Jornalista, romancista, roteirista, combatente, cineasta e
iconoclasta, Samuel Fuller nunca foi um privilegiado. Sempre à margem dos
grandes esquemas de produção, manipulava orçamentos irrisórios que lhe permitiam
arranhar o patamar do padrão "B". Em compensação, gozava de mais liberdade
para se mover em terrenos problemáticos ao cinema dos Estados Unidos. Tinha Hollywood como centro de infantilização. Inovador, admirado por
críticos franceses e vanguardas surgidas com a Nouvelle Vague, dirigiu 22
títulos, considerando-se apenas os destinados ao cinema. Casa de bambu (House
of bamboo, 1955) não está entre suas realizações mais notáveis,
provavelmente por causa da intromissão dos produtores no resultado final. Mas é
um policial de ação rápida, precisa e consistente. Possibilita o conhecimento
de uma narrativa econômica e dinâmica. A história é ambientada no Japão do
pós guerra, ainda sob ocupação estadunidense. Um dos seus principais intérpretes é
o pouco valorizado e verdadeiro Robert Ryan, ator da predileção do cineasta, ainda
que tenham trabalhado juntos apenas desta vez. A apreciação de 1983 foi revista e atualizada em 1991.
Casa de bambu
House
of bamboo
Direção:
Samuel Fuller
Produção:
Buddy Adler
20th
Century-Fox
EUA — 1955
Elenco:
Robert
Ryan, Robert Stack, Cameron Mitchell, Shirley Yamaguchi, Brad Dexter, Biff
Elliott, Sessue Hayakawa, Sandro Giglio, Elko Hanabusa e os não creditados
Harry Carey Jr., Peter Gray, Robert Quarry, DeForest Kelley, John Doucette,
Teru Shimada, Robert Hosai, Jack Maeshiro, May Takasugi, Robert Okazaki, Neyle
Morrow, Barry Coe, Reiko Hayakawa, Sandy Azeka, Samuel Fuller, Troupe Shochiku
do Teatro Kokusai, Clifford Arashiro, Fred Dale, Fuji, Kazue Ikeda, Kinuko Ann
Ito, Frank Jumagai, Robert Kino, Frank Kwanaga, Harris Matsushige, Joanna
Mitchell, Rollin Moriyama, Reiko Sato, Barbara Uchiyamada, Richard Loo.
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O iconoclasta Samuel Fuller |
Sabiamente, setores mais arejados da
crítica consideram em alta conta o cinema de Samuel Fuller. Reconhecem-no como
inovador de temas e, de longe, um dos mais talentosos diretores surgidos no
cinema estadunidense do pós Segunda Guerra Mundial. Louvam-lhe especialmente a
capacidade de se locomover com agilidade por universos complicados, estranhos,
tortuosos, amorais e ambíguos, captados numa visão aguçada e nuançada de mundo.
Em Fuller não há espaço às encenações glamourosas, muito menos ao maniqueísmo
redutor e simplista tão caro ao cinema dos Estados Unidos em geral. Por esse motivo,
provavelmente, ele nunca contou com a generosidade dos grandes orçamentos. Sua
filmografia — excluindo os roteiros que escreveu para outros cineastas e
trabalhos para a TV — soma 22 títulos, todos enquadrados no padrão “B” de
produção.
Dentre as
realizações que conheço de Samuel Fuller, tenho afeição especial pelo duro e
seco drama bélico Mortos que caminham (Merrill’s marauders, 1961), que
tanto me marcou na infância. Fortes impressões também foram deixadas por Eu
matei Jesse James (I shot Jesse James, 1949), Baionetas
caladas (Fixed bayonets!, 1951), A dama de preto (Park
row, 1952), Anjo do mal (Pickup on South Street, 1953), Dragões
da violência (Forty guns, 1957), Proibido!
(Verboten!,
1959), Paixões que alucinam (Shock corridor, 1963), O
beijo amargo (The naked kiss, 1964); mais
recentemente, Agonia e glória (The Big Red One, 1980) e Cão
branco (White dog, 1982). Casa de bambu não está entre os
trabalhos mais festejados do cineasta. Mesmo assim, não deixa de ser atraente —
ao menos segundo os meus critérios — pelo fato de ter Robert Ryan entre os
intérpretes. Esse ator de semblante duro, expressão cética, cansada e amarga,
nunca foi devidamente apreciado. No entanto, sempre me fascinou. Suas atuações
despretensiosas emprestam credibilidade e sobriedade aos personagens. Dão a
impressão de que habitam a humanidade real e podem ser encontrados e
reconhecidos nas ruas de qualquer lugar.
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Acima e abaixo: Robert Ryan interpreta Sandy Dawson em Casa de bambu |
A vida de Samuel
Fuller se desdobra nas atividades de jornalista, romancista, roteirista,
soldado e realizador cinematográfico. A primeira experiência profissional
acontece no New York Journal, onde entra em 1924 na função de boy. Quatro anos depois se especializa
na crônica policial. Nesse campo desenvolve amplo contato com o submundo
durante os anos da Grande Depressão. Adquire aí a base para se tornar autor de
novelas e contos criminais a partir de 1931[1].
São trabalhos obscuros que, não obstante, fornecem inspiração a muitos
roteiristas de Hollywood. Publica o primeiro romance, Burn, baby, burn, em
1935, logo seguido de Test tuby baby (1936), Make
up and kiss (1936) e The dark page (1944) — premiado como
Melhor Romance Psicológico pela crítica literária estadunidense[2].
The
Big Red One — divisão de infantaria à qual esteve incorporado durante a
Segunda Guerra Mundial — batiza o romance autobiográfico escrito no começo dos
anos 60[3].
Com esse mesmo título é levado ao cinema, em 1980, pelo próprio autor. No
Brasil, é conhecido como Agonia e glória.
Escorado na
crônica e no romance passa a escrever roteiros. O primeiro, em parceria com
Edmund Joseph, é filmado por Boris Petroff em 1936: Hats off. Outros, para
citar apenas alguns, originam Bandos de Nova York (Gangs
of the New York, 1938), de James Cruze; Confirme ou desminta (Confirm
or deny, 1941), iniciado por Fritz Lang mas creditado a Archie Mayo que
o terminou; Power of the press (1942), de Lew Landers; Apaixonados (Shockproof,
1949), de Douglas Sirk; e Escândalo (Scandal Sheet, 1952), de
Phil Karlson. Segundo consta, não aprecia nenhuma dessas transposições[4],
razão que o faz passar à direção.
Mobilizado em
1942, Fuller combate no Norte da Sicília, África, Normandia (desde o Dia D),
Bélgica, Alemanha e Tchecoslováquia, sempre na infantaria e no The
Big Red One. Recebe várias condecorações[5].
Três anos de intensa presença no front
foram sintetizados num breve comentário: “O único heroísmo que existe na guerra
é sobreviver”. Não só sobreviveu aos conflitos bélicos como ao próprio cinema,
por ele definido como “Um campo de batalha”. Mesmo situado em posição marginal
num sistema de produção que valoriza acima de tudo altos investimentos e
grandes retornos, consegue firmar o nome. Torna-se referência obrigatória para
cineastas de vanguarda como Jean-Luc Godard e Win Wenders. O primeiro o escalou
para interpretar a si próprio numa sequência de O demônio das onze horas
(Pierrot
le fou, 1965). O outro lhe confiou um papel em O amigo americano (Der
americanische freund, 1977). Todos louvam sua capacidade de consolidar carreira
e filmografia a partir do nada, da quase total carência de recursos.
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O sargento Kenner (Robert Stack) travestido de investigador Eddie Spainer em Casa de bambu |
Na obra de Samuel
Fuller não existem heróis à maneira das convenções hollywoodianas; a realidade
não é enfeitada; a condição humana não é idealizada. Seus personagens são tipos
duros, moldados no convívio com adversidades. Quase todos possuem pés na
marginalidade. São, em geral, bandidos, prostitutas, soldados, policiais;
sobreviventes. Não veem com muita clareza os códigos e valores que legitimam as
sociedades. Exemplo disso é o Bob Ford (John Ireland) de Eu matei Jesse James James.
Ele não encontra barreiras morais para assassinar o melhor amigo e embolsar a
recompensa que possibilitará o seu casamento.
Casa de bambu, filmado no
Japão, conta uma história policial ambientada em Tóquio. Acompanha
a missão de Kenner (Stack) — sargento do exército dos Estados Unidos escalado
para desbaratar uma quadrilha formada exclusivamente por ex-combatentes
patrícios. A ação é detonada quando o grupo ataca um comboio militar, guardado por
força conjunta de soldados americanos e japoneses. Todos são mortos,
estrangulados com correntes — marca registrada dos criminosos liderados por
Sandy Dawson (Ryan), cuja norma é não socorrer colegas feridos mas eliminá-los.
A organização se iguala à Máfia. Adiante, ataca um carro blindado. Webber (Elliot),
gravemente ferido na operação e sem tempo para ser abatido pelos companheiros,
cai prisioneiro. Falece no hospital, mas fornece informações à polícia. Com ele
é encontrado o retrato da esposa japonesa, Mariko Nygoia (Yamaguchi). O passo
seguinte é a chegada a Tóquio do Sargento Kenner. Sua identidade é camuflada
sob o nome de Eddie Spainer — ex-combatente, atualmente preso nos Estados
Unidos, e companheiro de farda de Weber. Dessa forma Kenner se apresenta a Mariko,
em busca de informações.
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Robert Stack no papel do Sargento Kenner ou Eddie Spainer |
Os primeiros
minutos de Casa de bambu encenam uma ação rápida, contada de forma concisa
e consistente, exemplo da economia narrativa do diretor. Kenner não espera para
agir. Põe-se em operação tão logo desembarca. As informações de Mariko não
contêm novidades. Ela desconhecia as atividades do marido. Diante disso, o
investigador, à sua maneira determinada, força o encontro com os bandidos. Conta
com a ajuda inicialmente reticente da viúva. Ambos acabam apaixonados. Para a
época — quando ainda se ouviam os ecos da Segunda Guerra — o relacionamento
amoroso entre um americano e uma japonesa revela não só um tremendo avanço como
assinala a visão não preconceituosa do diretor.
Fosse Casa
de bambu um filme comum, daria para dizer que Kenner é o herói da
história. Mas a ação e a aparência de Robert Stack não dão razão a isso. Seu
personagem é desprovido de brilho. Seu rosto é fosco, impenetrável. Sua
caracterização inicial reforça essa impressão. Tem a barba por fazer, veste
roupas sujas e amarrotadas, assemelha-se a um vagabundo maltrapilho. Tanto que
a primeira reação de Sandy Dawson, tão logo Kenner se infiltra no bando, é lhe adiantar
dinheiro para comprar roupas “decentes” e tomar banho. No fosse pelo perfil
duro e impassível, o personagem poderia ser equiparado ao John Doo da comédia Adorável
vagabundo (Meet John Doe, 1941), de Frank Capra.
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Sandy Dawson (Robert Ryan), à direita, coordena as ações do grupo "mafioso" que comanda no Japão |
O roteiro de
Harry Kleiner é calcado em Rua sem nome (Street with no mane, 1949)
de William Keighley[6]. Neste
filme, um investigador do FBI (Richard Widmark) se infiltra numa quadrilha com
o objetivo de desbaratá-la.
Casa de Bambu tem narrativa
seca, objetiva e direta. Fuller não perde tempo com firulas. Preocupa-se apenas
em contar a história. O que se vê é parecido a um conto cinematográfico dotado
da dinâmica de uma reportagem de jornal, igual a tantas que o diretor
provavelmente escreveu em seus tempos de cronista policial. Infelizmente, o
resultado final foi lapidado pela 20th. Century-Fox à revelia do diretor, de
modo a abrandar a agressividade do estilo narrativo e, consequentemente,
despindo o filme de toda a carga emocional que poderia conter. Tal deficiência
resulta paradoxal à realização de um cineasta que também definiu o cinema como
“Emoção”; o resto não passando de "Conversa”.
Sequências consideradas exemplares pela
crítica, a francesa principalmente, tiveram impacto consideravelmente reduzido
com a intervenção saneadora da 20th Century-Fox: o assassinato de Griff
(Mitchell) no banheiro e os instantes finais, quando Sandy, perseguido no
parque de diversões, é acuado numa variante de roda gigante e abatido por
Kenner. O epílogo, da maneira como foi filmado é totalmente anticlimático.
Alguns consideram-no digno de Hitchcock — cineasta da admiração de Fuller
justamente pela capacidade de contar uma história a partir do nada. Porém,
nesse caso a comparação não procede.
Em um ponto da
história Fuller não teve como se aprofundar, devido aos limites impostos pela
moral hollywoodiana. Trata-se da atração de Sandy Dawson por Kenner. Há aí
nítida conotação homossexual. Ou será que dá para aceitar a explicação do
personagem de Ryan, alegando não ter matado Kenner quando este foi ferido
porque se tratava do seu primeiro trabalho?
Merece destaque a
fotografia em tons pastéis de Joseph MacDonald, utilizando a cor pela primeira
vez.
Fuller,
praticamente irreconhecível, faz ponta como policial japonês.
Casa de bambu é o único
trabalho de Robert Ryan sob as ordens do diretor. Não obstante é um dos atores
preferidos de Fuller. O outro é Lee Marvin.
Direção de fotografia (Cinemascope,
Color DeLuxe): Joseph MacDonald. Direção de arte: Lyle R. Wheeler,
Addison Hehr. Decoração: Walter M.
Scott, Stuart A. Reiss. Efeitos
fotográficos especiais: Ray Kellogg. Montagem:
James B. Clark. Direção de guarda-roupa:
Charles Le Maire. Roteiro: Harry
Kleiner. Diálogos adicionais: Samuel
Fuller. Música: Leigh Harline. Direção musical: Lionel Newman. Letra da canção título: Jack Brooks
(não creditado). Orquestração:
Edward B. Powell. Assistente de direção:
David Silver. Maquiagem: Ben Nye. Penteados: Helen Turpin. Som: John D. Stack, Harry M. Leonard. Mixagem
de som: Stereo. Consultor de cor: Leonard Doss. Gerente de unidade de produção (não
creditado): Saul Wurtzel. Contrarregra
(não creditado): Don B. Greenwood. Efeitos
especiais (não creditados): Fred Etcheverry. Suporte à câmera (não creditado): Frank Cory. Assistente de câmera (não creditado): Hugh Crawford. Eletricista-chefe (não creditado): Les
Everson. Operador de câmera (não
creditado): Frank V. Phillips. Guarda-roupa
(não creditado): Dick James. Supervisão
de coral (não creditado): Ken Darby. Continuidade
(não creditada): Teresa Brachetto. Publicidade
(não creditada): John Campbell. Companhia
de distribuição da trilha musical: Intrada. Serviços de mixagem de som: Western Electric Recording em quatro
canais estereofônicos. Tempo de
exibição: 102 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1983; revisto e atualizado
em 1991)