domingo, 18 de novembro de 2018

PAI, FILHO E DEPENDÊNCIA NA ADVERTÊNCIA DE GRIFFITH EM 1912

Muitos filmes exploram a temática da dependência química: Vício que mata (The pace that kills, 1928), de William A. O'Connor e Norton S. Parker; A porta da loucura (Tell your children/Reefer madness, 1936), de Louis J. Gasnier; Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy Wilder; Vício maldito (Days of wine and roses, 1962), de Blake Edwards; Os viciados (The panic in needle park, 1971), de Jerry Schatzberg; Drugstore cowboy (Drugstore cowboy, 1989), de Gus van Sant; Trainspotting: sem limites (Trainspotting, 1996), de Danny Boyle; e, entre outros tantos, Réquiem para um sonho (Requiem for a dream, 2000), de Darren Aronofsky. Fazem parte de um subgênero cujas raízes podem ser encontradas nos pioneiros curtas de David Wark Griffith para a Biograph Company, particularmente em For his son (1912) — por sua vez tributário do mais primitivo Les victimes de l’alcoolisme (1902), de Ferdinand Zecca. Aborda o vício em cocaína e a alienação provocada pelo acúmulo de riqueza segundo a particularíssima visão de mundo do diretor. É um conto moral. Problematiza a relação entre pai e filho além de fornecer munição aos inimigos de refrigerantes como a Coca-Cola. Formalmente, é uma produção convencional diante dos avanços obtidos pelo cineasta no período. Não obstante, se convenientemente apreciada do ponto de vista histórico ainda se revela impactante e assustadora. Segue apreciação escrita em 2001.





For his son


Direção:
David Wark Griffith
Produção: 
Biograph Company
EUA — 1912
Elenco:
Charles Hill Mailes, Alfred Paget, Blanche Sweet, Charles West, Dorothy Bernard e os não creditados William Bechtel, Christy Cabanne, Edward Dillon, Edna Foster, Robert Harron, Dell Henderson, Grace Henderson, Harry Hyde, J. Jiquel Lanoe, Gus Pixley, W.C. Robinson, Ynez Seabury, Kate Toncray.



O diretor David Wark Griffith (à direita) com Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Charles Chaplin
Foto de 5 de fevereiro de 1919, quando da fundação da United Artists



David Wark Griffith dirigiu 72 curtas para a Biograph Company em 1912. Dentre os que conheço, destacam-se The massacre; The New York hat; O dilema do assaltante (The burglar's dilemma); The musketeers of Pig Alley; The painted lady; So near, yet so far; Two daughters of Eve; Um Inimigo Invisível (An unseen enemy); The narrow road; The sunbeam e A sister's love. Percebem-se nessas realizações, da parte do cineasta, a vontade de se emancipar das limitações impostas pela empresa produtora e conferir maior dinamismo à câmera, inclusive ultrapassar as restrições espaciais dos cenários invariavelmente estáticos e captados de um único ponto de vista. O quinto curta do período, For his son, está entre os mais convencionais se comparado aos avanços de Griffith na consolidação de uma expressão própria para a narrativa cinematográfica.


For his son é mais um conto moral tão caro ao diretor. As intenções se manifestam logo na cartela de abertura. Durante aproximados 15 minutos o espectador é apresentado ao “Terrível resultado do egoísmo criminoso”. Decerto é tributário das influências de Ferdinand Zecca em Les victimes de l’alcoolisme (1902). Especificamente, For his son trata da dependência das drogas de forma direta e pouco sutil. Talvez sequer houvesse tempo para uma abordagem menos aguda e intensa do problema. Afinal, narra uma história complexa com pretensões à verossimilhança em exíguos quinze minutos. A deflagração do drama do vício encenado pelo título decorre da excessiva permissividade paterna na educação filial e da ambição desmedida que percebe as pessoas pela ótica do mais vil e imediato cálculo instrumental.


Charles Hill Mailes como o médico

A cocaína surge como resposta imediata aos problemas financeiros


For his son é pioneiro do subgênero “cinema de advertência”. Na sua esteira vieram Vício que mata (The pace that kills, 1928), de William A. O'Connor e Norton S. Parker; Narcotic (1933), de Dwain Esper e Vival Sodar't; The pace that kills ou Cocaine fiends (1935), de William A. O'Connor; A porta da loucura (Tell your children/Reefer madness, 1936), de Louis J. Gasnier; Farrapo humano (The lost weekend, 1945), de Billy Wilder; Na voragem do vício (Something to live for, 1952), de George Stevens; Vício maldito (Days of wine and roses, 1962), de Blake Edwards; Os viciados (The panic in needle park, 1971), de Jerry Schatzberg; e, entre outros, os mais recentes Drugstore cowboy (Drugstore cowboy, 1989), de Gus van Sant; Vício frenético (Bad lieutenant, 1992), de Abel Ferrara; Trainspotting: sem limites (Trainspotting, 1996), de Danny Boyle; e Réquiem para um sonho (Requiem for a dream, 2000), de Darren Aronofsky.


Apesar de figurar entre as realizações formalmente mais pobres da griffithiana, For his son apresenta muitas frentes narrativas levando-se em conta o momento da realização. Há o consultório médico, a casa da noiva (Blanche Sweet), a antessala, o laboratório, a botica, o pátio da transportadora, o escritório, a rua e a residência da secretária (Dorothy Bernard). Ao espectador contemporâneo, principalmente o mais impressionável, o roteiro de Thomas McWilliams parte do aterrador pressuposto que ainda oferece munição aos inimigos dos refrigerantes, principalmente da Coca-Cola: muitos acreditam na adição de cocaína à composição dessa bebida. Não adiantam os muitos desmentidos da The Coca-Cola Company e de instituições governamentais voltadas ao controle de drogas e alimentos. Porém, não era bem assim quando Griffith realizou For his son. Inclusive, a cocaína era comercializada sem maiores entraves nas farmácias e drogarias.


O médico (Charles Hill Mailes) eufórico com a solução dos problemas financeiros


O refrigerante Dopokoke é sucesso de vendas, inclusive entre crianças

A cocaína, elemento básico do Dopokoke


Por meio da montagem paralela e de alguns enfáticos primeiros planos reveladores, For his son apresenta a relação temerária, de conseqüências devastadoras, entre um médico (Charles Hill Mailes) e o filho jovem, improdutivo e irresponsável (Charles West). O pai é um profissional remediado. Direciona os parcos ganhos às necessidades do exigente herdeiro. Para solucionar o problema da falta de dinheiro, resolve, após algumas hesitações morais, misturar pequenas doses de cocaína terapêutica a um xarope medicinal. O resultado é uma bebida atraente e estimulante denominada Dopokoke. Produzida em larga escala, torna-se sucesso de vendas. O agora milionário médico pode arcar folgadamente com as despesas do filho. Porém, conforme o esperado, a ambição fala mais alto. Logo se impõe a vontade de enriquecer mais, como se isso fosse um estupefaciente. Os negócios são expandidos. Exigem o apoio de contabilidade e secretaria. Por descuido, o segredo da bebida é revelado. O filho, curioso e volúvel, logo é alcançado pelo vício. A secretária se faz dependente por obra do contador (Alfred Paget). Cenas da crescente procura ao refrigerante por populares, inclusive crianças, são alternadas com a progressiva decomposição física e moral dos viciados. A relação afetiva do herdeiro é interrompida quando a noiva, horrorizada, toma conhecimento da situação. Ele já apela para injeções. Abandonado, busca consolo com a secretária. Unidos na miséria, brigam pela posse de agulhas. Quando o pai adquire ciência do problema é demasiado tarde.


A noiva (Blanche Sweet) horrorizada com a dependência do noivo (Charles West)

A secretária (Dorothy Bernard) e o jovem filho do patrão (Charles West) degradados pelo vício


Griffith explicita o excesso de indulgência paterna na educação do filho. Paralelamente, expõe a cegueira provocada pelo acúmulo de riqueza. O rápido momento no qual o vitorioso médico avança de punhos cerrados em direção à câmera, sorrindo e fumando euforicamente, revela como se alienou à dependência do dinheiro. Nada mais importa. Até ser cruelmente devolvido à terrível realidade em virtude dos próprios atos impensados. Os letreiros de encerramento alertam: “Ele não se importava com quem vitimava, até encontrar o resultado da própria desonra em sua porta”.


É demasiado tarde para o pai (Charles Hill Mailes) e o filho (Charles West)


Apesar da simplicidade da exposição, Griffith demonstra domínio da narrativa. Isso se percebe principalmente na gestão do tempo de duração dos planos que conferem vigor à montagem alternada, principalmente quando expõem o crescente consumo de Dopokoke em concomitância à decrepitude das vítimas. Também merecem menção, em função da história e da época da realização, os impactantes primeiríssimos planos que revelam o frasco de cocaína marcado como “veneno” e os dedos em contato com a substância.



  
Roteiro: Emmett C. Hall (não creditado). Direção de fotografia (preto-e-branco) e operador de câmera: G. W. Bitzer. Tempo de exibição: 15 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2001)

domingo, 11 de novembro de 2018

JOHNNY WEISMULLER PASSA A TANGA PARA LEX BARKER NA FONTE MÁGICA

Determinados filmes destinados à infância, se vistos na época correta e em condições favoráveis à apreciação, permanecem inesquecíveis por mais que o tempo passe. Um exemplo é o despretensioso e ligeiro Tarzan e a montanha secreta (Tarzan's magic fountain, 1949), primeiro título assinado por Lee Sholem. Teve exibição na TV como Tarzan e a fonte mágica. Estava para completar sete anos quando o vi no cinema, no começo de 1963. Representou experiência sensorial e tanto, por causa dos elementos fantásticos da aventura — prontos a provocar frisson na garotada facilmente impressionável das matinês: a fonte de água miraculosa, o temporal seguido de rápida inundação, o gigantesco arco de flechas flamejantes, a aterrorizante caverna que aprisiona o Homem-Macaco, o malfadado e divertido contato de Cheeta com pimenta... Certamente, nada disso surtirá efeitos aos olhos de hoje. Tarzan e a montanha secreta marca a estreia de Lex Barker no papel que imortalizou Johnny Weissmuller em seis aventuras para a Metro-Goldwyn-Mayer e em igual número para a Sol Lesser Productions associada à RKO Radio. Também assinala a despedida do cinema da atriz Brenda Joyce, responsável por Jane em cinco filmes do Rei das Selvas. Ainda rende homenagens ao primeiro Tarzan cinematográfico: o ator Elmo Lincoln de Tarzan, o homem macaco (Tarzan of the apes, 1918), de Scott Sidney, aparece em rápida figuração de pescador. Segue apreciação escrita em 1978.





Tarzan e a montanha secreta

Tarzan's magic fountain

Direção:
Lee Sholem
Produção:
Sol Lesser
RKO Radio Pictures, Sol Lesser Productions
EUA — 1949
Elenco:
Lex Barker, Brenda Joyce, Albert Dekker, Evelyn Ankers, Charles Drake, Alan Napier, Ted Hecht, Henry Brandon e os não creditados Jane Adams, David Bond, Boyd Cabeen, Henry Kulky, Elmo Lincoln, Rory Mallinson, Suzanne Ridgway, Rick Vallin, Blue Washington.



No tempo de As aventuras do Super-Homem (Adventures of  Superman)
O diretor Lee Sholem com George Reeves devidamente caracterizado como Superman



Após doze filmes, os efeitos do tempo pesaram na silhueta do atleta olímpico e ator improvisado Johnny Weissmuler. Vestiu a tanga de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, em meia dúzia de aventuras produzidas pela Metro-Goldwyn-Mayer: Tarzan, o filho da selva (Tarzan the ape man, 1932), de W. S. Van Dyke; A companheira de Tarzan (Tarzan and his mate, 1934), de Cedric Gibbons e dos não creditados James C. McKay e Jack Conway; A fuga de Tarzan (Tarzan escapes, 1936), de Richard Thorpe e dos não creditados John Farrow, James C. McKay, George B. Seitz e William A. Wellman; O filho de Tarzan (Tarzan finds a son!, 1939), de Richard Thorpe, também responsável por O tesouro de Tarzan (Tarzan's secret treasure, 1941) e Tarzan contra o mundo (Tarzan's New York adventure, 1942). Nesses títulos, o papel de Jane coube a Maureen O’Sullivan.


A seguir, a Sol Lesser Productions — associada à RKO Radio — assumiu o domínio cinematográfico sobre o personagem em 11 títulos. Nos dois primeiros — Tarzan, o vingador (Tarzan triumphs, 1943) e Tarzan em terror no deserto (Tarzan's desert mystery, 1943), dirigidos por Wilhelm Thiele — Jane esteve ausente. Voltou na atuação de Brenda Joyce em cinco realizações: Tarzan e as Amazonas (Tarzan and the Amazons, 1945), Tarzan e a Mulher Leopardo (Tarzan and the Leopard Woman, 1946) e Tarzan e a caçadora (Tarzan and the huntress, 1947) — dirigidos por Kurt Neumann — seguidos de Tarzan e as sereias (Tarzan and the mermaids, 1948), de Robert Florey — no qual se encerra a participação de Weissmuler, substituído por Lex Barker em Tarzan e a montanha secreta do estreante Lee Sholem.


Brenda Joyce e Lex Barker fazem Jane e Tarzan


Barker ainda faria Tarzan e a escrava (Tarzan and the slave girl, 1950), de Lee sholem; Tarzan na terra selvagem (Tarzan's peril, 1951), de Byron Haskin; Tarzan e a fúria selvagem (Tarzan's savage fury, 1952), de Cy Endfield; e Tarzan e a Mulher Diabo (Tarzan and the She-Devil, 1953), de Kurt Neumann. Os papéis de Jane ficaram, pela ordem, com Vanessa Brown,Virginia Huston, Dorothy Hart e Joyce Mackenzie.


A substituição de Johnny Weissmuller gerou operação das mais complicadas. A imagem do mais famoso e crível protagonista de Tarzan estava, há muito, gravada na memória afetiva dos fãs. Para evitar qualquer passo em falso, o produtor Sol Lesser se cercou de todas as garantias. Pessoalmente, entrevistou mais de mil pretendentes ao papel até se deparar com o aristocrático e atlético universitário Lex Barker. De imediato, um importante problema estético se apresentou: o peito excessivamente peludo do novo Tarzan o obrigou a constantes depilações. Quanto ao mais, substituiu Weissmuller à altura. É, ainda, um dos melhores nomes que deram vida ao personagem. Estreou em filme que, aos padrões atuais, preserva relativamente bem o interesse — graças ao tom francamente fabulatório e à movimentação constante. Praticamente não há tempos mortos em Tarzan e a montanha secreta, relançado na televisão como Tarzan e a fonte mágica — opção mais fiel que o original Tarzan's magic fountain.


O novato Leo Sholem se saiu bem na empreitada e ganhou reputação como hábil encenador de produções despretensiosas e ligeiras destinadas ao consumo imediato no cinema e na TV. Dirigiu Maureen O’Hara em A rainha dos renegados (The redhead from Wyoming, 1953), Johnny Weissmuler em Homem crocodilo (Cannibal attack, 1954) e Na selva dos diamantes (Jungle man-eaters, 1954), além de episódios de diversas telesséries como a marcante As aventuras do Super-Homem (Adventures of Superman)[1], protagonizada por George Reeves.


Tarzan (Lex Barker)

Jane (Brenda Joyce)

Jane (Brenda Joyce) e Tarzan (Lex Barker)


O roteiro de Curt Siodmak e Harry Chandlee para Tarzan e a montanha secreta põe o personagem em contato com utopias sobre a preservação da mocidade segundo a descrição de James Hilton para o Shangri-La no romance Horizonte perdido (1933) e as buscas do explorador espanhol Juan Ponce de León, no século 16, pela lendária Fonte da Juventude na região estadunidense atualmente compreendida pela Flórida. O script também reatualiza, de certo modo, o desaparecimento da pioneira aviadora estadunidense Amelia Mary Earhart, em 1937, quando sobrevoava o Oceano Pacífico na tentativa de dar a volta ao mundo. Declararam-na oficialmente morta em 1939.


No filme, Gloria James Jessup (Ankers) sobrevive a acidente de avião há 20 anos — em área próxima à moradia de Tarzan. Deixada aos cuidados dos moradores do secreto Vale Azul, preservou a juventude graças aos efeitos de uma água miraculosa. Jamais voltou à civilização. Tarzan guardou cuidadosamente o segredo de seu paradeiro, inclusive de Jane. Porém, a chimpanzé Cheeta encontra os restos do avião e pertences da sobrevivente. Pressionado pela companheira, o Rei das Selvas resolve enviá-los à família de Gloria, na Inglaterra, pelo transporte aéreo mais próximo. Descobre que Douglas Jessup (Napier), marido da desaparecida, está preso sob a acusação de assassiná-la e sumir com o corpo.



Acima e abaixo: Evelyn Ankers no papel de Gloria James Jessup

  
Aturdido pela consciência, Tarzan volta ao Vale Azul. Ao tomar ciência das novidades, Gloria retorna à civilização para providenciar a libertação de Douglas. O aparecimento causa consternação geral, pois não envelheceu depois de tanto tempo. A partir daí, os ambiciosos e inescrupulosos Trask (Dekker) e Dodd (Drake), empresários do transporte aéreo, não medem esforços para descobrir as causas do mistério e obter lucro financeiro. Desafortunadamente, na distância da fonte milagrosa o envelhecimento retorna.


Passado algum tempo, Gloria retorna à selva na companhia de Douglas, Trask e Dodd. Pretendem chegar ao Vale Azul. Sabiamente, Tarzan se recusa a conduzir o grupo. Prometeu nunca revelar a rota para o lugar. Decepcionada com o companheiro e condoída com o visível envelhecimento de Gloria, Jane se oferece para guia — mesmo com parco conhecimento do terreno e sem desconfiar das intenções de Trask e Dodd. O caminho é cheio de obstáculos. Felizmente, Tarzan acompanha o grupo de perto. Com a providencial ajuda de Cheeta, livra-o de perigos e deixa os Jessup na definitiva segurança do Vale Azul — conforme o pretendido. Os ameaçadores empresários morrem. Resta a Tarzan superar a desconfiança de alguns nativos recalcitrantes, dispostos a eliminar os intrusos de uma vez por todas.


Cheeta em descobertas que desencadeiam a aventura

  
Tarzan e a montanha secreta guarda, apesar da puerilidade, os elementos fantásticos que garantiam sabor às velhas matinês da infância. Graças ao roteirista Curt Siodmak — irmão do renomado cineasta Robert Siodmak —, a narrativa alterna boas sequências de atmosfera com passagens repletas de perigos e obstáculos no caminho do Vale Azul. A inundação que surpreende Jane e comitiva na ravina estreita, quase sem saída, é um achado. Começa com uma chuva logo intensificada ao mesmo tempo em que as águas sobem a ponto de quase afogar a turma. De repente, sobrevém a estiagem e desaparecem os vestígios de umidade no terreno. Na entrada do vale, gigantesca balestra de flechas flamejantes parece ainda mais mortal devido à fotografia de tonalidades expressionistas do mestre Karl Struss. Também é o responsável pelas dimensões assustadoras da caverna na qual Tarzan é imobilizado para perder a visão mediante infernal instrumento em brasa. Certamente, as crianças de agora não sentirão frisson algum com os equipamentos e soluções cinematográficas de antanho. Sinal dos tempos!


David Bond como o Sumo Sacerdote do Vale Azul


Por fim, algumas curiosidades: em Tarzan e a montanha secreta Brenda Joyce abandona não só o papel de Jane; também o cinema. Confessou que nunca morreu de amores pela personagem e amargava as tentativas de assédio da parte de Johnny Weissmuller. Lex Barker faleceu por ataque cardíaco em 1973, aos 54 anos, enquanto caminhava em Nova York. Elmo Lincoln, o primeiro ator a viver Tarzan no cinema — Tarzan, o homem macaco (Tarzan of the apes, 1918), de Scott Sidney — faz ponta como pescador na realização de Leo Sholem.





Roteiro: Curt Siodmak, Harry Chandlee, com base em personagens criados por Edgar Rice Burroughs. Música: Alexander Laszlo. Direção de fotografia (preto e branco): Karl Struss. Montagem: Merrill G. White, John Sheets (não creditado). Desenho de produção: Phil Paradise. Direção de arte: McClure Capps. Decoração: Otto Siegel (não creditado). Maquiagem: Norbert A. Myles. Gerente de produção: Barney Briskin (não creditado). Assistência de direção: Bert Briskin. Técnico de som: Franklin Hansen. Fotografia de cena: Madison S. Lacy (não creditado). Eletricista-chefe: John M. Lee (não creditado). Operador de câmera: William Margulies (não creditado). Assistência de câmera: Morris Rosen (não creditado). Supervisão de guarda-roupa: Frank Beetson Jr. Direção musical: Alexander Laszlo. Amestrador de Cheetah: Albert Antonucci (não creditado). Continuidade: Shirley Baron (não creditada). Publicidade (não creditada): Bob Fender, Harry Niemeyer. Sistema de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 73 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1978)




[1] São 104 episódios distribuídos por seis temporadas com produção de Whitney Ellsworth, Robert J. Maxwell e Bernard Luber. Foram exibidos originalmente pelo canal Syndication de 19 de setembro de 1952 a 28 de abril de 1958. 

domingo, 4 de novembro de 2018

FRANCO FRANCHI E CICCIO INGRASSIA ESCULHAMBAM O NORTE E O SUL NA GUERRA DE SECESSÃO

O boom do cinema popular italiano no mercado exibidor brasileiro atingiu o auge durante os anos 60. As plateias receberam farta e sortida dieta composta de comédias ligeiras, dramas passionais, fantasias históricas, aventuras de capa e espada, episódios do Império Romano, westerns spaghetti, policiais e os terríveis épicos protagonizados por heróis musculosos de extração mitológica: Maciste, Hércules, Sansão, Ulisses, Golias e outros menos prestigiados. O período também conheceu as aventuras da dupla formada pelos comediantes Franco Franchi e Ciccio Ingrassia, queridíssimos do público italiano. Deram o ar da graça em aproximados 110 títulos realizados de 1960 a meados dos anos 70, nem todos conhecidos dos brasileiros. Amparados por diretores diversos, fizeram troça de todos os gêneros e não perdoavam produções prestigiadas imediatamente parodiadas em títulos reveladores como Os filhos do leopardo (I figli del leopardo, 1965), de Sergio Corbucci; Dois mafiosos contra Goldfinger (Due mafiosi contro Goldginger, 1965), de Giorgio Simonelli; O belo, o bruto, o cretino (Il bello, il brutto, il cretino, 1967), de Giovanni Grimaldi; Il clan dei due Borsalini (1971), de Giuseppe Orlandini etc. Em 1965, nos papéis dos sicilianos irmãos La Pera, Franco Franchi e Ciccio Ingrassia puseram em polvorosa as forças confederadas e unionistas na Guerra de Secessão. Infelizmente, a coprodução ítalo-espanhola Os dois sargentos do General Custer (I due sergenti del generale Custer/Dos vivales en Fuerte Álamo, 1965), não está entre os melhores trabalhos da dupla. Pulso e capacidade de orientação faltaram ao diretor Giorgio Simonelli. O humor, constrangedor, peca pelo excesso de grosseria. Em muitos momentos o elenco de apoio é dominado pela apatia e a narrativa avança ao sabor das circunstâncias. Segue apreciação escrita em 1978.






Os dois sargentos do General Custer
I due sergenti del Generale Custer/Dos vivales en Fuerte Álamo

Direção:
Giorgio Simonelli
Produção:
Edmondo Amati
Balcázar Producciones Cinematográficas, Fida Cinematografica
Itália, Espanha — 1965
Elenco:
Franco Franchi, Ciccio Ingrassia, Margaret Lee, Moira Orfei, Fernando Sancho, Ernesto Calindri, Franco Giacobini, Nino Terzo, Aroldo Tieri, Riccardo Garrone, Michele Malaspina, Dina Loy, Juan Luis Gallardo, Armando Curcio, Alfio Caltabiano, Nino Fuscagni, Enzo Andronico, Rino Genovese, Gina Mascetti, Pasquale Basile, Vittorio Duse, Antonio Cuenca, Anna Lina Alberti, Mirko Baiocchi, Tom Felleghy, Mario Filippo, Víctor Israel, Osiride Pevarello, Pupita Lea Scuderoni, Ignazio Spalla e os não creditados Ugo Fangareggi, Mimmo Poli.



O diretor Giorgio Simonelli


Os anos 60, no Brasil, foram generosos para o cinema popular italiano. O país deu plena vazão ao prolongamento de um movimento evidenciado na década anterior, quando a Itália revelava evidentes sinais de recuperação econômica após a derrocada fascista experimentada durante a Segunda Guerra Mundial. A isso se seguiram a invasão nazista e incursão dos aliados desde o desembarque no extremo sul da península. Tornaram-se comuns as comédias ligeiras, dramas passionais, fantasias históricas, aventuras de capa e espada, episódios do Império Romano, westerns spaghetti, policiais, épicos protagonizados por heróis musculosos de extração mitológica — Maciste, Hércules, Sansão, Ulisses, Golias e outros menos prestigiados. Eram, em geral, produções despretensiosas e ordinárias, em sua maioria filmadas sobre o pano de fundo de cenários reciclados, montadas às pressas, interpretadas com certo desleixo e submetidas ao consumo imediato de plateias ávidas por diversão em salas situadas à margem dos grandes circuitos, espalhadas pelas cidades interioranas e periferias das capitais.



A famosa dupla cômica Franco Franchi e Ciccio Ingrassia floresceu nesse boom. Ao que parece, estreou em papel secundário sob a direção de Mario Mattoli em Férias na praia (Appuntamento a Ischia, 1960). Em 1961 já era a atração principal de L'onorata società, de Ricardo Pazzaglia. Pôde, ainda nesse ano, aprimorar a veia cômica como parte do elenco de apoio de 5 marine per 100 ragazze, de Mario Mattoli; O juízo universal (Il giudizio universale), de Vittorio De Sica; Maciste contro Ercole nella Valle dei Guai, de Mario Mattoli; Gerarchi si muore, de Giorgio Simonelli; e Amor, bonecas e... (Pugni, pupe e marinai), de Daniele D’anza. Logo se tornou sucesso de público.


Franco Franchi no papel de Franco La Pera

Franco Franchi como Franco La Pera e Ciccio Ingrassia no papel de Ciccio La Pera


Franchi e Ingrassia não desperdiçavam oportunidades. Estavam sempre prontos para o cinema. Revezavam participações secundárias com o protagonismo. Logo caíram definitivamente no gosto popular, o que se confirmou a partir de 1964. Até o fim da parceria, em meados dos anos 70, marcaram presença, sem exagero, em aproximados 110 títulos — considerando-se apenas os cinematográficos. Inspiravam-se visivelmente na dupla estadunidense Dean Martin e Jerry Lewis. Também extraíam elementos das comicidades de Bud Abbott & Lou Costello e Os Três Patetas (The Three Stooges). Não raro se envolviam, no calor da hora, em paródias de produções de sucesso reveladas imediatamente por estes títulos: Os filhos do leopardo (I figli del leopardo, 1965), de Sergio Corbucci; O alto, o baixo, o gato (Il lungo, il corto, il gatto, 1967), de Lucio Fulci; O belo, o bruto, o cretino (Il bello, il brutto, il cretino, 1967), de Giovanni Grimaldi; Il clan dei due Borsalini (1971), de Giuseppe Orlandini; I due figli di Trinità (1972), de Osvaldo Civirani[1] etc. Transitavam com desenvoltura do western ao terror, dos filmes de gângster às aventuras de espionagem, dos épicos aos melodramas, das sagas bélicas às crônicas amorosas.


O vilão:  Sargento Fidhouse (Fernando Sancho)


Enquanto o macérrimo e alto Ciccio Ingrassia fazia o parceiro fisicamente desengonçado, também mais contido e racional, Franco Franchi vivia, via de regra, o tipo espalhafatoso, verborrágico e excessivamente histriônico — a ponto de ultrapassar os limites da grosseria. Nem sempre a fórmula funcionava a contento. Certo era o apoio popular, fator que explica a longevidade da dupla e a espantosa quantidade de filmes em que atuou.


Infelizmente, Os dois sargentos do General Custer é um dos piores trabalhos da parelha. O resultado do humor é constrangedor neste cômico western spaghetti rodado em exteriores espanhóis. O General Custer entrou de gaiato no título brasileiro, como desnecessário e desonesto chamariz. Não há personagem algum com o nome do famoso militar massacrado com o malfadado Sétimo de Cavalaria, pelos índios Sioux, na famosa batalha de Little Bighorn.


Os La Pera (Ciccio Ingrassia e Franco Franchi) em apuros com o Sargento Fidhouse (Fernando Sancho)

Sargento Fidhouse, os La Pera e Mary: Fernando Sancho, Franco Franchi, Ciccio Ingrassia e Dina Loy

Cochise (Franco Giacobini), Franco La Pera (Franco Franchi) e Ciccio La Pera (Ciccio Ingrassia)


Durante a estadunidense Guerra de Secessão, Franchi e Ingrassia vivem os imigrantes irmãos sicilianos Franco La Pera e Ciccio La Pera. São soldados nortistas covardes e atrapalhados. O filme é comédia burlesca das mais exageradas. Dessa característica resultam os problemas. Diante das excessivas patacoadas derivadas principalmente das micagens de Franco Franchi, os demais componentes do elenco parecem reduzidos a figurantes pasmados. Não sabem bem o que fazer com bocas, expressões e mãos. Exemplos dessas deficiências são as belas e inúteis beldades vividas por Margaret Lee e Moira Orfei. Parecem-se mais a estáticos enfeites de mesa, incapazes de ação própria. Dão a impressão de serem movimentadas à força e com má vontade por elementos exteriores à cena. Fernando Sancho — geralmente o homem mau dos westerns europeus — é exceção na pele do Sargento Fidhouse. O mesmo vale para Franco Giacobini como um estereotipado e divertido Cochise, chefe Apache.


Baseados no Forte Álamo, os La Pera pereceram heroicamente em combate. Com essa nota triste começa a história. Recebem condecorações póstumas por bravura. No entanto, a trapaça é imediatamente descoberta. São aprisionados e condenados à morte por fuzilamento, algo que não será fácil diante das muitas trapalhadas que provocam. Por um golpe de sorte são perdoados pelo desgostoso Coronel (Calindri) comandante da guarnição. Serão usados como bois de piranha em experimento científico sobre as vantagens bélicas da espionagem. O estudo é desenvolvido por notórios especialistas da inteligência militar (Tieri e Garrone). Cabe-lhes observar o comportamento dos La Pera quando lançados em busca de informações no interior das linhas controladas pelas forças do Sul. Infelizmente, a ciência não contava com a profusão de variáveis intervenientes — impossíveis de controle, portanto — geradas pelas desastradas cobaias. Provocam seguidos aprisionamentos dos inteligentes especialistas por forças confederadas. Evidentemente, graças à ação do destino, derrotam todo um destacamento sulista que ameaçava o Forte Álamo. Na operação, descobrem a traição cometida pelo Sargento Fidhouse e conseguem capturá-lo quando estavam envolvidos com os Apaches. Franco e Ciccio são reconhecidos como heróis de fato. Promovidos a sargentos, fazem jus às mais honrosas condecorações militares e a uma destrutiva salva de canhão.


Os irmãos La Pera (Ciccio Ingrassia e Franco Franchi) entre Baby O'Connor (Moira Orfei) e Beth "The Lynx" Smith (Margaret Lee)


O veterano Giorgio Simonelli acumulou experiência na direção de filmes estrelados por Franco Franchi e Ciccio Ingrassia. Gerarchi si muore (1961), é o primeiro. Seguem-se I tre nemici (1962), 2 samurai per 100 geishe (1962), Dois mafiosos no far west (Due mafiosi nel far west, 1964), Os dois mafiosos (I due mafiosi, 1964) e I due toreri (1964). Após Os dois sargentos do General Custer fez Dois mafiosos contra Goldfinger (Due mafiosi contro Goldginger, 1965), Dois mafiosos contra Al Capone (2 mafiosi contro Al Capone, 1966), Os dois filhos de Ringo (I due figli di Ringo, 1966)[2], I due sanculotti (1966) e Amici più di prima (1976)[3] — com o qual encerrou a carreira.


O Coronel (Ernesto Calindri) condecora os irmãos La Pera (Ciccio Ingrassia e Franco Franchi)


Infelizmente, diante dos frágeis resultados, Giorgio Simonelli dá a impressão de não existir em Os dois sargentos do General Custer. Em todos os sentidos a realização sofre da ausência de direção capaz ao menos de atenuar os excessos. Pelo visto, Simonelli se limitava a gritar AÇÃO. A seguir, deixava para a natureza os cuidados com os aspectos artísticos, humorísticos e narrativos. Somente crianças desprovidas de maiores exigências são capazes de suportar impunemente tão relapso exercício de chanchada.





Roteiro: Giorgio Simonelli, Amedeo Sollazzo, Marcello Ciorciolini baseados em história de Marcello Ciorciolini. Música: Angelo Francesco Lavagnino. Direção de fotografia (Eastmancolor): Isidoro Goldberger. Montagem: Franco Fraticelli. Desenho de produção: Nedo Azzini. Decoração: Nedo Azzini. Figurinos: Nedo Azzini. Gerente de produção: Mario Mariani. Supervisão da produção: Piero Picuti. Assistentes de direção: Francisco Ariza, Giuliano Carnimeo. Planejamento do set: Ramiro Gómez. Assistente de decoração: Giuseppe Cesare Monello. Engenharia de som: Leopoldo Rosi. Efeitos especiais: Armando Grilli. Operador de câmera: Gianni Bergamini. Assistência de figurinista: Gabriella Gabrielli. Armeiro: Enzo Musumeci Greco (não creditado). Continuidade: Paola Salvadori. Tempo de exibição: 96 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1978)




[1] Creditado com o pseudônimo de Richard Kean.
[2] Codirigido por Giuliano Carnimeo.
[3] Codirigido por Marino Girolami e Giovanni Grimaldi.