Os emancipados de fórmulas sabem que não existe uma
maneira dita correta de se fazer cinema — na maioria das vezes prisioneira de
referenciais hollywoodianos (no campo das artes tudo está certo ou, da mesma
forma, errado, no final das contas). A esses, A Lira do Delírio (1978),
de Walter Lima Jr., é um filmaço. Concebido à revelia das ortodoxias tão agradáveis
aos prisioneiros de convicções, é exercício autoral em grande estilo: inventivo,
livre, leve e solto. Contém a melhor interpretação de Anecy Rocha, tragicamente
falecida na flor da idade e, por isso, impedida de vê-lo concluído. Passou por
várias metamorfoses, desde a concepção na forma de um drama alinhavado por um
bloco de carnaval a respeito da frustrada paixão do compositor Assis Valente
por Carmen Miranda. Depois houve a tentativa de se fazer um misto de musical
com história de amor, pontuado de reminiscências afloradas durante a evolução
de um agrupamento momesco. Porém a brutal realidade truncou a proposta, até se
apresentar como possibilidade a uma história que combina a catarse permitida
pelo império de Momo com a sordidez da mais cruel crônica policial. Em A Lira do
Delírio a sofrida Ness Elliot (Anecy Rocha) cumpre, metaforicamente, a
sina do folião em busca de libertação do sufoco: vive, morre e renasce no
carnaval, momento tão bem sintetizado em inspirada fala-síntese de Pereio
(Paulo César Pereio) enquanto um iluminado Walter Lima Jr. casa as limitações
dos Irmãos Lumière com a expansão de fronteiras de Georges Méliès. A apreciação
a seguir é de 1979.
A Lira do Delírio
Direção:
Walter Lima Jr.
Produção:
Walter Lima Jr.
Embrafilme, Walter Lima Jr.
Produções Cinematográficas Ltda., R. F. Farias Produções Cinematográficas
Brasil — 1978
Elenco:
Anecy Rocha, Paulo César Pereio,
Cláudio Marzo, Tonico Pereira, Antônio Pedro, Othoniel Sena, Pedro Bira, Rosita
Thomaz Lopes, Jamelão, João Loredo, Lene Nunes, Jorge Rocha de Lima (Guri-Guri),
Alvaro Freire, Isabella Campos, Olinda Ribeiro, Jorge Mourão, Marilza Ribeiro,
Flávia Ribeiro.
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O diretor Walter Lima Jr. |
É o quarto longa
de Walter Lima Jr. e a última atuação de sua companheira, Anecy Rocha
(1942-1977). Ela, desgraçadamente, não pode vê-lo concluído. Morreu de forma
tão estúpida quanto inexplicável ao despencar no poço do elevador do prédio no
qual morava. A atriz, irmã de Glauber, tem em A Lira do Delírio o melhor momento de uma
carreira meteórica. A realização combina o lado mais onírico da vida à bruta
realidade na abordagem da solidão e fragilidade dos relacionamentos. Mostra — à
semelhança de Riobaldo Tatarana, personagem de Guimarães Rosa em Grande
sertão: veredas — que viver é uma aventura muito perigosa.
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Acima, ao centro e abaixo: Anecy Rocha, exuberante e plena de vitalidade no papel de Ness Elliot |
A Lira do Delírio passou por
várias etapas até adquirir o formato definitivo. Num primeiro momento, Walter
Lima Jr. planejou realizar Salve o prazer, ensaio sobre a
paixão mal resolvida de Assis Valente por Carmem Miranda. O compositor seria
interpretado por Caetano Veloso e o filme teria por eixo condutor a evolução de
um bloco de carnaval. O projeto terminou abortado, mas não a ideia de enfocar
cinematograficamente um grêmio momesco. Em 1973, Walter Lima Jr. resolveu filmar
o carnaval do Quarto Centenário de sua natal cidade de Niterói/RJ, acompanhado
do diretor de fotografia Dib Lufti e dos principais nomes do elenco. Nas tomadas,
os atores improvisam junto aos integrantes do bloco A Lira do Delírio. Nesse segundo momento, havia a pretensão de encenar
um misto de musical e história de amor com base nas reminiscências cruzadas dos
personagens, cada qual apresentado, definido e conduzido por uma canção. Os quatro
dias de filmagens resultaram num material com seis horas de duração, tempo mais
que suficiente para compor o eixo do projeto.
Porém, a
violência do carnaval niteroiense naquele ano marcou fortemente as imagens. A
barra pesada do cotidiano atingiu em cheio a avenida improvisada em set.
Os atores passaram por situações de risco em meio ao bloco, posto
que foram ameaçados fisicamente por foliões com nervos à flor da pele. A partir
dessa situação, Lima Jr. decidiu que tal pano de fundo poderia servir de
suporte a qualquer outro assunto, mas não a um musical segundo as pretensões
iniciais. Resultado: durante aproximados três anos as imagens foram arquivadas à
espera de melhor destinação. Enquanto isso, o diretor conseguiu emprego na TV
Globo, para realizar programas especiais nas áreas do telejornalismo e da
dramaturgia.
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A atriz Lene Nunes |
Por fim, a
própria violência — não apenas a do carnaval de Niterói, mas, em geral, forjada
no cotidiano dos grandes centros urbanos — deu o tom à história que seria
contada. As imagens de 1973 funcionariam como um documento ou um flagrante da
vida real. Em decorrência do que foi captado, resultaria uma ficção plenamente
colada à realidade, um drama de conotações policiais com vistas a gerar uma leitura
ilustrativa da situação presente. O que se veria então seria o real servindo de
anteparo a uma história inventada, ou, conforme o diretor, A Lira do Delírio derivaria
do encontro de duas concepções originadas no próprio nascimento do cinema: a
dos irmãos August e Louis Lumière — que captava a realidade em estado bruto —,
e a de Georges Méliès — que transformou o novo meio de expressão em exercício
de ludismo.
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Cláudio Marzo como Cláudio e Anecy Rocha no papel de Ness Elliot |
Assim, aos
instantâneos que "Lima Jr.―Lumière" obteve em Niterói, o "Lima
Jr.‑Méliès" mesclou as aventuras e desventuras de Ness Elliot (Rocha), garota
de programa e dançarina dos cabarés da Lapa. A trama envolve rapto,
assassinatos, tráfico de drogas, amor, dinheiro, sexo, dominação, ternura e
desespero. Os personagens perambulam por vielas sórdidas e escuras nas quais se
distribuem casas noturnas de má extração. Vivem a vida no fio da navalha,
sempre em situações-limite, misturados à fauna constituída por prostitutas,
bêbados, travestis, homossexuais e assassinos. Outras opções não lhes são
dadas. No entanto, toda essa gente anônima e largada possui algo em comum:
integra o bloco carnavalesco A Lira do
Delírio, espécie de central a serviço da catarse do desespero, das mágoas e
frustrações acumuladas, lugar onde ninguém é de ninguém. A estrutura do drama é
cíclica: começa e termina no carnaval.
Ness Elliot é
cobiçada por todos os homens, na avenida e no cabaré. Porém, tenta preservar a
liberdade que imagina ter, sem se relacionar permanentemente com quem quer que
seja. Essa condição, aceita com certa naturalidade pelos demais durante o
período de exceção do império momesco, não é vista com bons olhos no cotidiano
ordinário, principalmente pelo burguês machão, possessivo e despótico Cláudio
(Cláudio Marzo). Corroído pelo ciúme, pretende ter exclusividade sobre a
garota. Para isso, força a barra. Primeiro, tenta comprometê-la com o tráfico
de drogas. Depois, resolve atingi-la no ponto mais frágil: contrata o marginal
Pereira (Tonico Pereira) para lhe raptar o filho, o bebê Guri-Guri (Jorge Rocha
de Lima). Desesperada, Ness Elliot pede socorro ao amigo Pereio (Paulo César
Pereio), misto de repórter policial e boêmio, conhecedor do submundo como
poucos e narrador do filme — como se fosse um alter ego de Lima Jr. Ao investigar o assassinato do homossexual
Toni (Othoniel Serra), encontra pistas do paradeiro da criança: está nas mãos
de um receptador identificado apenas como médico (Antônio Pedro), que planeja
vendê-lo a um casal estrangeiro.
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Para encontrar o filho, Ness Elliot (Anecy Rocha) pede ajuda ao repórter Pereio (Paulo César Pereio) |
Realizado com
câmera quase sempre na mão, A Lira do Delírio se vale do som
direto e da filmagem em 16 mm, ao menos para as cenas do carnaval de Niterói. À
exceção de Anecy Rocha, todos os demais personagens guardam a real identidade
dos atores que os interpretam: Cláudio Marzo é Cláudio, Paulo César Pereio é
Pereio e assim por diante. Guri-Guri, o bebê de Ness Elliot, é o apelido
carinhoso de Jorge Rocha de Lima ou Jorginho, filho de Anecy com o diretor. Este
tomou a decisão de chamar os personagens principais pelos nomes dos atores que
os representam em reconhecimento ao trabalho que desenvolveram e aos riscos que
correram nas etapas iniciais do projeto. Como não houve um roteiro detalhado
durante as filmagens, muito de A Lira do Delírio resulta de
improvisação dos intérpretes, inclusive detalhes cenográficos, caracterização,
diálogos etc. O setor dramático foi desenvolvido à base de módulos ou curtos takes com fragmentos da ação. Lima Jr.
pôde trabalhá-los à vontade. Teria opções para ordenar essas tomadas de várias
maneiras, tanto que teve à disposição cinco versões diferentes para a história.
Exemplo mais livre, sensorial e experimental de cinema que esse muito
dificilmente aparecerá. Paulo Moura organizou riquíssima e inspirada trilha
musical, das mais brilhantes do cinema brasileiro, pontuada por choros, sambas,
serestas, mambos e boleros, gêneros musicais que encontram pronta identificação
com os sentidos.
O comovente
resultado final permite uma reflexão na forma de um retrato nu e cru da miséria
metropolitana, tanto física como existencial. O exercício foi compensador: A
Lira do Delírio arrebatou, no Festival de Brasília de 1978, os prêmios
de Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante (Pereio), Melhor
Fotografia e Melhor Montagem. Também mereceu do Museu da Imagem e do Som do Rio
de Janeiro, no mesmo ano, o Golfinho de Ouro para Melhor Direção.
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Acima, o médico (Antonio Pedro) recebe Guri-Guri (Jorge Rocha de Lima) das mãos de Toni (Othoniel Serra); abaixo, nas mãos da polícia, o sequestrador Pereira (Tonico Pereira); à esquerda, Toni. |
Uma fala de Pereio
define toda a proposta desse belo e personalíssimo trabalho de Lima Jr.: “A
vida dura só um dia; um porre, um gesto, um gemido, um canto, um pulo, um
delírio”.
Argumento e Roteiro: Walter Lima Jr. Direção de fotografia (Eastmancolor) e câmera: Dib Lufti. Montagem: Mair Tavares, Amauri Alves. Cenografia: Regis Monteiro. Assistente de direção: Carlos Del Pino.
Chefe-eletricista: Rui Medeiros. Chefe-maquinista: Paquetá. Música e direção musical: Paulo Moura. Direção de produção: Epitácio Brunnet,
Elizabeth Fairbanks, José Carlos Escalero. Produção
executiva: José Carlos Escalero. Assistentes
de produção: José Carlos Aimi, Ricardo Miranda, Sérgio Villela, Antônio
Carlos Amâncio, Márcio Santos. Assistente
de fotografia: Mário Ferreira. Efeitos
especiais de fotografia: Wilmar Meneses. Fotografia de cena: Fernando Teixeira de Freitas, Paulo Martins. Assistentes de câmera: Aroldo Telles,
José Telles. Direção de som: Aloysio
Vianna. Som direto: Mário da Silva,
José Antônio Ventura. Efeitos sonoros:
Geraldo José. Assistente de som:
Marcus Vinicius. Assistentes de
montagem: Raul Soares, Sílvio Soares, Idê Lacreta. Créditos: Daniel Azulay. Figurinos
e guarda-roupa: Nazareth Teixeira. Fotografia
adicional: João Carlos Horta, Renato Laclete. Tempo de exibição: 110 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1979)