É muita ação, quase ininterrupta. O diretor Enzo G.
Castellari está entre os muitos realizadores revelados pelo cinema popular
italiano ao longo dos anos 60. Começou nos westerns europeus e logo
diversificou as preferências por aventuras de guerra, thrillers, comédias eróticas e dramas policiais. É uma das
referências básicas do reciclador Quentin Tarantino, para o qual atuou em Bastardos
inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Seu verdadeiro nome é Enzo
Girolami. Usou a alcunha E. G. Rowland ao dirigir, ainda no início da carreira,
Texas
1867 (7 winchester per un massacro, 1967). Infelizmente,
ainda desconheço um dos seus trabalhos mais festejados: o spaghetti western Keoma
(Keoma),
de 1976. Mate todos eles e volte só (Ammazzali tutti e torna
solo/Mátalos y vuelve, 1968), coprodução entre Itália e Espanha, é
aventura espalhafatosa desenrolada nos bastidores da Guerra de Secessão. As
tropas confederadas estão à míngua. Por insistência do Capitão Lynch (Frank
Wolf) o agente especial Clyde McKay (Chuck Connors) é contratado para uma
missão praticamente impossível: apoderar-se de considerável quantidade em ouro
das forças da União. Será apoiado por cinco especialistas cheios de disposição.
Porém, nem tudo será tão simples. Para espectadores pouco exigentes, a
realização é um prato cheio. Enzo G. Castellari domina o artesanato e tem
perfeito controle dos elementos cênicos. Há boa utilização das locações no
Desierto de Tabernas em Almeria, Espanha. Para registrar os mais intensos
momentos da ação por ângulos os mais diversos, o trabalho de câmera não
decepciona. Porém, convenhamos! Segue apreciação escrita em 1976.
Mate todos eles e
volte só
Ammazzali tutti e torna solo/Mátalos y vuelve
Direção:
Enzo G. Castellari
Produção:
Edmondo Amati
Fida Cinematografica (Roma),
Centauro Films (Madri)
Espanha, Itália — 1968
Elenco:
Chuck Connors, Frank Wolff, Franco
Citti, Giovanni “Ken Wood” Cianfriglia, Leo Anchóriz, Alberto Dell'Acqua,
Hércules Cortés, Antonio Molino Rojo, Furio “Men Fury” Meniconi, Alfonso Rojas,
Ugo Adinolfi, John Bartha e os não creditados Nestore Cavaricci, Sergio Citti,
Vincenzo Maggio, Osiride Pevarello, Pietro Torrisi.
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O diretor Enzo G. Castellari |
Aos apreciadores
de filmes repletos de ação física quase ininterrupta, que não se valem de
maiores e melhores considerações, Mate todos eles e volte só é
excelente pedida. O que sobra de tiros, socos, pauladas, emboscadas, acrobacias
e explosões não está no gibi. Mal há tempo para o espectador pouco exigente
perceber o quanto é ruim, apesar do bom domínio dos elementos cênicos pelo
diretor Enzo G. Castellari. É, acredito, a única experiência do ator estadunidense
Chuck Connors no western europeu.
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Chuck Connors vive Clyde McKay |
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Frank Wolf no papel do Capitão Lynch |
Pouco expressivo,
Connors acumula longa trajetória no cinema estadunidense desde a estreia como
oficial da polícia no divertido A mulher absoluta (Pat and
Mike, 1952), de George Cukor. Marcou presença em outras realizações
para a tela grande durante os anos 50, quando a TV praticamente o absorveu em
diversas telesséries. Teve papéis secundários e participações especiais em Gunsmoke,
Climax!, Caravana (Wagon train), Hey,
Jeannie!... Ganhou notoriedade ao protagonizar, de 1958 a 1963, os 168
episódios das cinco temporadas de O homem do rifle (The
rifleman), criação de Arnold Laven com produção da Levy-Gardner-Laven
para a Four Star Productions.
Para o cinema, as
realizações mais destacadas que contaram com Connors, geralmente como
coadjuvante, foram até o momento: O ocaso de uma alma (Good
morning, Miss Dove, 1955), de Henry Koster; Ódio e ternura
(Three stripes in the Sun, 1955), de Richard Murphy; Teu
nome é mulher (Designing woman, 1957), de Vincente
Minnelli; O meu melhor companheiro (Old yeller,
1957), de Robert Stevenson; Da terra nascem os homens (The
big country, 1958), de William Wyler; Eu, ela e a outra (Move
over, Darling, 1963), de Michael Gordon; e No mundo de 2020
(Soylent Green, 1973), de Richard Fleischer.
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A ação se desenrola na retaguarda da Guerra Civil Americana |
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Clyde McKay (Chuck Connors) |
Mate todos eles e
volte só é o sexto filme do diretor Enzo G. Castellari, conhecido
como ator pelo nome real de Enzo Girolami. Estreou na realização em 1966, sem
levar crédito: Poucos
dólares para Django (Pochi dollari per Django), de
León Klimovsky. Sob a alcunha de E. G. Rowland fez Texas 1867 (7
winchester per un massacro, 1967). Logo vieram Vou, mato e volto
(Vado... l’ammazzo e torno, 1967), Deus criou o homem e o
homem criou o colt (Quell sporca storia nel West, 1968) e
Vou, vejo e disparo (I ter che sconvolsero Il West (Vado,
vedo e sparo), 1968). Após Mate todos eles e volte só,
Castellari diversificou os interesses por outros gêneros populares: aventuras
de guerra, thrillers, comédias
eróticas e dramas policiais. Aguarda-se para breve, nos cinemas brasileiros, a
estreia de Keoma (1976), apontado pela impressa estrangeira como
promissor retorno ao western made in Europa.
Mate todos eles e
volte só tem desenvolvimento trivial. Chuck Connors faz Clyde
McKay, espécie de agente secreto contratado pelas falidas forças confederadas.
Lidera um grupo de cinco especialistas dispostos a tudo: Hoagy (o pasoliniano
Franco Citti), certeiro laçador e atirador de pesos; Deker (Anchóriz),
tarimbado no uso de explosivos; o mestiço Blade (Cianfriglia), perito no
manuseio de facas; o musculoso Bogart (Cortés); e o acrobata e pistoleiro Kid
(Dell'Acqua). A história começa com a equipe oferecendo surpreendente
demonstração de competência ao capturar o quartel comandado pelo General Hood
(ator não creditado e não identificado). Foi contratada pelo Capitão Lynch
(Wolf), planejador de arriscada missão a ser executada na retaguarda das linhas
inimigas: dominar um comando nortista e se apossar da fortuna em ouro escondida
em embalagens de dinamite. Entre marchas e contramarchas a empreitada é
executada com sucesso. No entanto, McKay terá problemas mais complicados. Um é
comunicado pelo título: eliminar os auxiliares e retornar sozinho com o ouro. O
outro exige escapar de uma prisão controlada pelas forças do Norte e, com isso,
também se livrar da traição preparada por Lynch.
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O musculoso Bogart (Hércules Cortés) |
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Clyde McKay (Chuck Connors) na prisão das forças da União |
Mate todos eles e
volte só é produção rápida de baixíssimo orçamento. Os personagens
chapados reúnem um conjunto de surrados e estúpidos estereótipos. O roteiro
extraído de história de Tito Carpi e Enzo G. Castellari nada aprofunda ou
humaniza. Apenas apresenta robôs programados a executar um trabalho. As
filmagens tiveram lugar na Espanha, nas locações do Desierto de Tabernas, em
Almeria, Andaluzia. Entre as poucas qualidades estão o bom uso das locações e o
ritmo acelerado e ríspido da narrativa — o que exigiu atenta operação de
câmeras e tomadas de diversos ângulos. Como não poderia deixar de ser em se
tratando de westerns europeus, a trilha musical de Francesco De Masi garante
parte do interesse.
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Chuck Connors como Clyde McKay |
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O campo de trabalhos forçados da prisão nortista |
No balanço final
sobra pouquíssimo de quase nada.
Roteiro: Tito Carpi, Enzo G. Castellari, Joaquín Romero
Hernández, Francesco Scardamaglia, a partir de história de Tito Carpi e Enzo G.
Castellari. Direção de fotografia (Technicolor,
Techniscope): Alejandro Ulloa. Música:
Francesco De Masi. Montagem: Tatiana
Casini Morigi. Produção de linha:
Maurizio Amati. Continuidade: Maria
Luisa Merci. Figurinos: Enzo
Bulgarelli. Assistente de maquiagem:
Cesare Paciotti. Penteados: Ada
Palombi. Chefe do departamento de
maquiagem: Euclide Santoli. Supervisão
de produção: Ricardo Bonilla (Espanha), Vittorio Noia. Gerente de produção: Mario Mariani. Assistente de gerente de produção: Roberto Onorati. Assistentes de direção: Mariano Canales
(Espanha), Carlo Moscovini. Assistente
de decoração: Lorenzo Baraldi. Decoração:
Enzo Bulgarelli (Itália), Jaime Pérez Cubero (Espanha). Operador de boom: Giovanni Fratarcangeli. Mixagem de som: Mario Morigi. Engenharia
de som: Pietro Vesperini. Efeitos
especiais: Eugenio Ascani, Pablo Pérez. Efeitos visuais: Emilio Ruiz del Rio. Dublê: Miguel Pedregosa. Fotografia
de cena: Antonio Benetti. Operador
de câmera: Giovanni Bergamini. Assistente
de câmera: Salvatore Caruso. Assistente
de figurinos: Stefano Bulgarelli. Interpretação
da canção-tema: Raul Lovecchio. Diálogos
em inglês: Leonardo Scavino. Instrutor
de acrobacias: Giorgio Ubaldi. Tempo
de exibição: 100 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1976)