Certos filmes, passados alguns anos da estreia, entram
inexplicavelmente no limbo da mais completa obscuridade. É o caso de Uma
fresta no teto (Night hair child, 1971), ousada e
desconcertante coprodução entre Espanha, Inglaterra, Itália e República Federal
da Alemanha dirigida pelo britânico e praticamente desconhecido James Kelly,
com carreira limitada a apenas dois títulos. Desapareceu
completamente das vistas. Fico até com a impressão de que fui o único a vê-lo ou de que é decorrente de alucinação. Para piorar, é complicado
levantar informações a respeito, inclusive pelo Internet Movie Database — IMDb.
Este banco de dados não o registra pelas denominações com as quais se apresentou ao
espectador brasileiro. Uma fresta no teto se transformou em
Diabólica
malícia e o original Nigh hair child cedeu lugar a What
the peeper saw, atribuído pelo mercado exibidor estadunidense. Às
vezes, é possível localizá-lo pela curta designação Night child. Na ocasião
do lançamento estranhei o cochilo da então sempre vigilante e truculenta Divisão
de Censura da Polícia Federal que o liberou sem cortes. Já na Inglaterra algumas
cenas não puderam ser mostradas. A situação piorou nesse país a partir de 1978,
quando da aprovação de normas mais rigorosas do British Board of Film
Classification. Submetido à nova apreciação, sofreu supressões que praticamente o desfiguraram. Uma fresta no teto apresenta uma relação perversa e doentia
desenvolvida pelo precoce Marcus (Mark Lester), de 12 anos, com a assustada e
frágil madrasta Elise (Britt Ekland), 10 anos mais velha. O ritmo frio e
propositalmente lento da encenação amplia consideravelmente a tensão e a
atmosfera perturbadora. O garoto é, certamente, uma das crianças mais sinistras
reveladas pelo cinema. Segue apreciação escrita em 1974.
Uma fresta no teto
Night hair child
Direção:
James Kelley
Produção:
Graham
Harris
Cemo film, Corona Filmproduktion, Eguiluz Films, Leander Films, Leisure Media
Espanha, Inglaterra, Itália,
República Federal da Alemanha — 1971
Elenco:
Mark
Lester, Britt Ekland, Hardy Krüger, Lili Palmer, Harry Andrews, Conchita
Montes, Collette “Jack” Giacobine, Ricardo Palacios, Emilio Rodríguez, Ricardo
Valle.
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Mark Lester - caracterizado como Oliver Twist em Oliver! (Oliver!, 1968), de Carol Reed -, Hardy Krüger e Britt Ekland atuam em Uma fresta no teto |
Mark Lester... Quem
diria!? No que se transformou o simpático garotinho que interpretou o sofredor
personagem-título do oscarizado musical Oliver! (Oliver!, 1968), de Carol
Reed, baseado no celebrado romance Oliver Twist, de Charles Dickens?
Presença constante nas telas do cinema e da TV desde 1964, quando mostrou o
rostinho bonito pela primeira vez como Gérald em Allez France !
(1964), de Robert Dhéry e Pierre Tchernia, Lester exibiu a estampa como um não
creditado estudante em Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451, 1966), de
François Truffaut. A seguir fez Jiminee no denso e perturbador Todas
as noites às nove (Our mother's house, 1969), de Jack
Clayton. Após Oliver! viveu Philip Ransome em Sem medo de viver (Run
wild, run free, 1969), de Richard C. Sarafian; Ziggy em A
testemunha ocular (Eyewitness, 1970), de John Hough; Daniel
em Melody:
quando brota o amor (Melody, 1971), de Waris Hussein; Joe
em O
potro negro (Black beauty, 1971), de James Hill;
e Christopher Coombs no assustador Fábula macabra (Whoever slew auntie Roo?,
1972), de Curtis Harrington. Em todos esses títulos, inclusive nos mais
inquietantes, interpretou personagens que podem ser enquadrados nos limites da
normalidade mais ordinária. Agora, em Uma fresta no teto, comparece
como Marcus: aos 12 anos é um pervertido sexual e o mais frio e indiferente dos
psicopatas.
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Mark Lester interpreta o precoce Marcus |
A fisionomia de
Lester contribuiu para o aspecto gelado e blasé
do personagem. Se não fosse uma leve propensão para o cinismo e o humor, Marcus
passaria muito bem como um dos louros filhos do imponderável gerados pelas
mulheres do vilarejo inglês de Midwich em A aldeia dos amaldiçoados (Village
of the damned, 1960), de Wolf Rilla.
O menino é filho
único de Paul Bezant (Krüger) e Sara (Giacobine). A infeliz mãe foi mortalmente
eletrocutada em um estranho e praticamente impossível acidente enquanto tomava
banho. Aparentemente — a realização é dúbia para permitir uma certeza taxativa
—, foi assassinada pelo garoto. Vários testemunhos do personagem conduzem à
crença nessa terrível verdade. O pai, escritor bem de vida, é praticamente ausente.
Dá a impressão de fugir a uma revelação à qual, confortavelmente, prefere não
dar crédito. Após a morte da esposa, fixa residência num aprazível recanto ao
norte da Espanha e confia o filho ao tratamento psicológico e colégio interno.
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Hardy Krüger interpreta Paul Bezant, o ausente pai de Marcus (Mark Lester) |
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Britt Ekland no papel da madrasta Elise |
Ao longo do seu
desenvolvimento Marcus se revelou um pesadelo personificado. É sádico, frívolo,
voyeur, narcisista, mentiroso contumaz, esquivo, manipulador, libertino e, pelo
visto, assassino. Ainda por cima, é intelectualmente precoce. Está preparado
para vencer qualquer debate, geralmente pela ímpar capacidade de inibir o
oponente. No internato, depois de provocar inúmeros transtornos, foi
irremediavelmente expulso após provocar a morte lenta de um gato.
Devolvido ao lar
pelas autoridades educacionais, não encontra o pai. Para sua satisfação, depara-se
com Elise (Britt Ekland), jovial madrasta de 22 anos, prato cheio para lábias e
provocações. As apresentações se completam com uma mentira: um surto de
varicela fechou temporariamente a escola. Porém, a frieza, o aspecto zombeteiro
e as investidas ousadas — como agarrá-la pelos seios — não demoram a se
evidenciar. Marcus desconsidera a existência de qualquer barreira moral e se
insinua claramente para Elise. Observa-a na intimidade e não titubeia em
confessar, zombeteiro, a suposta participação na morte da mãe.
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Acima e abaixo: Elise (Britt Ekland) e Marcus (Mark Lester) |
Insegura e
temerosa com a inesperada companhia, Elise passa por momentos de verdadeiro
sufoco. Ainda mais quando o enteado se vê no direito de reivindicá-la sexualmente,
apoiado no argumento de que a diferença etária entre ambos é de apenas 10 anos,
enquanto o dobro disso a separa de Paul. Este, ao contrário do razoavelmente
esperado, não rompe com a apatia em relação ao filho. Sobra para a personagem
interpretada por Britt Ekland firmar uma certeza sobre os acontecimentos,
inclusive os pretéritos. Por iniciativa própria procura o diretor do colégio
(Andrews) e toma ciência dos graves problemas protagonizados por Marcus na
instituição. A empertigada e difícil Dra. Viorne (Palmer), psicóloga do
enteado, também revela um quadro preocupante.
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A psicóloga Dra. Viorne (Lili Palmer) |
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Elise (Britt Ekland) e o diretor da escola (Harry Andrews) |
A partir daí Uma
fresta no teto evolui para um clima de franco e ousado suspense
psicológico. As investidas de Marcus sobre a madrasta são cada vez mais
abertas. Para formar ciência sobre a morte de Sara, Elise cede incrivelmente às
exigências e se desnuda para ele. Despidos, ambos partilham do mesmo leito.
Apesar de revestidas de todos os cuidados para não passar por apelativas, são
cenas suficientemente fortes e arrojadas. É um mistério que tenham passado
incólumes pela censura brasileira — tão vigilante à época — e do país sede da
produção — a Inglaterra —, ainda mais quando se sabe que os atores não tiveram
dublês. Fragilizada, Elise tem apenas uma certeza: o assédio e a manipulação
não terão fim, justamente depois que a relação doentia evoluiu para a mais
explícita tensão sexual. Pensa em alternativas radicais para se livrar do
enteado. Acaba incorporando-o à sua personalidade. A narrativa se encaminha
para um epílogo tão frio e indiferente quanto inesperadamente surpreendente e desconcertante.
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Elise (Britt Ekland) começa a se despir para Marcus (Mark Lester) |
É um filme bem
dirigido, principalmente na valorização dos cenários e atores. O ritmo é lento,
fato que só amplia a tensão e a atmosfera perturbadora. As sequências foram
planejadas para expressar a crescente insanidade das situações. Neste quesito,
a sedutora trilha musical de Stevio Cipriani tem papel fundamental. Os
diálogos, às vezes, repetitivos, são intensos e explicitam o estado de nervos
de Elise em sua antagônica relação com o enteado. Marcus é, certamente, uma das
crianças mais sinistras reveladas pelo cinema.
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Marcus (Mark Lester) e Elise (Britt Ekland) nos momentos finais de Uma fresta no teto |
Roteiro: Trevor Preston, Andréa Bianchi, Bautista Lacasa
Nebot, baseados em história de Erich Kröhnke. Direção de fotografia (Eastmancolor): Luis Cuadrado, Harry Waxman. Música e direção musical: Stelvio
Cipriani. Montagem: Nicholas
Wentworth. Produção executiva:
Andrés Vicente Gómez, Oliver A. Unger. Gerente
de produção: Primitivo Álvaro. Gravação
de som: Roger Goodall, Peter Lodge. Edição
de som: Brian Holland, John Ireland. Operadores
de câmera: Walter Byatt, Ronnie Maasz. Assistente
de montagem: Alan Jones (não creditado). Gerente de locações: John Southwood. Produção do álbum da trilha musical: Luca di Silvério (não
creditado). Continuidade: Isabel
Mulá. Estúdio de gravação da trilha
musical: Digitmovies Alternative Entertainment. Estúdio de gravação: Sound Associates. Tempo de exibição: 89 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1974)