domingo, 15 de março de 2015

UM PORCO DE PASTOREIO ÀS TONTAS NUMA LOS ANGELES 'DARK'

Acompanhar os filhos ainda crianças ao cinema pode render boas surpresas. Por minha própria conta jamais veria Babe — O porquinho atrapalhado (Babe, 1995), de Chris Noonan. Diante do riso solto da pequena herdeira, entreguei-me prazerosamente às peripécias do porco criado por uma cadela de pastoreio. O suíno do título, conforme o esperado, impõe-se no ramo de guardar ovelhas e escapa ao triste destino de virar petisco. Passados três anos, sem a companhia da filha, fui ver a continuação do filme: Babe — O porquinho atrapalhado na cidade (Babe: pig in the city, 1998), dirigido por George Miller. Já não era a mesma coisa. O bicho deixa a tranquilidade brejeira dos campos australianos para se envolver em muitas confusões numa Los Angeles de tonalidades escuras e assustadoras. As frentes de desenvolvimento da ação são muitas e geram dispersão. Apesar do apuro técnico há pouca graça. Também sobra falta de naturalidade acrescida de passagens constrangedoras. 








Babe — O porquinho atrapalhado na cidade
Babe: pig in the city

Direção:
George Miller
Produção:
Kennedy Miller, Doug Mitchell, Bill Miller, George Miller
Universal Pictures, Kennedy Miller Productions
Austrália — 1998
Elenco:
Magda Szubanski, James Cromwell, Mary Stein, Mickey Rooney, Paul Livingston, Babs McMillan, Matt Parkinson, Julie Godfrey, Kim Story, Richard Carter, Simon Westaway, Margaret Christensen, Katie Leigh, Janet Foye, Pamela Hawken, Basil Clarke, Cecelia Yates, Damian Monk, Terrell Dixon, Gabby Millgate, Anthony Phelan, Van Epperson, Mark Gerber, Ken Radley, John Samaha, Paul Moxey, Gareth Clydesdale, Ken Johnson, Jennifer Kent, Richard Huggett, Michael Boxer, Felix Williamson, Ric Herbert, David Allsberry, Steve Martin e as vozes originais de Elizabeth G. Daily (Babe), Danny Mann (Ferdinand), Glenne Headly (Zootie), Steven Wright (Bob), James Cosmo (Thelonius), Nathan Kress (Easy), Myles Jeffrey (Easy), Stanley Ralph Ross (Pitbull/Doberman), Russi Taylor (Pink Poodle), Adam Goldberg (Flealick), Eddie Barth (Nigel e Alan), Bill Capizzi (Sniffer Dog), Miriam Margolyes (Fly), Hugo Weaving (Rex), Roscoe Lee Browne (narrador), David Warner.



O personagem do título com o diretor George Miller


Babe, filhote de porco em crise de identidade, acredita ser como os cães pastores que o criaram. O improvável suíno, personagem principal do livro The sheep-pig, de Dick King-Smith, encantou o público quando apareceu nos cinemas em Babe, o porquinho atrapalhado (Babe, 1995), de Chris Noonan. Três anos depois, George Miller, roteirista desse filme em parceria com o diretor, assume a responsabilidade pelo retorno do mascote às telas em Babe  O porquinho atrapalhado na cidade.



O filme começa com o vitorioso Babe retornando ao lar
James Cromwell faz o fazendeiro Arthur Hoggett; Magda Szubanski vive a esposa Esme Cordelia Hoggett



O filme de 1995 termina com o esperto e insistente Babe vencendo um torneio de pastoreio. Derrotou os melhores cães do ramo. A nova aventura começa com seu glorioso retorno ao lar, a fazenda de Hoggett (Cromwell). George Miller — diretor dos pauleiras Mad Max (Mad Max, 1979), Mad Max II  a caçada continua (Mad Max 2  The road warrior, 1981) e Mad Max além da cúpula do trovão (Mad Max beyond thunderdome, 1985)[1] —, comete duas maldades com o simpático bacurinho. A primeira é despachá-lo para a metrópole, mais exatamente, à confusa Los Angeles. A segunda é realizar um filme chato, às vezes constrangedor, que deixa perder quase todo o encanto do original.



Ferdinand, o pato paranoico do primeiro filme, acompanha Babe em Los Angeles


Orgulhoso e cheio de si, Babe provoca um acidente tão logo retorna à fazenda depois de vencer o torneio. A vítima, o velho Hoggett, fere-se gravemente. Impedido de trabalhar é substituído pela esposa Esme (Szubanski). Esta, desajeitada e obesa, não dá conta do recado. Enquanto isso, os bancos pressionam: a propriedade salda as dívidas ou irá a leilão! A salvação depende do desastrado Babe. Esme toma a iniciativa de inscrevê-lo num concurso que oferece considerável quantia ao vencedor. Embarcam, mas não chegam ao destino. O cão farejador da alfândega do aeroporto de Los Angeles implica o porquinho e Esme com o tráfico de drogas. São detidos. É tarde quando a situação se esclarece. Tão cedo não conseguirão outro voo. Conseguem abrigo numa estranha hospedaria.




Acima e abaixo: Magda Szubanski como  Esme Cordelia Hoggett


Propriamente, começa aí a nova aventura de Babe. Deixado sozinho por alguns instantes, é envolvido pelos mistérios do lugar. Aí estão abrigados mais macacos, cães e gatos cantores do que gente. Babe se perde ao perseguir o mico-de-circo que se apropria da bagagem de Esme. Logo está às voltas com as artimanhas do velho Fugly (Rooney)  amestrador de animais decadente e pancada, pai da proprietária (Stein) do hotel  e seus macacos, entre os quais o veterano e introspectivo orangotango Thelonious[2]. Enquanto isso, a desesperada Esme tenta encontrar o precioso mascote. Termina desorientada no caos urbano e é acidentalmente envolvida em confusões. É presa por perturbar a ordem.


Na hospedaria, a situação piora. Babe provoca outro acidente. A vítima agora é Fugly, que termina hospitalizado. Com isso, os animais ficam sozinhos e famintos. Os macacos saem em busca de comida, auxiliados por Babe. Este fica com a parte mais perigosa: distrair os cães que guardam as provisões. É perseguido por feroz pitbull. A correria chama a atenção de uma matilha de rua e dos animais da hospedaria, que assistem a tudo passivos. Mas o comportamento solidário do porquinho transformará a todos. Babe não só escapa do perseguidor como o salva de morrer afogado. Agora, o agradecido pitbull é seu aliado e protetor. Juntos coordenam a divisão igualitária da comida conseguida pelos macacos a todos os animais, inclusive para os cães de rua também incorporados ao grupo. Entretanto, surgem novos problemas. Incomodada com a estranha movimentação da bicharada, uma vizinha aciona o serviço sanitário. Da razia escapam Babe, o mico-de-circo, um cão-sobre-rodas e Ferdinand, o pato paranoico visto em Babe, o porquinho atrapalhado. Sobrevoou os mares atrás do suíno. Considera-o um amuleto, o “porco da sorte” que o protegeu de trágico fim na panela.


James Cromwell no papel do velho fazendeiro Arthur Hoggett


Os quatro animais percorrem a cidade qual estranho exército de Bancaleone. Depende deles a libertação dos bichos aprisionados. Conseguem fazê-lo, mas ao preço da grande confusão, durante a qual invadem o recinto de elegante festa de casamento. Enquanto isso, Esme conquista a simpatia de um juiz e ganha a liberdade. Aliada à proprietária do hotel, saem em busca dos animais. Sem roupas para trocar, a Senhora Hoggett consegue da parceira uma peça do vestuário circense de Fugly. Ambas e toda a bicharada se encontram na festa, virada de pernas para o ar por motivos óbvios. Esme, para salvar Babe da fúria de um garçom, mete-se em constrangedoras piruetas e acrobacias. Por artes da roupa de palhaço que usa, infla até ganhar a forma de gigantesco balão que ricocheteia pelo recinto. Thelonious, ao mirar o rosto rosado e redondo de Esme, alegra-se ao achá-la semelhante ao saudoso Fugly. Tudo termina bem. Os animais são salvos e recuperados. Mas a situação melhora mesmo quando a proprietária do hotel resolve vendê-lo e empregar o dinheiro na quitação das dívidas da fazenda de Hoggett — o paraíso para onde ela e todos os bichos se mudam.




Acima e abaixo: Babe e parte da bicharada na perambulação por Los Angeles


Babe  O porquinho atrapalhado na cidade custou 100 milhões de dólares, dez vezes mais que a primeira aventura cinematográfica do porquinho. Foram necessários dez meses de filmagens que mobilizaram atividades contínuas de 50 amestradores para os cerca de 800 animais que se movimentam diante das câmeras[3]. Quanto à bicharada e ao excessivo controle exigido, George Miller declarou: “Não tivemos muito trabalho com os animais. Para falar a verdade, muitos deles me deram menos trabalho do que alguns atores com quem já trabalhei”[4].


Apesar de tudo, a segunda aventura cinematográfica de Babe fracassou nas bilheterias. Provavelmente, por ser muito dispersiva. Além de contracenar com vários e diferentes animais, o pequeno herói suíno divide as atenções com uma cenografia carregada, excessivamente dark — inspirada em filmes como Blade runner, o caçador de androides (Blade runner, 1981), de Ridley Scott; Delicatessen (Delicatessen, 1990), de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet; e Metrópolis (Metropolis, 1926), de Fritz Lang —, que, provavelmente, assustou as crianças educadas segundo os princípios de “limpeza” do politicamente correto. Mais importante: Babe  O porquinho atrapalhado na cidade não possui as características brejeiras do antecessor. Desenvolve temática mais adulta. Sob a capa de uma fábula, conta história que denuncia os males da civilização centrada no individualismo excessivo, no desrespeito ao diferente e na falta de solidariedade. Faz isso reciclando o estilo narrativo do cinema mudo em seu apego aos intertítulos explicativos bem como às imagens abertas e fechadas em íris. A tendência ao pastelão é outra referência ao cinema dos primórdios.


Babe diante do paranoico pato Ferdinand


O melhor do filme são os ratinhos cantores que fazem o encadeamento das sequências. As canções que interpretam são baseadas em sucessos imortalizados nas vozes de Edith Piaf, Dean Martin e Elvis Presley. Quando os animais em fuga atravessam, à noite, a ala pediátrica de um hospital, despertando a atenção de uma criança, tem-se o momento mais poético do filme. Infelizmente, o corre-corre, as piruetas e as acrobacias que a rosada Esme protagoniza nos instantes finais são tristemente constrangedores. Em todo caso, louve-se a coragem e a desenvoltura da atriz Magda Szubanski, que se dispôs a pagar tanto mico.



Magda Szubanski: muita disposição para pagar mico como a personagem Esme Cordelia Hoggett


Roteiro: George Miller, Judy Morris, Mark Lamprell, com base nos personagens criados por Dick King-Smith. Produção associada: Catherine Barber, Colin Gibson, Guy Norris, P. J. Voeten. Produção executiva: Barbara Gibbs. Música: Nigel Westlake. Fotografia (cores/Atlab): Andrew Lesnie. Ação dos animais: Karl Lewis Miller. Montagem: Jay Friedkin, Margaret Sixel. Produção de elenco: Alison Barrett, Nikki Barrett, Barbara Harris. Desenho de produção: Roger Ford. Direção de arte: Colin Gibson. Decoração: Kerrie Brown. Figurinos: Norma Moriceau. Primeiro assistente de direção: P. J. Voeten. Edição de efeitos sonoros: Frank Lipson. Ruídos de sala: Gerry Long, John Simpson. Mixagem de som: Ben Osmo. Engenheiro de som: Jack Snyder (não creditado). Edição de efeitos visuais/Rhythm & Hues: Michael Backauskas. Produção de efeitos visuais: Mike Chambers. Supervisão de efeitos especiais: Tad Pride. Supervisão de efeitos visuais: Bill Westenhofer. Coordenação de dublês: Guy Norris. Arte adicional de computação gráfica: Rob Allman. Arte de computação gráfica: Andy Kind, Chris Shaw, Dave Lomax, Ivor Middleton, Mike Perry, Tim Zaccheo. Composição de efeitos digitais: Hani AlYousif., Tim Burke. Composição digital: Ricardo Torres. Composição senior de efeitos digitais: Ian Plumb, Richard Roberts. Criação de personagens: Dick King-Smith. Direção de segunda unidade e direção de unidade adicional: Daphne Paris. Edição musical adicional: Michael T. Ryan. Efeitos especiais: Rhythm & Hues, Mill Film, Neal Scanlan Studio (animatronics), Animal Logic. Canção: That’s all do, por Peter Gabriel. Planejamento do set: Tony Raes. Planejamento técnico/Neal Scanlan Studio: Ben Morris. Produção de efeitos digitais/Mill Film: Martin Hobbs. Produção de efeitos digitais: Chad Merriam. Projecionista/Rhythm & Hues: Justin Blaustein. Softwares de animação eletrônica: Julian Hepworth. Supervisão de animação de Thelonius: Alison Leaf. Supervisão de animais: Karl Lewis Miller. Supervisão de efeitos digitais/Mill Film: Karl Mooney. Supervisão de scan e gravação: Megan Bryant. Unidade adicional de câmera: Ian Jones. Tempo de exibição: 97 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1999)



[1] Codirigido por George Ogilvie
[2] O nome é uma alusão ao jazzista americano Thelonious Monk.
[3] BABE — o porquinho atarpalhado na cidade. Set, São Paulo: Peixes, ed. 139. ano 13, n. 1, jan.1999. p. 66.
[4] BARCINSKI, André. Mudanças radicais. Set, São Paulo: Peixes, ed. 139, ano 13, n. 1, jan.1999. p. 10.

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