Em matéria de cinema sou fordiano até a medula. Se a
eleição dos textos para o blog não fosse presidida por critérios randômicos, outras
apreciações a filmes de John Ford teriam a primazia na ocupação do espaço. O
título da vez é Sangue de heróis (Fort Apache, 1948), um dos mais
importantes westerns segundo minhas considerações. A realização abre a famosa
“trilogia da cavalaria”, baseada em novelas de James Warner Bellah. A trinca —
somada a outras obras rapidamente realizadas em regime de baixo orçamento — permitiu
ao diretor o levantamento de recursos para levar às telas o tão acalentado
projeto de Depois do vendaval (The quiet man, 1952). Sangue
de heróis está entre os títulos que inauguram a fase romântica do
western, dedicada à revisão crítica dos mitos da fronteira. Corajosamente
pioneiro, investe contra a aura de herói em torno do General Custer —
disfarçado sob a identidade do Tenente-Coronel Owen Thursday — e confere humanidade
aos índios. Também assinala a primeira parceria de Ford com o roteirista Frank
Nugent, responsável pelos guiões de outros clássicos do diretor, principalmente
o de Rastros
de ódio (The searchers, 1956). A narrativa enganadoramente simples de Sangue
de heróis conjuga humor, drama, tensão e crítica ao heroísmo desmedido.
Exalta a camaradagem e destaca o papel das mulheres como elementos
humanizadores e integradores. A apreciação a seguir foi escrita em 1975, quando
o autor estava com 19 anos.
Sangue de heróis
Fort Apache
Direção:
John Ford
Produção:
John Ford,
Merian C. Cooper
Argosy
Pictures, RKO Radio Pictures
EUA — 1948
Elenco:
John
Wayne, Henry Fonda, Ward Bond, Victor McLaglen, Shirley Temple, John Agar,
Pedro Armendáriz, George O’Brien, Anna Lee, Irene Rich, Dick Foran, Guy Kibbee,
Grant Withers, Jack Pennick, Ray Hyke, Movita Castenada, Hank Worden, Mae
Marsh, Philip Kieffer, Miguel Inclán, Mary Gordon e os não creditados Frank
Fergunson, Francis Ford, Cliff Clarke, William Forrest, Fred Graham, Mickey
Simpson, Harry Tenbrook, Archie Twichell, Jane Crowley, Frank McGrath, Phil
Schumacher, Brick Sullivan, Eleanore Vogel.
O cinema estadunidense
participou decisivamente do esforço bélico durante a Segunda Guerra Mundial.
Além de contribuir com filmes de propaganda ou dedicados à educação e
treinamento dos soldados, deslocou ao front
profissionais os mais diversos. Alguns desses, atores e atrizes principalmente,
desempenharam seus próprios papéis em shows e entrevistas com soldados.
Animavam pelotões para elevar o moral e a autoestima das tropas. Outros se
envolveram diretamente nos conflitos e ocuparam postos na hierarquia das forças
armadas. É o caso de Tenente Comandante John Ford. O diretor de No
tempo das diligências (Stagecoach, 1939) exerceu, de 1942
ao fim da guerra, atribuições de correspondente. Realizou importantes documentários na frente e retaguarda das batalhas: Sex
hygiene (1942); The battle of Midway (1942) — que lhe custou a vista esquerda, atingida por um
disparo; Torpedo Squadron (1942); At the front in North Africa with the U.S.
Army (1943); December 7th (1943); We
sail at midnight (1943); How to operate behind enemy lines
(1943); German industrial manpower (1943); e Undercover (1944).
Em 1952, sete
anos após o término do conflito, Ford realizou a inconteste obra mestra Depois
do vendaval (The quiet man, 1952). Trata-se de projeto
antigo, baseado em romance de Maurice Walsh, ao qual se entregou com afinco
desde o retorno à vida civil. Rodado e ambientado na Irlanda de seus
ancestrais, é deliciosa celebração de valores que lhe são caros: tradição,
comunidade, simplicidade, alegria de viver, camaradagem e o convívio fraterno
entre os diferentes. Exalta a paz como raras vezes o cinema logrou fazer.
Revela uma particular concepção de paraíso. O caráter lírico e evocativo da
realização aliviava diretor e público das profundas sequelas decorrentes de
seis longos anos de guerra.
De 1946 a 1952 — desde Paixão
dos fortes (My darling Clementine) a Sangue por glória (What
price glory), excetuando-se o documentário This is Korea (1951) — Ford se lançou a
uma série de filmes, em geral westerns de produção rápida, para levantar os recursos
necessários a Depois do vendaval. As tomadas em locações exigiriam aporte
financeiro acima do normal. Para garantir a plena liberdade de criação, acumularia
também funções de produtor. Assim evitaria a geralmente nefasta interferência
dos chefes de estúdios, prisioneiros de fórmulas viciadas e esquemas
padronizados.
Entre as obras
que suportaram a concretização de Depois do vendaval está a famosa
“trilogia da cavalaria” baseada em novelas de James Warner Bellah e inaugurada
com Sangue
de heróis em 1948. Completam-na Legião invencível (She
wore a yellow ribbon, 1949) e Rio Bravo (Rio Grande, 1950).
Sangue de heróis é o terceiro
western rodado por Ford à sombra dos imponentes rochedos de Monument Valley[1]
e a segunda produção da Argosy Pictures[2]
— companhia que fundou em 1947, associado a Merian C. Cooper — produtor e codiretor,
com Ernest B. Schoedsack, de King Kong (King Kong, 1933). Sangue
de heróis inicia a frutífera e bem-sucedida colaboração entre Ford e o
roteirista Frank S. Nugent, responsável pelos guiões de O céu mandou alguém (3
godfathers, 1948); Legião invencível; Caravana
de bravos (Wagonmaster, 1950); Depois do vendaval; Mister
Roberts (Mister Roberts, 1955); Rastros de ódio (The
searchers, 1956); The rising of the moon (1957); O
último hurra (The last hurra, 1958); Terra
bruta (Two rode togheter, 1961); e O aventureiro do Pacífico
(Donovan’s
reef, 1963).
Ford renovou o
western com o paradigmático No tempo das diligências, com o qual
revelou ao cinema nova maneira de interpretar histórias e episódios relacionados
à mitologia da fronteira. A vocação de pioneiro audacioso vem mais uma vez à
luz em Sangue de heróis, primeiro filme a fornecer — timidamente,
ainda — retrato favorável aos índios e a questionar — disfarçando episódios e
personagens verídicos — a aura de herói do General Custer. Até então, na maioria
dos westerns, os índios raramente falavam. Emitiam no máximo sons desconexos e
se ocultavam sob máscaras assustadoras, pouco confiáveis, da perversidade e morbidez.
Sangue
de heróis desenha novo quadro. Os Apaches de Cochise (Inclan) são
mostrados como vítimas de perfídias e traições, tanto dos tratados não
cumpridos como do militarismo sedento de glórias, arrogante e carreirista. Em
sequência repleta de novidade para a época, Cochise lista para o comandante da
cavalaria que o combate, Tenente-Coronel Owen Thursday (Fonda), todas as
mazelas da conquista: uma história de expropriações, submissões e massacres que
custaram a dignidade, a determinação e o orgulho de sua gente.
O General George
Armstrong Custer e seus homens — o Sétimo
Regimento de Cavalaria baseado em Fort Lincoln — foram dizimados em
25 de junho de 1876 na célebre batalha de Little Big Horn, ao enfrentar a
confederação Sioux chefiada por Touro Sentado ou Sitting Bull. A derrota para
um inimigo considerado belicoso e traiçoeiro adquiriu os imediatos contornos da
abnegação e do sacrifício heróico: Custer e comandados teriam morrido
gloriosamente, pela pátria. Assim entraram para a História. Ao comandante não
eram atribuídas responsabilidades pela derrocada. Saía com a reputação
completamente ilesa do episódio. Porém, com o passar do tempo, remove-se aos
poucos o véu da mistificação. A história do massacre sofre reavaliações. O
gênio militar de Custer é questionado e macula a imagem do mártir. O Sétimo de
Cavalaria fora vitimado, acima de tudo, pela prepotência e sede de glória do chefe.
Subestimara as capacidades de fogo e organização do oponente, principalmente a
superioridade numérica e melhor conhecimento do terreno. A estratégia dos
índios conduziu o regimento ao embate suicida. Em busca dos louros da glória e
confiando na vitória fácil, Custer não aguardou os reforços por chegar.
Ernest Haycox
reescreveu a história de Custer em Bugles in the afternoon, peça de
desmistificação na qual buscou a máxima aproximação aos fatos. James Warner Bellah
concebeu a novela Massacre — ponto de partida do roteiro de Frank S. Nugent — com
base nas ponderações de Haycox. Porém, comparado ao original, foi comedido na exposição.
Ataca o militarismo exacerbado e belicoso, mas evita o confronto direto com a face
perdida de Custer. Privilegia a descrição do cotidiano de uma guarnição
acantonada nas lonjuras imensas, afastada dos valores civilizados do Leste. A
abordagem sincera, terna e nostálgica evoca o senso de comunidade instalado no seio
da guarnição formada por soldados de todos os tipos e origens, acompanhados ou
não dos familiares. Os componentes desse universo integrado e harmônico,
conformado pela ética militar, tentam, dentro do possível, evitar que a
instituição tão onipresente e à qual devotam fidelidade, soterre
individualidades, vontades e desejos.
O Fort Lincoln da verdade histórica, rebatizado para Fort
Stark por Bellah, converte-se em
Fort Apache no roteiro de Nugent, guarnição perdida em algum
trecho do Arizona. Os Sioux de Touro Sentado dão lugar aos Apaches de Cochise.
O General George Armstrong Custer comparece sob a identidade do Tenente-Coronel
Owen Thursday. A descrição minuciosa e bem-humorada do dia-a-dia do posto é
preservada, afinal, corresponde à idealização fordiana do mundo.
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Cochise (Miguel Inclán) e seus apaches |
O cinema, campo
de batalha do diretor, sempre foi um meio de expressão popular, de fácil
penetração no seio das massas. Estas, apesar de toda a desmistificação em
andamento na época da realização de Sangue de heróis, tinham Custer em
alta conta. Por isso, para não ferir as suscetibilidades e a autoestima do
público, Ford e Nugent preferiram ocultar a real identidade das situações,
lugares e personagens envolvidos. Entretanto, há mais: apesar de criticar Custer,
Ford reverenciava o mito do comandante morto. Justificou-se em entrevista a
Peter Bogdanovich, ao alegar, basicamente nestes termos: a vida de um país
segue melhor quando o povo possui heróis para admirar, mesmo que não fossem, em
verdade, grandes homens[3].
Portanto, quatorze anos antes de O homem que matou o facínora, o
cineasta fazia jus aos dizeres emblemáticos não apenas desse filme como de toda
a fordiana: “Quando a realidade se transforma em lenda, publica-se a lenda”,
escritos com todas as letras no epílogo de Sangue de heróis, apesar da abordagem
crítica que perpassa a realização.
Ao longo de todo
o filme Ford reavalia, através de Thursday — ávido por preservar a reputação e
a integridade — o comportamento belicoso, arrogante, aristocrático,
autoritário, psicótico e de desprezo aos subordinados, não apenas de Custer mas
de militares assemelhados. Expõe, no epílogo, a relativa autonomia de um
processo de mitificação desencadeado, por mais irônico que pareça, pela própria
instituição — sacrificada inutilmente em muitos homens devido à cegueira beligerante
desmedida. O Capitão Kirby York (Wayne) — homem comum, egresso das fileiras
populares, merecedor do respeito e carinho de Ford — sabia bem quem
era Thursday, o superior que o desprezava e ao qual se opunha. Não obstante,
quando os fatos na forma de mito se incorporam à História, concorda com os
jornalistas em visita ao forte: enaltece a imagem valorosa e altiva do “herói”.
Porém, sabe: a verdade é inteiramente outra.
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As mulheres testemunham a partida dos homens para a guerra: Mrs. Mary O'Rourke (Irene Rich) e Mrs. Gates (Mae Marsh) |
Mais trágico
ainda: a sombra do herói é única. Sobrepuja engrandecida as imagens de todos os
demais, homens comuns e anônimos mortos ao seu redor. A isso alude o repórter
(Fergunson): “Só se fala de Thursday, mas e os outros como o Capitão Sam
Collingwood (O’Brien)?” Ou os sargentos Mulcahy (McLaglen), O’Rourke (Bond),
Beaufort (Armendáriz), Quincannon (Foran) e Shattuck (Pennick), para não falar
de outros, ainda mais desconhecidos? Esse olvido é previsto pela Sra. Emily
Collingwood (Lee). Ladeada por outras mulheres na belíssima cena em que observa,
da murada do forte, a última partida do marido com a tropa, diz: “Não consigo
vê-lo. Tudo o que vejo são bandeiras”. A História é cruel. Esquece a maioria
para engrandecer a memória de um. John Ford contraria o esquecimento. Boa parte
dos filmes que realizou é, em grande parte, um elogio ao esforço não
reconhecido da gente simples. Kirby York recompõe os contornos de suas
identidades ao completar a fala do repórter: “Eles estão lá fora, comendo
feijão e recebendo 13 dólares por mês...”.
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O Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda), os capitães Kirby York (John Wayne) e Sam Collingwood (George O'Brien) mais o Sargento-Major Michael O'Rourke (Ward Bond) |
A história do
filme: rebaixado ao posto de Tenente-Coronel, o ex-General Thursday,
acompanhado da filha Philadelphia (Shirley Temple em um dos seus últimos papéis
no cinema), viaja pelas estradas poeirentas do Arizona ao encontro do Fort
Apache. É o novo comandante da guarnição. Não há destino pior para quem foi
adido militar na Inglaterra. As primeiras frases pronunciadas por Thursday
revelam desprezo pela região que percorre. Em poucos planos e falas Ford
adianta o caráter do militar: um aristocrata empedernido, apegado aos padrões
da honra estamental. Não se conforma com o destino imposto. Vê o Fort Apache da
forma a mais instrumental: apenas um lugar para cumprir, rapidamente e a
contento, missões gloriosas para recuperar a honra perdida. Numa parada, pai e
filha encontram o jovem Tenente Michael O’Rourke (Agar), recém-saído da
academia militar e também a caminho do Fort Apache. Entre ela e o rapaz firma-se
uma relação de mútua simpatia aprofundada ao longo do filme. Quanto a
Thursday, observa com reservas o oficial, por dois motivos: primeiro, o tenente
descende de imigrantes irlandeses e tem por pai um suboficial, o Sargento-Major
O’Rourke (Bond). O comandante não compreende como o filho de um subalterno
atingiu tão rapidamente o oficialato. Segundo: à parada chega uma patrulha para
escoltar Michael ao forte. Como as comunicações pelo telégrafo estavam
interrompidas, honra igual não foi oferecida a Thursday. Mais tarde, em nome da
honra, proibirá os encontros da filha com o Tenente.
A arrogância e
prepotência de Thursday interferem radicalmente no cotidiano do forte. A seu
critério, sem ouvir auxiliares, altera toda a estrutura de comando. Aos que
discordam, faz questão de lembrar, em alto e bom som, quem é o comandante, mesmo
que demonstre patente ignorância sobre a região, os homens e, principalmente,
os índios. Apega-se, sem transigir, ao formalismo acadêmico. Logo entra em
conflito com os O’Rouke. As desavenças com os capitães Collingwood e York
também não tardam. Entre superior e subordinados Ford apresenta duas visões do
exército e destaca com qual simpatiza: 1) a instituição apropriada por homens
pomposos como Thursday, que a utilizam em benefício próprio, desprezando os
elementos humanos que a formam; e, 2) o celeiro de homens comuns que fazem da
farda um modo de vida ao passo que a guarnição se torna um centro de cultivo da
igualdade, camaradagem, democracia, sobrevivência e interação social.
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Rumo ao Fort Apache: Philadelphia (Shirley Temple) e o pai, Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) |
Sob o novo
comando a farda adquire peso insuportável. Thursday se faz onipresente em todos
os setores da vida do forte. Abole as individualidades. Transforma tudo e todos
em meras peças que manipula ao bel-prazer.
A oportunidade
para demonstrar a superioridade de suas táticas não tarda. Diante da palavra
sempre quebrada dos brancos, Cochise e seus guerreiros fogem da reserva e se
internam no México. São contactados pelo Capitão York e Sargento Beaufort. O oficial,
mediante empenho da própria palavra, consegue o retorno dos Apaches à reserva,
onde devem aguardar a abertura de novas negociações. Mas Thursday passa por
cima do acordo. Pretende subjugar Cochise militarmente, punindo-o pela fuga. Toma
os índios como selvagens ignorantes. Apesar de inferiorizado numericamente,
acredita na vitória fácil, e, consequentemente, na transferência para paragens
mais civilizadas. York o previne dos riscos da campanha. Além de não ser
ouvido, é chamado de covarde por insistir na advertência. Obrigado a depor as
armas, é despachado para a retaguarda e condenado à Corte Marcial.
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Philadelphia (Shirley Temple), o Segundo Tenente Michael Shannon O'Rourke (John Agar) e o Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) |
Conforme o
esperado, o “inferior” Cochise humilha Thursday. Revela suficiente conhecimento
de estratégia e atrai o comandante a uma armadilha fatal. De longe, afastados
do front, York e o Tenente O’Rourke assistem
impotentes à derrota de seus pares mal abrigados numa reentrância do terreno. A
poeira cobre a cena do massacre. Segue-se o processo de mitificação de
Thursday.
Apesar de não gozar da simpatia de Ford, Thursday não
sofreu em sua caracterização. A direção evitou o maniqueísmo que o reduziria à
unidimensionalidade. O personagem interpretado por Henry Fonda é complexo e ambíguo,
como todos os componentes da galeria fordiana. O realizador, ao logo de quase
todo o filme, acentua os defeitos e preconceitos sociais do militar. Mas não
deixa de lhe enaltecer as qualidades nos instantes finais. Ao isolar York do
combate, ordenou também o afastamento do Tenente O’Rourke, provavelmente por
pressentir a necessidade de preservá-lo para a filha. Percebeu que o enredo
poderia se desenrolar fora do previsto. Mesmo assim, apegado à honra,
manteve-se resoluto na decisão de combater. Não violaria as próprias ordens e
convicções militares, das quais era prisioneiro integral. Seguiu em frente,
rumo à derrocada.
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O Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) e o restante de seus comandados, atraídos a uma emboscada e massacrados |
A primeira refrega sofrida pelas tropas revela o caráter
suicida da missão. York, apesar de tudo, admira ao longe a obstinada coragem do
comandante. Testemunha o instante no qual, desnorteado na confusão da batalha,
é derrubado da montaria. Parte para socorrê-lo. Thursday, sem demonstrar
fraqueza, dispensa a ajuda. Apenas ordena que York lhe entregue o cavalo e a espada.
Feito isso, deve retornar ao posto ao qual foi designado, pois o Fort Apache
poderá, em breve, necessitar de novo oficial no comando.
Ford defende o índio
e também a instituição militar. Muitos viram nessa atitude a equivocada adesão
do realizador ao militarismo cego. Enganaram-se. O diretor, mais de uma vez em sua
carreira, sempre repudiou o assentimento extremado às instituições. Isto salta
aos olhos, de imediato, em Sangue de heróis. A caserna não é um
conjunto de regras a serem obedecidas mecanicamente, mas o ambiente perfeito
para o diretor encenar o drama de homens internamente divididos. Kirby York é
exemplo disso. Como soldado deve obediência aos superiores, representantes
diretos da instituição que lhe cobra lealdade. Por outro lado, também se
orienta pelo bom senso decorrente da própria autonomia moral. Assim questiona a
vocação obstinada de Thursday ao heroísmo, tão perigosa à honra e à integridade
da cavalaria. York se debate, de um lado, com a ética do dever; de outro, com a
ética da responsabilidade individual que assume dimensões coletivas ao
manifestar preocupação com o destino dos soldados que formam a instituição, conjuntos
tão desprezados por Thursday.
Ford trabalha a
oposição York-Thursday para exaltar valores que lhe são caros. Do lado do capitão
está a fronteira, a terra ainda a povoar, se possível por homens imbuídos de
ideias novas, baseados numa moral não poluída pelos vícios da civilização
representada pelo tenente-coronel. Ao egocentrismo deste, Ford opõe o senso de
camaradagem e de respeito ao soldado e ao índio daquele. Mas o diretor sabe: o
mundo não é formado apenas por homens como York. Indivíduos como Thursday
existirão sempre. A utopia fordiana busca o meio termo na junção das oposições.
Deve-se a essa procura muito da beleza dos filmes de Ford. Na sua visão da
“terra sem males” ninguém é desprezado. Todos podem ser harmonizados e
integrados. Não para menos o filho de Michael e Philadelphia terá por nome
Michael Thursday York O’Rouke.
Outro aspecto
relevante é o papel das mulheres nos filmes de Ford, particularmente em Sangue
de heróis. Surgem como conciliadoras face ao dado impulsivo do elemento
masculino. Desejam a paz e o equilíbrio. Apesar de a guarnição ser por
excelência um universo de homens, as mulheres marcam presença em todos os
setores, sempre atentas e ativas: nas chegadas, partidas, festas e nos funerais.
Humanizam o ambiente e firmam alianças onde acampa a discórdia. Exemplo
marcante disso é a bela sequência do baile dos suboficiais. Segundo as regras
do cerimonial, o pouco à vontade Thursday deve abrir a festa e dançar com a
senhora Mary O’Rourke (Rich). O Primeiro Sargento O’Rouke deve segui-lo no
gesto. Dançará com a filha do viúvo comandante. No ápice da festa, os casais
separados se enlaçam pelos braços, como se formassem uma corrente de elos intercalados por homens e mulheres. É a perfeita ilustração de um mundo integrado à generosidade dos ideais humanistas e igualitários de Ford.
Música: Richard Hageman. Arranjos, Orquestração e direção musical: Lucie Cailliet. Roteiro: Frank S. Nugent, com base em Massacre,
novela de James Warner Belah, por sua vez inspirada em Bugles in the afternoon,
de Ernest Haycox. Direção de fotografia
(preto e branco): Archie Stout, William H. Clthier (não creditado). Direção de arte: James Basevi. Assistentes de direção: Lowell J. Farrell,
Jack Pennick (não creditado). Montagem:
Jack Murray. Coreografia: Kenny
Williams. Efeitos especiais: Dave
Koehler, Daniel Hayes (não creditado). Editoria
de pesquisa: Katherine Cliffton. Pesquisa
de Figurinos: D. R. O. Hatswell. Som: Frank Webster, Joseph I. Kane. Consultoria técnica: Katharine Spaatz, Major Philip Keiffer. Maquiagem: Emile LaVigne. Guarda-roupa masculino: Michael Meyers.
Guarda-roupa feminino: Ann Peck. Camareiro: Joseph Kish. Direção de segunda unidade: Cliff
Lyons. Contrarregra: Jack Golconda. Chefe de produção: Bernard McEveety. Dublês
(não creditados): Frank
Baker, Ben Johnson, Fred Carson, John Epper, Richard Farnsworth, Fred Graham, John
Hudkins, Walt La Rue ,
Cliff Lyons, Ted Mapes, Frank McGrath, Gil Perkins, Bob Rose, Danny Sands, Barlow
Simpson, Jack Williams, Henry Wills, Terry Wilson. Produção executiva (não creditada): Merian C. Cooper, John
Ford. Assistente de gerente de produção:
William Forsyth (não creditado). Gerente
de produção: Bernard McEveety (não creditado). Direção de segunda unidade: Cliff Lyons (não creditado). Segundo assistente de direção: Frank
Parmenter (não creditado). Capataz de
construções: Robert Clark (não creditado). Operador de câmera: Eddie Fitzgerald (não creditado). Assistente de câmera: Carl Gibson (não
creditado). Fotografia de cena: Al
St. Hilaire (não creditado). Cantor em
playback: Morton Downey (não creditado). Apresentação: Merian C. Cooper, John Ford. Marcação de cena para John Wayne: Sid Davis (não creditado). Médicos nas locações (não creditados):
James Green, Robert Nielson. Ligações
aéreas: Paul Mantz (não creditado). Assistente
da produção executiva: Jack Pennick (não creditado). Auditoria da produção: Charles Quesnel (não creditado). Continuidade: Meta Stern (não
creditado). Assistente de publicidade:
Tom Wood (não creditado). Sistema de
mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 127 minutos.
(José
Eugenio Guimarães, 1975)
[1] Antes de Sangue de heróis, Ford rodou em Monument Valley : No tempo
das diligências e Paixão dos fortes (My
darling Clementine, 1946).
[2] Domínio de bárbaros (The
fugitive, 1947), de John Ford, adaptação da novela O poder e a glória, de
Grahan Greene, é a primeira produção da Argosy.
[3] BOGDANOVICH, Peter. John Ford. Madrid:
Editorial Fundamentos, 1971. p. 87.