Documentarista egresso da televisão que o teve por breve
período — de 1981 a
1984 —, Giuseppe Tornatore não demorou a encontrar o cinema. Estreou na tela
grande com o curioso e pouco conhecido O professor do crime (Il
camorista, 1986). Por sorte — ou azar —, emplacou na segunda investida o
filme que o projetou internacionalmente: Cinema Paradiso (Nuovo
Cinema Paradiso, 1988). É terna, nostálgica e compassada declaração de
amor à sétima arte, ambientada num tempo de maior disponibilidade para o
comparecimento das massas às salas de exibição. Por outro lado, é realização com
o peso da maldição: público e críticos sempre aguardaram filmes de igual
calibre da parte de Tornatore. Cinema Paradiso é obra de exceção
numa filmografia atualmente composta de aproximados 15 títulos essencialmente
cinematográficos. São, em geral, trabalhos pouco extraordinários, apesar de
interessantes e corretos. Dentre essa leva merece amplo destaque, inclusive nos
aspectos formais, o angustiante e tenso jogo de manipulação inspirado em Kafka
e abrilhantado por dois atores em estado de graça: Gérard Depardieu e um
surpreendente Roman Polanski na coprodução ítalo-francesa Uma simples formalidade (Una
pura formalità/Une pure formalité, 1994). Interpretam respectivamente o
aclamado escritor Onoff e um admirador qual implacável algoz: o comissário de
polícia que o interroga na desconfortável condição de suspeito de assassinato.
Nada é o que parece. É um filme tão cativante e desafiador como a realidade em
estado de aparente suspensão e dissolução a envolver os fatos apresentados. Minimalista
e claustrofóbico, com ação transcorrida quase que exclusivamente no ambiente
escuro e decadente de uma delegacia de polícia, Uma simples formalidade
tem direção inspirada e excelente aproveitamento dramático do cenário. A trilha
musical de Ennio Morricone — abrilhantada pelo nervoso violino de Franco
Tromponi — não é excessiva. É usada ocasionalmente, para enfatizar a tensão e
os aspectos mais sombrios da narrativa. Segue apreciação escrita em 1996.
Uma simples
formalidade
Una pura formalità/Une pure formalité
Direção:
Giuseppe Tornatore
Produção:
Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi
Gori
Cecchi Gori Group, Tiger
Cinematografica, TF1 Films Production, Film Par Film, DD Productions, Orly Films,
Sidonie
Itália, França — 1994
Elenco:
Gérard Depardieu, Roman Polanski,
Sergio Rubini, Nicola Di Pinto, Tano Cimarosa, Paolo Lombardi, Maria Rosa
Spagnolo, Alberto Sironi, Giovanni Morricone, Massimo Vani, Sebastiano
Filocano, Mahdi Kraiem e o não creditado Timothy Martin.
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O cineasta Giuseppe Tornatore |
Este bom trabalho
passou despercebido no Festival de Cannes de 1994 e no Brasil. É pena. Porém,
Tornatore teve muita cara-de-pau ao informar, como se percebe nos créditos, que
o roteiro de Uma simples formalidade é baseado em ideia original sua. O
filme logo desmente. Há muito de Kafka no embate entre os personagens de
Depardieu e Polanski, tal qual nos cenários escuros, claustrofóbicos e góticos
elaborados pela desenhista de produção Andréa Crisanti. O crítico Antônio
Gonçalves Filho também notou a falta de originalidade ao apontar semelhanças
com a peça radiofônica Crepúsculo de uma tarde de outono,
de Friedrich Dürrenmatt. Ambos os trabalhos apresentam igual tema, afirma: o
inusitado encontro entre um escritor — suspeito de praticar os crimes expostos
nos livros[1]
— e um fã.
Apesar de tudo,
merecia melhor atenção a quinta incursão de Giuseppe Tornatore na direção, praticamente
destratada pelos apreciadores. Uma das exceções é Roni Filgueiras[2].
Em geral, Uma simples formalidade foi visto como mero e enfadonho
exercício verborrágico e metafísico, executado por um diretor com pretensões
virtuosísticas e desprovido de estilo. Nada mais falso. Julgamentos assim apenas
revelam má vontade e têm explicação. Logo na segunda experiência como
realizador, o praticamente desconhecido Tornatore teve o azar de extrair uma
obra-mestra: Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988),
narrativa simples que homenageia a sétima arte como poucas em seu campo. Ambientada
em pequena cidade italiana no imediato pós Segunda Grande Guerra, o filme revela
o poder de atração da imagem em movimento sobre uma criança. Além disso, trata
com humor e sensibilidade o fascínio do cinema sobre as massas em geral,
durante período de maior disponibilidade para o comparecimento às salas de
exibição. Desde então Tornatore ficou marcado. Os próximos filmes eram aguardados
como equivalentes de Cinema Paradiso. No entanto, seguiram-se
os relativamente menores Estamos todos bem (Stanno
tutti bene, 1990), Uma simples formalidade e O
homem das estrelas (L'uomo delle stelle, 1995). Cinema
Paradiso permanece como obra de exceção. Por outro lado, a nenhum
criador é dada a sorte de extrair somente peças de alto nível — apesar do
desejo e vontade dos críticos.
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Gérard Depardieu como o escritor Onoff |
Apesar de não
apresentar novidades, Uma simples formalidade é peça curiosa
e envolvente. Quase toda a ação está concentrada numa noite fortemente chuvosa.
A precipitação ininterrupta tem papel essencial. Confere à encenação aspectos
movediço, fluido e etéreo. Nada parece ser o que é. Dúvida e certeza se diluem
num três de fevereiro de qualquer tempo e lugar. É aniversário do renomado
escritor Onoff (Depardieu). Estranhamente, é detido na estrada — em barreira
policial. Estava a pé, ofegante, encharcado e enlameado. Apresentava expressão
catatônica. Pouco antes, as primeiras imagens exibiram, em primeiro plano, um tiro
contra a plateia. A seguir, eficiente e subjetiva steadicam acompanha, durante a apresentação dos créditos e ao som
do nervoso violino de Franco Tamponi, a trôpega corrida pela mata de personagem
não revelado.
Houve um
assassinato. Somente disso se sabe. Onoff é o criminoso? Detido sem documentos
e explicações convincentes, é levado à delegacia de polícia — principal e quase
onipresente cenário da trama. A identidade de escritor ainda não foi revelada. Recebe
um cobertor para disfarçar o frio enquanto aguarda o comissário (Polanski). Durante
a espera, a câmera explora o ambiente por ângulos os mais variados. Capta o rosto
assustado e apreensivo do detido; percorre as paredes escuras e mal iluminadas
do recinto; capta latas, canecas e panelas espalhadas pelo chão — insuficientes
para receber a água das goteiras. Revela do alto, em plongée, o jogo de gato e rato prestes a começar. O som do
gotejamento é constante. Todos os elementos antecipam narrativa ao gosto do
absurdo de Kafka.
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O policial Andre (Sergio Rubini) e Onoff (Gérard Depardieu) |
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O comissário e interrogador (Roman Polanski) e Onoff (Gérard Depardieu) |
Onoff pede
pressa. Em poucas horas encontrará o Ministro da Cultura, justifica. Sente
vontade de fumar. Não é atendido. Apenas recebe olhares de burocrática
indiferença. A exceção é o solícito carcereiro (Cimarosa): oferece-lhe leite. Tomado
por fúria aparentemente inexplicável e gratuita — as explicações surgirão à
frente —, o escritor lança a bebida no rosto do homem. É contido pelos
policiais.
Chega o comissário.
Duvida quando o detido revela o nome. É simplesmente o autor que mais aprecia. Só
se convence quando Onoff passa a citar trechos inteiros dos próprios livros. Diante
das evidências, seguem-se os pedidos de desculpas. O inquiridor, perplexo, quer
saber os antecedentes da detenção. A princípio, crê em equívoco. Gentil ,
oferece roupas secas e limpas ao ídolo. Passa a impressão de que o liberará.
Onoff se troca no
banheiro em sequência francamente desnecessária. Aparentemente foi realizada
com o intuito de iludir o espectador. Dela não se tem desdobramentos ou
resultados práticos. Tenta se desfazer de vários pertences guardados nos bolsos.
Lança-os ao vaso sanitário e os recolhe diante do não funcionamento da
descarga. Sem conseguir ocultar o material, resolve engoli-lo. Está
visivelmente tenso. Alguém o observa por uma fresta.
Onoff percebe que
terá facilidades. Será interrogado — uma simples formalidade, adianta o
comissário. Com má vontade responde às questões de praxe: nome, idade,
endereço... Tenta resistir às perguntas específicas, sem sucesso. Sua história
não condiz com as lembranças desconectadas ou parcialmente esquecidas. O comissário
percebe falhas e incoerências. Segue um corte no fornecimento de luz. Onoff
aproveita a escuridão para tentar a fuga. Agride um guarda e se esvai pela
janela. Acaba contido e ferido por uma armadilha de caça. Logo é devolvido à
cena do interrogatório.
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Acima, ao centro e abaixo: Roman Polanski como o comissário e Gérard Depardieu no papel de Onoff |
Diante da
tentativa de evasão, o comissário encontra mais justificativas para prosseguir.
Faz sucessão interminável de perguntas. Retalhos de lembranças assaltam o
depoente. Irritado, comete desacato e agressão. Novamente contido, é algemado e
espancado. Recebe olhar indiferente do inquiridor. Sangra. Ainda assim, o depoimento
prossegue. De um lado está a objetividade do policial; de outro, a
subjetividade e fluidez do escritor. Autor e fã disputam quem é melhor na arte
da manipulação. De que lado está o poder? O comissário faz tudo para
desacreditar Onoff. Tem a convicção de estar diante de um criminoso que se vale
do talento literário para encobrir o malfeito; só precisa cometer um passo em
falso para ser desacreditado e relativizado.
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Onoff (Gérard Depardieu) e o comissário (Roman Polanski) |
Surge o nome de
Faubin, inusitado mendigo e anotador compulsivo dotado de rara inteligência. Após
a morte, deixou para o escritor vasto, desordenado e aparentemente indecifrável
material escrito. Exigiu anos de dedicação para ganhar sentido. Durante esse período
de organização da herança, Onoff nada produziu. Entretanto, retornará à cena
literária com o romance O palácio de nove fronteiras, aclamado
como obra mestra. Na verdade, não passa de compilação de textos do anônimo Faubin.
Tal revelação basta para o comissário concluir pela culpa. Aos seus olhos,
Onoff é um manipulador de mão cheia. Para piorar, abusou da boa fé do público, principalmente
de fãs e leitores. Não é confiável. Isso basta para incriminá-lo.
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Onoff (Gérard Depardieu) com a fotografia do emblemático Faubin |
Dois grandes
atores preenchem a cena. Há quanto tempo não surge um bom filme apoiado
exclusivamente no talento dos intérpretes? Uma simples formalidade supre tal lacuna.
Sabe-se da capacidade de Depardieu. No entanto, Polanski surpreende. O afamado diretor
marcou presença várias vezes à frente das câmeras em realizações próprias e de
terceiros. Destaques para o sádico gângster — praticamente uma figuração — que
retalha o nariz do detetive particular J. J. Gittes (Jack Nicholson) em Chinatown
(Chinatown,
1974); o perplexo Alfred, assistente do professor Abronsius (Jack MacGowran) em
A
dança dos vampiros (The fearless vampire killers or Pardon me,
but your teeth are in my neck, 1967); e o tímido, assustado e
angustiado Trelkovsky, atormentado pelo fantasma da suicida Stella (Isabelle
Adjani) em O inquilino (Le locataire, 1976). Sob a condução
de Tornatore o cineasta Polanski se emancipa como ator total. Oferece um
desempenho segundo a cartilha naturalista que marcou o receituário da velha e
informal escola de interpretação: sem maneirismos, frescuras e exageros; apenas
contenção e convicção.
Roteiro: Giuseppe Tornatore, baseado em ideia própria. Direção de fotografia (cores): Blasco
Giurato. Música: Ennio Morricone,
Andréa Morricone. Orquestração e direção
musical: Ennio Morricone. Montagem:
Giuseppe Tornatore. Figurinos:
Beatrice Bordone. Desenho de produção:
Andrea Crisanti. Colaboração nos
diálogos: Pascal Quignard. Assistentes
de montagem: Massimo Quaglia, Pamela Quaglia, Tatiana Taverna. Direção geral de produção: Pietro
Notarianni, Monica Verzolini. Direção de
produção: Giuseppe Giglietti. Produção
associada: Alexandre Mnouchkine, Jean-Louis Livi. Assistentes de câmera: Vincenzo Vodovato, Fabio Lanciotti, Maurizio
Serafini, Alessandro Martella, Adriano Gianninni, Roberto Barbona, Fausto
Cancellieri, Renato Ciarrocchi, Claudio Diamanti, Angelo Donatone, Roberto
Emidi, Pietro Fabbri, Sergio Faina, Massimo Lombardi, Mauro Misino, Carlo Moreschini,
Flaviano Ricci, Maurizio Salvatori, Aldo Stella, Enrico Stella, Mario Stella, Doriano
Torriero, Giuseppe Petrignani, Massimiliano Dessena, Franco Di Bernardino. Assistente de figurinos: Luigi Bonanno.
Assistente de desenho de produção: Natasha
Tanzilli. Contrarregra: Marcellino
Nolfo, Claudio Villa, Oreste Quercioli. Chefe
de eletricistas: Nazzareno Brescini. Efeitos
especiais: Antonio Corridori, Giovanni Corridori. Fotografia de cena: Luca Biamonte. Assistentes de direção: Stefania Girolami Goodwin, Giovanni Morricone,
Massimo Sagramola. Produção de elenco:
Francesco Ascione. Assistentes para o
diretor: Massimo Sagramola, Giovani Morricone. Câmera elevada: Bernard Chalmefii. Continuidade: Egle Guarino. Assistente
de produção: Monica Verzolini. Secretaria
de produção: Massimo Di Rocco, Francesco Liberati, Roberta Nardoni. Administração de produção: Gloria Del
Gracco. Trucagens: Maurizio Frani,
Penta Studio. Penteados: Vitaliana
Patacca. Produção executiva: Bruno
Altissimi, Claudio Saraceni. Canção:
Effacer
le pass (letra: Pascal Guinard, Giuseppe Tornatore; música: Andréa
Morricone, Ennio Morricone), interpretada por Gerard Depardieu. Som: Pierre Gamet. Diálogos em francês: Nadine Muse. Transportes: Ricardo Ricci. Execução
musical: Orquestra da União dos Músicos (Roma) sob a regência de Ennio
Morricone. Solo de violino: Franco
Tamponi. Engenheiros de som: Sergio
Marcotulli, Tullio Petricca, Roberto Petrozzi. Mixagem de som: Alberto Doni. Combinação
de sons: Stefano Nissolino. Efeitos
sonoros e ruídos de sala: Cineaudio Effects, Fernando Caso, Alvaro
Gramigan. Efeitos óticos: Production
Film 82, Alvaro Passerj. Supervisão de
cor: Pasquale Cuzzupoli. Decoração:
Vincenzo De Camillis, Mauro Passi. Maquiagem:
Maurizio Trani. Operador de microfones:
Bernard Chaumeil. Assistente de
combinação de sons: Isabella Marucci. Edição
de son: Nadine Muse. Técnicos de
efeitos especiais: Pasquino Benassati, Danilo Bollettini, Gastone Callori, Massimo
Cardajoli, Antonio Corridori, Giovanni Corridori, Marco Corridori. Dublês: Giampiero Comanducci, Gianluca
Petrazzi, Massimo Vanni. Eletricistas:
Vittorio D'Ammassa, Maurizio di Stefano, Paolo Di Stefano, Sergio Dori, Massimo
Millozzi, Giuseppe Sgarra, Marcello Tallone. Operadores de câmera: Giuseppe Di Biase, Carlo Passari. Direção de dublagem: Cesare Barbetti. Pagamentos: Claudio Bassetti. Dublagem de Roman Polanski: Leo
Gullotta. Instrução de diálogos: Joelle
Mnouchkine. Dublagem de Gérard
Depardieu: Corrado Pani. Companhia
de produção executiva: Maura International Films. Sistema de mixagem de som: Stereo Dolby SR. Tempo de exibição: 111 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1998)
[1] GONÇALVES FILHO, Antônio. Tornatore faz policial
metafísico. O Estado de São Paulo. São Paulo, 5 maio 1995. Caderno dois. p.
2.
[2] FILGUEIRAS, Roni. Tornatore faz viagem à alma e ao
absurdo. O Globo. Rio de Janeiro, 24 fev. 1998. Rio Show. p. 6.