domingo, 22 de maio de 2016

O FANTÁSTICO — E ÚNICO — PESADELO NUCLEAR DE STANLEY KUBRICK: PRIMEIRA PARTE

Por mais insana que seja a afirmação, testemunhar a destruição do mundo sob o impacto de uma profusão de cogumelos atômicos é algo que "não tem preço" — como informa a mensagem comercial. Ainda mais com o acompanhamento musical de Vera Lynn na interpretação da suave e nostálgica canção We'll meet again. Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb, 1964), de Stanley Kubrick, é filme sem igual. Permanece atualíssimo na insana descrição dos bastidores de uma hecatombe nuclear. Vivia-se, por ocasião das filmagens, o auge da corrida armamentista e temperatura da guerra fria atingia níveis alarmantes. Esta é a primeira das duas partes da apreciação de Dr. Fantástico, única comédia — assustadoramente séria — do cineasta. A bomba e o temor suscitado pelo famigerado botão que a faria explodir não passam de detalhes. Pavorosos e dementes são os responsáveis pela guarda dos equipamentos de destruição em massa bem como pelo decisão de usá-los. É sobre eles que Stanley Kubrick dirige o peso de sua implacável e bem humorada atenção: tacanhos militares de alta patente, psicopatas contaminados até a medula pela enfermidade da mais incurável beligerância. Para parecer crível, o nível de insanidade só poderia ser oferecido sob a forma de implacável sátira, como o realizador se propôs a executar após ouvir as considerações do humorista Terry Southern, parceiro na elaboração do roteiro extraído do livro Two hours to doom, de Peter George, também responsável pela adaptação.

Link para a segunda e última parte: O FANTÁSTICO — E ÚNICO — PESADELO NUCLEAR DE STANLEY KUBRICK: SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE








Dr. Fantástico
Dr. Strangelove or: how I learned to stop worrying and love the bomb

Direção:
Stanley Kubrick
Produção:
Stanley Kubrick
Columbia Pictures Corporation, Stanley Kubrick Production, Hawk Films Ltd.
EUA, Inglaterra — 1964
Elenco:
Peter Sellers, George C. Scott, Keenan Wynn, Sterling Hayden, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed, Jack Creley, Frank Berry, Robert O'Neil, Glenn Beck, Roy Stephens, Shane Rimmer, Hal Galili, Paul Tamarin, Laurence Herder, Gordon Tanner, John McCarthy e os não creditados Victor Harrington, Burnell Tucker.



O diretor Stanley Kubrick com o ator Peter Sellers caracterizado como Merkin Muffley,  Presidente dos Estados Unidos 


Stanley Kubrick esbanja talento desde a estreia na realização cinematográfica com Day of fight (1951), seguido de Flying padre (1952). Estes curtas caseiros alcançam imediata repercussão e chamam a atenção da RKO Radio Pictures que os adquire para complementar programas encabeçados pelos longas de seu acervo. Em 1953 Kubrick faz o média The seafarers e o longa Fear and desire. Dois anos depois, o cineasta e fotógrafo da revista Look inicia a entrada definitiva para a história do cinema com o “virtuosismo”[1] da seca e direta narrativa de A morte passou por perto (Killer’s kiss). Na sequência, oferece um punhado de obras, algumas mestras — o vigoroso antimilitarismo de Glória feita de sangue (Paths of glory, 1957); a contundência do absurdo realismo de Dr. Fantástico; a reflexão de 2001: uma odisseia no espaço (2001: a espace odyssey, 1968); a denúncia da violência e do totalitarismo de Laranja mecânica (A clockwork orange, 1971); o rigor plástico de Barry Lyndon (Barry Lyndon, 1975); e o horror elevado ao paroxismo de O iluminado (The shining, 1980) —, outras, no mínimo significativas e instigantes — a desilusão noir de O grande golpe (The killing, 1956); a grandiosidade épica de Spartacus (Spartacus, 1960); a perversão de Lolita (Lolita, 1962); o niilismo de Nascido para matar (Full metal jacket, 1987); e o desejo de transgressão a desembocar na frustração individual em De olhos bem fechados (Eyes wide shut, 1999).


Além do Presidentes dos Estados Unidos, Merkin Muffley, Peter Sellers também interpreta o Capitão Lionel Mandrake, da britânica Royal Air Force...


...e o personagem do título, Dr. Fantástico (Dr. Strangelove no original)


Dr. Fantástico ― única comédia de Kubrick ― brinca com o terror do apocalipse nuclear na forma da mais implacável, cínica e devastadora das sátiras. É ambientado no começo dos anos sessenta, quando da guinada da revolução cubana ao socialismo soviético, da “crise dos mísseis” e do início da escalada dos Estados Unidos no Vietnã. Vivia-se o auge da guerra fria; por extensão, da corrida armamentista entre os EUA e a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Nessa época, o prosaico substantivo “botão” inspirava pavor: qualquer lado poderia apertá-lo e detonar bombas que mandariam o planeta literalmente pelos ares. É o que acontece ao final de Dr. Fantástico: ao sabor da suave, alegre e nostálgica interpretação de Vera Lynn para We’ll meet again — canção do final dos anos 30, muito ouvida na Londres assediada pelos bombardeios nazistas —, o mundo sucumbe num balé ao mesmo tempo macabro e poético de fatais cogumelos radioativos. Por causa desse epílogo catastrófico, o próximo filme de Kubrick só poderia ser, logicamente, algo como 2001: uma odisseia no espaço — a Terra fora arrasada em Dr. Fantástico[2].


Dr. Fantástico é, no mínimo, uma fábula genial. Denuncia e avacalha de modo devastador o militarismo e o belicismo dos dourados loucos anos da guerra fria[3]. Sensível e antenado à época da realização, Kubrick fez um filme mais que oportuno. Transcorridos 23 anos, o tema permanece atualíssimo, e pelo conhecimento acumulado sobre a condição humana é possível que jamais fique datado. Não existem mais a URSS, o Muro de Berlim e os regimes socialistas-burocráticos da Europa Oriental. Aparentemente, o mundo pode dormir mais despreocupado, pois a paranoia da hecatombe nuclear decorrente do conflito ideológico entre Leste e Oeste deixou de fazer sentido. Mas o medo da bomba desapareceu do horizonte da humanidade? De pronto, a resposta é um sonoro NÃO, como provam a recente corrida nuclear decorrente da rivalidade entre Índia e Paquistão e quando pouco se sabe do destino dado ao monstruoso arsenal atômico soviético após a degringolada da URSS. Além disso, mesmo se o terror nuclear deixasse de contar, continua em operação a lógica da doentia mentalidade militar que o gerou. Reside aí o aspecto mais assustador de Dr. Fantástico. Não é tanto a bomba que preocupa. Mais apavorantes são o irracionalismo e a vocação à destruição que a tornaram realidade — fatores que transcendem as eras.


Dentre os países vitoriosos na Segunda Grande Guerra, os Estados Unidos da América são o grande vencedor. Não sofreram ataques em seu território e se afirmam de imediato como a primeira potência nuclear. Tal fato permite que chamem para si as responsabilidades da defesa do chamado “mundo livre”. Ao leste, a URSS — engrandecida ao término do conflito mundial nos planos territorial, político e ideológico — não demora a desvendar o segredo da bomba. Torna-se o satã a ser combatido. Para os EUA, o expansionismo comunista deve ser sustado de qualquer maneira. Por causa dessa contenção o mundo esteve perto de entrar em chamas. A gendarmerie estadunidense se espalha consideravelmente pelo globo, pronta a intervir indiscriminadamente em qualquer região onde “cabeças vermelhas” ousassem aflorar. Se na Ásia a China de Mao estava perdida, o mesmo não podia acontecer com Coreia, Vietnã, Laos e Cambodja. Se Fidel Castro teve a insolência de instalar um regime socialista no quintal estadunidense, bem debaixo das barbas de Tio Sam, o resto do continente teria que resistir. Em prol da sobrevivência do “mundo livre” as ditaduras militares se multiplicaram. Se no planeta o jogo esquentava em conflitos localizados, no confronto direto URSS e Estados Unidos se comportavam de modo, digamos, mais civilizado, via medição de forças na área diplomática e por ameaças mútuas pelo meio de empilhar ogivas nucleares em seus territórios e áreas de influência, em escala crescente, na disputa conhecida como corrida armamentista ou guerra fria.


O General Jack D. Ripper (Sterling Hayden), responsável por dar partida à insana trama de Dr. Fantástico


Dr. Fantástico aproveita com maestria o clima de ansiedade internacional provocado pela dupla de leviatãs em pugna. Mas muito do seu humor e atualidade advém do fato de ser praticamente um prolongamento quase natural de acontecimentos que agitaram a política interna dos Estados Unidos desde o final dos anos 40. Os puritanos e facilmente impressionáveis cidadãos do país, de tanto que olharam apavorados para o ameaçador Leste Europeu, começaram a enxergar comunistas debaixo das próprias camas. A caça ao inimigo interno gerou um atmosfera de pavor histérico desembocada nos Comitês de Investigação de Atividades Antiamericanas e na eletrocussão do casal Julius e Ethel Rosemberg, ao que parece injustamente acusado de passar informações confidenciais aos russos. Abrigos antinucleares se tornaram anexos das residências. As escolas interrompiam periodicamente as atividades letivas para testes nos quais estudantes se escondiam sob carteiras em busca de proteção contra o “famigerado” comunista que poderia atacar traiçoeiramente a qualquer momento. Joe Dante, em 1993, captou razoavelmente bem o clima de histeria coletiva no gostoso Matinee — uma sessão muito louca (Matinee), com ação desenvolvida sob o pano de fundo da crise dos mísseis em Cuba.


Ao centro, junto aos seus assessores, o Presidente dos Estados Unidos, Merkin Muffley (Peter Sellers), decide os destinos da humanidade


Dr. Fantástico é comédia macabra e cínica, com profundas ressonâncias históricas. Destila um humor cáustico que, longe de provocar o riso franco, desperta a reflexão e o fascínio do espectador. O roteiro se apropria magistralmente de personagens e acontecimentos reais na impiedosa análise que faz dos bastidores da guerra fria, apesar do aviso anterior à imagem-símbolo da Columbia Pictures — a deusa com a tocha — comunicar exatamente o contrário: “Este filme não retrata nenhuma pessoa real, viva ou morta”. Num punhado de cenas e sequências antológicas, embaladas por diálogos primorosos, são radiografadas a loucura, a estupidez e a pobreza conceitual que dominam os sistemas políticos impregnados pelo autoritarismo sem peias do mais desbragado militarismo. Os Estados Unidos acuados pelo pavor comunista são vistos sob o domínio de insanas correntes belicistas que não hesitam em explodir o mundo para se livrar do considerado “mal supremo”. Os gestos e a retórica dos loucos e afetados Generais “Buck” Turgidson (Scott) e Jack D. Ripper (Hayden) são prolongamentos históricos e lógicos de cabeças mal resolvidas como J. Parnell Thomas e Joseph McCarthy — notórios inquisidores dos Comitês de Investigação de Atividades Antiamericanas — e, como se verá, de outros contemporâneos, igualmente donos da mais tacanha, estúpida e intolerante mentalidade puritana.


Dr. Fantástico é baseado em Two hours to doom (literalmente, “Duas horas para o apocalipse”), livro que o ex-oficial Peter George, da britânica Royal Air Force, escreveu em 1958 sob o pseudônimo de Peter Bryant, publicado nos Estados Unidos com o título de Red alert (“Alerta vermelho”). Para escrever o roteiro, Kubrick e George se uniram ao humorista Terry Southern — que os convenceu a trocar a seriedade do original pela comédia. A mudança de tom foi acertada. Segundo o cineasta, permitiu exagerar na caracterização dos personagens e situações, possibilitando, em consequência, a ampliação dos aspectos insanos da trama e da contundência da mensagem de “perigo iminente” transmitida ao espectador. Kubrick, conforme revelação de 1963, concordou que a seriedade tornaria o filme “inverossímil e ridículo”[4]. Exemplificou com cenas em que o patético e fraco Presidente dos Estados Unidos, Merkin Muffley (Sellers) — mero fantoche de militares mentalmente incapacitados —, avisa aos pilotos dos B-52 que a ordem de lançar a bomba sobre a Rússia não passa de lamentável equívoco; portanto, devem voltar para casa[5]. Sem esquecer a hilariante e absurda sequência do diálogo travado ao Telefone Vermelho entre Muffley e Dimitri Kissof, Primeiro Ministro da URSS — quando este é informado da ameaça nuclear que paira sobre seus país: “Dimitri, há um pequeno problema sobre o qual gostaria de lhe falar”, diz o Presidente dos EUA. Do outro lado, o interlocutor em off, indignado, libera impropérios incompreensíveis que levam o conselheiro do Pentágono, General “Buck” Turgidson, na escuta, a concluir pela insanidade do Premier Soviético[6] que, pelo visto, foi interrompido bêbado e em plena orgia sexual.


Merkin Muffley (Peter Sellers), Presidente dos Estados Unidos


O Embaixador russo Alexi de Sadesky (Peter Bull) e  Merkin Muffley (Peter Sellers), Presidente dos Estados Unidos


O conselheiro do Pentágono, General "Buck" Turgidson (George C.  Scott)


O General Jack D. Ripper (Sterling Hayden)


Segundo o diretor, a “única forma de (...) (transmitir) a sensação de demência da situação era fazer um filme insano. Não estávamos lidando com um tema racional, que pudesse ser mostrado convencionalmente. Aqui nós rimos da tragédia de ter nossas vidas atreladas a um botão, rimos da possibilidade de que é plausível se deslanchar uma guerra nuclear por acidente”[7]. Tal situação, de plena “demência”, só poderia ser ilustrada com personagens “dementes”[8]. Os atores, auxiliados pelos ângulos de câmera — caso de Sterling Hayden — ou pela iluminação e cenografia estilizadas — como George C. Scott — exageram nas expressões de psicopatas. Todo esse esforço de caracterização, parafraseando Giuliani[9], prova que a ficção, em determinadas circunstâncias, é a maneira mais eficaz de reproduzir a realidade. Particularmente num momento em que o mundo esteve, de fato, a ponto de ser lançado ao caos por políticos e militares recalcados e loucos que tomaram para si o poder de decidir o destino da humanidade. Segundo Giuliani, a opção pelo humor negro aumentou o tom de veracidade de Dr. Fantástico e o deixou à frente de seu tempo[10]. Na época, coincidentemente, a Columbia Pictures produzia outro filme semelhante: Limite de segurança (Fail safe, 1964)[11], de Sidney Lumet, que tratava o tema com excessos de sobriedade e seriedade. Por isso, segundo Giuliani, parecia inteiramente falso de tão verdadeiro que era[12].





Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George, com base na novela Red alert ou Two hours to doom, de Peter George. Direção de fotografia (preto e branco): Gilbert Taylor. Música: Laurie Johnson. Desenho de produção: Ken Adam. Guarda-roupa: Bridget Sellers. Montagem: Anthony Harvey. Produção associada: Victor Lyndon. Produção executiva: Leon Minoff. Gerente de produção: Clifton Brandon. Mixagem da combinação de sons: John Aldred. Gravação de som: Richard Bird. Efeitos especiais: Alan Bryce (não creditado), Brian Gamby (não creditado), Garth Inns (não creditado), Mike Shaw (não creditado), Wally Veevers, Arthur 'Weegee' Fellig (não creditado). Continuidade: Pamela Carlton. Supervisão de som: John Cox. Consultor-técnico: Capitão John Crewdson. Planejamento de créditos: Pablo Ferro, pela Mohammed & Schwartz Inc. (não creditado). Assistente de câmera: Bernard Ford. Maquiagem: Stewart Freeborn. Coordenação de montagem: Geoffrey Fry. Edição de som: Leslie Hodgson. Assistente de direção: Eric Rattray. Assistente de montagem: Ray Lovejoy. Direção de arte: Peter Murton. Operador de câmera: Kelvin Pike. Penteados: Barbara Ritchie. Supervisão de efeitos especiais: Wally Veevers. Travelling matte: Vic Margutti. Canções: When Johnny comes marching home, Try a little tenderness, We’ll meet again, por Vera Lynn, Operador de câmera de efeitos visuais: Jim Body (não creditado). Pintura matte: Bob Cuff (não creditado). Fotografia de cena: Bob Penn (não creditado). Ponto de vista do bombardeiro: Jean Bernard (não creditado). Agradecimentos dos produtores: British Oxygen, Marconi Wireless Telegraph Company, Solartron Electronics, Telephone. Locações: Institut Geographique National (não creditado). Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 94 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1981; revisto e ampliado em 2000)



[1] TULARD, Jean. Dicionário de cinema: os diretores. Porto Alegre: L&PM, 1996. p. 355.
[2] LARANJEIRA, Adilson. De volta, o delirante Dr. Fantástico. Folha de São Paulo, São Paulo, 10/jun./1987. Ilustrada, p. A-37.
[3] Por ocasião do lançamento muitos críticos torceram o nariz para Dr. Fantástico. Consideraram-no piada de “mau gosto”. Inteligente exceção é o “historiador e filósofo Lewis Munford”: referiu-se ao filme como “a primeira interrupção no transe catatônico da Guerra Fria” (LEFCOWITZ, Eric. A tragicomédia do juízo final. O Globo. Rio de janeiro, 11/fev./1994. Segundo Caderno, p. 4).
[4] GIULIANI, Pierre. Stanley Kubrick. Lisboa: Livros Horizonte, 1992. p. 107.
[5] Ibidem.
[6] A História registra conversa semelhante. Durante a crise dos mísseis Kennedy recebeu longa e incoerente mensagem de Nikita Kruschev. Diante do fato, assessores da Casa Branca indagaram se o líder soviético não estaria alcoolizado quando a transmitiu. Cf. BOYER, Paul. Dr. Fantástico. In: CARNES, Mark C. (org.). Passado imperfeito. Rio de Janeiro: Record, 1997. p. 266.
[7] Stanley Kubrick. In: Giuliani, Pierre. Op. cit. p. 107. Parênteses de José Eugenio Guimarães.
[8] Cf. Ibidem.
[9] Ibidem.
[10] Ibidem.
[11] Por causa da semelhança com o original de Peter George, este processou por plágio Harvey Wheeler e Eugene Burdick, autores do livro do qual foi extraído o roteiro de Limite de segurança, publicado em 1962. Essa mesma semelhança forçou a estratégia de adiar para dois anos depois do lançamento de Dr. Fantástico a estreia do filme de Sidney Lumet. No mesmo 1964 em que foram produzidas essas duas obras, John Frankenheimer se lançou na ficção política com Sete dias em maio (Seven days in May), no qual militares americanos da linha dura tentam, em 1974, derrubar o Presidente dos EUA após este assinar tratado de limitação de armas nucleares com a URSS. Dois anos antes Frankenheimer assinara Sob o domínio do mal (The Mandchurian candidate), no qual soldados americanos, prisioneiros dos chineses na Guerra da Coreia, são submetidos à lavagem cerebral e instruídos a assassinar o Presidente dos EUA tão logo voltassem ao país. Como se vê, o ambiente tenso da guerra fria não passou ao largo de Hollywood. As quatro realizações citadas integram um conjunto do melhor que o cinema estadunidense produziu na primeira metade dos anos 60 (nota de José Eugenio Guimarães).
[12] Cf. GIULIANI, Pierre. op. cit.