O reputado ator George C. Scott iniciou
carreira em 1951, na televisão. Após oito anos, ganhou a primeira oportunidade
no cinema ao representar George Grubb em A árvore dos enforcados (The
hanging tree), de Delmer Daves, protagonizado por Gary Cooper. Daí em
diante, como coadjuvante, marcou presença em filmes importantes: Anatomia
de um crime (Anatomy of a murder, 1959), de Otto
Preminger; Desafio à corrupção (The hustler, 1961), de Robert
Rossen; e, entre outros, Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: how I learned
to stop worrying and love the bomb, 1964), de Stanley Kubrick. Atingiu
o ponto culminante da atuação como o ousado e controverso estrategista da
Segunda Guerra Mundial General George S. Patton Jr. em Patton — rebelde ou herói?
(Patton,
1970), de Franklin J. Schaffner, pelo qual recusou o Oscar de Melhor Ator. Estreou
na direção de cinema com Fim de uma angústia (Rage,
1972). Não era propriamente um neófito na atividade. Em 1962, para o teatro,
encenou a peça General Seeger. Oito anos depois rodou o aplaudido telefilme The
Andersonville trial. Em Fim de uma angústia interpreta Dan
Logan, típico representante do indivíduo padrão estadunidense. Fazendeiro, pai
de um garoto de 12 anos, leva a vida indiferente às instituições estatais. Até
ser acintosamente enganado e manipulado pelas forças armadas na sequência de descuidado,
irresponsável e trágico teste de armas químicas. O roteiro de Philip Friedman e
Dan Kleinman é problemático e poucas oportunidades ofereceu à direção. Gerou
pouco envolvente e anticlimático thriller
de vingança. Ao menos o Scott ator compensa, de certo modo, as fragilidades do
diretor. Voltou ao métier no obscuro The
savage is loose (1974), inédito comercialmente no Brasil. A apreciação
a seguir, para Fim de uma Angústia, é de 1976.
Fim de uma angústia
Rage
Direção:
George C. Scott
Produção:
Fred Weintraub
Warner Bhroters, Getty &
Fromkess Corporation
EUA — 1972
Elenco:
George C. Scott, Richard Basehart,
Martin Sheen, Barnard Hughes, Nicolas Beauvy, John Dierkes, William Jordan,
Paul Stevens, Kenneth Tobey, Robert Walden, Stephen Young, Dabbs Greer, Bette
Henritze, Lou Frizzell,Ed Lauter, Terry Wilson, Fielding Greaves, Anna Aries,
Phoebe Noel (não creditado).
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De olho no visor, George C. Scott na direção de Fim de uma angústia |
Ao contrário de
afirmações apressadas da crônica cinematográfica nacional, George C. Scott não
estreou na direção com Fim de angústia. Em 1962, para o
teatro, o renomado ator encenou General Seeger. Oito anos após, para
a televisão, rodou o aplaudido The Andersonville Trial — sobre os
notórios crimes de guerra praticados por ordem do comandante sulista Henry Wirz
em campo de prisioneiros da Georgia.
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George C. Scott interpreta o fazendeiro Dan Logan |
Fim de uma
angústia parte de caso real ocorrido em 1968 nas proximidades de
Salt Lake City, Utah: um veículo do exército lançou — acidentalmente, talvez — um
recipiente de gás tóxico letal sobre um rebanho de ovelhas. Cerca de seis mil
animais pereceram. A situação se agravaria se os ventos tomassem o sentido dos centros
urbanos. O Pentágono tentou encobrir o caso. Porém, as provas levantadas pela imprensa
eram contundentes. A credibilidade do alto comando das forças armadas dos EUA foi
seriamente abalada junto à opinião pública. Se não houve dolo intencional, ocorreu
clara negligência no “teste” interno de arma química destinada à Guerra do
Vietnã.
O roteiro de
Philip Friedman e Dan Kleinman apresenta o triste e fatal caso do fazendeiro e
ovinocultor Dan Logan (Scott), do Wyoming. Acampou com o filho Chris (Beauvy),
de 12 anos, junto ao rebanho em área distante da sede da propriedade. À noite,
um helicóptero militar liberou gases sobre a área. Ao amanhecer, Logan se
depara com vários animais mortos e o filho convulsionado, quase inconsciente. Às
pressas, busca socorro hospitalar. O caso é grave. As causas da intoxicação são,
em princípio, desconhecidas. Aos poucos, as autoridades militares em conluio
com as civis bloqueiam a divulgação de informações. Tudo é encoberto pelo
mistério. O médico particular dos Logan, generalista Roy Caldwell (Basehart), é
afastado e substituído pelo Major Dr. Holliford (Sheen). O Departamento de
Saúde Pública, aos cuidados do Dr. Spencer (Hughes), é posto sob intervenção e
impedido de se manifestar à imprensa. Logo Dan Logan é internado, sedado e mantido
em intensa observação. Não recebe informações sobre a morte do filho e do pouco
tempo de vida que tem.
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Dan Logan (George C. Scott) e o filho Chris (Nicolas Beauvy) |
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O começo da angústia: Dan Logan (George C. Scott) socorre o filho Chris (Nicolas Beauvy) |
Aproximados 50
minutos da exibição são despendidos com a lenta abordagem dos procedimentos
hospitalares e das maquinações burocráticas. A intenção dos roteiristas é clara,
apesar de parcamente desenvolvida: apresentar Dan Logan como uma representação
do homem comum que procura levar a vida da melhor maneira. De uma hora para
outra é apanhado nas malhas das insondáveis circunstâncias armadas pelos poderes
constituídos. Estes fazem o que bem entendem para preservar a reputação. Nessa
conta, os cidadãos são tratados como meros objetos.
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Dan Logan (George C. Scott) é atendido pelo Dr. Holliford (Martin Sheen) enquanto Chris (Nicolas Beauvy) é levado para exames. |
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Dr. Holliford (Martin Sheen) e Dan Logan (George C. Scott) |
Isolado,
entorpecido e vigiado, Logan demora a tomar pé da situação. Graças a um
descuido, descobre o destino do filho: foi retalhado em autopsia não autorizada
e abandonado no necrotério. Enfurecido, arregimenta as forças que lhe restam e
escapa. Busca o Dr. Spencer. É informado sobre os efeitos do gás venenoso MX3 e
de que está à beira da morte. Arma-se até os dentes e parte para as instalações
militares que processaram a substância. Pretende uma vingança de grandes
proporções. Ainda restam cerca de 30 minutos à história, que ganha desenvolvimento
problemático. Afinal, a compreensível cólera do protagonista será direcionada sobre
quem? Aos poderosos formuladores de políticas e tomadores de decisões? Estes são
inatingíveis. Sobram meros cumpridores de ordens: oficiais de baixo escalão,
serviçais e até animais de estimação. Porém, a irracionalidade da paixão e a morte
iminente não lhe permitem avançar na operação. O exército também se prepara para
imobilizá-lo.
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Dan Logan (George C. Scott) confronta o Dr. Spencer (Barnard Hughes) |
Pelo que se vê, Fim
de uma angústia foi estruturado para ser apenas um thriller de vingança pouco satisfatório. A história, triste e
sombria, não engrena. O roteiro raso não oferece boas possibilidades ao
diretor. George C. Scott, na parte que lhe coube atrás das câmeras, rendeu-se
totalmente às limitações do script.
Na segunda parte, entregue às maquinações institucionais e rotinas
hospitalares, a narrativa é rotineira e pouco envolvente. Os últimos momentos,
reservados propriamente à fúria abarcada pelo título original, são
anticlimáticos. Do início ao fim é um filme arrastado, sem imaginação, com atos
rotineiros e uma edição que não empolga o espectador — nem mesmo quando a ação
mais visceral, captada a uma impessoal distância, assume a primazia. Sequer há
um bom trabalho de câmera. A objetiva, estática e contemplativa, empaca o
dinamismo narrativo. Já o protagonista é simplesmente transformado em bólido
furioso — compreensível, diante da devastadora perda sofrida —, pronto a dar vazão
a procedimentos em tudo irracionais e de resultados injustificáveis.
George C. Scott
se revela bom diretor de atores e artesão apto na captação de imagens
atmosféricas e de preenchimento, atributos estes geralmente deixados sob a
responsabilidade de assistentes de direção ou equipes de segunda unidade. Como
ator, fornece atuação de primeira classe, discreta e intensa. O retrato do
personagem amargurado, solitário e vilmente enganado pelas instituições que
deveriam merecer a confiança dos cidadãos é plenamente convincente. Por isso, a
rasa história de vingança contada em Fim de uma angústia só ganharia em
profundidade se questões políticas acerca das relações entre indivíduos e
instituições merecessem maior destaque na narrativa.
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Dan Logan (George C. Scott) se arma para a vingança |
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O exército posicionado para imobilizar Dan Logan (George C. Scott) |
De bom ainda há a
belíssima direção de fotografia a cargo de Fred J. Koenekamp, a funcional
trilha musical de Lalo Schifrin e a atuação — apesar de curta — de Nicholas
Beauvy. O jovem, também em 1972 — um pouco antes de O fim de uma angústia — marcou
presença como Dan, um dos garotos arregimentados por Will Andersen (John Wayne)
em Os
cowboys (The cowboys, 1972), de Mark Rydell.
Roteiro: Philip Friedman, Dan Kleinman. Direção de fotografia (cores): Fred J.
Koenekamp. Música: Lalo Schifrin. Montagem: Michael Kahn. Mixagem da trilha musical: Dan Wallin
(não creditado). Produção associada:
Philip Friedman, Dan Kleinman. Produção
executiva: Leon Fromkess, J. Ronald Getty. Produção de elenco: Steven R. Stevens. Direção de arte: Frank Paul Sylos. Decoração: Leonard A. Mazzola. Figurinos:
Donald D. Dawson. Maquiagem: Del
Acevedo. Gerente de produção: Francisco
Day. Segundos assistentes de direção:
William R. Lasky, Joseph E. Rickards. Assistente
de direção: Peter R. Scoppa. Contrarregra:
Dennis J. Parrish. Edição de som:
Robert A. Biggart, Pat Somerset. Mixagem
de som: Dennis L. Maitland. Combinação
de sons: Francis J. Scheid. Som:
Richard Weaver (não creditado). Efeitos
especiais: Joe Lombardi, Paul J. Lombardi. Coordenação de dublês: Bill Hickman. Dublês: Jerry Brutsche (não creditado). Operador de câmera: Charles G. Arnold. Produção de elenco extra: Frank Kennedy (não creditado). Gerente de locações: Jack N. Young (não
creditado). Edição musical: Eugene
Marks. Coordenação da produção:
Herbert G. Luft. Publicidade: Bob
Frederick (não creditado). Marcação de
cena para George C. Scott: Pat Zurica (não creditado). Tempo de exibição: 100 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1976)