A história é conhecida por embatucar um dos mais renomados
nomes da literatura policial. Howard Hawks preparava a produção de À
beira do abismo (The big sleep, 1946), baseado em obra
de Raymond Chandler. Durante a adaptação, os roteiristas William Faulkner,
Leigh Brackett e Jules Furthman ficaram confusos quanto à identificação de um
assassino. Pediram esclarecimentos ao escritor. Este também se viu perdido. Se
isso acontece com um autor — geralmente atento na elaboração de obras
intrincadas —, pode-se imaginar o que se passa com desavisados leitores diante da
quantidade de pistas e personagens envolvidos na solução de mistérios. O
brincalhão roteirista e teatrólogo Neil Simon imaginou situação parecida.
Tomado pela fúria, um atento leitor de novelas policiais resolve se vingar das
peças e armadilhas preparadas por Agatha Christie, Dashiell Hammett e Earl Derr
Biggers. Desafia os cinco mais proeminentes investigadores, cujas identidades
se baseiam nas criações daqueles escritores: Sidney Wang (Peter Sellers), Dick
Charleston (David Niven), Jessica Marbles (Elsa Lanchester), Milo Perrier
(James Coco) e Sam Diamond (Peter Falk). São trancados pelo irado anfitrião
Lionel Twain — vivido por Truman Capote — no cenário de misteriosos
assassinatos. Oferece um milhão de dólares ao primeiro que resolvê-los. Um
mordomo cego (Alec Guinness) de curioso nome e uma cozinheira surda-muda e
analfabeta (Nancy Walker) acompanham o perplexo time. Quase toda a encenação
transcorre em ambiente fechado. Roteiro, diálogos e interpretações são
primorosos. O espectador deve redobrar a atenção diante de muitos cacos,
pegadinhas e diálogos de duplo sentido. Infelizmente, a direção não se valeu da
sutileza e do dinamismo para conduzir a narrativa. É de 1992 esta apreciação para
Assassinato
por morte (Murder by death, 1976), de Robert Moore.
Assassinato por
morte
Murder by death
Direção:
Robert Moore
Produção:
Ray Stark
Rastar Pictures, Columbia Pictures
Corporation
EUA — 1976
Elenco:
Eileen Brennan, Truman Capote,
James Coco, Peter Falk, Alec Guinness, Elsa Lanchester, Peter Sellers, Maggie
Smith, Nancy Walker, David Niven, Estele Winwood, James Cromwell, Ricard Narita
e os não creditados Cão Myron, Fay Wray (voz).
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O diretor Robert Moore e o roteirista Neil Simon |
Esta sátira é a
primeira das três realizações cinematográficas de Robert Moore, precocemente
falecido em 1984 aos 56 anos. Seguiram-se O detetive desastrado (The
cheap detective, 1978) e Capítulo dois: em busca da felicidade
(Chapter
two, 1979). Era mais conhecido no meio teatral. Mereceu prêmios por
peças encenadas na Broadway. Também se aventurou na direção de episódios de
séries e filmes para a televisão.
Assassinato por
morte tem roteiro inteligente de Neil Simon. No elenco estelar há lugar
para o escritor e jornalista Truman Capote. O alienígena não faz feio. Até mereceu
indicação ao Globo de Ouro. O tema do filme remete de imediato a um dos casos mais
intrincados e cômicos da elaboração de roteiros. Envolve o autor Raymond
Chandler mais os roteiristas William Faulkner, Leigh Brackett e Jules Furthman.
Em 1945, Howard
Hawks preparava as filmagens de À beira do abismo (The
big sleep, 1946). O ponto de partida é o conto Killer in the rain, de
Chandler, expandido para o romance The big sleep — publicado em 1939 e protagonizado
pelo detetive particular Philip Marlowe. Durante a adaptação, Faulkner,
Brackett e Furthman ficaram confusos e com razão: não souberam identificar o
assassino de determinado personagem. Para matar a charada, contataram o autor. Este
estranhou. Alegou, furioso, que a história era suficientemente clara para
abrigar confusões e questões mal respondidas. Logo se desculpou. Conferiu o texto
e se percebeu perdido.
Assassinato por
morte brinca com a fórmula whodunit,
redução da pergunta inglesa Who has done
it? Em português: Quem fez isto? ou,
mais especificamente, Quem é o culpado?
Tornou-se a base das literaturas policial e de mistério a partir da introdução
por Edgar Allan Poe no conto Assassinatos na Rua Morgue (The murders
in the Rue Morgue), de 1841. Usaram-na à larga Arthur Conan Doyle,
Agatha Christie, Chandler, Dashiell Hammett, Earl Derr Biggers e outros. Em
geral, os autores apresentam situações misteriosas sobre desaparecimentos ou
assassinatos. Enquanto a trama avança, introduzem os personagens e lançam sucessivas
pistas falsas com a intenção de provocar o leitor e gerar suspense. Não raro,
tudo se mistura e nem sempre o desenvolvimento é cristalino. Daí surgem as
famosas forçações de barra e contrariedades da parte dos leitores mais exigentes.
A clareza para a resolução dos casos dependerá, sempre, do talento dos autores
quanto à escrita e utilização da lógica narrativa.
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Truman Capote como Lionel Twain, o irado anfitrião de Assassinato por morte |
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Alec Guinness como Jamesir Bensonmadame, impagável mordomo cego |
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Peter Sellers como o sagaz Sidney Wang |
Um leitor
contrariado está na origem da trama satírica de Assassinato por morte. Prepara
uma peça indireta para renomados autores por meio dos perspicazes personagens
que conceberam. Fãs da literatura policial e cinéfilos atentos logo percebem a
quem remetem. Sidney Wang (Sellers) e seu adotivo filho japonês Willie Wang
(Narita) correspondem à criação de Earl Derr Biggers: Charlie Chan. É pai de
inúmeros filhos que o auxiliam na resolução de casos os mais rocambolescos. Se
bem que há traços de Fu Manchu — o sagaz criminoso chinês bolado por Sax Rohmer
—, segundo o figurino cinematográfico, na caracterização de Sellers. Também comparece
o elegante e requintado casal britânico Dick Charleston (Niven) e Dora
Charleston (Smith), alusivo a Nick Charles e Nora Charles criados em 1933 por
Dashiell Hammett para The thin man. Agatha Christie se faz
presente pela inusitada troca de posição das criações Jane Marple e enfermeira Withers.
Ambas se convertem em Jessica
Marbles (Lanchester) e na idosa entrevada e Winters
(Winwood). Esta pouco fala durante todo o filme. Agora é a bondosa e agradecida
detetive que toma para si o trabalho de cuidar da enfermeira em idade avançada.
Não poderia faltar o mais referencial personagem de Christie: Hercule Poirot,
representado por Milo Perrier (Coco) auxiliado pelo diligente motorista Marcel
Cassete (James Cromwell). Por fim, há o cínico e duro investigador
estadunidense Sam Diamond, junção de Sam Spade — concebido por Dashiell Hammett
para a novela The Maltese Falcon, de 1930 — e Richard Diamond — detetive idealizado
pelo cineasta Blake Edwards para a série de TV Richard Diamond, Private
Detective, lançada em 1957. Acompanha-o a secretária Tess Skeffington
(Brennan), uma faz tudo com capacidade para suportar humilhações e a sinceridade
sem papas na língua do chefe.
Todos esses
maravilhosos investigadores recebem misteriosos e irrecusáveis convites do recluso
e sistemático bilionário Lionel Twain (Capote), um idoso bem conservado de 76
anos e expert em inventos, disfarces, truques e eletrônica. Habita uma espécie
de fortaleza medieval modernizada erguida em local afastado e à qual convergem
os convocados. Chegam relativamente intactos, apesar de alguns contratempos
perigosos espalhados pelo caminho. São recebidos por um profissional
fundamental nas novelas policiais e de mistério: o mordomo (Guinness). Além de
cego, atende pelo curioso e sugestivo nome de Jamesir Bensonmadame. Para o
preparo da refeição, é auxiliado pela não menos inusitada Yetta (Walker) — cozinheira
surda-muda e analfabeta, contratada especialmente para a ocasião. Perto da meia-noite, os visitantes poderão degustar a sobremesa com sabor de prato principal:
um assassinato. Deverão resolvê-lo, com a advertência de que um dos presentes é
o culpado. Evidentemente, prepara-se o terreno para uma competição. O vencedor
receberá a tentadora quantia de um milhão de dólares. Porém, Lionel Twain adianta:
é mais brilhante que os ilustres comensais. Afinal, passou muito tempo na
minuciosa leitura exegética de muitos casos complicados que resolveram.
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Dora Charleston (Maggie Smith) e Dick Charleston (David Niven) |
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Sam Diamond (Peter Falk), Lionel Twain (Truman Capote) e Dick Charleston (David Niven) |
Pontualmente, no
horário combinado, as portas e janelas da sala de jantar e dependências
contíguas são automaticamente trancadas. O assassinato acontece. Comunica-o a
cozinheira, com o mais espantoso grito jamais emitido — dada a condição da
mulher. O mordomo é a vítima. A agitação é geral. Confusões e equívocos se
instalam. Os investigadores examinam o corpo, deduzem, levantam pistas e
suspeitas. Revelam-se brilhantes, incisivos, certeiros, provocativos e
irritadiços. Para complicar, o próprio Lionel Twain também é morto ou assim
permanece até segunda ordem, tal qual o mordomo. Nem a senhora Yetta se
apresenta em boas condições.
Assassinato por
morte é um festival de tiradas, piadas de duplo sentido, boas atuações e nonsense. Os atores parecem se divertir
mais que os espectadores. Os personagens vivem situações além das barreiras do
absurdo. Não há duvidas de que o roteiro é um primor de sagacidade. Porém, com
o andar da carruagem é fácil perceber que a condução de Robert Moore não é lá
essas coisas. O filme prometedor de tanta diversão inteligente logo se torna
uma grande chacota esticada. A encenação em ambiente fechado e reduzido mais se
parece a um estático exemplar de teatro filmado. Conforme o esperado, cansa. Ao
fim, os pobres investigadores apalermados se vêem incapacitados para solucionar
os mistérios. Constrangidos com a situação na qual se inseriram com a maior boa
vontade, ainda tiveram que ouvir uma advertência endereçada não exatamente a
eles, mas aos reais autores dos personagens que representam: “Vocês foram tão
espertos durante certo tempo que se esqueceram de ser humildes. Mentiram e
enganaram seus leitores durante anos. Torturaram-nos com finais surpresa que
não faziam sentido. Introduziram personagens, ao final, que não estavam antes
no livro. Esconderam pistas e informações que tornaram impossível adivinhar ‘quem
foi’. Mas, agora, as coisas mudaram. Milhões de zangados leitores de livros de
suspense terão a hora da vingança. (...) Os seus livros de um dólar e 95
centavos serão vendidos por 12 centavos. É hora de irem embora, senhores e
senhoras”. Os sagazes detetives partem com os rabos entre as pernas. No
entanto, como acontece nos livros tão criticados por Lionel Twain, as surpresas
estão longe de terminar.
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O mordomo (Alec Guinness), Willie Wang (Richard Narita) e Sidney Wang (Peter Sellers) |
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Jessica Marbles (Elsa Lanchester), Sidney Wang (Peter Sellers), o mordomo (Alec Guinness) e Milo Perrier (James Coco) |
As atuações são
excelentes. Os atores estão à altura das exigências dos personagens. Certamente,
David Niven e Maggie Smith são pouco exigidos em razão da contenção britânica
de Dick e Dora Charleston. Alec Guinness é insuperável como o mordomo tão
inusitado. É incrível como lhe parece natural a representação de um cego.
Porém, se houvesse a necessidade de eleger um desempenho como o melhor, seria o
de Peter Falk — pela capacidade de conjugar os clichês característicos dos
principais detetives da literatura conforme a recriação cinematográfica desde
os tempos de Humphrey Bogart. A interpretação do ator pode até ser exagerada,
mas não cai na afetação ou canastrice. Peter Sellers é ótimo, como sempre. Só
que oferece mais do mesmo. O corpo estranho Truman Capote não decepciona.
Entrega o esperado a um personagem frustrado, furioso e possuído pela vanglória.
Infelizmente, a incrível cozinheira vivida por Nancy Walker aparece pouco. Teria
muitas e ótimas contribuições se interagisse mais com os investigadores. Ao menos
é o que parece. As opções do roteiro foram outras e não cabem reclamações. A
direção, infelizmente, deixou a desejar.
No elenco está Fay
Wray, intérprete de Ann Darrow em
King
Kong (King Kong, 1933), de Merian C. Cooper
e Ernest B. Schoedsack. Entretanto, não aparece em cena, ao menos de forma
visível. Participa por meio de um dos atributos que a tornaram memorável graças
ao título referenciado: os gritos da personagem. Servem ao som emitido pela
campainha da entrada principal do castelo de Lionel Twain.
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Maggie Smith no papel de Dora Charleston |
Merecem destaque
os divertidos e funcionais comentários musicais de Dave Grusin, a evocativa direção
de fotografia de David Walsh e a combinação entre direção de arte e decoração
de interiores por conta dos profissionais Harry Kemm e Marvin March.
Roteiro: Neil Simon. Produção
associada: Roger M. Rothstein. Música:
Dave Grusin. Direção de fotografia
(Metrocolor, Panavision): David M. Walsh. Montagem: John F. Burnett. Supervisão
de montagem: Margaret Booth. Aprendiz
de montagem: John Brice. Assistente
de montagem: Michael A. Stevenson. Produção
de elenco: Jennifer Shull. Desenho
de produção: Stephen Grimes. Direção
de arte: Harry Kemm. Decoração: Marvin
March. Figurinos: Ann Roth. Maquiagem: Joseph Di Bella. Supervisão de maquiagem: Charles
Schram. Penteados: Vivienne Walker. Assistência de direção: Fred T. Gallo. Segunda assistência de direção: David
O. Sosna. Contrarregra: Terry E.
Lewis. Carpintaria: Ron Frazier (não
creditado). Mixagem sonora: Jerry
Jost. Operador de boom: Joseph Kite.
Regravação de som: Tex Rudloff. Edição de efeitos sonoros: Frank Warner.
Efeitos especiais: Augie Lohman. Dublê: Maurice Marks (não creditado). Assistência de câmera: Robert Edesa, Richard
Moran. Eletricista-chefe: Norman
Harris. Operador de câmera: Roger
Shearman Jr. Fotografia de cena: Mel
Traxel. Confecção de vestuário: Tony
Faso (masculino), Agnes G. Henry (feminino). Joias: Joan Joseff (não creditada). Edição musical: George Probert. Planejamento de créditos: Charles Addams, Wayne Fitzgerald. Assistência para a produção: Frank
Bueno. Assistência para a gerência de
produção: Shari Leibowitz. Assistência
para Ann Roth: Mary Malin. Auditoria
da produção: Vince Martinez. Instrutor
de diálogos: George Rondo. Publicidade:
Carol Shapiro. Continuidade: Julia
Tucker. Firma de serviços de produção:
Benmil & Associates. Jurisdição da
produção: International Alliance of Theatrical Stage Employees (IATSE). Tempo de exibição: 94 minutos.
(José
Eugenio Guimarães, 1992)