Ovacionado no Festival de Veneza de 1972, quando fez jus
ao prêmio do Comitê de Letras e Artes, Os inconfidentes, de Joaquim Pedro
de Andrade, cumpriu carreira no exterior e foi exibido em rede nacional pela
TV Globo nas comemorações do sesquicentenário da Independência do Brasil. A
realização soube contornar as dificuldades políticas do momento. A censura
obtusa não percebeu as muitas alusões, algumas diretas, outras sutis e
cifradas, que relacionavam os cárceres soturnos do Visconde de Barbacena aos lúgubres
porões do governo do General Emílio Médici, momento mais violento e arbitrário
da repressão política imposta ao país pelo regime de 1964. Questionador, Os
inconfidentes em nada se parece ao ufanista e acrítico Independência
ou morte, de Carlos Coimbra, lançado no mesmo período. O roteiro
alimentado pelos Autos da Devassa, poemas dos rebelados e de Cecília Meireles,
também se vale de uma tomada de liberdade histórica de alto brilho e impacto:
transportar a Rainha Dona Maria I de Portugal à colônia brasileira e transformá-la
em arauto personalizado da terrível sentença condenatória, comunicada aos
sediciosos com ênfase, pompa e circunstância. A apreciação a seguir, de 1978,
passou por revisão e ampliação em 2014.
Os inconfidentes
Direção:
Joaquim
Pedro de Andrade
Produção:
Joaquim
Pedro de Andrade (não creditado)
Filmes do
Serro, Mapa Filmes, Grupo Filmes, Radiotelevisione Italiana (RAI)
Brasil,
Itália — 1972
Elenco:
José
Wilker, Luís Linhares, Nelson Dantas, Fernando Torres, Paulo César Peréio,
Carlos Kroeber, Roberto Maya, Margarida Rey, Suzana Gonçalves, Carlos Gregório,
Wilson Grey, Fábio Sabag, Tereza Medina, Zorah, Ricardo Teixeira de Salles,
Benedito Silva, Marília Pereira, Orlandino Seitas Fernandes, Helvécio Ferreira,
José Aurélio Vieira.
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O diretor Joaquim Pedro de Andrade confere o enquadramento (acima) e prepara o dublê de José Wilker para a reconstituição do enforcamento de Tiradentes. |
Qualquer pessoa que tenha feito um razoável Curso Primário conhece, pelo
menos superficialmente, o epílogo da malograda trama passada à história com o
nome de Inconfidência Mineira. A Coroa Portuguesa, pela sua titular Rainha
Maria Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana de Bragança ou
simplesmente Dona Maria I — antes de ser conhecida pela alcunha de A Louca —
condenou à forca o único sedicioso que não era bem nascido: o alferes — militar
de baixa patente, um suboficial — Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Os demais integrantes do movimento — nobres, clérigos, literatos, profissionais
liberais e militares de alta patente — tiveram as penas capitais comutadas por
degredo perpétuo nas colônias lusitanas da África ou cumpriram prisão em
Portugal.
A sentença condenatória é, pelos termos que lhe deram fama, terrível —
para dizer o mínimo. Provavelmente, pelo que se depreende da História Colonial,
os inconfidentes foram comunicados de seus destinos por um juiz investido como Ouvidor
Geral do Crime. Porém, em Os inconfidentes, os roteiristas
Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo Escorel optaram por uma brilhante sacada: tomaram
a liberdade de deslocar Sua Majestade Imperial de Portugal ao Brasil para,
pessoalmente, dar cabo da missão. São dramaticamente impactantes os dois
momentos em que a impoluta Dona Maria I (Margarida Rey) irrompe no pátio da
prisão da Fortaleza de São José da Ilha das Cobras, localizada na Baía da Guanabara,
litoral do Rio de Janeiro, para, em alto e bom som, dar ciência aos réus, aprisionados
por quase três anos, das penas a eles impostas.
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Joaquim José da Silva Xavier (José Wilker), o Tiradentes, de baixa extração social e único inconfidente condenado à pena capital |
A pose altiva da rainha trajada de rosa em meio aos condenados dispersos
no pátio — descalços, sujos, maltrapilhos, acorrentados alguns — comunica bem o
extremo a que pode chegar um poder despótico em sua falta de limites. Ainda
mais quando da plenipotenciária ecoam as carregadas palavras que condenam,
adaptadas de Os Autos da Devassa: "Alguns vassalos, animados de pérfida
ambição, armaram infame plano para se subtrair da sujeição e obediência a mim
devidas, pelo que não só os chefes da conjuração se constituíram em crime de
Lesa-Majestade de primeira cabeça mas também os sabedores e consentidores dela
pelo seu silêncio, não podendo horrendo delito admitir defesa que mereça a
menor atenção. Lesa-Majestade é crime de traição cometido contra a minha real
pessoa, e tão abominável crime pode ser comparado à lepra; porque assim como
esta doença enche todo o corpo, sem nunca mais se poder curar, empece ainda aos
descendentes de quem a tem. Assim, o erro de traição condena o que a comete e
empece e infama os que de sua linha descendem, ainda que não tenham culpa.
Condeno o Réu Joaquim José da Silva Xavier por alcunha o Tiradentes, a que seja
conduzido pelas ruas ao lugar da forca e que nela morra morte natural para
sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada ao lugar mais
público, para ser pregada no poste mais alto; e seu corpo será dividido em
quartos, que ficarão expostos pelo caminho das Minas até que o tempo os
consuma. Declaro o réu indigno e indignos todos os seus filhos e netos. Sua
casa será arrasada e o terreno será salgado para que nesse chão nada mais
cresça e se edifique, pois ele se fez indigno de minha real pessoa. Quanto aos
demais réus, a quem devem agradecer pela minha real clemência, comuto a pena de
morte em degredo perpétuo".
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Genial e impactante liberdade com a história: Dona Maria I (Margarida Rey) comparece ao cárcere para dar ciência da sentença condenatória aos inconfidentes. Ao fundo, José Wilker como Tiradentes. |
A fala da Rainha está dividida em dois momentos. Antes do primeiro, os
prisioneiros ouviam Tomás Antônio Gonzaga (Linhares) bradar em versos contra a
tirania, a loucura de Tiradentes que teria posto todos a perder e a inutilidade
prática do confisco aos seus bens. De súbito, chega Maria I. Informa que o
movimento se fez crime de Lesa-Majestade e prolonga aos descendentes dos
condenados — "ainda que não tenham culpa" — as consequências das penas
a esses aplicadas. É interrompida pelo comportamento pusilânime de Alvarenga
Peixoto (Peréio). Também aos versos, atira-se aos pés da soberana renovando
fidelidade a ela e Portugal num vergonhoso pedido de perdão. Maria I se retira.
Os inconfidentes em desespero se perdem em clamores de acusações mútuas e
admoestações lançadas ao acorrentado alferes (Wilker, em seu primeiro papel de
relevo). Este, demonstrando altivez e consciência do seu destino brada o famoso
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria". Segue-se o segundo
momento com Dona Maria I. O estado de espírito de Sua Majestade é outro. A
dureza das palavras condenatórias se volta, agora, somente contra Tiradentes. O
tom da voz dirigido a ele é ríspido e marcadamente personalizado. A sentença é
pronunciada nas proximidades do réu. Quanto aos demais sublevados, é numa
distância segura que ela lhes anuncia a comutação da pena de morte em degredo
perpétuo. De imediato é saudada aos gritos de "justa", "clemente"
e "piedosa". A câmera — quase sempre fixa como testemunha objetiva dos
acontecimentos ao longo de todo o filme — executa discreto movimento
semicircular para destacar a solidão do único condenado à morte em meio à
pusilanimidade geral dos companheiros de sedição. Irônico, Tiradentes
cumprimenta Gonzaga com "Parabéns!".
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Tomás Antônio Gonzaga, interpretado por Luís Linhares, a caminho do exílio |
O comportamento mesquinho dos inconfidentes de escol ganhava forma desde
que foram presos e submetidos aos longos interrogatórios levados a termo com toda
a dureza permitida pelos caprichos do despotismo. Mas, evidentemente, o filme
de Joaquim Pedro de Andrade não foi realizado com a intenção explícita de
desmoralizá-los, deixando relativamente impoluto apenas o homem sobre o qual
caiu a responsabilidade maior pelo levante. Aliás, nem Tiradentes escapa
incólume, como grande herói e mártir dos livros didáticos de História do
Brasil. Concretamente, pouco se sabe sobre a existência desses personagens. O
que chegou a nós é muito pouco para permitir noções claras sobre quem de fato
eram e como levavam a vida em seus aspectos mais cotidianos.
É a partir da mediação parcial de Os Autos da Devassa que tomam forma
Alvarenga Peixoto, Cláudio Manoel da Costa (Torres), Tomás Antônio Gonzaga,
Francisco de Paula Freire de Andrade (Kroeber), Luís Vieira da Silva (Dantas),
José Álvares Maciel (Gregório), Joaquim José da Silva Xavier e outros personagens.
É do interior da prisão e de todo o aviltamento que o encarceramento
significava no final do século XVIII que os inconfidentes são projetados a nós.
Não são homens gozando da plenitude e controle de suas vidas. Estão submetidos
ao desconforto das inquirições demoradas, zombarias, incomunicabilidade e
castigos físicos. O roteiro de Os inconfidentes se abastece, acima
de tudo, das informações contidas no processo. Reside aí o ponto de partida
concreto para a reconstituição pretendida pelo filme. Mas os aspectos duros e
solenes da documentação oficial são amainados por trechos nos quais os personagens
poetas se expressam pelos versos de que são autores ou extraídos do mais
contemporâneo Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles.
O filme não se vale de uma abordagem realista, linear, didática. O que
se vê são sombras, simulacros, recortes de memória. É como se do interior
escuro e abafado das celas os conjurados tentassem um acordo e, pelas artes do
delírio, reconstituíssem coletivamente e em uníssono os últimos, decisivos e
dramáticos momentos de suas vidas. São peças de um quebra-cabeças que chegam ao
espectador. De imediato se faz uma demarcação, que diferencia Tiradentes dos
demais inconfidentes. O alferes — homem comum condenado a sobreviver no
trabalho destituído de valor numa sociedade escravista — é percebido com
desprezo e desdém pelos companheiros — intelectuais e nobres. Enquanto estes se
perdem em abstrações no ambiente fechado das casas, Tiradentes é o único visto
no público espaço das ruas, gritando descuidadamente contra a exploração a que
a colônia é submetida por pesados impostos e taxações. Aos olhos dos outros
sublevados não passa de um fanático falastrão que arrisca a segurança de todos.
Já os poetas, clérigos e militares projetam castelos de cartas ao idealizar um
país pouco diferente em comparação ao estatuto vigente, no qual parece que
permanecerão intactos o escravismo e o desprezo ao povo pobre, sujo e
desorganizado.
Todos, inclusive o alferes, denunciam com suas falas e práticas que são produtos
sociais de determinados tempo e espaço, incapazes de romper de pronto com esses
limites. Consideram com naturalidade a escravidão. Usufruem, inclusive, da
exploração do trabalho forçado. A liberdade que almejam não é clara. Aparenta-se
a uma figura de linguagem. Numa das primeiras sequências, Gonzaga adentra sem
cerimônia os aposentos íntimos de Cláudio Manoel, adormecido ao lado de uma
escrava. Desperta-o com versos extraídos das Cartas chilenas mas sem
sequer voltar os olhos à mulher. A pobre coitada simplesmente se ergue nua,
veste-se e sai do aposento. É tratada com solene indiferença. Em outro momento,
adiante, Tiradentes, em fuga e sem dinheiro, dirige-se em termos objetivos e
secos ao escravo que o acompanha: "Acorda! Vou te vender!". Não
obstante, todos idealizam bandeiras ilustradas por imagens de índios partindo
grilhões — sugestão de Alvarenga Peixoto considerada demasiado ousada por Cláudio
Manoel; ou centralizadas pelo triângulo vermelho com a famosa inscrição que
tomou forma como símbolo de Minas Gerais — proposta de Tiradentes
ridicularizada pelos demais.
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Tomás Antônio Gonzaga (Luís Linhares), o Critilo, desperta Cláudio Manoel da Costa (Fernando Torres), o Doroteu |
Os inconfidentes de escol — do alto de suas origens e posições ocupadas na
colônia — não acreditam que podem ser presos. Ou simplesmente admitem que negarão
tudo facilmente se tal possibilidade se apresentar. Entretanto, entre a
intenção e o ato vai considerável distância. No cárcere lúgubre as línguas se
soltam. As solidariedades há pouco cultivadas no seio de um movimento que
jamais passou à ação cedem vez às traições. No início do processo Cláudio
Manoel não resiste e comete suicídio no enforcamento que praticamente abre o
filme. Alvarenga Peixoto tenta salvar a pele denunciando a todos, informando o
que sabe e não sabe. As tentativas de defesa se fazem em nome da salvaguarda
dos mais comezinhos interesses privados, que lançam por terra os altos ideais
de liberdade antes defendidos. Torturado, Tiradentes confessa que se integrou
ao levante por causa de sua condição inferior, que não lhe permitia ascender na
hierarquia da tropa. Adianta que foi o primeiro a falar em sublevação.
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Visivelmente torturado, o alferes Joaquim José da Silva Xavier (José Wilker) responde ao interrogador (Roberto Maya) |
Aliás, Joaquim Pedro de Andrade não confere centralidade a Tiradentes, ainda
que sua figura se agigante em meio as demais. Mas tal acontece por ser o único
que procura assumir alguma responsabilidade e preservar um traço de dignidade
em meio a comportamento repulsivo dos companheiros. Mas são esses que mais
interessam ao diretor. Homens de prol no gozo de vidas relativamente seguras e
confortáveis, nunca conheceram as agruras do trabalho que cobra o suor do
corpo. De repente perdem tudo, inclusive a decência. Antes, guiavam-se por
abstratos ideais de honra. Agora, movem-se segundo imperativos reais determinados
pelos códigos concretos do cárcere. Começaram às voltas com a ausência de
limites das utopias que formulavam. Terminam tangidos por força da horrenda e
brutal repressão que lhes contorce o físico e atordoa as mentes.
É por questões como essas que Os inconfidentes não trata apenas de
acontecimentos situados no passado distante. O tempo descortinado pelo filme
também comenta o presente da realização. O filme é de 1972. O Brasil
atravessava o período mais violento da ditadura militar. O cárcere de outrora
ganha atualidade nos porões da repressão política que funcionavam a toda, amparados
na vil e arbitrária clandestinidade que tomou forma nos duros anos do mandato
do General Emílio Garrastazu Médici. No referido ano o Brasil comemorava com
pompa e circunstância o Sesquicentenário da Independência. O cinema nacional se
integra às celebrações com dois filmes radicalmente diferentes. Numa ponta há
Carlos Coimbra com o ufanista e acrítico Independência ou morte. Na outra,
Joaquim Pedro de Andrade recupera as memórias do cárcere, tornando
dolorosamente atual um passado que parecia distante. Entretanto, Os inconfidentes
passou sem problemas pela censura. O fato revela o quão obtusos ou desatentos
eram os vigilantes do Brasil Grande. Pois em alguns trechos as alusões ao momento
presente eram mais que explícitas, ainda mais quando os discursos dos
inconfidentes aludiam aos militares. Assim, em meio às falas com referências às
potencialidades da terra e admoestações ao povo incapaz de reagir contra a mais
desmedida opressão — a ponto de assombrar o estrangeiro —, ouvem-se alertas aos
riscos do governo concentrado nas mãos de um único homem, principalmente de um fardado.
Também se afirma que a república pretendida não pode correr o risco de se
conspurcar pelos desvios de soldados profissionais, o que justificaria a
implantação de milícias populares. Tiradentes alega confiar mais num paisano que
num colega de farda. Já o Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade diz
embalado por discreto e irônico sorriso: "Senhores, se o povo se levanta
ou não se levanta, isso tem pouca importância. As armas não estão nas mãos do
povo, mas bem guardadas com o meu regimento. E como sou eu que o comanda, as
armas, na verdade, estão nas minhas mãos".
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Carlos Kroeber como o Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade |
Porém, se há a crítica ao autoritarismo violento de um regime militar
duramente opressor, também não faltam admoestações às ações voluntaristas,
ainda que corajosas, de abnegados e ingênuos militantes organizados em pequenas
células, que partiram para o enfrentamento ao arbítrio desconsiderando os
riscos reais das ações nas quais se envolviam, com desprezo ao mínimo
conhecimento das forças controladas pelo oponente. Assim, a trágica débâcle dos inconfidentes soa
atualíssima no início dos anos 70, quando vários movimentos de enfrentamento à
ditadura se encontravam esfacelados, com seus militantes amargando mortes,
tortura e exílio. Situado em outra trincheira da resistência ao autoritarismo,
o filme de Joaquim Pedro de Andrade alerta contra o improviso da pressa e das
ações levadas a termo no calor da hora, sem atentar às condições concretas do
terreno.
A primeira imagem de Os inconfidentes é de um torso
ensanguentado, ocupando todo o plano, sobre o qual passeiam varejeiras. É
Tiradentes esquartejado. Passa-se ao suicídio de Cláudio Manoel e à morte de
Alvarenga Peixoto, vitimado por cólera, no degredo em
Angola. A seguir, mostram-se imagens do
delirante Tomás Antônio Gonzaga, tomado de nostalgia do Brasil e correndo para
o mar em praia de Moçambique. O final é irônico com o presente e a memória dos
inconfidentes, principalmente do personagem transformado pelas circunstâncias
em vulto-mor do movimento. Tiradentes é enforcado. Empurrado para a morte, seu
corpo pende diante de uma plateia de escolares do tempo presente, em aplausos ao
que seria seu supremo sacrifício. Retornam imagens das mortes de Alvarenga
Peixoto, Cláudio Manoel e dos delírios de Gonzaga. Acordes malemolentes de Aquarela
do Brasil começam a ser ouvidos sobre imagens oficiais das comemorações
festivas do Dia da Inconfidência, em Ouro Preto ,
entrecortadas por cenas do esquartejamento. É como se o mesmo regime que lançou
Tiradentes à morte e à infâmia o fizesse renascer no presente, mas
desencarnado, descontextualizado, como abstração resultante de novos
fracionamentos de seu corpo e de sua memória.
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Joaquim José da Silva Xavier (José Wilker), o Tiradentes |
Os inconfidentes tem locações em interiores
nas mineiras cidades históricas de Ouro Preto e Mariana. Praticamente é um
filme claustrofóbico. A produção, orçada em 500 mil cruzeiros — valores da
época — contou com o apoio financeiro da RAI — Radiotelevisione Italiana[1].
Aqui, organismos oficiais como o Instituto Nacional de Cinema (INC) e a Empresa
Brasileira de Filmes (Embrafilme) — apenas fomentadora da produção
cinematográfica à época da filmagem — não se envolveram com a realização. É o
oitavo filme de Joaquim Pedro de Andrade, que realizara O poeta do castelo
(1959), O mestre de Apicucos (1959), O episódio Couro de gato para Cinco vezes favela (1962), Garrincha,
alegria do povo (1963), O padre e a moça (1966), Cinema
novo (1967), Brasília, contradições de uma cidade
(1968) e Macunaíma (1968). Após Os inconfidentes filmou Guerra
conjugal (1976), o episódio Vereda tropical para Contos eróticos (1977), O
Aleijadinho (1978) e O homem do Pau-Brasil (1982).
Faleceu, precocemente, vitimado pelo câncer, em 1988, quando alimentava planos
de transpor para o cinema Casa-grande & senzala, de
Gilberto Freyre[2].
Aplaudido em 1972 no Festival de Veneza, quando fez jus ao prêmio do
Comitê de Artes e Letras, Os inconfidentes cumpriu carreira
internacional. No Brasil, foi exibido em rede nacional pela TV Globo após findar
o período de lançamento nos cinemas — algo raro para um filme brasileiro no
período, ainda mais para a realização de Joaquim Pedro de Andrade. Mais uma
demonstração de que as autoridades em nada compreenderam as mensagens que a
obra veiculava. No plano interno recebeu, em 1972, na categoria de Melhor
Filme, o prêmio Air France de Cinema, o Golfinho de Ouro do Museu da Imagem e
do Som (MIS) do Rio de Janeiro e o Troféu Carlitos da Associação Paulista de
Críticos de Arte.
Raras vezes se viu no cinema brasileiro uma realização tão despojada de
ornamentos e floreios. Cenograficamente é um filme seco. Praticamente contam
apenas os personagens e os ambientes nos quais se movimentam. O mobiliário se
reduz ao estritamente necessário. Quase nada se interpõe entre a câmera e os
atores. Desse modo, a atenção do espectador está voltada exclusivamente às
interpretações. São os personagens que se movimentam para a câmera. Na prisão,
é quase sempre a figura do interrogador (Roberto Maya) que assume o ponto de
vista da objetiva, deslocando-se quando necessário. Em geral, as imagens são
estáticas. Parecem buscar a perspectiva da objetividade histórica, diante da
falta de elementos capazes de garantir essa característica na recuperação do
passado. Até nisso Os Autos da Devassa não podem ser considerados isentos, a não
ser pela escrita seca, despida de efeitos, típica do linguajar jurídico.
Ao distanciamento tentado pela objetividade da câmera se unem as canções
utilizadas, totalmente estranhas à época retratada: Farolito, de Agustín
Lara, pela voz de João Gilberto, nos momentos em que Tomás Antonio
Gonzaga delira na rememoração de seu casamento, quando se deu ao trabalho de
pessoalmente confeccionar os trajes cerimoniais; e Aquarela do Brasil, de
Ary Barroso, apenas em acordes ou cantada com malemolência por Tom Jobim, fundindo-se
perfeitamente às imagens, seja como comentário irônico à tragédia da Inconfidência
ou ilustrando as possibilidades jamais concretizadas para o país, que parece
refém de uma natureza pujante mas surda, incapaz de ser moldada como projeto de
aspirações e vontades.
Como curiosidades, há o insólito artifício encontrado por Joaquim
Pedro de Andrade e Eduardo Escorel para mostrar a traição aos inconfidentes,
cometida pelo servil Joaquim Silvério dos Reis (Wilson Grey). Obrigado a ficar
nu, o personagem tem que dividir com o Visconde de Barbacena espaço na tina
onde este toma banho. Como se não bastasse, ainda se presta a limpar o corpo da
autoridade enquanto revela os últimos movimentos dos sediciosos. Já a atriz
Margarida Rey, durante a longa preleção em que comunica as penas impostas aos
acusados, comete um rápido e quase que imperceptível tropeço na fala.
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Tomás Antônio Gonzaga (Luís Linhares), Alvarenga Peixoto (Paulo César Peréio), Cláudio Manoel da Costa (Fernando Torres) e a naturalidade diante do trabalho escravo |
No filme, em vista dos recursos que tornaram possível a reconstituição,
há apenas sete inconfidentes: Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa,
Alvarenga Peixoto, José Álvares Maciel, Francisco de Paula Freire de Andrade,
Luís Vieira da Silva e Joaquim José da Silva Xavier. Porém, segundo informações
do Portal do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) de 19 de abril de 2011[3],
são ao todo 26 os inconfidentes, conforme registros do Museu da Inconfidência em Ouro Preto.
Os restos mortais de 16 foram localizados,
identificados e sepultados no Panteão dos Inconfidentes dessa instituição: José
de Resende Costa, José Dias da Mota, Domingos Vidal Barbosa, Alvarenga Peixoto,
Tomás Antônio Gonzaga, João da Costa Rodrigues, Francisco Antônio de Oliveira
Lopes, Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, Vitoriano Gonçalves Veloso, Vicente
Vieira da Mota, Antônio Oliveira Lopes, José Aires Gomes, Luiz Vaz de Toledo
Pisa, Domingos de Abreu Vieira, Francisco de Paula Freire de Andrade e José Álvares
Maciel. Aos 10 restantes são desconhecidos os destinos de seus restos mortais. Provavelmente
jamais se saberá o paradeiro do corpo do suicida — segundo a versão oficial — Cláudio
Manoel da Costa, pois aos que ousavam dar cabo da própria vida, segundo os
rigores das Ordenações Filipinas, era vedado o sepultamento em campo santo,
como eram classificados os cemitérios no período colonial e durante o Império. O
torso de Tiradentes, separado da cabeça — enviada a Vila Rica — e dos quartos —
expostos nos caminhos de Minas — foi resgatado pela Santa Casa de Misericórdia
do Rio de Janeiro e enterrado como indigente em sítio hoje desconhecido. Simbolicamente,
está sepultado no Panteão dos Inconfidentes sob lápide que o identifica e
destaca com todas as honras.
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José Wilker como Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes |
Roteiro: Eduardo Escorel e Joaquim
Pedro de Andrade, como base em Os Autos da Devassa,
versos de José Ignácio de Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa Tomás
Antônio Gonzaga e no Romanceiro da Inconfidência, de
Cecília Meireles. Canções: Aquarela
do Brasil, de Ary Barroso, por Antônio Carlos Jobim; Farolito,
de Agustín Lara, por João Gilberto. Direção
de produção: Carlos Alberto Prates Correia. Assistência de produção: Milton Gontijo, Vitorino Dias, Jair Fonseca,
Mario Almeida, Álvaro Freire. Assistência
de direção: Gilberto Loureiro. Direção
de fotografia (preto-e-branco, Eastmancolor) e Operador de câmera: Pedro de
Moraes. Assistência de fotografia: José
Antônio Ventura. Eletricista: José
Dias. Assistente de eletricista:
Jamil Lopes de Souza. Direção de som:
Juarez Dagoberto da Costa. Técnicos de
som: José Tavares, Victor Raposeiro. Som
direto: Juarez Dagoberto. Montagem:
Eduardo Escorel. Assistente de montagem:
Amauri Alves. Figurinos: Anísio Medeiros.
Guarda-roupa: Marise Guimarães. Direção de arte e decoração: Anísio Medeiros.
Letreiros: Gilberto Loureiro. Penteados: Dulce Orozco. Vestuário: Anísio Medeiros, Tereza
Nicolau. Música: Marlos Nobre. Tempo de exibição: 82 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1978;
revisado e ampliado em 2014[4])
[1] Também bancou parte dos
custos de produção de Uirá, um índio em busca de Deus
(1973), de Gustavo Dahl.
[2] Da filmografia de Joaquim
Pedro são curtas O poeta do castelo, O
mestre de Apicucos, Couro de gato, Cinema novo, Brasília,
contradições de uma cidade, Vereda tropical e O
aleijadinho. Garrincha, alegria do povo é
média-metragem. São realizações episódicas Cinco
vezes favela e Contos eróticos.
A primeira reúne, além de Couro de gato, Um favelado, de Marcos
Farias; Zé da Cachorra, de Miguel Borges; Escola de samba, alegria de viver,
de Carlos Diegues; e Pedreira de São Diogo, de Leon
Hirszman. A segunda é integrada, além de Vereda tropical, por Arroz
e feijão, de Roberto Santos; As três virgens, de Roberto Palmari;
e O
arremate, de Eduardo Escorel.
[3] IBRAM — Instituto
Brasileiro de Museus. Ossadas de inconfidentes são identificadas.
<http://www.museus.gov.br/ossadas-de-inconfidentes-sao-identificadas>
Acessado em 20 jun. 2014.
[4] O autor agradece ao
historiador César Augusto Ornellas Ramos pelas informações prestadas à revisão
e atualização do texto original.