Com Ave do paraíso (Bird of paradise, 1932) o
notório produtor David O. Selznick pretendeu aproveitar o poder de atração de filmes
como O
homem perfeito (Moana, 1926), de Robert e Frances Flaherty,
e Deus
branco (White shadows of the South Seas, 1928), de W. S. Van Dyke.
Também se notam influências de Tabu (Tabu: a story of the South Seas),
última e demorada realização de Friedrich Wilhelm Murnau, iniciada em 1929 e
concluída após dois anos. Ave do paraíso é o início das
relações nada pacíficas entre Selznick— produtor executivo — e o diretor
escolhido para dar forma ao projeto: King Vidor, um dos mais importantes do
cinema estadunidense. Com temática e situações consideradas moralmente ousadas
para a época, a realização se beneficiou de um contexto de liberdade criativa.
Dentro em pouco entraria em vigor a rigorosa censura firmada pelo Código Hays ou Motion Picture Production Code. Cenas como as do corpo nu de
Dolores del Rio em evolução sob as águas e relações amorosas entre brancos e
personagens de cor seriam sumariamente proscritas da corrente majoritária do
cinema estadunidense até meados dos anos 60. A exposição generosa das formas naturais da
atriz levou Orson Welles a tratá-la como "O maior ideal erótico para
qualquer homem de sangue vermelho”. Por outro lado, tornou-se um dos motivos
para o surgimento da aguerrida Legião Católica da Decência, em 1933. Apesar de
provocar tanto frisson para a época,
é uma produção repleta de desacertos — a maioria decorrente das caprichosas
imposições de David O. Selznick — que fracassou nas bilheterias. Ave
do paraíso é o primeiro filme sonoro acompanhado por trilha musical
completa, também pioneira no lançamento em disco. Assinala a estreia
do ator Lon Chaney Jr., creditado como Creighton Chaney — nome verdadeiro.
Busby Berkeley coreografou as danças tribais. Segue apreciação firmada em 1996.
Ave do paraíso
Bird of paradise
Direção:
King Vidor
Produção:
King Vidor
Radio Pictures
EUA — 1932
Elenco:
Joel McCrea, Dolores del Rio, John
Halliday, Richard “Skeets” Gallagher, Bert Roach, Creighton “Lon Chaney Jr.” Chaney,
Wade Boteler, Arnold Gray, Reginald Simpson, Napoleón Pukui, Agostino Borgato,
Sofia Ortega.
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O diretor de fotografia Edward Cronjager e o realizador King Vidor nas filmagens de Ave do Paraíso |
Ave do paraíso ― exibido na
televisão brasileira como O pássaro do paraíso ― tem produção
executiva de David O. Selznick e é parte do breve período em que esteve à
frente da Radio Pictures ― RKO ainda não era parte do nome da empresa. Provavelmente,
é o início da conhecida e tempestuosa relação que teria com King Vidor.
Vidor está entre
os realizadores arregimentados por Selznick para O mágico de Oz (The
wizard of Oz, 1939). Os demais são George Cukor, Mervyn Le Roy, Norman
Taurog e Victor Fleming ― o único creditado. Após cinco anos, terá a autoridade
questionada inúmeras vezes durante a realização do rocambolesco western Duelo
ao sol (Duel in the sun). Selznick sempre se impunha como único autor
dos filmes produzidos. Os diretores apenas davam forma aos seus desígnios. Provavelmente,
Alfred Hitchcock foi o único a contornar tais dificuldades com alguma desenvoltura.
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Imagem publicitária: Dolores del Rio como Luana e Joel McCrea no papel de Johnny Baker |
Vidor cumprira
exitosa carreira durante o período silencioso, quando dirigiu alguns dos maiores
clássicos do cinema estadunidense: O grande desfile (The
big parade, 1925) e A turba (The crowd, 1928). Em
1929, com o desmistificador Aleluia (Hallelujah), transitou
magnificamente para o sonoro. Nesse ano atendeu ao chamado de Selznick para
dirigir Ave do paraíso. Inúmeros problemas decorrentes das desmedidas
ambições do produtor adiaram a conclusão do projeto para 1932.
Provavelmente, Selznick
tinha em mente recentes filmes passados nas ainda relativamente virgens ilhas
do Pacífico ― principalmente O homem perfeito (Moana,
1926), dirigido por Robert J. Flaherty em parceria com a esposa Frances H.
Flaherty, e Deus branco (White shadows of the South Seas, 1928),
iniciado por Robert J. Flaherty e finalizado por W. S. Van Dyke — quando idealizou
Ave
do paraíso. No mesmo 1929, Friedrich Wilhelm Murnau iniciou Tabu
(Tabu:
a story of the South Seas)[1]
― terminado em 1931. É a história de amor proibido entre nativos de Bora Bora. Enquanto
esses títulos manifestavam alguma preocupação etnográfica, Selznick mirava
apenas o caráter exótico oferecido pelas temáticas às platéias ocidentais.
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Acima e abaixo: Luana (Dolores del Rio) |
Desenrolado nas
ilhas havaianas, Ave do paraíso é um conto de amor impossível com final trágico.
Acompanhado de amigos, o estadunidense Johnny Baker (McCrea) se aventura pela
região e se apaixona pela nativa Luana (del Rio), filha do chefe (Pukui) de
tribo local. Resolve permanecer na região após a partida do grupo e entra em
choque com os costumes locais. Os anciãos tentam impedir o idílio, pois a jovem
está prometida a um príncipe. O rompimento da tradição acarretará nos horrores
de uma maldição, segundo a crença.
Apesar das
admoestações, Johnny sequestra Luana no momento em que era conduzida ao
matrimônio. Refugiam-se em ilha deserta, trocam juras de amor e planejam o
futuro. Encantado com a situação, pretende levá-la para o meio urbano repleto
de “comodidades e maravilhas”. Ao fim, suspira: “O que é a civilização perto de
você?”
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Luana (Dolores del Rio) |
Os instantes de
felicidade são fugazes. Luana é apanhada. Acusada de profanação, será sacrificada
ao irado deus Pele ―um vulcão ativo. O salvamento de Johnny fracassa.
Aprisionado, é condenado a igual fim. Quando tudo parecia perdido, salvadores
brancos entram em cena e dispersam os nativos com armas de fogo. Os amantes são
conduzidos ao navio. Recuperado dos ferimentos, Johnny se vê diante do pai de Luana
e inúmeros guerreiros dispostos a tudo. A devolução da jovem é reclamada. Temerosa
com a possibilidade de um sangrento desfecho, resolve retornar aos seus. O
personagem vivido por Joel McCrea é deixado aos delírios provocados por uma
paixão não consumada.
Próximo do fim há
o impactante plano de Luana com o olhar fixado na montanha que serve de moradia
ao furioso e implacável Pele. Ave do paraíso termina com a observação
premonitória ― ainda mais nos atuais tempos de globalização acelerada ― de um
companheiro de Johnny: “Leste é leste, oeste é oeste; nunca se encontrarão!”.
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Acima e abaixo: Luana (Dolores del Rio) e Johnny Baker (Joel McCrea) |
Ave do paraíso significou
tremendo mau passo nas carreiras de King Vidor e David O. Selznick. A pretendida
superprodução resultou em estupendo naufrágio orçado em um milhão de dólares. Tudo
deu errado, da pré à pós-produção. As filmagens em locações desandaram por quase
um mês, prejudicadas pela instabilidade do tempo e falta de roteiro. Enquanto
este era elaborado, filmava-se ao sabor das circunstâncias e improvisações de
Selznick.
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Luana (Dolores del Rio) e Johnny Baker (Joel McCrea) |
A equipe retornou
a Hollywood sem noção alguma da forma e andamento a atribuir à realização. A
boa mão de Vidor fez o que pode. Preencheu as sequências com uma atmosfera
sensual, para a qual muito contribuiu a fotografia de tons expressionistas de
Clyde de Vinna, Edward Cronjager e Lucien N. Andriot. O espectador de agora, com
os olhos voltados à época da realização, pode imaginar a sensação provocada nas
puritanas platéias estadunidenses diante do corpo generosamente despido de
Dolores del Rio a evoluir sob as águas. Porém, o que sobra em exotismo falta em
força dramática.
O que se vê,
descontado o previsível envelhecimento estético do filme, é de matar. O papel
da princesa nativa não é adequado à atriz mexicana. Entre tantas esquisitices
há uma sequência simplesmente ridícula: os prisioneiros Luana e Johnny unidos
na oração do Pai Nosso ― como ela aprendeu rápido! ― antes do frustrado
sacrifício. Isso sem falar no redemoinho marinho que por pouco não engoliu o
herói.
Pelo menos o
final não deixa tanto a desejar. Para o bem de todos e da verossimilhança,
Luana ― pressionada pelos costumes e tradições de sua gente; também por vocação
altruísta ― se entrega ao sacrifício. Essa decisão faz mais sentido que as
concessões aos encantos abstratos do amor e de uma etérea imagem de civilização.
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Luana (Dolores del Rio) |
Em tempos de “correção
política” uma cena mexe com a sensibilidade das plateias: como não lamentar o
destino da pobre tartaruga arrastada por Johnny do mar para a praia? Ao
perceber que o lugar não oferecia segurança, simplesmente abandonou o pobre
quelônio de pernas para o ar, pronto a morrer esturricado pelo sol.
Roteiro: Wells Root, Wanda Tuchock, Leonard Praskins, com
base em peça de Richard Walton Tully. Música:
Max Steiner. Direção de arte:
Carroll Clark. Gravação de som: Clem
Portman. Montagem: Archie F. Marshek.
Efeitos fotográficos: Lloyd Knechtel.
Direção de fotografia (preto e branco):
Clyde de Vinna, Edward Cronjager, Lucien N. Andriot. Coreografia: Busby Berkeley
(não creditado). Produção executiva:
David O. Selznick. Direção de elenco:
Lynn Shores (não creditado). Assistente
de direção: H. Bruce Humberstone (não creditado). Efeitos especiais (não creditados): Harry Redmond Jr., Harry
Redmond Sr. Fotografia de cena:
Robert Coburn (não creditado). Operador
de câmera: Eddie Pyle (não creditado). Assistente
de direção de elenco: Harvey Clermont (não creditado). Orquestração (não creditada): R.H. Bassett, Bernhard Kaun. Direção musical: Max Steiner (não
creditado). Sistema de mixagem de som:
RCA Photophone System. Tempo de
exibição: 80 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1996)