De 1963 é a aventura de procedência mitológica Jasão
e o velo de ouro (Jason and the Argonauts), creditada
ao diretor Don Chaffey. Por trás da realização está o poema épico A
argonáutica, escrito na Grécia antiga por Apolônio de Rodes. Os versos
cantam a jornada repleta de perigos enfrentada pelo mítico Jasão, herói da Tessália,
rumo à Cólquida, onde deverá obter do rei Aeetes a posse de uma mágica pele dourada
de carneiro — o velo ou velocino de ouro. A peça possibilitará ao personagem
restaurar a ordem na terra natal, submetida ao controle de vil governo
tirânico. Para a campanha é construída em Argos a nau Argo, tripulada por Jasão
e os mais valorosos guerreiros de seu tempo: os Argonautas. Na direção, Don
Chaffey apenas prepara as tomadas para as inserções das trucagens e efeitos
especiais concebidos pelo mago Ray Harryhausen. Ainda não existiam as
facilidades permitidas pela computação gráfica. As maravilhas que dão vida e
encanto a uma porção de perigosas e letais criaturas míticas — que tentam
bloquear a busca de Jasão e dos Argonautas — decorrem de miniaturas
movimentadas quadro a quadro e inseridas nas tomadas mediante trucagens que
lançam mão de lentes, espelhos e jogos de iluminação. O mais fino e arrojado
artesanato ainda garante nos dias de hoje — cinematograficamente banalizados
pela utilização à larga de efeitos especiais informatizados — toda uma
atmosfera carregada pela melhor e mais criativa das fantasias a Jasão
e o velo de ouro. Segue apreciação escrita em 1993.
Jasão e o velo de
ouro
Jason and
the Argonauts
Direção:
Donald
"Don" Chaffey
Produção:
Charles H.
Schneer
EUA, Inglaterra
— 1963
Elenco:
Todd
Armstrong, Nancy Kovack, Gary Raymond, Laurence Naismith, Niall McGinnis,
Michael Gwynn, Douglas Wilmer, Jack Gwillim, Honor Blackman, John Cairney,
Patrick Trougton, Andrew Faulds, Nigel Green e os não creditados Harold
Bradley, John Crawford, Aldo Cristiani, Ferdinando Poggi, Doug Robinson, Davina
Taylor.
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O diretor Don Chaffey - à esquerda - e o mestre dos efeitos especiais Ray Harryhausen |
Três milhões de
dólares — quantia considerável para a época — foram investidos na
reconstituição da saga de Jasão, herói dos mais populares da mitologia grega
graças ao poema épico A argonáutica, de Apollonius Rhodius
(295-230 a.C.). Em trama comandada pelo capricho dos deuses do Olimpo, o
personagem — interpretado por Todd Armstrong — parte da Tessália natal rumo a
Cólquida a bordo do navio Argos. Acompanham-no os mais valorosos guerreiros que
pode arrebanhar. A missão tem o propósito de encontrar o velo (ou velocino) de
ouro, pele de carneiro dourada dotada de poderes mágicos. Com ela Jasão
pretende derrotar o regime tirânico instalado em seu país e devolver a
liberdade ao povo vilmente subjugado. A jornada é repleta de perigos. Criaturas
fantásticas tentam barrá-la a todo momento. Jasão e os argonautas enfrentam o
deus de bronze Talos, a harpia, as sete cabeças da hidra — guardiã do velocino
— e, por fim, um exército de esqueletos.
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Poseidon abre passagem para o Argo |
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Argos (Laurence Naismith), Medeia (Nancy Kovack), Jasão (Todd Armstrong), Phalerus (Andrew Faulds) e Castor (Ferdinando Poggi) |
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Jack Gwillim como o rei Aeetes, da Cólquida |
Qual a importância
de um filme como esse? Nenhuma, responderiam os mais apressados — que se
absteriam inclusive de vê-lo. Acrescentariam que o simples conhecimento do
argumento bastaria para justificar julgamento tão definitivo. Outra questão —
ainda que indireta — compromete Jasão e o velo de ouro: de certo
modo — tal qual O gigante de Maratona (La battaglia di Maratona, 1956), de
Jacques Tourneur e do não creditado Mario Bava; Hércules (Le
fatiche di Ercole, 1958), de Pietro Francisci; Os últimos dias de Pompeia
(Gli
ultimi giorni di Pompei, 1959), de Mario Bonnard; A guerra de Troia (La
guerra di Troia, 1961), de Giorgio Ferroni; O colosso de Rodes (Il
colosso di Rodi, 1961), de Sergio Leone; Rômulo e Remo (Romolo
e Remo, 1961), de Sergio Corbucci etc. — é culpado pela invasão dos heróis
parrudos de triste memória — Hércules, Maciste, Ursus, Sansão, Golias e outros
— que tomaram de assalto as telas dos cinemas ao longo dos anos 60. Esses
personagens, recriados e tratados de qualquer maneira, protagonizaram uma infinidade
de aventuras risíveis — geralmente de procedência italiana — e promoveram
verdadeira lambança com temas de procedência mitológica.
Quanto à
inventividade... Sim, Jasão e o velo de ouro tem essa
qualidade, não por mérito exclusivo do diretor Don Chaffey — ex-cenógrafo, responsável
por realizações rotineiras para a Walt Disney Productions: Meu leal companheiro (Greyfriar's
Bobby: the true story of a dog, 1961), O príncipe e o mendigo (The
prince and the pauper, 1962), O cavalo sem cabeça (The
horse without a head: the 100,000,000 Franc train robbery, 1963), Um
grande amor nunca morre (The three lives of Tomasina, 1964)
etc. Em Jasão e o velo de ouro Chaffey apenas prepara as tomadas para a
intervenção do mago dos efeitos especiais Ray Harryhausen. Este é o verdadeiro
criador do filme, o único responsável pelo irresistível encanto que ainda possui.
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Jasão (Todd Armstrong) e Medeia (Nancy Kovack) |
Hoje, frente às
facilidades decorrentes da crescente informatização dos efeitos especiais, Ray
Harryhausen deve, mais que nunca, ser lembrado e resgatado. Sua época não
conheceu computação gráfica, a realidade virtual e organizações como Industrial
Light and Magic que praticamente riscaram o impossível do mundo do cinema. Harryhausen
é criador de um tempo que exigia, literalmente, mãos à massa. Concebeu efeitos
especiais e visuais mirabolantes e fantásticos, modelos de tamanho real ou em
miniatura, além de artefatos mecânicos diversos, quase todos direta ou
indiretamente articulados pelas mãos. Aperfeiçoou a animação em stop motion, jogos de luzes, emprego de
maquetes e espelhos. É o gênio absoluto de um setor; continuador de uma
tradição honrada por Willis O'Brien — responsável pelo realismo fantástico do
primeiro King Kong (King Kong, 1933), de Merian C.
Cooper e Ernest B. Schoedsack, justamente o filme que mais o influenciou. Harryhausen
estava com 13 anos quando o viu pela primeira vez. Segundo conta, retornou
"mais de cem vezes"[1]
aos cinemas para apreciar as proezas e os efeitos que deram vida ao maior e
mais admirado símio das telas — na verdade um boneco articulado de aproximadas 16
polegadas de altura, com movimentos fotografados quadro a quadro e combinados à
ação do filme por trucagens simples, possibilitadas por lentes e espelhos.
King Kong determinou a
carreira que Harryhausen abraçaria. Coincidentemente, ocupará em seu primeiro
trabalho para o cinema o posto de assistente do mestre Willis O'Brien na concepção
do fantástico Monstro de um mundo perdido (Might Joe Young, 1949),
de Ernest B. Schoedsack, a respeito de um macaco gigantesco como no filme de
1933. Daí em diante se afirmará na concepção de maravilhas do extraordinário.
Dará preferência aos temas mitológicos e inundará as telas de figuras bizarras
e monstruosas livremente encontradas na zona do imaginário. Encantou uma porção
de filmes, a maioria de gosto duvidoso — infelizmente. Mas é por causa de seu
nome que sentimos atração por coisas como O monstro do mar revolto (It
came from beneath the sea, 1952), de Robert Gordon; A
20
milhões de léguas da Terra (20 million miles to Earth, 1957), de
Nathan Juran; Simbad e a princesa (The 7th voyage of Sinbad, 1958), de
Nathan Juran; As viagens de Gulliver (The 3 worlds of Gulliver, 1960), de
Jack Sher; Os primeiros homens na Lua (First men in the moon,
1962), de Nathan Juran; Mil séculos antes de Cristo (One
million years b. C., 1966), de Don Chaffey; O vale de Gwangi (The
valley of Gwangi, 1969), de James O'Connolly; Criaturas que o mundo esqueceu
(Creatures
the world forgot, 1971), de Don Chaffey; A nova viagem de Sinbad (The
golden voyage of Sinbad, 1974), de Gordon Hessler; Simbad e o olho do tigre
(Sinbad
and the eye of the tiger, 1977), de Sam Wanamaker; e Fúria
de titãs (Clash of the titans, 1981), de Desmond Davis.
Jasão e o velo de
ouro é antes de tudo uma obra mestra dos efeitos especiais. São 90 ao
todo, concebidos quadro a quadro em um processo aperfeiçoado do stop motion por Harryhausen, inicialmente
batizado de Dynamation, a seguir de Dynarama. O resultado é surpreendente, não
apenas para a época. Impressiona ainda hoje, 30 anos após a realização. Os
esqueletos que brotam da terra nos momentos finais, armados de escudos e espadas
para medir força contra Jasão e dois argonautas, são assustadoramente críveis
pela maleabilidade.
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Medeia (Nancy Kovack) sob o velo de ouro, Jasão (Todd Armstrong) e Argos (Laurence Naismith) |
Ray Harryhausen,
o produtor Charles H. Schneer e o músico Bernard Herrmann firmaram parceria em
vários filmes desde que iniciaram a colaboração em 1958 com Simbad
e a princesa. O roteirista Beverley Cross — marido da atriz Maggie
Smith e especialista em história e mitologia — teve participação não creditada
em Lawrence
da Arábia (Lawrence of Arabia, 1964), como assessor do diretor David Lean
e do roteirista Robert Bolt.
Roteiro: Jan Reed, Beverley Cross, baseados no poema A
Argonáutica, de Apollonius Rhodius. Produção associada e efeitos visuais: Ray Harryhausen. Direção de fotografia (Eastmancolor):
Wilkie Cooper. Desenho de produção:
Geoffrey Drake. Produtor executivo:
John Dark. Montagem: Maurice Rootes.
Títulos: James Wines. Assistente de direção: Dennis Bertera. Edição de som: Alfred Cox. Gravação: Cyril Collick, Red Law. Continuidade: Phyllis Crocker. Direção de arte: Herbert Smith, Jack
Maxsted, Tony Sarzi Braga. Câmera:
Henry Gillam. Música: Bernard
Herrmann. Direção musical: Bernard
Herrmann na regência da Royal Phillarmonic Orchestra. Gerentes de unidade: Jimmy Komisarjevsky, Paul Maslansky, Leonardo
"Leon Lenoir" Scavino. Modelagem:
Arthur Hayward (não creditado). Coreografia
das lutas: Ralph Faulkner (não creditado). Dublê: Eddie Powell (não creditado). Assistente de montagem: María Luisa Pino (não creditada). Orquestração (não creditada): Bernard
Herrmann. Esgrimista: Ferdinando
Poggi (não creditado). Mixagem de som:
Westrex Recording System. Tempo de
exibição: 104 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1993)
[1] FERREIRA, Fernando. Perseu e
Andrômeda, com efeitos especiais. O Globo. Rio de Janeiro,
2/jul./1981. Segundo Caderno.