Naquele meu tempo de criança, tão distante, adorava as
comédias com os Três Patetas (The Three Stooges). Porém, chegam os 12 anos,
divisor de águas para a minha geração. Assim, em 1968, as tolices
protagonizadas por Moe, Larry e Curly começaram a perder a graça e a enfastiar.
Coincidentemente, nesse ano, soube que um dos maiores sucessos de público entre
os estadunidenses era a comédia Se o meu 'fusca' falasse (The
love bug), dos Estúdios Disney, dirigida por Robert Stevenson. Fiquei
louco para vê-la. O desejo só foi concretizado seis anos depois. Que decepção!
A história Car-boy-girl, de Gordon Bulford, roteirizada por Don DaGradi e
Bill Walsh, provavelmente renderia um divertido desenho animado com todos os nonsenses e passagens ridículas que a alimentam.
Infelizmente, os produtores tomaram a errônea decisão de transformá-la em
aventura de live action. Resultou num
filme ao nível da sucessão de tapas na cara, dedos nos olhos e chutes nos
traseiros que faziam a (des)graça de Os Três Patetas — com igual profusão de caretas
—, a esta altura quase esquecidos no setor mais empoeirado de minhas memórias.
É tão ruim a ponto de provocar saudades do trio destrambelhado, que ao menos
dava a impressão de ser honesto, sem maiores pretensões, no festival de
agressões que protagonizava. Como apenas um fusca não faz verão, vieram as
continuações. Os alemães, criadores do carro, não ficaram para trás e
ofereceram um Dudu em contraponto ao Herbie da Disney. Como "macaco velho
não mete a mão em cumbuca", achei mais prudente passar ao largo de tudo
isso. A apreciação a seguir, de 1976, passou por revisão e ampliação em 1987.
Se o meu 'fusca'
falasse
The love bug
Direção:
Robert
Stevenson
Produção:
Bill Walsh
Walt
Disney Productions
EUA — 1968
Elenco:
Dean
Jones, David Tomlinson, Michele Lee, Buddy Hackett, Joe Flynn, Benson Fong, Joe
E. Ross, Barry Kelley, Iris Adrian, Andy Granatelli, Ned Glass, Robert Foulk,
Gil Lamb, Nicole Jaffe, Wally Boag, Russ Caldwell, Max Balchowsky, P. L.
Renoudet, Brian Fong, Alan Fordney, Stan Duke, Gary Owens, Chick Hearn, Pedro
Gonzales-Gonzales, Edward Kelley, Dale Van Sickel, Regina Parton, Bob Drake, Hall
Brock, Ben Ramsey, Lynn Grate, Richard Warlock, Everett Creach, Bill Couch,
Robert F. Hoy, Jack Mahoney, Richard Brill, Rudy Doucette, Jim McCullough,
Glenn Wilder, Robert James, Bob Harris, Richard Geary, Mack Perkins, Ronnie
Rondell, Reg Parton, Tom Bamford, Marion J. Playan, Bill Hickman, Hal Grist,
Larry Schmitz, Danna Derfus, Gerald Jann, Ted Duncan, Gene Roscoe, Charles
Wills, Roy Butterfield, J. J. Wilson, Gene Curtis, Bud Ekins, John Timanus,
Fred Krone, Jesse Wayne, Jack Perkins, Fred Stromsoe, Kim Brewer e os não
creditados Leon Alton, Larry J. Blake, John Cliff, Harold Fong, Ben Frommer,
Allen Jung, Carey Loftin, Kathryn Minner, Bing Russell, Herb Vigran.
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O diretor Robert Stevenson |
Empolgante para o
espectador mirim, apenas palatável ao pré-adolescente, Se o meu 'fusca' falasse
é constrangedor para adultos. A história de Gordon Buford, Car-boy-girl — fonte de
inspiração para o roteiro de Don DaGradi e Bill Walsh —, da forma como foi
adaptada renderia um bom desenho animado. Mas a Walt Disney Productions
preferiu uma aventura de puro nonsense
protagonizada por atores de verdade. Resultado: é um dos piores filmes de live action da companhia. Só não é a
realização mais fraca de Robert Stevenson porque testemunhos abalizados
confirmam: As novas aventuras do fusca (Herbie rides again, 1973)
— não exatamente uma continuação de Se o meu 'fusca' falasse — é muito
pior.
O veículo tem
nome: Herbie. Recebeu-o de Tennessee Steinmetz (Hackett), escultor psicodélico,
guru e melhor amigo de Jim Douglas (Jones), piloto de automobilismo atualmente
em baixa.
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Herbie, um fusca vivamente temperamental |
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Jim Douglas (Dean Jones), piloto de automobilismo, com o amigo Tennessee Steinmetz (Buddy Hackett) |
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Jim Douglas (Dean Jones) e Carole Bonnett (Michele Lee) |
Sem patrocinador
e mais uma vez derrotado, o desanimado Jim é apresentado, praticamente a um só
tempo, à garota dos seus sonhos, Carole Bonnett (Lee), e ao veículo da
Volkswagen. Ela trabalha na loja de automóveis do esnobe e mau-caráter Peter
Thorndyke (Tomlinson). No local jaz abandonado, num canto qualquer, o
personagem do título. Não é exagero chamá-lo de personagem. É isto mesmo: um
personalíssimo, voluntarioso e emotivo "quatro rodas" que adota Jim
de imediato.
Assim que deixa a
loja, o corredor, sem perceber, é seguido pelo veículo, como o dono acompanhado
de cachorro bem mais discreto. Não há ninguém ao volante. No dia seguinte é
procurado pela polícia, sob acusação de roubo. De fato, a “prova do crime” está
estacionada em frente à casa. Explicações não adiantam. Para se livrar da
situação, é convencido por Carole a comprar a fantástica baratinha.
Herbie logo se mostra.
Rebelde, não aceita ninguém ao volante, muito menos o dono. Acha mais conveniente,
em primeiro lugar, iniciar Jim no namoro com Carole. Seguem-se momentos
embaraçosos.
Herbie também é veloz,
um desportista nato. Com ele, o piloto recupera a confiança e retorna às
pistas. Começa a colecionar vitórias. Mesmo assim, não acredita que o veículo
tenha vida própria. O único que aceita a evidência é Tennessee, o maior
incentivador do carrinho.
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Jim Douglas (Dean Jones) ao volante de Herbie |
Thorndyke também é
automobilista e maior rival de Jim. Sempre derrotado, faz tudo para ter o fusca
de volta. Por fim, resolve sabotá-lo. Aproveita a ausência do proprietário e a
distração de Tennessee para envenená-lo, via injeção de doses cavalares de
“café irlandês” na transmissão. Herbie começa bem na competição, mas logo sente
os efeitos da beberagem e amolece as rodas. Derrotado e convencido de que o
fusca deu o que podia, Jim comete a imprudência de adquirir novo carro, menos
surpreendente, supostamente mais resistente e veloz. Nessa altura, todos estão
cientes das vigarices de Thorndyke, de seus esforços para reaver Herbie e transformá-lo
em sucata. Assim ,
insatisfeita com o patrão, Carole o abandona para se unir definitivamente à
equipe e ao coração de Jim.
Carole e
Tennessee revisavam Herbie quando o corredor chegou ao volante de novo carro. É
repreendido pelos companheiros ao revelar a pretensão de revender o veículo ao
antigo proprietário. A discussão é interrompida pelo barulho do choque de
latarias. Sentindo-se rejeitada, a baratinha partiu com tudo contra a possante
aquisição de Jim, transformando-a em sucata, literalmente. Desesperado, o piloto
parte, armado de pá, para cima do temperamental veículo, mas é contido por Carole
e Tennessee. Admiravam os estragos quando chegou Thorndyke para reaver o
carrinho, que não espera para ver. Foge!
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O vilão Peter Thorndyke (David Tomlinson) |
Arrependido, Jim
põe-se a procurá-lo, por toda São Francisco. O mesmo faz a equipe do rival, que
esteve a ponto de agarrá-lo. Mas a possante baratinha escapa novamente, rumo à ponte
Golden Gate, para cometer suicídio. O personagem de Dean Jones chega a tempo de
impedir o ato extremo.
Nesta altura, a
história incorpora o Sr. Wu (Fong), espertíssimo capitalista chinês que teve parte
de uma loja destruída pelo desesperado Herbie. Fã de automobilismo e sabedor das
peripécias desse particularíssimo veículo da Volkswagen, resolve empresariar
Jim Douglas. É a última chance para piloto e fusca demonstrarem o valor que
julgam ter. Da nova competição também participará Thorndyke. Sabotado na
primeira etapa, o temperamental automóvel perde as rodas e chega em último
lugar. Furioso, investe contra o vilão e precisa ser contido. Essa demonstração
de vigor faz o Sr. Wu recuperar a confiança. Seguem-se novas sabotagens, mas o
carrinho dá o que tem para vencer. A estrutura não resiste ao esforço. Rompe-se
em duas, cada qual com vida própria. Fim da competição: Thorndyke chega em
segundo lugar, a dianteira de Herbie em primeiro e a traseira, em terceiro. Por causa
das apostas o vilão perde a concessionária para o Sr. Wu, de quem se torna
empregado. Jim e Carole, casados, partem em lua-de-mel para um destino que o
fusca escolherá.
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Final feliz para Carole Bonnett (Michele Lee), Jim Douglas (Dean Jones) e, claro, Herbie |
Se o meu 'fusca'
falasse segue a fórmula da comédia pastelão desgastada. O
resultado provocaria vergonha no show de repetições e mesmices de Abbott &
Costello e os Três Patetas. A direção equivale à batida num poste. Os atores
principais, Dean Jones e Michele Lee, são canastrões simpáticos e de poucos
recursos. Nem mesmo o bom David Tomlinson consegue se salvar, afundado na pouco
inventiva profusão de caretas. Os recursos histriônicos de Buddy Hackett são
consumidos logo nos primeiros minutos. Além disso, há momentos dolorosos,
garantidos pela mais autêntica, ruim e previsível "filosofia de
borracharia" a respeito da relação entre o homem e seu carro.
Apesar dos
senões, muita gente gostou de Se o meu 'fusca' falasse. É uma das
maiores bilheterias da Walt Disney Productions. Rendeu tanto a ponto de o
emotivo veículo reluzir a lataria em outras aventuras além da referenciada As
novas aventuras do fusca: O fusca enamorado (Herbie
goes to Monte Carlo, 1977), de Vincent McEveety; e Novas diabruras do fusca
(Herbie
goes bananas, 1980)[1],
também de McEveety. O astro apresenta diferentes donos nessas seqüências.
Combate a especulação imobiliária em As novas aventuras do fusca. Disputa
corridas no circuito europeu, soluciona mistério em torno do roubo de um
diamante e se apaixona (isso mesmo!) por um Lancia esportivo em O
fusca enamorado. Por fim, faz tour
pela América Latina, a caminho de disputar o “Grande Prêmio Brasil”, no Rio de
Janeiro, quando se envolve com ladrões que o levam ao México e à América
Central em Novas diabruras do fusca[2].
Nesse, a ignorância em geografia dos realizadores localizou a sede do Império
Inca não no Peru, mas em algum lugar entre o Panamá e o México. Onde, então,
viviam os Maias?
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Jim Douglas (Dean Jones), piloto vitorioso com Herbie |
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Jim Douglas (Jones), Carole Bonnett (Lee) e Tennessee Steinmetz (Hackett) às voltas com Herbie |
Mas ruindade pouca é bobagem. Os alemães,
inventores do fusca, enciumados com o sucesso do seu mais bem sucedido produto
de exportação nos Estados Unidos, produziram também réplicas cinematográficas
de Herbie, com o nome de Dudu. Algumas foram exibidas no Brasil: Ein
Käfer geht aufs Ganze (1971), Um fusca a todo vapor (Ein
Käfer gibt Vollgas, 1972), Ein Käfer auf Extratour (1973), O
fusca envenenado (Das verrückteste Auto der Welt, 1975)
e Zwei
tolle Käfer räumen auf (1979), todas dirigidas por Rudolf Zehetgruber[3].
Direção de fotografia (Technicolor): Edward Colman. Roteiro: Don DaGradi, Bill Walsh, com base na história Car-boy-girl
de Gordon Buford. Desenho de produção:
John B. Mansbridge. Figurinos: Bill Thomas. Montagem: Cotton Warburton. Decoração: Emile Kuri, Hal Gausman. Direção
de arte: Carroll Clark, John B.
Mansbridge. Assistente de direção:
Christopher Hibler. Maquiagem: Otis
Malcolm. Penteados: La Rue Matherson. Gerente de unidade: Pal L. Cameron. Supervisão de som: Robert O. Cook, Mixagem de som: Dean Thomas. Confecção de costumes: Chuck Keehne,
Emily Sundby. Edição musical: Evelyn
Kennedy. Efeitos fotográficos especiais:
Eustace Lycett, Alan Maley, Peter Ellenshaw. Efeitos especiais: Robert A. Mattey, Howard Jensen, Dan Lee. Música: George Bruns. Orquestração: Walter Sheets. Direção de segunda unidade: Arthur J.
Vitarelli. Supervisão das seqüências de
corrida: Carey Loftin. Segundo
assistente de direção: Robert Webb (não creditado). Edição de som (não creditada): Ben Hendricks, Bill Wylie. Coordenação de dublês (não creditada):
Bob Harris, Carey Loftin. Dublês (não
creditados): Max Balchowsky, Steven Burnett, Bud Ekins, Bill Hickman, Carey
Loftin, Tom Steele, Dale Van Sickel, Dick Warlock, Jesse Wayne. Assistente de câmera: Stan Reed (não
creditado). Músico: Ethmer Roten
(não creditado). Estúdio de mixagem de
som: RCA Sound Recording. Tempo de
exibição: 108 minutos.
(José Eugenio Guimarães,1976; revisão e ampliação em
1987)
[1] Segundo o IMDb
(Internet Movie Database) é
atualmente chamado de A última cruzada do fusca (nota de
atualização para publicação neste blog).
[2] Em 1997 apareceu o telefime Se o meu fusca falasse (The
love bug), de Peyton Reed. De 2005 é Herbie, meu fusca turbinado
(Herbie
fully loaded), de Angela Robinson (nota de atualização para publicação
neste blog).
[3] No filme de 1971, Ein Käfer geht aufs Ganze,
Rudolf Zehetgruber lançou mão do pseudônimo David Mark (nota de atualização
para publicação neste blog).