Provavelmente, A noite do demônio (Night
of the demon, 1957) é o melhor momento do subgênero passado à história
com o nome de "terror de sugestão". Evidentemente, é um dos pontos
altos da carreira do atualmente esquecido cineasta Jacques Tourneur. Nem a
nefasta intromissão do produtor executivo Hal E. Chester, durante a
pós-produção, amorteceu-lhe o impacto, apesar de contrariar cabalmente um dos
princípios fundamentais do diretor: jamais explicitar o sobrenatural. O
espectador que desse conta disso, apoiado na imaginação e nos pavores
ancestrais absorvidos durante a formação, depois de submetido a simples e
refinados efeitos de câmera, distorções fotográficas ou a pequenos arranjos de
laboratório. A realização devolve o diretor ao campo do "terror de
sugestão", do qual é fundador e principal artífice, 15 anos após a
colaboração com a unidade de produção de Val Lewton na RKO Radio, quando trouxe
à luz os clássicos Sangue de pantera (Cat people, 1942), A
morta-viva (I walked with a zombie, 1943) e O homem-leopardo (The
leopard man, 1943). O produto em apreciação não trata simplesmente do embate
entre BEM e MAL. Nada de ingênuo maniqueísmo, inclusive por causa da
personalidade matizada do suposto representante do maligno. A oposição básica põe
em pugna a ciência — com sua propensão, não raro autoritária, de ser o único conhecimento
válido — e os saberes ocultos que, supostamente, envolvem o sobrenatural. Muitos
cinéfilos puristas certamente torcerão o nariz para A noite do demônio.
Alegarão que é bobagem de um gênero menor. Ah! Bom seria se todos os filmes
resultassem de tão fina carpintaria, com tamanho apuro artesanal, capaz de
mexer com os sentidos a partir de uma concepção essencialmente cinematográfica.
Além do mais, influenciou enormemente a cultura pop a partir da década de 70.
Por fim, um aviso ao espectador distraído: prefira sempre o original inglês Night
of the demon à edição distribuída nos Estados Unidos sob o título de Curse
of the demon.

A noite do demônio
Night
of the demon
Direção:
Jacques Tourneur
Produção:
Frank Bevis
Columbia Pictures Corporation, Sabre Film Production
Inglaterra — 1957
Elenco:
Dana Andrews, Peggy Cummins, Niall MacGinnis, Maurice
Denham, Athene Seyler , Liam Redmond,
Reginald Beckwith, Ewan Roberts, Peter Elliott, Rosamund Greenwood, Brian Wilde,
Richard Leech, Lloyd Lamble, Peter Hobbes, Charles Lloyd-Pack), Janet Barrow,
Percy Herbert, Lynn Tracy e os não creditados Clare Asher, Michelle Aslanoff,
Ballard Berkeley, Shay Gorman, John Harvey, Irene Hollis, Walter Horsbrugh, Yvette
Hosler, Robert Howell, Anthony John, Michael Peake, Anthony Richmond, Leonard
Sharp, Robert Brooks Turner, The Blake Twins.
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O diretor Jacques Tourneur, criador e principal artífice do "terror de sugestão" |
Quem nunca viu A noite do demônio não
sabe o que perde, ainda mais se é fã do inteligente e atrativo subgênero do "terror
de sugestão" cujo mestre-fundador e principal artífice é o diretor Jacques
Tourneur. Tem lugar entre os títulos mais referenciados no amplo universo da
cultura pop. A canção Science fiction, double feature, de
Richard O'Brien e Richard Hartley, incluída na trilha musical do cult The rocky horror picture show
(1975), de Jim Sharman, menciona passagem alusiva à participação do ator Dana
Andrews, intérprete do protagonista professor John Holden: "Dana Andrews said
Prunes/Gave him the runes/And passing them used lots of skills".
Em 1985 a compositora e cantora Kate Bush lança mão da apavorante constatação
sobre a fatal aproximação do "coisa ruim" nos versos de Hounds
of love: "It's in the trees/Its coming". Joe Dante —
conhecedor do trabalho de Tourneur —, por meio da roteirista Dana Olsen, trouxe
A
noite do demônio à baila em Meus vizinhos são um terror (The
burbs, 1988): os amigos Ray (Tom Hanks) e Art Weingartner (Rick Ducommun)
discutem a possibilidade de uma família ser adoradora de Satã. Parte da
argumentação é fundamentada no livro The theory and practice of demonology.
O nome do autor aparece em destaque: Julian Karswell, personagem interpretado
por Niall MacGinnis no filme de Tourneur.
O cineasta não se exercitava no
fantástico desde 1943, quando finalizou O homem-leopardo (The
leopard man), terceiro exemplar do "terror de sugestão"
realizado para a unidade de produção de Val Lewton na RKO Radio. Os anteriores,
Sangue
de pantera (Cat people) e A morta-viva (I walked with a zombie),
vieram à luz, respectivamente, em 1942 e 1943. São filmes que não ousam explicitar
o sobrenatural. Principalmente pela inexistência de meios, inclusive
financeiros, para recriá-lo com alguma credibilidade, sem os riscos do ridículo.
Para substituí-lo, Tourneur apelou aos efeitos de câmera e luz, às sensações de
vertigem e alucinação, à ilusão de distorção da realidade, tudo unido a sons
aterradores, artificiais e naturais. O acompanhamento musical adequado, angulações
pouco comuns e interregnos silenciosos geravam o pavor e, logicamente, o
suspense, com criatividade e economia de recursos. Convocavam-se apenas os elementos
essencialmente cinematográficos. Foi um tempo no qual o não revelado assustava
mais, exatamente porque as formas não eram vistas, apenas sugeridas e imaginadas.
Diferente de hoje, quando monstros, demônios, fantasmas e dragões ganham
contornos tão nítidos e "reais", a ponto de se incorporarem à mais
mundana e banal das paisagens.
A noite do demônio devolveu o cineasta ao sobrenatural,
15 anos depois de O homem-leopardo. Havia terminado o eficaz e coeso A
maleta fatídica (Nightfall, 1956), criminal com
tonalidades noir. Ted Richmond,
produtor desse filme, encontrava-se em Londres e por telefone despertou o
interesse do cineasta para uma proposta do britânico produtor executivo Hal E. Chester.
Este o queria na direção de um roteiro de Charles Bennett
em parceria com o próprio Hal E. Chester e o não creditado Cyril Endfield.
A peça toma por base a história Casting the runes, de Montague R.
James. Ambienta a ação na Inglaterra, próximo à localidade de Durrington Walls,
cercanias de Salisbury, onde se ergue o monumento de Stonehenge. O tempo da
ação, originalmente os primeiros anos do século XX, foi deslocado para a
contemporaneidade da produção. Mais que interessado, Tourneur também convenceu
Dana Andrews — com quem trabalhou em Paixão selvagem (Canyon
passage, 1946) — a aceitar o papel do protagonista John Holden — opção
mais que acertada devido aos contornos duros do rosto do ator, talhados para a
discreta incredulidade e a indiferença.
A noite do demônio é filme redondo. Praticamente
perfeito, é um dos principais exemplares do gênero. Desenvolve ímpar atmosfera
mística, enfatiza elementos psicológicos e as imagens evocam a presença do
sobrenatural em quase todo o desenrolar. Não fosse a nefasta intervenção de Hal
E. Chester na fase da pós-produção seria muito melhor. Contrariando os princípios
do diretor, inseriu, com fantoche e espelhos, um demônio de limitada
maleabilidade, revelado em meio à fumaça, à noite, e que avança resoluto em
direção ao público, até ser mostrado com o rosto em primeiro plano nos momentos
cruciais do começo e fim da história. Se pretendia ampliar a sensação de pavor,
o efeito conseguido foi o contrário. A enorme criatura se revelou falsa demais.
Em vez de gerar incômodo e pavor, produziu perplexidade e sepultou o mistério
em torno da presença maléfica. Reduziu o impacto de sequências que seriam de excelência.
Há quem afirme que Tourneur concordou com a improvisação. Não é o que demonstra
na filmografia comentada em Présence du cinéma: "O filme é
interessante, exceto pela aparência da criatura inserida depois que deixei
Londres. Eu havia aprendido desde Cat people que o horror deve ser
sugerido, nunca mostrado diretamente. Filmes de horror não são obras para cirurgiões,
que devem expor tudo nos mínimos detalhes, sem deixar espaços para o trabalho
da imaginação e do inconsciente".
Até nos cartazes originais de divulgação o rosto do capeta aparece com
considerável — e pouco convincente — destaque.
Por imposição dos distribuidores
estadunidenses, Hal E. Chester submeterá Jacques Tourneur e A
noite do demônio a outra sabotagem. A realização foi lançada na terra
do Tio Sam com outro nome: Curse of the demon. Como se não
bastasse, foi remontada e perdeu cerca de 13 dos 95 minutos originais.
Portanto, ao espectador distraído fica o aviso: prefira, sempre, Night
of the demon a Curse of the demon.
O começo, em tudo assustador,
aproveita inclusive a abertura com a imagem-símbolo da Columbia Pictures. Já aí
se ouvem os graves acordes do soturno tema musical de Clifton Parker. Prolongam-se
pela exposição, de início em plano de conjunto de Stonehenge em tomada diurna e
sob céu lúgubre. Logo o monumento é detalhadamente destacado nas partes que o
formam, geralmente captadas em contre-plongée. As
elevadas e gigantescas pedras — parecendo maiores do que são —, a música e a
composição fotográfica preparam o clima e a atmosfera da história. A sensação
de pavor é ampliada pela voz do narrador Shay Gorman: "Está escrito desde o
início dos tempos, até mesmo sobre estas antigas pedras. Que diabólicas
criaturas sobrenaturais existem em um mundo de trevas. E também se diz que o
homem que utilizar os poderes mágicos dos antigos símbolos rúnicos poderá
invocar esses poderes das trevas, os demônios do inferno. Através das eras, os
homens têm temido e venerado essas criaturas. A prática da bruxaria, dos cultos
do Mal, tem resistido e ainda existe nos nossos dias". A seguir, com
Stonehenge ainda presente, correm os créditos. Os caracteres em formas
flamejantes aludem ao fantasmagórico e sombrio.
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O filme começa com este plano de Stonehenge |
A história é simples, mas não se
rende ao fácil apelo maniqueísta. Não trata de uma banal oposição entre BEM e
MAL. Inclusive pelo motivo de o representante do MAL não se apresentar de todo
ruim. Apesar dos pesares, é um tipo simpático e educado; não exala natureza
perversa, mesmo pactuado com o maligno. Evidentemente, BEM e MAL estão presentes,
mas o principal embate ocorre entre o chamado mundo das luzes — representado
pelo conhecimento científico em sua vocação, às vezes autoritária, de ser o
único saber válido —, e o mundo assombrado que oculta determinadas e supostas
dimensões da realidade evidente.
Terminados os créditos, começa
propriamente a história, em clima tenso. Um homem visivelmente assustado conduz
o carro a toda velocidade por região erma, à noite. É o Professor Harrington
(Denham). Dirige-se à suntuosa propriedade do receptivo, aparentemente gentil e
resoluto Dr. Karswell (MacGinnis). O visitante pede ao proprietário, encarecidamente,
que interrompa determinado processo. Inquirido sobre um pergaminho, informa
apenas que foi levado por corrente de ar ao encontro do fogo e incinerado.
Diante dessa informação, Karswell se apressa em despachar Harrington
enquanto afirma que tomará as providências necessárias. São quase 22 horas.
Aparentando alívio, o professor faz o caminho de volta. Em casa, sofre pavorosa
morte por eletrocussão, acuado pelo demônio em pessoa, que o despedaça.
Chega à Inglaterra o renomado
psicólogo estadunidense professor John Holden (Andrews). Veio a convite de
Harrignton, para um colóquio científico com objetivos de desmascarar a pretensa
autoridade de Karswell no conhecimento e manipulação do mundo das trevas.
Choca-se com a notícia da morte do colega. Mesmo assim, levará adiante o
evento. Em nome da ciência, julga oportunas as ocasiões para desmascarar
autoproclamados bruxos, feiticeiros, adivinhos, curandeiros, magos etc. Terá o
auxílio dos também cientistas Mark O'Brien (Redmond), Kumar (Elliott) e Lloyd
Williamson (Roberts). Estes, mais comedidos, reconhecem as limitações da ciência
no esforço de desvendamento do mundo. Porém, Holden sequer admite tal
possibilidade. É um fundamentalista do saber científico. Envolve-se
afetivamente com a prudente Joanna (Cummins), sobrinha de Harrington. A jovem,
também cientista, crê na existência de dimensões além do mundo visível e
palpável e que nem tudo deve ser conhecido. Tenta convencer o psicólogo
estadunidense a interromper o que viera fazer, inutilmente.
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Dana Andrews interpreta o cético e arrogante cientista professor John Holden |
Karswell se aborrece com a
insistência de Holden em desmascará-lo publicamente. Não gostaria,
sinceramente, que a coisa chegasse a esse ponto. Pretendia ficar em paz,
simplesmente, com seus seguidores e no conforto da rica propriedade de Lufford
Hall. É o filhinho gentil e querido da mamãe, a visivelmente incomodada Mrs.
Karswell (Seyler). Ela sabe da existência de algo misterioso e errado na vida
faustosa que leva às expensas do rebento, um senhor de meia idade dúbio e
encantador. Diverte crianças, sabe ser agradável e prestativo. Só não admite
ser ameaçado, ainda mais no tocante ao domínio das forças que controla. Com
Holden irredutível, transfere-lhe furtivamente um misterioso pergaminho grafado
com caracteres rúnicos. É a senha de uma maldição, basicamente uma nota de
despacho do corpo e da alma. Significa: o professor está com os dias contados.
De fato, entre a incredulidade e a zombaria o insigne personagem é informado da
própria morte, dentro de três dias e pontualmente às 22 horas. O demônio o
buscará, pessoalmente. As condições do transporte, segundo se sabe pelo acontecido
a Harrington, serão dolorosas.
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Karswell: um representante do maligno com personalidade matizada em soberbo desempenho de Niall MacGinnis |
Autossuficiente, Holden faz pouco
caso da advertência. Porém, imediatamente as certezas que julgava possuir sobre
realidade começam lentamente a contradizê-lo. Tudo parece se dissipar, torna-se
turvo, movediço, dissolvente e enganoso. Tourneur, com apoio do diretor de
fotografia e câmera Edward Scaife e da mais fina e simples carpintaria em
efeitos especiais obtidos por manipulação da imagem pela objetiva ou nos
laboratórios da pós-produção, começa a balançar as certezas do psicólogo e a
segurar a atenção do espectador. Na verdade, A noite do demônio soube
capitalizar sobre medos ancestrais e, na época das filmagens, de temores decorrentes
de um evento real, que mexeu com o imaginário britânico: os processos por
assassinatos acontecidos em 1957, supostamente motivados por bruxaria e
consubstanciados nos notórios casos de Quinton e Hagley Wood.
Sons inexplicáveis, inscrições que
desaparecem, corredores escuros do nada ampliados... A própria natureza, tão
rotineira, deixa de ser previsível. Sem mais nem menos, um vendaval escurece o
céu; o gato assustado se transforma em feroz e faminta pantera; copas de
árvores se rebelam. Nada é mais assustador que uma caminhada pelo bosque, à
noite. Holden é perseguido por criatura invisível, que marca o chão com gigantescas
e aquecidas pegadas; depois, por algo parecido a uma bola de fogo celestial que
o põe a correr, apavorado. Algo tenebroso está para acontecer, mas as
explicações fogem totalmente ao conhecimento do seguro cientista. Joanna está
visivelmente preocupada. Mrs. Karswell também, a ponto de convocar sessão
espírita com o fim de desfazer a maldição. O personagem de Andrews, apesar de
abalado, ridiculariza o auxílio. O fatídico pergaminho parece ganhar vida
própria e procura voluntariamente o fogo. Seria o sinal de que tudo está
consumado. A polícia é alertada, porém que podem os investigadores diante do
imponderável que não deixa evidências dignas de credibilidade?
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As oposições em A noite do demônio: Karswell (Niall MacGinnis) pelo sobrenatural e John Holden (Dana Andrews) em nome da ciência |
Uma simples visita à casa de
agricultores se revela experiência desconfortável. É recebido com desconfiança
pelos Hobart, que o observam à segura distância, em posição de firme e resoluta
prontidão. Procura-os com o objetivo de conseguir permissão para submeter um membro
da família, Rand (Wilde), internado em hospício, a uma sessão de hipnose. O
coitado enlouqueceu depois de se revelar ameaçador para o personagem vivido por
Niall MacGinnis. Recebeu um pergaminho amaldiçoado, mas passou-o para o pobre
Harrington. A matriarca Mrs. Hobart (Barrow) concorda com o pedido, pois todos
devem saber o que viu e sentiu o filho. A família segue a Ordem do Verdadeiro
Crente, chefiada por Karswell. Ao perceber que o psicólogo está na posse do pergaminho,
a ríspida senhora ordena que todos se afastem e avisa: "Ele foi escolhido;
que nenhum braço se levante para defendê-lo!". São momentos apavorantes e
tensos, obtidos apenas com iluminação, enquadramento adequado do cenário,
vestuário dos Hobart e posicionamento convincente dos atores na cena. A esta
altura, Holden já não tem certeza de coisa alguma, em absoluto. Apenas
tenta manter as aparências e a segurança acerca da situação. A marcação musical
de Clifton Parker o acompanha a Stonehenge, onde confere a exatidão dos
caracteres do pergaminho com as inscrições nas pedras do monumento. Cresce a
sensação de que, a esta altura, está com a sorte definitivamente lançada, a não
ser que reverta o rumo dos eventos. Desvendar a mente torturada de Rand Hobart
parece ser a única esperança de salvação.
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John Holden (Dana Andrews) em Stonehenge: abalado em todas as convicções científicas |
Tudo se inverte! O evento de
afirmação da ciência contra o sobrenatural deixa de ser oportunidade para
desmascarar o Dr. Karswell para se transformar, discretamente, em corrida pela
salvação de Holden. O psicólogo continua a demonstrar impassividade. Porém, por
tudo que ouviu e viu, sabe-se: está desesperado e abalado em suas convicções.
Rand Hobart, conduzido do hospício ao auditório do colóquio, é retirado da
catatonia e hipnotizado. Revela como enlouqueceu por artes de Karswell, provisório
tributo a pagar por ter escapado da maldição do pergaminho ao repassá-lo outro.
É o que Holden desejava saber. Infelizmente, nada termina bem para o
enlouquecido homem. Dominado por força misteriosa e irrecusável, escapa aos
controles e dispara pelos corredores para se lançar de uma janela. Toda a
sequência, magistralmente concebida, é um dos mais perfeitos equilíbrios de
luzes, sombras e ângulos de câmera.
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Rand Hobart (Brian Wilde) e John Holden (Dana Andrews) |
O melhor em tensão, com jogo de gato
e rato, fica mesmo para o bem burilado final, na estação ferroviária de
Southampton. A hora fatal está próxima. Receoso, Karswell se apodera de Joanna
e tenta sair de cena. Holden o alcança na cabine do trem. Liberta a refém e
tenta, de todas as formas, devolver o pergaminho ao responsável pela maldição. Escorregadio,
o personagem interpretado por Niall MacGinnis evita qualquer aproximação,
inclusive de seus pertences. Aflito com o avançar da hora, esquece a viagem e
procura desembarcar. Desafortunadamente, distrai-se com o casaco, que lhe é
devolvido com algo mais nos bolsos. Pronto! A encomenda foi substituída. A nota
de entrega está na posse do desesperado Karswell e nada detém o comparecimento
do maligno a um encontro combinado.
Novamente a mais compacta tensão é
encenada com o auxílio da precisa edição de Michael Gordon, que se vale do
movimento da estação ferroviária, do fluir das composições por trilhos e
plataformas e da desesperada corrida de Karswell em busca do pergaminho arrancado
de suas mãos pelo vento. O símbolo amaldiçoado avança rente ao chão, entre as
linhas do trem, em busca da chama que o consumirá. Então, nada mais poderá ser
feito. Karswell está tristemente só, afastado da estação iluminada. Rente a ele
passam trens, emitindo característicos brados e lançando fumaça. É tarde
demais! Não há como escapar. A criatura surge e avança ao compasso do tráfego
ferroviário. Apesar do elevado som dos metais atritados, é possível ouvir o grito
lancinante do pobre e indefeso homem, dilacerado na noite sombria pelas garras do
demônio.
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John Holden (Dana Andrews) e Joanna Harrington (Peggy Cummins) |
Todos correm em busca da fonte dos pavorosos
clamores. Apenas um corpo esfacelado e disforme é encontrado, certamente de
alguém arrastado por um trem, segundo um policial. O apelo de Joanna contém a
curiosidade do aliviado John Holden, que pretendia chegar aos restos mortais. Em
verdade, ninguém testemunhou o pavoroso acontecimento. A morte horrenda de Karswell
foi encoberta por sombras e sons de maquinários que impulsionam o devassado mundo
moderno, produtos da ciência que nega ao fantástico qualquer possibilidade de
existência. Mesmo assim, contido em seu ímpeto perscrutador pela sensata
Joanna, Holden retorna para ele e pronuncia sábias palavras: "Você tem razão.
Talvez seja melhor não saber o que aconteceu".
Nada é complicado em A
noite do demônio. É um filme pulsante sob a carpintaria da mais pura
simplicidade artesanal. Guarda o segredo do que pode ser obtido via manipulação
criativa de orçamentos apertados que resultam em atmosferas perturbadoras e de espessa
tensão. Tudo depende do contraste entre luzes e sombras, conjugado a efeitos básicos,
essencialmente cinematográficos, somados aos elementos de um cenário
arquitetonicamente concebido para gerar incerteza e assombro. Todo o resto decorre
da credibilidade e entrega dos atores, com seus movimentos, falas e expressões
previamente concebidas por um roteiro afinado, à espera apenas de um artesão
competente para convertê-lo em imagens vivas, que aparentam respirar por conta
própria. Por isso, os elementos assombrados parecem autênticos e pulsantes. O
mundo em dissolução que fere a segurança científica de Holden não perturba
somente o personagem, mas também o inquieto e atento espectador. Nenhum efeito
especial foi concebido sem o auxílio da câmera e do laboratório de tratamento
das imagens. São recursos que destacam as atuações e tornam críveis climas e
atmosferas.
Só há algo a lamentar: o demônio
explicitado. De início, seria concebido pelo mago do stop motion, Ray Harryhausen. Ainda bem que não se envolveu com a
realização, mesmo sabendo todos que A noite do demônio teria muito a
ganhar com a colaboração. De qualquer forma, seria serviço prestado contra a
pretensão original do diretor. O demônio terminou concebido pelo desenhista de
produção Ken Adam e
ganhou forma pelas mãos dos experts em
efeitos especiais George Blackwell
e Wally Veevers.
Mas se o diabo foi explicitado, ainda
que em poucos momentos, sobram os climas permitidos pela pontuação musical de
Clifton Parker — no que me concerne, uma das mais assustadoras em filmes do
gênero — e a direção de fotografia de Ted Scaife — carregada de bem vinda
inspiração expressionista.
No elenco, os destaques vão para Dana
Andrews, Niall MacGinnis e Janet Barrow, esta em curta participação como a
assustadora matriarca da infeliz família Hobart. Andrews entrou de sola na
atmosfera assombrada de A noite do demônio. Seu John Holden é
a imagem bem acabada de um cético, tão petulante e sinceramente descrente nas
questões relativas aos saberes estranhos ao campo da ciência. O personagem
corresponde adequadamente às figuras de cientistas vulgarizados pela literatura
em geral. Mesmo
quando suas firmes convicções começam a desabar, mantém-se impoluto e evita
fazer caras e bocas, pois há toda uma autoestima a ser preservada. Andrews
ainda marcaria presença em outro filme de Jacques Tourneur, inédito nos cinemas
brasileiros: The fearmakers (1958), ambientado em meio à paranoia da "caça
às bruxas" do macarthismo.
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Karswell (Niall MacGinnis), John Holden (Dana Andrews) e Joanna Harrington (Peggy Cummins) |
No entanto, o grande desempenho é do
carismático Niall MacGinnis, um senhor talento com discreta e extensa carreira,
normalmente como coadjuvante para o cinema e a TV, de 1935 a 1978. Teve
pouquíssimas oportunidades de brilhar, mas deixou marca em Hamlet (Hamlet,
1948), de Laurence Olivier; Na estrada do céu (No
highway, 1951), de Henry Koster; Sede de viver (Lust for life, 1956), de
Vincente Minnelli; Invasão de bárbaros (The invaders/49th parallel, 1941), de
Michael Powell; Uma cruz à beira do abismo (The nun's story, 1959),
de Fred Zinnemann; e, entre outros, A espada de um bravo (Kidnapped,
1959), de Robert Stevenson. É um sorrateiro ladrão de cenas com maneiras
discretas, gentis, suaves, envolventes e bem-humoradas. É, provavelmente, o
mais ambíguo dos satanistas cinematográficos.
Há claramente uma elogiosa e afetiva alusão
a Orson Welles e seu Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941) quando
Holden adentra o sótão da residência invadida de Karswell. Em meio aos muitos
itens aí amontoados, percebe-se um pequeno trenó de madeira. Após observar
atentamente o recinto, é sobre esse brinquedo abandonado que o psicólogo
repousa a mão com a mais carinhosa das atenções.
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Foto promocional: Dana Andrews e Peggy Cummins, intérpretes do professor John Holden e Joanna Harrington |
Roteiro: Charles Bennett, Hal E. Chester, Cy Endfield (não
creditado), com base na história Casting the runes de Montague R.
James. Produção executiva: Hal E.
Chester. Música original: Clifton
Parker. Direção de fotografia (preto e
branco): Edward Scaife. Montagem:
Michael Gordon. Produção de elenco: Robert
Lennard. Desenho de produção: Ken
Adam. Pentados: Betty Lee. Gerente de produção: R. L. M. Davidson.
Assistente de direção: Basil Keys. Assistente de direção de arte: Peter
Glazier. Gravação de som: Arthur
Bradburn. Edição de combinação de som:
Charles Crafford. Efeitos especiais:
George Blackwell, Wally Veevers, Bryan Langley (não creditado). Efeitos especiais fotográficos: S. D.
Onions. Dublê: Jack Cooper (não
creditado). Direção musical: Muir
Mathieson. Coordenação de transportes:
Eddie Frewin (não creditado). Continuidade:
Pamela Gayler. Estúdio de mixagem de
som: RCA Sound Recording. Tempo de
exibição: 95 minutos.
(José Eugenio
Guimarães, 2016)