Os primeiros antecedentes para as filmagens de Crepúsculo
de uma raça (Cheyenne Autumn, 1964) são encontrados
em Richard Widmark.
O intérprete do Capitão Thomas Archer no derradeiro western
de John Ford foi professor universitário em Yale antes de optar pela carreira
de ator com o intuito de se divertir. Formado em Literatura Inglesa ,
Artes e Direito, Widmark conhecia profundamente o tema da épica e longa marcha
dos últimos Cheyennes rumo às terras de origem — inclusive o livro Cheyenne
Autumn, de Mari Sandoz, publicado em 1953. A migração — um
movimento milenarista — aconteceu em 1878. Graças ao ator, Ford tomou ciência
do assunto. Inicialmente, não pretendia filmá-lo. Mudou de ideia no começo dos
anos 60 e escalou Widmark para protagonista. Ao estampar a dramática situação
de penúria física e material dos Cheyennes, o realizador — malgrado todas as
críticas acerca das caracterizações dos líderes tribais e de alguns diálogos
por demais enfáticos — inovou. Trata-se de um western avesso às principais convenções
do gênero. Grosso modo, a má compreensão acompanhada de menosprezo ao filme
decorre de avaliadores que optaram, metaforicamente, por observar árvores
isoladas e não o conjunto da floresta. Mesmo limitado pela enfermidade que lhe abreviou
a vida em 1973, Ford armou narrativa das mais complexas em estrutura
vigorosamente anticlimática. Um dia — quem sabe? — Crepúsculo de uma raça será
considerado com boa vontade e justiça, não somente por ser um dos mais importantes
westerns revisionistas. Nele, o cineasta reavalia criticamente a própria
trajetória no cinema, inclusive as esperanças alimentadas para os Estados
Unidos em períodos marcados por maior otimismo. A visão acinzentada e tingida
de pessimismo que passou a endereçar ao país se acentuava nos últimos filmes
desde Rastros de ódio (The searchers, 1956) e, pode-se
dizer, atingiu o paroxismo em Crepúsculo de uma raça. É fundamental
perceber as motivações e falas dos personagens interpretados por Carroll Baker
e Mike Mazurki — Deborah Wright e Stanilslaus Wichowsky — e as mudanças
operadas na visão de mundo do Capitão Thomas Archer para se ter a certeza de
que a realização apresenta um cineasta na plena maturidade, em diálogo crítico
consigo mesmo e ao longo de todas as estações temporais nas quais consolidou uma
das mais sólidas filmografias, principalmente os títulos ambientados no velho
Oeste. Segue a segunda e última parte de uma apreciação originalmente escrita
em 1978, revista e ampliada em 1996.
Crepúsculo de uma
raça
Cheyenne Autumn
Direção:
John Ford
Produção:
John Ford (não creditado), Bernard
Smith
Warner Brothers, Ford-Smith
Productions
EUA — 1964
Elenco:
Richard Widmark, Carroll Baker,
Ricardo Montalban, Gilbert Roland, Dolores Del Rio, Sal Mineo, James Stewart,
Edward G. Robinson, Karl Malden, Arthur Kennedy, Patrick Wayne, Elizabeth
Allen, John Carradine, Victor Jory, Mike Mazurki, George O'Brien, Sean McClory,
Judson Pratt, Carmen D'Antonio, Ken Curtis e os não creditados Ben Johnson,
Bing Russell, Carleton Young, Chuck Hayward, Chuck Roberson, Denver Pyle, Donna
Hall, Harry Carey Jr., James Flavin, Jeannie Epper, John Qualen, Lee Bradley,
Louise Montana, Many Muleson, Mary Statler, Nancy Hsueh, Nanomba "Moonbeam"
Morton, Sam Harris, Shug Fisher, Stephanie Epper, Walter Baldwin, Walter Reed,
William Henry, Willis Bouchey, James O'Hara, Frank Bradley, Danny Borzage, Dean
Smith, David H. Miller, Ted Maples, Al Bain, Bert Stevens, Bill Borzage, Bill
Williams, Bryan 'Slim' Hightower, Cap Somers, Charles Morton, Charles Seel, Dan
Carr, Dave Dunlop, Eddie Juaregui, Harry Hickox, Harry Holcombe, Harry Strang,
Jack Williams, Jerry Gatlin, Joe Brooks, Joe McGuinn, John McKee, John Roy, Mae
Marsh, Mathew McCue, Michael Jeffers, Montie Montana, Philo McCullough, Rudy
Bowman, Steven Manymules, Syl Lamont, Ted Smile, William Forrest, Zon Murray.
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John Ford dirige sequência na guarnição militar da reserva dos Cheyennes em Crepúsculo de uma raça |
Durante a penosa
marcha os Cheyennes percorrem uma terra que, de familiar, lhes é, agora,
totalmente estranha. Além da perseguição, enfrentam fome e doenças. Logo nos
primeiros quilômetros falece o velho, alquebrado e enfermo Árvore Alta. Passa a
Lobo Pequeno o “pacote sagrado”, símbolo da liderança. Isso não significa o
alijamento de Faca Cega. Ambos decidem em conjunto; pensam e agem como um. Essa
unidade é essencial ao grupo. Caso se rompa — se a “palha” se interpuser entre
os líderes —, a nação Cheyenne correrá o risco da dissolução.
A tradução
cinematográfica da unidade Cheyenne resulta na percepção da tribo como massa
individualizada. É um dos trunfos de Crepúsculo de uma raça. Essa
concepção se apresenta desde o início, quando os índios rumam à guarnição da
reserva para a vã espera. O cenário da marcha, enquadrado pelos majestosos e
maciços rochedos vermelhos de Monument Valley[1],
amplia ainda mais a ideia de homogeneidade. Os Cheyennes quase sempre são
percebidos emoldurados por essa paisagem mítica que remete às noções de solidez,
tenacidade e permanência. Dentre as várias qualidades do cinema de Ford, Crepúsculo
de uma raça destaca particularmente o rigor na combinação dos personagens
com o meio envolvente. A integração dos índios com o ambiente é perfeita. As
vigorosas formações do Monument Valley traduzem a coesão dos Cheyennes. Estes,
por sua vez, têm ampliada a dimensão mítica pretendida pela direção — principalmente quando vistos cercados por um cenário que em tudo lembra a
atemporalidade petrificada. Assim, quando a câmera capta o avanço da coluna
índia diante da linha do horizonte — ou junto às mesas, aos rochedos e paredões;
no centro dos vales, ou na vastidão da planície —, nada mais faz que firmar um
diálogo entre uma instância que desafia o tempo — a paisagem — e outra que
parece fazer o mesmo na luta pela sobrevivência — os fugitivos.
Entretanto, a
moldura do Monument Valley também assume dimensões fúnebres. Apesar do
significado heroico da jornada, sabe-se: aos evadidos não haverá futuro sorridente
no Oeste totalmente conquistado e moldado pela vontade do colonizador. Dessa
forma, a câmera iguala a coluna dos estropiados Cheyennes a mortos-vivos
vagando sem descanso, inutilmente, sobre a terra que não herdarão. De fato, por
mais que avancem, a paisagem não muda. Ao fundo, ao lado e ao centro, permanecem
impávidos os mesmos rochedos do Monument Valley. Isso reforça a ideia de que,
apesar da marcha rumo ao lugar de origem, os índios parecem imóveis ou caminham
em círculos na aridez desesperançada de um cenário que assume ares de imenso sepulcro
sob céu aberto. A percepção de imobilidade está presente desde os créditos de
abertura, ilustrados por imagens de índios à semelhança de inofensivas estátuas
ou miniaturas de brinquedo — pálidos reflexos da existência que levaram antes
da conquista. Mas é a fixidez de Monument Valley que fala mais alto. Nunca, nem
em Rastros
de ódio, o cenário preferido de Ford assumiu dimensões tão invernais,
trágicas, até sinistras.
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Richard Widmark como o Capitão Thomas Archer e Mike Mazurki no papel do Primeiro Sargento Stanilslaus Wichowsky |
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Carroll Baker como a missionária e professora Deborah Wright |
Assegurar a
unidade da tribo é desafio constante. Assim como o Capitão Archer às voltas com
a impetuosidade de Scott, os Cheyennes também precisam lidar com a inquietação
de seus rebeldes representados por Camisa Vermelha (Mineo). A mocidade, o
físico imponente e o tom resplandecente e vivo das vestes do jovem e aguerrido
filho de filho de Faca Cega e Espanhola (Del Rio) se destacam no conjunto
aparentemente neutro e uniforme da tribo. Ele encarna a frustração do bravo que
nunca participou de combates. Imprudente, ataca os soldados. Também desafia a
autoridade de Lobo Pequeno, tomando-lhe uma das esposas. Suas ações trazem
insegurança e provocam dissenso entre os líderes. Ameaçam a unidade. A divisão
assume dimensões concretas em pleno inverno nevado, após 1100 Km percorridos, quando
os Cheyennes estavam no atual estado do Nebraska, distantes 1300 Km de Yellowstone. A
esta altura cessam as esperanças de matar a fome. Os bisões foram praticamente
exterminados pela caça predatória dos brancos. Antigos aliados, como os Dakota,
também não aparecem. A terra está vazia. Liderado por Faca Cega e confiantes na
intermediação de Deborah, um grupo resolve alterar o curso e buscar socorro em Fort Robinson.
Fort Robinson é
destacamento avançado comandado pelo Capitão Wessels — militar de estilo
prussiano desprezado por Ford. Nada conhece dos índios, a não ser o que aprendeu
em livros de autores que nunca estiveram no Oeste — a exemplo do alemão Karl
May. A princípio, acolhe com humanidade os Cheyennes. Fornece-lhes aquecimento
e alimentação. Ambicioso, pretende subir na hierarquia militar. Porém, recebe
do alto comando ordens para aprisioná-los. Severo cumpridor de regulamentos,
desprovido das necessárias temperança e margem de autonomia para fazer frente à problema tão espinhoso, não pensa duas vezes. Obedece cegamente às
determinações sob os protestos de Deborah e Archer. Confina a tribo em paiol desprovido
de aquecimento. Aí devem aguardar a condução sob escolta armada para a reserva.
Preocupado com o rumo dos acontecimentos e pressionado pela frustração de
Deborah, Archer toma a decisão de sua vida. Solicita licença e parte para
Washington, ao encontro de Carl Schurz (Robinson, em papel inicialmente pensado
para Spencer Tracy), Secretário do Interior que tem sob jurisdição o
Departamento Indígena. Sem força política, enfrenta o fogo cruzado de
militares, políticos e especuladores fundiários que o pressionam a resolver a
questão Cheyenne de uma vez — de preferência pela força —, pois a paz é
fundamental aos negócios. Está prestes a perder o cargo.
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O Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) toma a decisão mais arriscada de sua vida |
Logo no começo, Ford antecipa a capacidade de iniciativa de Archer em passagem aparentemente
desprovida de significado: o acomodado e centrado oficial, solicitado por
Deborah, conserta a cadeira que serviria a um senador. Agora, esse ato encontra
desdobramentos. Archer leva a Schurz notícias bem fundamentadas sobre a
tragédia dos Cheyennes. Também confronta interesses poderosos que lhe ameaçam a
carreira. Entretanto, a situação se descontrola em Fort Robinson. As
atitudes intempestivas do Capitão Wessels forçam os índios a uma reação
desesperada. Escapam sob o fogo dos soldados. Resta um banho de sangue, um
assassinato em massa que Ford expõe sem máscaras. Poucos sobrevivem. As cenas
do pátio nevado da guarnição estão apinhadas de cadáveres. Crianças índias,
atônitas e desesperadas, a tudo testemunham. Wessels, bêbado e catatônico, perambula
no cenário de horror. São momentos dos mais fortes e pungentes da fordiana.
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O Capitão Wessels (Karl Malden) no cenário do massacre em Fort Robinson |
Os sobreviventes
— dentre os quais Faca Cega, Espanhola e Camisa Vermelha — se reúnem ao grupo
do qual se separaram a 1800 Km
do início da jornada, no atual estado do Dakota, em um lugar expressivamente denominado
Caverna da Vitória pelos Cheyennes. Porém, não há tempo para confraternizações.
O exército, sob as ordens do General Sheridan, cerca a área com apoio de
canhões. O espectador familiarizado à obra de Ford certamente se lembrará: herói
da Guerra de Secessão, Philip Henry Sheridan mereceu bela e emocionada
homenagem em Rio Grande ,
último filme da Trilogia da Cavalaria completada por Sangue de heróis e Legião
invencível. Interpretado por J. Carrol Naish, foi saudado como “The
Bold Fenian Man” por meio da evocativa e tradicional canção Down by the glen side
executada pelos "soldados do conjunto" The Sons of the Pioneers
(Ken Curtis, Hugh Farr, Karl Farr, Lloyd Perryman, Shug Fisher e Tommy Doss).
Quatorze anos depois, em Crepúsculo de uma raça, Sheridan não
goza de prestígio algum. É apenas um personagem sem rosto, somente um nome que ordenou
covarde cerco a um grupo inferiorizado de infelizes maltrapilhos.
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Diante da Caverna da Vitória Lobo Pequeno (Ricardo Montalban), Faca Cega (Gilbert Roland) e Camisa Vermelha (Sal Mineo) |
Felizmente os
canhões não disparam, graças à providencial chegada de Carl Schurz e Archer. O
Secretário do Interior ordena o fim da insensatez e adverte o renitente Coronel
(Bouchey) no comando das tropas. Adianta-se para dialogar com Faca Cega e Lobo
Pequeno, apesar da irada reação de Camisa Vermelha. O monumental esforço
iniciado nas áridas paragens do território de Oklahoma chega ao fim. A grandeza
da epopeia é reconhecida. A Presidência dos EUA consente no retorno dos
Cheyennes à terra ancestral. Resta a cura das feridas. Em cerimônia tribal, o
humilhado Lobo Pequeno mata Camisa Vermelha em ajuste de contas. A seguir, transfere
para Faca Cega o “pacote sagrado” — símbolo do chefe dos chefes — e se aparta
do grupo. Afinal, conforme a tradição, “Não poderá permanecer na terra dos
Cheyennes aquele que derramou o sangue de outro Cheyenne”.
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O Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) e o Secretário do Interior Carl Schurz (Edward G. Robinson) |
Apesar das muitas
virtudes, Crepúsculo de uma raça não é plenamente realizado. As
dificuldades decorrem do próprio estado físico de John Ford, visivelmente
adoentado e necessitado de cuidados médicos ao longo de praticamente todo o
extenuante processo de filmagens em locações. Muitas quebras de tom impedem a solidez
de uma estrutura narrativa coerentemente armada. Além do mais, o diretor
enfrentou desafios de outra ordem: alguns pelo fato de levar adiante uma autoexpiação
ou mea culpa; outros por Crepúsculo
de uma raça desafiar as próprias concepções cinematográficas do western
e do Oeste. Às vezes padece por causa da longa duração, outras de inconstâncias
rítmicas. As maiores virtudes decorrem da fotografia invernal de William
Clothier e música de Alex North — ainda assim considerada excessiva por Ford. Também
não apreciou o hipnótico formato Super Panavision 70 mm . Responsabilizou-o por
provocar considerável dispersão dos elementos cênicos quando pretendia
integrá-los mais intimamente à imagem.
Entretanto, os
principais problemas de Crepúsculo de uma raça não decorrem
da direção. Ford se queixou das decisivas intromissões do coprodutor Bernard
Smith: optou por montagem que não contribuiu para a fluência do relato e
suprimiu cenas consideradas importantes. Assim, prejudicou a desconcertante
sequência de Dodge City — com Wyatt Earp (Stewart) e Doc Holliday (Kennedy).
Parece apartada do conjunto, como se fosse um trecho inserido a fórceps e
incapaz de informar a que veio. Originalmente, Ford concebeu-a como intermission. Seria uma distração ao
espectador, para diluir a dimensão por demais trágica e densa da história. Confirmou
para Peter Bogdanovich o desvirtuamento da ideia: a intromissão de Bernard
Smith nada mais fez que incluir um descanso de verdade em meio à tragédia[2].
Desta forma, a frustrada Batalha de Dodge está mais para uma sequência burlesca
ao estilo dos Keystone Cops. Nem todas as cópias de Crepúsculo de uma raça
apresentam integralmente a intermission.
Ainda assim, apesar de desconectada, vale apreciá-la. Ford aproveitou-a para
desmistificar dois dos mais preciosos mitos do Oeste e de sua filmografia:
Wyatt Earp e Doc Holliday, imortalizados em Paixão dos fortes. O Earp
interpretado por James Stewart em nada se parece ao xerife cavalheirescamente
gentil vivido por Henry Fonda em 1946. Agora é cínico, vaidoso e amoral — praticamente
um prolongamento do maculado Marshal Guthrie McCabe (novamente Stewart) de Terra
Bruta, mais preocupado com em obter ganhos extras em desacordo com as
liturgias do cargo. Apesar disso, o personagem critica a paranoia instalada com
relação aos índios. Já o Doc Holliday personificado por Arthur Kennedy pouco
lembra o tísico jogador e pistoleiro vivido por Victor Mature. Está totalmente
curado em Crepúsculo de uma raça.
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John Carradine, James Stewart e Arthur Kennedy fazem Major Jeff Blair, Wyatt Earp e Doc Holliday |
Bernard Smith
também vetou planos para a melhor caracterização dos Cheyennes. Segundo Tag
Gallagher, Ford foi obrigado a engolir um elenco de feições caucasianas e meia
idade para dar vida aos principais personagens índios[3].
Já os protegidos Navajos se encarregaram do grosso da figuração. O diretor trabalhou
insatisfeito com Gilbert Roland, Ricardo Montalban, Sal Mineo e Karl Malden —
distantes das características fundamentais da The Ford Stock Company.
Carroll Baker foi
outra imposição. Apesar de admirá-la, Ford queria atriz mais madura para
interpretar Deborah Wright. Afinal, segundo a novela Cheyenne Autumn, de Mari
Sandoz — principal base para o roteiro de James R. Webb e Patrick Ford —, a
professora que acompanhou os índios era uma solteirona de idade avançada que
abandonou a jornada por incapacidade física. Porém, confessa Ford: queriam para
o papel “uma mulher jovem e bonita”[4].
Apesar de tantas interferências que pretendiam deixar o filme mais palatável ao
público médio estadunidense, Crepúsculo de uma raça fracassou nas
bilheterias. A crítica, descontadas as raríssimas exceções, considerou-o
enfadonho.
Outras alterações
em relação ao original de Sandoz foram percebidas por Tag Gallagher: Lobo
Pequeno não matou Camisa Vermelha e, sim, Alce Pequeno. Essa morte se deu em
circunstâncias diferentes de uma cerimônia tribal. A mulher pivô da questão era
filha e não esposa. Faca Cega foi descrito como um bêbado e não um chefe altivo
e determinado[5].
Já o Secretário do Interior Carl Schurz não se envolveu diretamente com os
Cheyennes e, provavelmente, nunca foi ao Oeste.
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Primeiro Sargento Stanilslaus Wichowsky (Mike Mazurki) e o Capitão Thomas Archer (Richard Widmark) |
Algumas passagens
refletem um idealismo gritantemente ingênuo, até para época da realização.
Exemplo é Archer dizendo a Shcurz: “Se o povo tivesse visto (a situação dos
Cheyennes) não iria gostar”. Ou o questionamento de Faca Cega para o Secretário:
“O povo! Quem contará ao povo o que aconteceu em Fort Robinson ?” “Eu
contarei!” — responde Schurz taxativamente.
Crepúsculo de uma
raça possibilita uma das mais belas homenagens que o cinema ofereceu a
Abraham Lincoln. Sempre que podia, Ford o reverenciava. A primeira vez foi em O
cavalo de ferro. A seguir, Lincoln ilustrou figurativamente, como homem
de boa vontade, O prisioneiro da Ilha dos Tubarões (The prisoner of the Shark Island,
1938). Em 1939 serviu de tema a uma das obras mestras da fordiana: A
mocidade de Lincoln[6].
Em Crepúsculo
de uma raça, Carl Schurz questiona o que parece simplesmente uma parede.
Pergunta: “E você, velho amigo, o que faria?”. Logo a câmera revela o contracampo:
o retrato do assassinado presidente sob o vidro que reflete o rosto do
Secretário do Interior.
Alguns atores
caros a Ford aparecem em Crepúsculo de uma raça. Praticamente
repetem papéis de outros filmes do diretor. Ben Johnson, por exemplo: o soldado
Plumtree não deixa de ser o Sargento Tyree de Legião invencível. Johnson,
campeão de rodeios e cowboy de verdade, contou com a proteção de Ford no início
da carreira. Estreou no cinema em O céu mandou alguém (3
godfathers, 1948). Atuou em Rio Bravo e protagonizou Caravana de Bravos.
Também comparece em Os brutos também amam (Shane, 1953), de George Stevens; A
face oculta (One-eyed jacks, 1961), de Marlon
Brando; e em realizações de Sam Peckinpah: Juramento de vingança (Major
Dundee, 1965), Meu ódio será sua herança (Wild
bunch, 1969), Dez segundos de perigo (Junior
Bonner, 1972), Os implacáveis (The getaway, 1972). Foi
dublê de John Wayne. Conquistou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em A
última sessão de cinema (The last picture show, 1971), de
Peter Bogdnovich.
Shug Fisher e Ted
Maples, respectivamente intérpretes do bêbado chutado do saloom pelo barman
(Jack Pennick) e do gago vaqueiro Kentucky em O homem que matou o facínora
retomam essas personas em Crepúsculo de uma raça. John
Carradine, no papel do Major Jeff Blair — companheiro de pôquer de Wyatt Earp e
Doc Holliday —, interpretou o jogador Hatfield em No tempo das diligências.
Com Ford, Carradine também atuou em O prisioneiro da Ilha dos Tubarões, Mary
Stuart, rainha da Escócia (Mary of Scotland, 1936), O
furacão (The hurricane, 1937), Quatro homens e uma prece (Four
men and a prayer, 1938), Patrulha submarina (Submarine
patrol, 1938), Ao rufar dos tambores, As
vinhas da ira (The grapes of wrath, 1940), O
último hurra (The last hurrah, 1958) e O
homem que matou o facínora.
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De volta à terra de origem: os Cheyennes chegam ao fim da longa marcha |
Por fim, há
George O’Brien — ator caro a Ford. Começou no cinema na década de 20 como
assistente de câmera e dublê de Tom Mix. Para o diretor protagonizou O
cavalo de ferro, Thank you (1925), Coração
intrépido (The fighting heart, 1925), Três homens maus (Three
bad men, 1926), A águia azul (The blue eagle, 1926), Em
continência (Salut, 1929) e Sob as ondas (Seas
beneath, 1931). Também trabalhou com Ford em Sangue de heróis e Legião
invencível, nos papéis de oficiais da cavalaria tal qual em Crepúsculo
de uma raça. Foi o protagonista de Aurora (Sunrise, 1927), obra
mestra de Friedrick Wilhelm Murnau.
Roteiro: James R. Webb, Patrick
Ford (não creditado), sugerido da novela Cheyenne Autumn, de Mari Sandoz, e
da não creditada novela The last frontier, de Howard Fast. Direção de fotografia (Technicolor, Super
Panavision 70): William H. Clothier. Direção
de arte: Richard Day. Montagem:
Otho Lovering, David Hawkins (não creditado). Som: Francis E. Stahl. Decoração:
Darrell “Darryl” Silvera. Assistentes de
direção: Wingate Smith, Russell “Russ” Saunders. Associado à direção e direção de segunda unidade: Ray Kellogg. Consultor de assuntos indígenas: David
H. Miller. Música e direção musical:
Alex North. Coordenação de dublês:
Chuck Roberson. Narradores: Spencer
Tracy, Richard Widmark. Figurinos (não
creditados): Frank Beetson Jr., Ann Peck. Maquiagem: Norman Pringle (não creditado). Efeitos especiais: Ralph Webb (não creditado). Dublês (não creditados): Eli Bo Jack Blackfeather, Jeannie Epper,
John Epper, Stephanie Epper, Jerry Gatlin, Donna Hall, Chuck Hayward, Bryan 'Slim'
Hightower, John Hudkins, Loren Janes, Leroy Johnson, Eddie Juaregui, Cliff
Lyons, Ted Mapes, John McKee, Louise Montana, Montie Montana, Rudy Robbins,
Chuck Roberson, Dean Smith, Neil Summers, Bill Williams, Jack Williams. Operador de câmera: Gerald Perry
Finnerman (não creditado). Fotografia de
cena: John R. Hamilton (não creditado). Aparelhamento elétrico: Doug Mathias (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados):
George R. Schrader, Harrold Weinberger. Assistente
de figurinos: Luster Bayless (não creditado). Gerente de locações: Bill Cornford (não creditado). Orquestração (não creditada): Henry
Brant, Gil Grau. Sistema de mixagem de
som: Stereo em 6 pistas para cópias em 70mm e mono para 35 mm . Tempo de exibição: 159 minutos (165 minutos na versão original).
(José Eugenio Guimarães, 1978; revisto e ampliado
em 1996)
[1] Essa área de singular beleza,
esculpida pela erosão eólica, está situada no coração da Reserva Navajo, entre
os estados do Utah e Arizona. Com o tempo, tornou-se a locação predileta de
John Ford que aí rodou No tempo das diligências (Stagecoach,
1939), Paixão dos fortes, Sangue de heróis, Legião
invencível, Rastros de ódio, Audazes e malditos e Crepúsculo
de uma raça. É cortada pelo Rio San Juan — atravessado pelos Cheyennes
quando deixam os limites da reserva — que, segundo o diretor, parece
"desenhado por (Frederick) Remington (artista estadunidense considerado
mestre na recriação do velho Oeste). É o rio do Oeste mais típico que conheço.
Clássico!". Cf. BODANOVICH, Peter. Op. cit. 1986. p. 172 (parênteses de
José Eugenio Guimarães).
[2] Cf. BOGDANOVICH, Peter. Op. cit. 1983, p. 99.
[3] GALLAGHER, Tag. John Ford: the man and
his films. Bekerley: University of California. 1988. p. 429.
[4] BOGDANOVICH, Peter. Op. cit., 1983, p. 99.
[5] GALLAGHER, Tag. Op. cit. p. 429.
[6] Charles Edward Bull, Frank McGlynn Sr. e Henry
Fonda interpretaram Abraham Lincoln, respectivamente, em O cavalo de ferro, O
prisioneiro da Ilha dos Tubarões e A mocidade de Lincoln.