A adaptação para o cinema da novela He ran all the way, de
Sam Ross, era, originalmente, projeto a ser desenvolvido por George Stevens em 1947.
Infelizmente, a falência da companhia independente Liberty Films após o
fracasso de público e crítica de A felicidade não se compra (It’s
a wonderful life, 1946), de Frank Capra, impôs adiamento de quatro
anos. Somente saiu do papel sob a chancela da minúscula Roberts Pictures e direção do blacklisted John Berry. O
roteiro de Dalton Trumbo e Hugo Buttler, também perseguidos pelo macarthismo,
resultou num dos mais compactos e densos exemplares do cinema noir. Contém a última atuação de John
Garfield, outra vítima do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas.
Intensamente pressionado a confessar filiação ao Partido Comunista e a delatar
membros e simpatizantes da agremiação, o ator resistiu até falecer por ataque
cardíaco em 1952 com apenas 39 anos. Exemplarmente filmado, Por
amor também se mata (He ran all the way, 1951) apresenta
em narrativa poderosa e envolvente os últimos dias de vida do paranoico e
antissocial assaltante Nick Robey (Garfield). O título praticamente inaugura o
pequeno filão cinematográfico sobre famílias alheias ao perigo externo e
rendidas em seus próprios lares por assassinos e psicopatas. Garfield tem
desempenho frenético no papel do descontrolado assaltante que toma a família
Dobbs como refém ao longo de dois tensos dias. Contracena com os não menos
admiráveis Wallace Ford e Shelley Winters nos respectivos papéis do pai e
marido Fred e da ambígua e carente filha Peg. A força da explanação é garantida
acima de tudo por interpretações que passam da contenção à visceralidade mais
extrema. Também há a abordagem direta imposta pelo seguro John Berry, a nervosa
pontuação musical de Franz Waxman e a iluminação do mestre da fotografia
cinematográfica James Wong Howe. Os momentos finais estão entre os mais
antológicos do noir.
Por amor também se mata
He
ran all the way
Direção:
John Berry
Produção:
Bob Roberts, John Garfield (não creditado)
Roberts Pictures Inc.
EUA — 1951
Elenco:
John Garfield, Shelley Winters, Wallace Ford, Selena
Royle, Gladys George, Norman Lloyd, Robert “Bobby” Hyatt, Clancy Cooper, Vici
Raaf, Keith Hetherington, Robert Karnes e os não creditados Jimmy Ames, Chet
Brandenburg, Ralph Brooks, Johnny Duncan, A. Cameron Grant, Mark Lowell, James
Magill, Renny McEvoy, John Morgan, William H. O'Brien, Lucile Sewall, Dale Van
Sickel.
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O diretor John Berry |
Por amor também se mata aborda essencialmente os últimos
dias da vida de um pequeno perdedor: o assaltante Nick Robey (Garfield). Criado
em lar disfuncional e achincalhado pela mãe (George) vil e omissa, cresceu à
margem das convenções sociais mais básicas. Inseguro, tenso e impulsivo, é
constantemente dominado pelo pânico decorrente das paranoias forjadas pela
solidão e personalidade desestruturada. Estas características o impedem de
confiar em si próprio e nos outros. A sequência final, da morte do personagem, é
um dos grandes momentos do cinema noir:
baleado, tenta correr para o carro de fuga ansiosamente aguardado enquanto a
câmera o enquadra quase ao rés do chão. Apenas cambaleia pela rua escura e úmida
até tombar definitivamente na sarjeta tomada pela água da chuva. É o último
papel do ator. De certa forma, Garfield encontrou no personagem intensamente
representado um equivalente real aos duros momentos enfrentados na ocasião.
Estava acossado pelo Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas do
senador Joseph McCarthy e promotor J. Parnell Thomas. A pressão inquisitorial lhe
cobrava a confissão de membro do Partido Comunista e a revelação de nomes. Resistiu
à ignomínia até sucumbir por ataque cardíaco em 21 de maio de 1952, com apenas
39 anos.
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John Garfield no papel de Nick Robey |
O diretor John Berry, também estigmatizado
pela “caça às bruxas”, tornou-se o décimo primeiro blacklisted. Antes foram indiciados os famosos “Dez de Hollywood”:
os roteiristas Alvah Bessie, Lester Cole, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson,
Samuel Ornitz, Adrian Scott, Albert Maltz, Dalton Trumbo, Herbert Biberman[1]
e o diretor Edward Dmytryk, condenados a um ano de reclusão em presídios
federais e impedidos de retornar ao trabalho. Berry conseguiu ludibriar os agentes
do FBI e fugir para Paris após terminar Por amor também se mata. Em 1950 rodou
o documentário curto The Hollywood Ten, parte de um
projeto maior de arrecadação de fundos para custear a defesa dos colegas indiciados.
Ironicamente, viu-se delatado pelo arrependido Edward Dmytryk — que assim pôde
retornar à carreira de cineasta.
Para o lançamento comercial de Por
amor também se mata, a produção teve que cumprir algumas exigências vergonhosas
do Comitê: o diretor e os roteiristas Hugo Butler (apenas suspeito de ligações
com o comunismo) e Dalton Trumbo teriam os nomes excluídos dos créditos de abertura.
O assistente de direção Emmett Emerson se tornou responsável pela realização. Butler
e Trumbo comparecem sob a falsa identidade de Guy Endore. Estranhamente, a
versão do filme que permitiu a presente apreciação comete a justiça de conceder
os créditos a Berry e Butler. Porém, o maldito Trumbo permanece oculto. Um dos
responsáveis pela tensão visual da narrativa, o diretor de fotografia James
Wong Howe, por pouco não se enredou nas teias do macarthismo.
Ao que parece, Por amor também se mata inaugura
o subgênero sobre famílias alheias ao perigo exterior e subitamente tomadas
como reféns em suas próprias casas por assassinos e personalidades disfuncionais.
Lewis Allen, três anos depois, adicionaria à temática Meu ofício é matar (Suddenly),
seguido por William Wyler com Horas de desespero (The
desperate hours, 1955) — refilmado por Michael Cimino em 1990[2].
Por amor também se mata não disfarça as origens modestas. É
produção de baixo orçamento exemplarmente filmada. A direção inspirada explorou
sabiamente o lado sombrio da personalidade disfuncional do desempregado e
pequeno marginal sem perspectivas Nick Robey. Ele tinha tudo para ser um ótimo
sujeito. A câmera participa ativamente na comunicação das sensações que o
lançam na desconfortável e viva insegurança. Esse estado é transmitido por
angulações pouco convencionais e “planos desequilibrados” que ferem os rigores
da abordagem meramente objetiva dos fatos e da alma ferida do personagem. Logo
no começo, na apresentação dos créditos, a tensão que escorre pela narrativa é
antecipada pela frenética, envolvente e emocional pontuação musical de Franz
Waxman. Cordas alternadas por percussão expressam nervosismo e respiração
descontrolada. Esclarecem as pretensões do título original: He
ran all the way/“Ele correu por todo o caminho” — e praticamente não saiu
do lugar. O que se vê é exatamente o inútil esforço de alguém vencido pelo
desespero da solidão, em luta contra os próprios temores e o mundo assustador
que o envolve. Incapaz de confiar em si mesmo, Nick é lançado pela consciência
perturbada numa guerra infrutífera e angustiante contra tudo e todos.
Nick Robey desperta envolvido em maus
presságios no dia em que é lançado numa espiral de eventos trágicos. Além do
pesadelo que o transtornou, a mãe irritadiça o obriga — sob o peso de
imprecações — a sair da cama no quarto escuro e desorganizado. A manhã está
perto de terminar. Diante das circunstâncias, acha melhor adiar a atividade
combinada com Al Molin (Lloyd): apoderar-se do dinheiro destinado ao pagamento
dos funcionários de uma transportadora. Porém, o companheiro o obriga a seguir
com o plano. O golpe, por mais simples que parecesse, era perigoso. Exigia
precisão, determinação, coragem, calma e fôlego. Armado e nervoso, Nick acerta
gravemente a cabeça do agente (Grant) responsável pelo transporte dos valores e
mata um policial (Sickel). Molin, ferido durante a troca de tiros, é preso. A
ação é rápida e vibrante. Sozinho e desesperado, o personagem representado por
John Garfield escapa pelas ruas com o produto do roubo — cerca de dez mil
dólares. Mistura-se à multidão enquanto tenta, inutilmente, permanecer calmo e
racional. Como se fosse guiado pelo imponderável, esconde o dinheiro no
vestiário de uma piscina pública à qual chegou por acaso. Tenta espairecer
entre os banhistas. Acidentalmente conhece a carente e pouco segura Peg Dobbs
(Winters). Ela se esforça para aprender a nadar. O lado prestativo e afável de
Nick se revela. O encontro — apesar dos equívocos provocados pela falta de
traquejo social e agressividade do personagem — dá a impressão de que veio a
calhar para ambos.
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Nick Robey (John Garfield) desperta em dia de maus presságios |
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Nick Robey (John Garfield) e Peg Dobbs (Shelley Winters) |
Logo Nick está na casa dos Dobbs, a
convite de Peg. Conhece o pai Fred (Ford), a mãe (Royle) e o caçula Tommy
(Hyatt). A família — afável e feliz reduto da classe trabalhadora — logo
conhece o inferno. O nervosismo, insegurança e falta de contenção verbal não
demoram a revelar o assaltante e assassino da transportadora. Para piorar, o
ferido Al Molin entregou o nome do cúmplice. Peg e os seus se tornam reféns sem
a menor condição de pedir ajuda. Nick impõe regras nem sempre claras e
objetivas na tentativa de escapar de uma situação que ele próprio produziu. A
situação é inusitada, pois gostaria de ser membro de um grupo estável e aconchegante
como os Dobbs. Jamais conheceu um lar erguido sobre as bases do afeto. Aparentemente,
gostaria de ser responsável pelo bem estar daquela gente e parece sinceramente
apaixonado por Peg. Porém, é incapaz de ser compreendido. Com a arma em punho e
temendo traições, domina a situação ao longo de dois tensos dias. A autoridade
paterna de Fred é seriamente abalada, pois se vê incapaz de zelar pela
segurança da família que construiu. Um desfecho trágico com sérias e
generalizadas consequências parece inevitável. As ambiguidades nas falas e ações
do protagonista e da reprimida Peg só aumentam as incertezas. Nick, no fundo,
poderia ser um bom rapaz não fosse a indiferença da mãe que sempre o renegou e jamais
se esforçou para educá-lo. Por sua vez Peg oscila entre o temor ao assaltante
que pode ferir seus familiares e a atração que sente por ele.
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Peg Dobbs (Shelley Winters), Nick Robey (John Garfield), Fred Dobbs (Wallace Ford) e Tommy Dobbs (Robert Hyatt) |
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Mrs. Dobbs (Selena Royle), Fred Dobbs (Wallace Ford) e Tommy Dobbs (Robert Hyatt) |
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Mrs. Dobbs (Selena Royle) e Nick Robey (John Garfield) |
Na origem, Por amor também se mata
teria direção e produção de George Stevens em 1947. Os direitos de filmagem pertenciam
à independente Liberty Film, fundada por Frank Capra ao término da Segunda
Grande Guerra e à qual também estava integrado William Wyler. O empreendimento
faliu em decorrência do fracasso de público e crítica do filme de estreia, o frankcapriano A felicidade não se compra
(It’s
a wonderful life, 1946). Diante disso, todos os projetos da companhia e
contratos firmados foram vendidos à Paramount Pictures. Por amor também se mata
renasceu pelas mãos de John Berry para a pequena Roberts Pictures. É um drama
claustrofóbico repleto de tensão, carregado de atmosfera angustiante, amparado
por bons diálogos e interpretações das mais convincentes — principalmente de
Garfield, Ford e Winters. Em muitos momentos dispensa a verbalização. Os
ângulos de câmera e a iluminação valorizadora de áreas sombreadas — aspectos
puramente cinematográficos — geram as sensações essenciais à comunicação.
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Nick Robey (John Garfield) e Peg Dobbs (Shelley Winters) |
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Nick Robey (John Garfield) |
John Garfield transmite com muita
convicção a dualidade de Nick Robey, tão ansioso por ser aceito, compreendido e
amado. Entretanto, pelas imperfeições do caráter, só consegue gerar rejeição.
Falta-lhe inclusive a capacidade de verbalizar o que sente com a devida clareza,
ao menos para explicar e justificar por que não é o tipo que gostaria de ser. É
apenas um selvagem acuado pelo medo provocado por demônios internos. Também
falta traquejo a Peg, um desafio para a interpretação contida de Shelley
Winters. Sem muita experiência de vida, é lançada abruptamente no centro de uma
situação perigosa que a divide na atração por Nick e na responsabilidade devida
à própria família acuada. Para onde penderão suas escolhas? A inconstância da
filha aumenta ainda mais as pressões sobre o frustrado Fred Dobbs, obrigado
pelas exigências sociais de seu status de marido e pai a reagir além dos
limites aos quais estava conformado. Por amor também se mata também é
valorizado por desempenhos que obrigaram os atores ao extravasamento de
possibilidades expressivas as mais viscerais. Lamentavelmente, Gladys George
teve pouco tempo em cena como a omissa e megera mãe de Nick. Tivesse a produção
maior disponibilidade de recursos, poderia haver espaço para o desenvolvimento
de algumas interessantes elaborações freudianas. Porém, se faltou algo mais em
termos de complexidade, sobrou a abordagem direta, precisa, concisa e econômica
de um tipo de cinema que há muito deixou de ser realizado.
Roteiro: Dalton Trumbo (sob a alcunha de Guy Endore), Hugo Butler, baseados
em novela de Sam Ross. Produção
associada: Paul Trivers. Música:
Franz Waxman. Direção de fotografia
(preto e branco): James Wong Howe. Supervisão
de montagem: Francis D. Lyon. Desenho
de produção: Harry Horner. Decoração:
Edward G. Boyle. Penteados: Hollis
Barnes. Maquiagem: Gustaf “Gus”
Norin. Supervisão da produção: Ben
Hersh. Assistente de direção: Emmett
Emerson. Som: Victor B. Appel, Mac
Dalgleish. Guarda-roupa: Joe King. Orquestração: Leonid Raab (não
creditado). Assistente para a produção:
Louis Brandt. Direção de diálogos: Arnold
Laven. Assistente de produção: Robert
H. Justman (não creditado). Sistema
sonoro: RCA. Tempo de exibição:
77 minutos.
(José Eugenio
Guimarães, 2016)
[2] Horas
de desespero (Desperate hours).