado), William Lava (não creditado). Direção de fotografia (Technicolor): John Alton. Montagem: Carlo Lodato. Supervisão da montagem: James Leicester. Direção de arte: Van Nest Polglase. Decoração: John Sturtevant. Figurinos: Gwen Wakeling (não creditada). Supervisão da produção: Lee Lukather. Assistente de direção: Nathan Barragar. Som: Francis M. Sarver. Dublês (não creditado): Bob Burrows, Wayne Burson, John Cason, Danny Fisher, Tom Steele, Bob Woodward. Apresentação: Benedict Bogeaus. Agradecimentos especiais à: Montana Film Office. Estúdio de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 88 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2016)



[1] Os 112 episódios foram distribuídos por quatro temporadas. É produção da Levy-Gardner-Laven, Four Star Television e Margate. Originalmente foi exibida pelo canal ABC — American Broadcasting Company — de 15 de setembro de 1965 a 19 de maio de 1969.