Pelas minhas recordações, este filme alcançou relativo
sucesso de público quando estreou nos cinemas brasileiros em meados dos anos
70. Atualmente, está riscado das lembranças gerais. É ambiciosa coprodução
entre Itália e Inglaterra: Um verão russo (Il giorno del furore/Fury/One
Russian Summer, 1973). Provavelmente, é o único trabalho para cinema de
Antonio Calenda — obscuro diretor e roteirista de teatro com algumas passagens
pela televisão. O roteiro de Edward Bond — com contribuições do realizador e
Ugo Pirro — adapta a inacabada novela Vadim do poeta, romancista,
aventureiro, provocador e hussardo Mikhail Lérmontov. É um dos grandes nomes do
romantismo literário russo. Apesar de falecido precocemente em 1841, com apenas
27 anos, deixou vasta produção literária iniciada na pré adolescência. Diante
das dificuldades de filmar na Rússia, a produção aceitou às facilidades
oferecidas pela Bulgária. Corre o ano de 1774. A déspota esclarecida
Catarina, a Grande está no poder. Os campos são dominados pela nobreza feudal
ancorada na posse de grandes domínios territoriais e sobreexploração do
trabalho servil. A vultosa revolta camponesa liderada por Iemelian Pugachev está
em curso e gera inquietação. À propriedade de Palizyn (Oliver Reed) chega o
forasteiro Vadim (John McEnery), interessado tanto no senhor como na filha
adotiva desse, Irene (Carole André). Uma história de vingança, que escapa ao
controle, está para acontecer. A realização tem muitos pontos frágeis,
principalmente no roteiro, nas opções privilegiadas pela direção e
interpretação de Oliver Reed. Claudia Cardinale tem pequena participação como
Anya, amante de Palizyn. Segue apreciação escrita em 1975.
Um verão russo
Il giorno del furore/Fury/One Russian Summer
Direção:
Antonio Calenda
Produção:
Marcello Danon
Da. Ma. Produzione (Roma), Lowndes
Productions (Londres)
Itália, Inglaterra — 1973
Elenco:
Oliver Reed, Claudia Cardinale,
John McEnery, Carole “Carol” André, Raymond “Ray” Lovelock, Giuseppe Pisegna,
Adalberto Rossetti, Paola Tedesco, Raffaele Uzzi, Zora Velcova, Sergio Doria.
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O diretor Antonio Calenda |
Esta coprodução
anglo-italiana é, até onde se sabe, a única incursão do italiano Antonio
Calenda no cinema. Tem alguma experiência na direção de minisséries para a TV,
inclusive como roteirista. Seu forte é o teatro. Isto é logo confirmado pelas
opções interpretativas concedidas aos atores, principalmente Oliver Reed.
Um verão russo é uma saga
passada em 1774 nas estepes do país dos czares sob o mandato de Catarina, a
Grande. Trata de despotismo feudal e vingança. Na impossibilidade de utilizar
os cenários naturais da Rússia, a produção contou com as facilidades da agência
estatal de cinema da Bulgária. A cor local e a topografia das locações são
originalíssimas e próprias. Somente com muito esforço passam, aos olhos do
espectador com alguma noção de geografia, pelas planícies e campinas nas quais
transcorre a ação adaptada do inacabado livro Vadim, escrito em 1834
pelo poeta e romancista Mikhail Lérmontov.
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Oliver Reed no papel de Palizyn |
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John McEnery como Vadim |
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Carole André faz Irene |
Desconheço o
texto original. Assim, não posso considerar objetivamente as opções do
roteirista — o expert Edward Bond, responsável pelo brilhante script que
permitiu a Nicolas Roeg a realização do inquietante e único A
longa caminhada (Walkabout, 1971). Porém, transparece
um problema: a adaptação passa a impressão de ser um híbrido dos mais
inconsistentes. É dramaticamente frágil. Em alguns momentos faz clara opção
pelo exagero e sensacionalismo. Provavelmente pelo fato de receber acréscimos bem
diferenciados, tanto do diretor como de Ugo Pirro — autor dos primorosos guiões
de O
jardim dos Finzi Contini (Il giardino dei Finzi Contini,
1970), de Vittorio De Sica, e Investigação sobre um cidadão acima de
qualquer suspeita (Indagine su un cittadino al di sopra di ogni
sospetto, 1970), de Elio Petri. Sobre as origens dessas falhas só se
pode conjecturar, infelizmente.
Um verão russo se vale da
escala épica permitida por cenários abertos e majestosos, figurinos suntuosos
bem representativos e interpretações repletas de arroubos, neste caso a de
Oliver Reed — geralmente além do tom convenientemente desejável. O ator tem
esse problema. No entanto, pode-se, provavelmente, creditar à direção teatral
de Antonio Calenda a permissão para ultrapassar o sinal, principalmente nos
momentos dramaticamente carregados ou dominados pelo histrionismo.
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Palizyn (Oliver Reed), Natalya (Zora Velcova) e Vadim (John McEnery) |
Em 1774 os
senhores feudais russos enfrentam a grande rebelião camponesa liderada por
Iemelian Pugachev. Sobre esse instável pano de fundo o estranho Vadim (McEnery)
consegue trabalho na propriedade do caprichoso boiardo Palizyn (Reed). Será, ao
menos nas aparências, um servo privilegiado — com poderes para se passar por
capataz da pobre massa camponesa que sustenta o fausto senhorial. Porém,
imediatamente é obrigado a reconhecer a condição subalterna ao ser literalmente
identificado a um cão fiel. Os ditames e vontades do patrão são cega e diligentemente
atendidos por Vadim, por mais aviltantes que sejam. Entretanto, observa o amo
atentamente. Procura conhecê-lo em seus pontos fracos. Enquanto isso, o dia a
dia do feudo é conduzido de modo a impedir dissabores com os trabalhadores. Pequenas
benesses são distribuídas. Mas também há as punições emanadas de um código
implacável, à base de açoites e vis encarceramentos.
O ponto fraco de
Palizyn é a jovem e virginal filha adotiva Irene (André), por quem está
apaixonado e disposto a repudiar a esposa Natalya (Velcova). No auge de um
conflito fundiário, a enteada, quando era bebê, teve a família massacrada por
ordem do despótico padrasto. Dela se aproxima Vadim. Revela que são irmãos e
está para desencadear uma vingança. Aguarda o momento oportuno para agir.
Apóia-o um contingente rebelde oculto na floresta.
Palizyn (Oliver Reed) e Yuri (Raymond Lovelock) |
Os eventos se
precipitam quando Irene recusa as investidas amorosas do padrasto e se revela apaixonada
pelo herdeiro Yuri (Lovelock), chegado recentemente de Moscou. Contrariado,
Palizyn sai em caçada e ao encontro da amante Anya (Cardinale) — com quem tem
Vazla (Pisegna), filho limítrofe. Com a ausência do senhor e as más decisões de
Natalya, Vadim instiga os servos à insurreição. Um banho de sangue generalizado
atinge a nobreza e destrói a propriedade. Yuri foge com Irene, em busca do pai.
Infelizmente, a sorte está lançada. Nos desdobramentos da tragédia, Vadim perde
o controle das operações. É obrigado a encarar a inutilidade e o vazio da vingança
que tanto planejara. Tudo lhe escapa entre os dedos.
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Anya, interpretada por Claudia Cardinale |
Os melhores
momentos são reservados ao final, com as trágicas e funestas consequências do
assédio de Palizyn a Irene e do conflito entre pai e filho. A Vadim, frustrado
pela perda de tudo que conferia sentido à existência, só restam os lamentos do
fracasso.
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Acima e abaixo: Anya (Claudia Cardinale) e Palizyn (Oliver Reed) |
O tema musical de
Riz Ortolani e a direção de fotografia de Alfio Contini são corriqueiros.
Felizmente, no tocante aos hábitos e costumes, as recriações conferem com as
leituras de tratados históricos. Oliver Reed e John McEnery crescem no epílogo.
A lamentar que um personagem como Vadim, diante da missão a que se propôs, tenha
pouco espaço para se mostrar manipulador na enganosa relação firmada com
Palizyn.
Direção de fotografia (Todd-AO 35,
Eastmancolor): Alfio Contini. Roteiro: Edward Bond, Antonio Calenda,
Ugo Pirro, com base na novela Vadim, de Mikhail Lérmontov. Música: Riz Ortolani. Desenho de produção: Franco Nonnis. Decoração: Dario Micheli. Figurinos: Danilo Donati. Montagem: Sergio Montanari. Edição de som: Ian Crafford, Derrick “Derek”
Leather. Assistente de direção: Nello
Vanin. Assistente da direção de som:
Brian Sinclair. Operador de boom: John
Stevenson. Assistentes de câmera:
Alpinolo Diamanti, Giuseppe Izzo, Tarcisio Diamanti, Ettore Duranti, Maurizio
Lucchini, Mario Maggi. Eletricista-chefe:
Domizio Ercolani. Eletricistas: Antonio
Leurini, Antio Ventimiglia. Operador de
câmera: Sandro Tamborra. Guarda-roupa
feminino: Diane Jones. Continuidade:
Jane Buck. Secretaria da produção: Jennie
Cornwall-Walker. Direção de diálogos:
Robert Rietty. Apresentação: Harry
Saltzman. Agradecimentos da produção a:
Balkan Airlines, Autoridades cinematográficas da Bulgária. Publicação musical: CAM. Serviços
de pós produção sonora: Fono Roma. Empresa
de confecção de vestuários: Sartoria Farani S.t.L. Sistema de mixagem de som: Westrex Recording. Tempo de exibição: 118 minutos.
(José Eugenio Guimarães, 1975)