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O rei dos reis (King of kings, 1961), de Nicholas Ray |
Abril parece
ser o melhor dos meses. Em torno disso há praticamente um consenso. Reforçam-no
o cinema, a canção popular e a literatura. De David Butler é o filme Paris
em abril (April in Paris, 1952), título também da canção de Vernon Duke e E. Y.
Harburg, imortalizada por Doris Day e Billie Holiday. Na música popular
brasileira, Vinícius e Toquinho compuseram e cantaram As flores de abril. Quem
leu Monteiro Lobato provavelmente terá a lembrança do início de Viagem
ao céu: Pedrinho e Narizinho na disputa de descascar laranjas sem
feri-las, em pleno quarto mês, este que não é quente nem frio; nem seco nem
chuvoso; período no qual nada falta ou excede; tudo se ajusta na devida medida.
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Capa de edição do livro de Monteiro Lobato |
Porém, toda regra tem exceção. No caso, sou o ponto
fora da curva. Desde criança, o meu agosto é abril. Transtornos, traumas e
temores se acumularam em mim no melhor dos meses. Hoje, somo 59 passagens pelo
aziago abril. Algumas angústias e medos começaram a me perseguir na casa dos 8
anos e ainda estão presentes. Uma delas leva o nome de Mancha Negra (Phantom Blot, no original) — fora da
lei terror de Patópolis, arqui-inimigo do Mickey. Fui apresentado a ele em
abril. Os primeiros desenhos do marginal eram, segundo minhas memórias,
apavorantes! Impediam-me de dormir. Em consequência, corria para a cama dos
meus pais. Seu Altamyr Guimarães, contrariado com a intromissão, corria para a
minha. No dia seguinte, na rua e em casa, punha-se a falar, em alto e bom som,
para quem quisesse ou não ouvir: "Meu filho é uma vergonha. Tem medo de um
pedaço de papel!".
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Mancha Negra (Phantom Blot), marginal dos quadrinhos da Walt Disney Productions |
Diante de tamanha exposição eu não tinha onde enfiar a cara. Felizmente, para consolo geral, o medo do Mancha terminou tão rapidamente como começou. Entretanto, não posso dizer o mesmo da Semana Santa, quase sempre comemorada em abril. Continuo apavorado com tudo o que se conta e encena acerca da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sempre tive dificuldade em aceitar a ideia de um Deus que consente na execução atroz do filho em nome da redenção de uma humanidade tomada em abstrato. A simples menção a isso me deixa vivamente impressionado. E sou facilmente impressionável.
Uma conjunção de fatores contribuiu para o pavor. Primeiro, a ida à Igreja para ser crismado, por imposição da professora primária, aos oito anos, senão – ai de mim! – iria para o inferno. A visão dos vitrais narrando a via dolorosa, as estátuas, os crucifixos enormes, aumentaram a insegurança do meu mundo frágil. Depois, aos nove anos, veio o preparatório para a primeira comunhão. Outra vez uma professora estava por trás da ideia, também com o peso da ameaça infernal. Se dependesse de pai e mãe jamais passaria por tais provações. Ambos não frequentavam missas e outros cultos. Ficavam — principalmente Seu Guimarães — injuriados com o incrível poder de convencimento das mestras. E lá estava eu, decorando o Ato de contrição para a primeira confissão de minha primeira comunhão: “Meu Jesus, crucificado/Por minha culpa estou arrependido de ter cometido pecado/Pois ofendi a Vós/Que sois tão bom./Por isso, mereci ser castigado/Neste mundo e no outro./Perdoa-me, Senhor!/Afastai-me do Mal/Pois não quero mais pecar!/Amém!”.
Virgem Santa! Quantos arrependimentos e noites mal dormidas tive, achando que Jesus passou por tão inominável sofrimento por causa dos meus pecados de moleque: no máximo umas mentirinhas contadas para a mãe, fingir que estudava tabuada, roubar goiabas no quintal do vizinho e passar a mão ― as famosas "catações" ― nas bolinhas de gude dos incautos.
Não posso esquecer os programas radiofônicos de Alziro Zarur — fundador da Legião da Boa Vontade. Suas locuções exacerbadas e repletas de tintas do Apocalipse, na narração encenada do final dos tempos — descrevendo detalhadamente a derradeira Batalha do Armagedon, com a terra se abrindo para engolir os pecadores e lançá-los nas chamas da punição eterna — mexiam com meu emocional. E não havia escapatória. Minha mãe adorava ouvir os clamores radiofônicos. A eles, de certa forma, também estava obrigado, pois a seguir começaria Jerônimo, o herói do sertão. Por nada desse mundo eu perderia as aventuras do filho de Maria Homem, nascido em Cerro Bravo. As contribuições maternas aos pavores não podem ser minimizadas. No meu caso, Dona Iracema Guimarães adorava ler épicos a respeito de Jesus ou que o tomavam como pano de fundo. E narrava para mim — curioso e masoquista —, com requinte e riqueza de detalhes, passagens alusivas às horas finais de Cristo extraídas de O mártir do Gólgota (El màrtir del Gólgota), de Henrique Perez Escrich; O manto sagrado (The robe), de Lloyd C. Douglas; Ben-Hur (Ben-Hur: A tale of Christ), de Lew Wallace; e outros calhamaços. Enquanto ouvia, por dentro me contorcia com as imagens de açoites, da coroa de espinhos, dos cravos rasgando carnes, do sangue correndo aos borbotões, dos sofrimentos indescritíveis e intermináveis.
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Quando chegava a Semana Santa, eu já estava curtido no imaginário de terror que agora seria ampliado ao paroxismo: as procissões — excluídas as de Ramos e da Ressurreição —; os cantos e rezas; as filas intermináveis para beijar estátuas do Senhor Morto; as imagens barrocas de Jesus carregando pesadíssima cruz e estampando no rosto ensanguentado todos os pecados do mundo ― inclusive os meus! —; os sermões intermináveis irradiados para tudo quanto é canto — principalmente o impressionante e assustador Sermão das Sete Palavras, pronunciado das 12 às 15h de Sexta da Paixão —; os dobres solenes e fúnebres das bandas de música (as "furiosas") atrás das procissões e nas primeiras horas da manhã, em alvoradas que despertavam a cidade inteira; a cor roxa da quaresma; solteironas e beatas rezando e se descabelando, segurando velas de todos os tipos e tamanhos, esperando o fim do mundo a qualquer hora; os rádios tocando músicas fúnebres ao longo de toda a sexta-feira; a proibição das brincadeiras em respeito ao sofrimento de Jesus... Com tudo isso, a indefectível bacalhoada com batatas ficava sem sabor... Minha nossa! Como eu sofria nessa época dourada da infância. Parecia cachorro de rua acuado pelo foguetório em dias de Fla-Flu. Não havia para onde correr. Também não tinha como dormir. À noite, estava literalmente invadido e acuado pelo pavor. E lá ia eu para a cama dos meus pais. Nos dias seguintes teria que ouvir o velho esbravejando nos ambientes privados e públicos: "Uma vergonha o meu menino! Não dorme por que tem medo de um pedaço de pau!".
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O “pedaço de pau”, no caso, era um coletivo que abarcava a sacralidade de todas as estátuas e cruzes.
Os anos passam, mas as imagens de tortura no calabouço de Pilatos e as cenas de crucificação ainda apavoram e prejudicam minhas noites de sono. Tanto que fiz questão de passar ao largo de todos os cinemas que exibiram A paixão de Cristo (The passion of the Christ, 2004), de Mel Gibson. É o único filme ao qual digo abertamente: "Não vi e não gostei". Já havia experimentado, nos cinemas, em 1966, momentos assaz dolorosos com O evangelho segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo, 1964), de Pier Paolo Pasolini. Segundo minhas lembranças, é o primeiro filme a exibir a crucificação em primeiro plano, com o martelo pegando firme, contrariando as normas do espetáculo firmado por Hollywood: mostrar as horas extremas no Gólgota em solene e respeitoso distanciamento. Em 1988, abraçado pela tela envolvente do carioca e extinto Cine Metro Boavista, passara por momentos de verdadeiro sufoco com A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ, 1988), de Martin Scorsese, no qual o sangue jorra literalmente, aos borbotões, e a porrada corre solta.
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O evangelho segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo, 1964), de Pier Paolo Pasolini |
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A última tentação de Cristo (The last temptation of Christ, 1988), de Martin Scorsese |
Mas a obra de Mel Gibson se ajusta perfeitamente aos tempos que não titubeiam em exibir o grotesco e o violento em seus aspectos mais pornográficos. Nela, o Cristo e sua paixão são contemporâneos de Freddy Krugger assustando adolescentes em A hora do pesadelo (A nightmare on Elm Street), de Wes Craven, com todas as suas continuações; de Jason matando a três por dois, sem nenhum pudor, na Sexta-feira 13 (Friday the 13th, 1980), de Sean S. Cunningham, e seus intermináveis prolongamentos; das carnificinas sem peias de O albergue (Hostel, 2005), de Eli Roth; e Jogos mortais (Saw, 2004), de James Wan. Gibson ofereceu ao público uma recriação das últimas horas de Jesus segundo a estética do terror “sangue e tripas” tão em voga e banalizado. Depois de anos escolado nos símbolos e significados da Semana Santa eu não seria masoquista o suficiente para prestigiar essas imagens. Bastou a visão de algumas fotografias da produção para tumultuar minhas noites de sono. Minha filha, porém, armou-se de coragem e foi vê-las. Depois, lívida, buscou uma catarse tentando contar ao pai as dolorosas e aterradoras cenas que testemunhou. Em alto e bom som, respondi: "Não quero saber!".
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A paixão de Cristo (The passion of the Christ, 2004), de Mel Gibson |
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O rei dos reis (The king of kings, 1927), de Cecil B. De Mille |
Entendidos em espiritismo e em reencarnação tentaram racionalizar todos esses pavores que me são tão caros. Concluíram o óbvio: fui crucificado muitas vezes em vidas passadas. Parece fazer sentido. Mas não quero perder tempo pensando nisso. Caso contrário, corro o risco de perder outras noites de sono. Chega!
(José Eugenio Guimarães, 2009; revisto em 2015)